terça-feira, 20 de maio de 2014

VIZINHOS ENGRAÇADOS


Quem teve a felicidade de morar em uma cidade pequena, onde quase todo mundo se conhecia, fica guardado na memória aqueles vizinhos marcados com as suas características pitorescas – no meu caso particular, tive o privilégio de usufruir de uma Manaus ainda pacata e, de nascer e morar, na Rua Igarapé de Manaus, onde vira e mexe lembro dos meus vizinhos, principalmente daqueles mais engraçados.

MAL FEITO A MARTELO – Santo Deus, como pode alguém colocar um apelido desses numa criatura! Mas, assim foi e, assim ficou para o todo sempre. Naquele tempo não existia esse tal de “bullyng” – mas, o cara nasceu mais feio do que um processo de pobre e, era chamado assim por toda a extensão da rua. Ele era meio penso, com a cabeça um tanto esquisita, com um pezão daqueles, magrelo e vara pau. Depois de longos anos, o encontrei na rua e, fez questão de falar comigo – Ai, Rochinha, tudo bem? Respondi: Tudo bem, Mal, Mal...! Fiquei um pouco desconcertado, pois apesar de sermos amigos de infância, nunca soube o seu nome verdadeiro e, não achei nada legal chamá-lo pela alcunha. Ele respondeu: - E o Mal Feito a Martelo, porra, não lembra mais? Lembro sim, Mal Feito a Martelo! Respondi bem alto e sem nenhuma vergonha!

CASAL VINTE – Hélio e Glória, um casal elegante, bonito e remediado. Eram unha e carne. Todo santo dia, a sua mulher o acompanhava ao trabalho e também ia buscá-lo na saída, podia chover canivete que ela sempre estava lá no batente! Ele trabalhava na Central de Ferragens – nunca faltou um dia sequer a labuta, mas, quando o relógio batia quatro horas, ele saía para tomar rapidinho meia dúzia de cerveja no Bar do Cardoso (na Praça do Hotel Amazonas), voltava quinze para as seis, antes da sua mulher chegar! No final do mês, quando pegava o “boró”, inventava uma cobrança e, saia depois de uma da tarde, dizem ou não sei que, ele ia “pegar uma prima” e, voltava sempre antes da mulher chegar! Voltavam de braços dados, parando nos botecos do caminho (quando ela permitia) - fazendo todo santo dia essa via crucis até chegarem em casa. Assim foi até se aposentarem!

DONA MARIA UCHÔA – Ela era uma católica fervorosa e, tinha uma promessa que cumpria fielmente todo ano. No dia 21 de Junho, dia de São Lázaro, o Leproso (aquele que os cães lambiam as suas chagas), e que ficou conhecido como o protetor dos mendigos e dos leprosos. Pois bem, a Dona Maria fazia um grande banquete para os “vira-latas” bem no meio da rua. Colocava uma imensa e bonita toalha de mesa, diversos pratos fundos, depósitos de água e, muita comida de humano: Sopa de Carne com legumes, Carne de Panela, Bifes Acebolados e Cozidão de Carne com Ossos – com direito a Sobremesas: Bolos, Mingaus e Pudins. A cachorrada “batia com força”, com direito a “repeteco”. A molecada que passava um “Rafael Danado”, ficava com água na boca, mas, não tinha jeito: a comida era servida somente para os cachorros, com direito a uma briga por um osso bem carnudo! Era o dia da desforra dos caninos, eles comiam do bom e do melhor, tudo pago pela Dona Maria Uchoa, porém, durante o ano todo viviam que nem o São Lázaro, comendo apenas migalhas!

SÊO ARTHUR – Tinha um boteco em que vendia também secos e molhados. Namorou, casou, morou e teve os seus filhos na parte detrás do seu estabelecimento. Passou a vida inteira dentro do local de trabalho, saia muito pouco, pois todo dono de mercearia é um escravo do ganha-pão, com a labuta de domingo a domingo. Não fechava a bodega nem na hora do almoço, como faziam os outros concorrentes – pegava a “broca” e fazia a sesta em pé! Como o assoalho era de tábuas, quando alguém adentrava, ele acordava da soneca com o barulho. Certa vez, o Tico, um vizinho gozador até a alma, chegou bem devagarzinho, sem fazer barulho, pegou uma botija de gás vazia, levantou e jogou ao chão e, gritou: - Tem gás? Ele respondeu ainda meio sonolento: - Não! O Tico agradeceu, colocou a botija no lombo e “pegou o beco”!. Fiz isso várias vezes. Depois de algum tempo, o Tico estava numa lisura daquelas e, foi até o boteco: - Sêo Arthur, o papai está vendendo umas seis botijas de gás, o senhor tem interesse em comprar? Ele respondeu: - Tenho sim, pois as minhas botijas estão desaparecendo! Depois de muitos anos, quando o Sêo Arthur já estava velho e usava óculos tipo “fundo de garrafa”, o Tico resolveu falar a verdade e reparar o erro da sua adolescência.

DONA ROSA – Ela era uma típica enfermeira de antigamente: uma senhora de idade que ainda trabalhava nos hospitais públicos, gordinha, ranzinza, parecendo que estava de mal com o mundo, braba “no balde”. Mascava um tabaco de corda e, era o terror da molecada da rua, pois era a única que aplicava aquelas injeções que doía até a alma! Quando alguém fica va doente, os pais tinham de amarar o caboco e levá-lo até a Dona Rosa. Acho que ele era sádica, tinha todo um ritual, colocava álcool num recipiente, tocava fogo para esterilizar as agulhas grandes e grossas e as ampolas de vidro, depois, metia a agulha num vidro, quebrava uma ampola e fazia um teste, escorrendo um pouco do líquido, aquilo era cruel para a meninada. Dava as ordens aos pais: - Tira a calça dele, a injeção vai ser na bunda, não quero que se mexa e muito menos choro, senão aplico outra! Meu Deus, pense num sufoco! Ela ainda ria, chamando o guri de frouxo! A mulher era durona, não gostava de ninguém, muito menos de crianças barulhentas, mas, próximo ao Natal, o seu coração amolecia, mudava de feição, ficava mais alegre, não aplicava as malditas injeções e, pasmem, fazia chocolate quente com biscoitos, convidava todas as crianças para lancharem em sua casa! Mudava da água para o vinho – fazia uma lapinha e, pedia para a molecada rezarem ao redor. Depois do Natal, a Dona Rosa voltava ao oficio de aplicar injeções doloridas e fazer chorar um montão de crianças da nossa rua!


Existem muitos outros e, cada um, tem a sua história – quanto a Dona Maria Belém, Sarto Nego Mau, Adelson Mal Elemento e o Goiaba, já fiz tempo atrás postagem sobre eles, sem falar no meu pai, o Rochinha do Violão, o velho foi uma figura! É isso ai. 
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