sábado, 23 de outubro de 2010

O VIOLÃO DO ROCHINHA, O ÚLTIMO DOS MOICANOS


Passei dezessete anos da minha vida, ajudando o meu saudoso pai, no nobre oficio de fazer instrumentos de cordas, dez deles, foram dedicados a fazer o meu próprio violão, sonho não concretizado, infelizmente.

Eu Fazia apenas o básico, depois, o meu pai cuidava do cavalete, braço e escala, o meu violão ficava uma beleza: todo boleado, com a lateral e fundo de macacaúba, tampo de pinho e braço de cedro – ficava numa alegria total, afinal, era o meu violão, mas, durava muito pouco, o meu velho vendia para o primeiro cliente que aparecia.

Todo ano era assim, fui forçado a desisti de ter o meu próprio violão -, num belo dia, peguei um todo quebrado, colei, lixei e envernizei – o velho fez um enxerto no braço, foi colocado de um “Di Giorgio” – quando ficou pronto, levei para a minha casa, finalmente, consegui o meu próprio violão.

Por incrível que pareça, este violão fez história, ele foi o único que ficou como lembrança do Luthier Rochinha - permanece lá a assinatura do meu velho e a data de 1967, portanto, hoje com 43 anos de fabricação. É uma relíquia.

Vou contar um pouco da minha história, na função de auxiliar de Luthier:

Nasci na década de cinquenta, na Santa Casa de Misericórdia, em Manaus, fui levado do hospital direto para uma Oficina de fabricação de Violões, no local funcionava, também, a nossa casa – costumo falar que nasci e me criei cheirando serragens. Morávamos num Flutuante (casa sustentada por duas grandes toras de madeiras), no Igarapé de Manaus. Neste local, aprendi a engatinhar e a andar e, desde bebê, aprendi, também, o oficio de fazer violões, sob a batuta do meu pai Rochinha.

As técnicas de fabricação de instrumentos de cordas foram adquiridas, pelo meu genitor, através do um senhor conhecido por Nascimento, proprietário de uma pequena oficina de violões, situada nos porões da Casa Alba, na Rua dos Barés, centro antigo de Manaus – era conhecida como “Bandolim Manauense”; por sua vez, este senhor, adquiriu os conhecimentos de um grande mestre português, morador daquela área, no inicio do século passado.

Com o desmonte da Cidade Flutuante, no final da década de sessenta, fomos morar numa casa alugada e, a oficina foi transferida para os porões da mansão dos Bringel, na esquina da Rua Igarapé de Manaus com a Rua Huascar de Figueiredo. Neste local, passei dezessete anos da minha vida ajudando o meu pai, no santo oficio de carpinteiro/moveleiro/artesão, pois além dos violões, cavaquinhos e bandolins, fazíamos portas, janelas, aduelas, mesas, cadeiras, tamboretes, etc.

Naquela época, não era utilizada a palavra “luthier”, a profissão do meu pai era conhecido como “artesão”, pois tudo era rudimentar – não tínhamos nenhuma máquina possante, somente uma pequena serra elétrica, e, bastantes ferramentas manuais – o resto, era somente muita criatividade e bastante suor no rosto.

A minha função era de auxiliar, ou seja, o meu trabalho era pesado - tinha que ir buscar “bucho de Tambaqui, no Mercado Municipal Adolpho Lisboa, para fazermos a nossa cola (era excelente para colar madeiras); serrava as peças de Macacaúba (árvore do macaco, em tupi) para a parte do fundo do violão – “eitá madeira dura, sô!”- Fiz muitos exercícios físicos - serrando, plainando, envernizando e colando, peguei até uma “caixa” sem precisar ir a nenhuma Academia de Musculação.

O meu pai falava para os amigos que os seus filhos não tinham a vocação para o oficio, na realidade, ele não queria que abraçássemos a sua bela profissão e, sonhavam que um dia os filhos fossem “doutores” – a minha rotina sempre foi trabalhar durante a manhã e estudar à tarde, não existia folgas, e, eram muito raras a horas de lazer, algumas vezes eu fugia para brincar com a molecada do Igarapé de Manaus, mas “peia” era sempre certa na volta.

Hoje, ainda lembro com muita saudade da minha fase de criança e adolescência, além do meu trabalho de auxiliar de Luthier – tive oportunidade de conhecer muitos cantores, músicos, amantes de uma boa música, compositores, artistas, jornalistas, poetas e até doutores – eles se reuniam nos finais de semana na oficina do papai para cantar e tocar os instrumentos do meu velho. Em decorrência disso, adoro frequentar onde os “Regionais de Manaus” se apresentam – são músicos e cantores que nos brindam com a sua arte, nos bares Caldeira, Loura, Gestina, Walter e Jangadeiro.

Algumas pessoas ao perguntarem por que não levei em frente a bela profissão do papai, confesso que fico bastante angustiado. Aliás, estou pesando seriamente no assunto – para começar, irei conversar com o premiadíssimo luthier Rubens Gomes, da Escola de Lutheria da Amazônia - OELA, para receber algumas orientações sobre a abertura de uma nova oficina de violões; a escola forma uma gama muito grande de profissionais todo o ano – a minha ideia é reunir os meus irmãos, um é Contador, o outro é vendedor nato e, eu sou Administrador; levantar recursos junto a Agência de Fomento do Estado do Amazonas; fazer convênios com o INPA, na área de madeiras; descobrir os fornecedores de madeiras certificadas, com o selo verde e, por aí vai - quem sabe, poderemos ressurgir das cinzas uma nova oficina de violões – o que vocês acham do nome “Di Rocha”, para homenagear o meu pai - Está de bom tamanho? Acho que já está na hora de mudar a minha função de Auxiliar - para Fabricante de Violões! Sonhar não custa nada! 

Enquanto esse sonho não é realizado, o último exemplar de violão construído pelo meu saudoso pai, fica guardado a sete chaves, afinal, ele é o "Último dos Moicanos"! É isso ai.

Foto: Marco Gomes
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