sábado, 30 de outubro de 2010

VISITA A MAUÉS, A TERRA DO GUARANÁ


O município de Maués fica a 367 quilômetros de Manaus, no Médio Amazonas, entre os Rios Madeira e Tapajós, conhecida nacionalmente como “A Terra do Guaraná”, o nome é em homenagem a nação Maué (tupi = Papagaio curioso e falante), o turismo é muito forte naquela região, em decorrência de suas lindas praias e da realização da “Festa do Guaraná” e do “Festival de Verão”.

Faz alguns anos, fui convidado pelo meu amigo Benedito SonSon, um legítimo caboclo de Maués, para conhecer a Festa do Guaraná, um grande evento que ocorre sempre no final do mês de Novembro. Marcamos sair de Manaus numa sexta-feira à noite, num Barco Regional (de madeira), no Rodoway (porto flutuante, feito pelos ingleses). O meu cicerone não deu o ar da graça, viajei sozinho, sem beira nem eira.

O barco estava lotado, o único local que eu encontrei para “esticar a baladeira” foi em frente a um pequeno “Boteco”, até aí tudo bem, mas, o movimento era intenso e ainda resolveram montar uma caixa de som amplificada bem no meu lado -, não deu para ficar na Rede de dormir, o jeito foi enrolá-la numa viga do barco.

Fui dar um tempo no Boteco - toma uma aqui, outra acolá, o tempo passa, todo mundo fica falando alto, rapidinho se faz amizades – conheci um sujeito por nome de “Gondinho”, natural de Maués, fazia anos que ele não ia a sua terrinha, fui apresentado ao seu filho, o “Coroinha”, um jovem católico, apostólico e romano, além de duas Beldades, colegas de trabalho do Gondinho; fiz amizade também com um cara que era Padeiro (dono de duas padarias) em Manaus e mais quatro “Pinguços” da melhor qualidade.

Lá pelas tantas, o Padeiro fez a seguinte declaração: - Fiz a maior merda! Amanhã será o meu aniversário -passei a tarde toda tomando umas e outras no Bar dos Cornos, senti a maior saudade da minha terra Maués, entrei no barco com a roupa do corpo, não avisei nada para a minha família, vai ter a maior feijoada lá em casa, como é que eu vou explicar essa minha loucura! Procurei consolar o camarada: - Agora não vai dá para consertar, estamos no meio da maior floresta do mundo, a única solução será você ligar lá de Maués para a tua família em Manaus e pegar o primeiro avião!

A viagem estava transcorrendo numa boa, muito Forró Brega, com as Beldades mostrando aquele visual, o Gondinho contando piadas e o Coroinha enchendo o saco, falando só de religião – lá pelas tantas, resolvi dormir, quando cheguei no meu lugar, os Pinguços estavam jogando dominó bem embaixo da minha rede, tive que aguentar um bom bocado, aquela zoada de pedras na mesa, além daqueles comentários: - Até que enfim tu jogaste a carroça de sena! – Gato, não, papai! - Capote! Tu fechaste o meu jogo, Anta! Por aí vai. Uma hora depois, dei uma bicuda na mesa e mandei todo mundo para aquele lugar! Ufa, consegui, finalmente, dormir!

Seis da manhã em ponto, os Pinguços ficaram me azucrinando: - Rocha, Rocha, acorda, acorda, vamos tomar o café da manhã! Pulei da rede, um dos caras foi logo me dando um copo de cerveja, o café para eles, para mim, não! Mesmo assim, dei uma golada e uma vomitada em seguida! Tô louco, meu!

Fazia uma manhã de Sol, deu para notar o quanto a natureza é bela, o Rio Maués-Açu é muito bonito, melhor ainda, foi ver as Beldades de “fio dental” – a galera se reuniu novamente no boteco, haja suco de cevada; lá pelas dez da manhã, o Padeiro mandou ver: - Até chegar em Maués tudo será por minha conta, vamos comemorar o meu aniversário, macacada! Ai foi graça, papai! Nesta altura do campeonato, o Padeiro já tinha esquecido a sua mulher, dos filhos e dos convidados, não estava mais nem aí para a feijoada de Manaus!


