segunda-feira, 1 de março de 2010

MINHA INFÂNCIA NO IGARAPÉ DE MANAUS


Ao passar pela ponte da minha infância, a Ponte Romana I, na Avenida Sete de Setembro, vi os trabalhadores do Prosamim (Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus) trabalhando na finalização do Parque Manaus, lembrei daquela famosa música do Chico da Silva “sonho de criança é crescer, ganhar o mundo, depois dormir, num sono mais profundo...”, num passe de mágica, viajei ao passado, lembrei dos meus vizinhos do lado do Igarapé de Manaus: Mal Feito a Martelo, Helio, Soraya, Solon, Artur, Artuzinho, Judico, Zé Roberto, Sabá, Diva, Norberto, Zé Carlos, Neuza, Adena, Oscar, Diquinha, Márcia, Rosa, Pátria, Neno, Wanda, Nego Sarto, Zé Inácio, Hilário, Rubinho, Gadelha, os lado do lado de cima eram: Rogério, Goiaba, Wangler, Sargento, Totonho, Aluisio, Tico, Beto, Nego, João Bringel, Pingo, Gurgel, Dural, Triunfo, Norma, e, mais uma duas dezenas de outros que não me recordo dos nomes, mas as fisionomias ficaram marcadas para sempre; senti saudade dos pulos da ponte, dos banhos de rio, os nossos pais não permitiam, mas eu e os meus irmãos colocávamos o nosso calção num arbusto qualquer, tomávamos banho pelado, certa vez, um engraçadinho levou o meu calção, deixei anoitecer e corri pelo meio da rua, peladinho da silva, passei o maior vexame, foi gozação total, dei o troco, fiz a mesma coisa com outro moleque; acordávamos às cinco da manhã, deixávamos a Leiteira na porta da nossa casa e, corríamos para pegar Manga Rosa, no terreno do Hospital da Beneficente Portuguesa, certa vez, ao voltar, encontramos um gato lambendo parte do leite derramado, aquilo seria um motivo para uma boa peia, a solução foi colocar água para completar o litro de leite, apesar de ficar fraco e com pelos do felídeo, durante o café, com exceção da mamãe e do papai, ninguém quis saber do leite, tomamos o café puro, os velhos desconfiaram, não teve jeito, a peia comeu no centro; as brigas de rua eram “normais”, existiam muitas rixas com o pessoal da Rua Ipixuna e Major Gabriel, usávamos somente os braços e as pernas, nada de arma de fogo ou branca, cada um ficava no seu quadrado, entrar no território do inimigo nem pensar, quem ousasse, apanharia na certa, certa vez, fomos convidado para jogar no Campo do Bodozal, pertencia ao pessoal da Major, foi uma cilada, apanhei sem pena e nem dó, marquei um por um, o tempo passou, mas quem apanha não esquece, dei o troco na maioria dos meus agressores; existiam dois Circos na rua, um pertencia ao Sarto, conhecido por Nego Mau, apesar de ser circo de brincadeira, era tudo bem organizado, tinha bilheteria, arquibancada, trapézios e palhaços, fomos “contratados” para fazer acrobacias, ficamos conhecidos como “Os Irmãos Borracha”, acabou a temporada e o patrão não pagou o nosso cachê, depois de trinta anos, fizemos o Nego Mau pagar um jantar e uma grade de cervejas para o Neno, Rocha, Zezinho e o Henrique, o outro circo pertencia ao Aluisio, fui “trabalhar” para ele, certa vez, estava no trapézio de cabeça para baixo, o Nego Mau mandou um mau elemento me acertar, o cara pegou uma baladeira com uma bolinha, acertou bem no meu “ovo esquerdo”, cai de cabeça no chão, acho que com o baque na cachola fiquei tantã até hoje; a nossa criação foi muito rígida, mas moleque não tem jeito, sempre que os velhos davam bobeira eu fugia para brincar na rua, gostava de nadar, jogar bola, curtir as brincadeiras de papagaio de papel, jogar pião e gangapé, subir em mangueiras, pular da ponte, morcegar a Carroça do Hilário, dentre outras, pelas as minhas peraltices, acho que pegava uma peia todo dia, pior que além dos meus pais tinha também a vovó paterna, uma cearense braba, qualquer coisa errada era motivo para pegar uns bolos na mão, certa vez, ela colocou em cima de uma Cristaleira alguns ovos azuis, de uma galinha pedrês, subimos para ver, a cristaleira veio abaixo, quebrando a nossa cara e um monte de utensilios domesticos de crisal e porcelana, levei surra mais de um ano, mas nos amávamos a nossa vovó Lidia. Acordei, voltei para o século XXI, tudo acabou, restaram poucos vizinhos que teimaram em ficar no lugar, o nosso Igarapé de Manaus foi aterrado, todas as casas da sua margem foram retiradas, estão transformando o local num centro de convivência para os jovens, com bastante quadras de futebol de salão, ciclovias, praças de alimentação e auditórios; apesar de toda a descaracterização do local, continua sendo o lugar mais querido da minha infância! É isso.
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