Chegamos às onze e meia da manhã, o barco parou ao lado da Praia da Ponta da Maresia, nesta época do ano é o “point”, com areias brancas, água cristalina, com 500 metros de extensão, palcos armados para shows e gente até o Tucupi! A primeira missão era “forrar” o bucho, fomos para uma Peixaria, o dono era amigo do peito do Gondinho - ao chegarmos, a festa foi total, fomos encaminhados para o quintal, onde existia uma grande mesa de madeira, deu para acomodar toda a galera – o pedido foi feito pelo Padeiro: - Quatro Tucunarés parrudos, refrigerantes para as Beldades e um camburão de cervejas para os Pinguços & Cia! A conta foi paga por ele, pois, além de fujão e empresário, era o aniversariante do dia.

Fiquei observando um curumim, filho da cozinheira, ela fez um prato de três andares e colocou duas cabeças de Tucunaré, o moleque comeu tudo e ainda pediu bis – muito diferente dos meus filhos quando eram pequenos, a mulher tinha que fazer “aviãozinho” para eles comerem.

Um senhor se aproximou e puxou conversa comigo, ele era uma pessoa simples, com a voz pousada, um típico interiorano -, perguntou aonde eu iria ficar, falei que ia pro hotel ou pra casa da prima do Gondinho – acho que ele foi com a minha cara, pois fez o seguinte convite: - Se você quiser pode ficar lá na minha fazenda! Fiquei surpreso, o velho era fazendeiro, depois fiquei sabendo que o cara era um dos mais ricos de Maués! Agradeci ao convite, pois queria ficar com a galera.


Deixamos a nossa bagagem no restaurante e fomos para a Praia da Antártica, considerada a mais famosa e movimentada da cidade, muito arborizada, de areias brancas e águas límpidas, possui o mais lindo pôr-do-sol do Brasil. Lembrei-me do meu amigo Lúcio Bahia, ele passou uma temporada em Maués e compôs uma bela canção chamada “Beira de Rio”, a letra é mais ou menos assim: "Como é bom morar na praia, no lugar que se imagina, viver, numa praia, na beira do rio, me dar arrepios, saber que a sua cabeça, não está nesse lugar, na beira do rio, canta passarinhos, na beira do rio, olha o Sol se pondo, aonde ele se esconde, do outro lado da praia, do lugar que se imagina, oi, oi, oi, Maués".

Voltamos ao restaurante, pegamos as nossas coisas e rumamos para a casa da prima do Gondinho, chegando lá, fomos bem recepcionados -, serviram um jantar primoroso, um guisado de Paca. O que mais me chamou a atenção foi o hábito que eles têm de ficar o tempo todo tomando Guaraná em Pó, ralado na língua do Pirarucu. Segundo os estudiosos, esse saudável hábito, aliado a dieta amazônica, com exercícios físicos e noites bem dormidas – é a chave para alcançar a longevidade, os nativos de Maués alcançam a maior vida longa do país.


A prima do Gondinho fez a gentileza de passar a minha roupa, pois iria assistir a encenação da Lenda do Guaraná -, ela me falou que no domingo os índios Saterê-Mauê viriam para a cidade, para fazerem trocas e receber donativos, doei as roupas para ela entregar aos índios.

Sai com o Coroinha para dar um rolé pela cidade, o cara me levou direto para a Igreja, tive de assisti a missa todinha, depois dei um drible nele, o doido só falava em religião, a minha praia era outra, queria beber e ver a mulherada.

Voltei altas horas da madrugada, não consegui atar a minha rede, dormi foi no chão. Fui acordado pelas Beldades, estavam me convidando para voltar para Manaus, elas conseguiram um barco que estava saindo as oito da manhã, acredito que eu ainda estava bêbado, pois fui na onda delas – os meus amigos imploraram para eu ficar, mesmo assim, embarquei de volta para Manaus.

Na saída, lembrei-me de um episódio acontecido muito anos atrás, quando um padre foi expulso da cidade, no embarque ele fez a seguinte maldição: - Maués, mau és, mau foste, mau serás! Cruz credo, ainda bem que não vingou a maldição, pois, Maués é uma cidade bela, boa, agradável, de um povo feliz e hospitaleiro.

Estou com saudade de Maués – está chegando o mês de novembro, com ele virá a Festa do Guaraná, irei passar dois dias por lá. Oi, oi, oi, Maués!

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