sexta-feira, 9 de maio de 2014

COMUNIDADE DO CALDEIRÃO

O Zé Mundão foi convidado para a inauguração de um “Barracão do Foró”, numa comunidade chamada de “Caldeirão”, no município de Iranduba/AM, no beiradão do Rio Solimões – um local empestado de carapanã.

O carapanã não gosta muito do Rio Negro, pois a acidez das suas águas pretas geralmente impede a sobrevivência das larvas do mosquito, agora, nas águas brancas do Rio Solimões o bicho pega com força, misturando, ainda, com os piuns e meruins, não tem um sacristão que consiga dormir direito.

Ele foi numa caravana de carros, em companhia de uma turma de colegas de trabalho, na época, trabalhava numa fábrica do Distrito Industrial e, alguns deles possuíam parentes na comunidade.

Chegaram bem cedo, encontraram uma casa abandonada, com mato por todos os lados, fizeram uma faxina geral e, montaram o “QG” no local, para surpresa de todos, encontraram na cozinha dois “pés inchados”, eles forçaram a barra e obrigaram a turma do Zé Mundão a “alugar” a casa em troca de quatro garrafas de cachaça, a branquinha “marvada”, conhecida também como “veludo no gogó”!

O dia transcorreu numa boa, muito sol, com banhos de rio para refrescar; peladas no campo de várzea; bastante peixe assado na folha da bananeira; muito forró e cerveja à vontade – do jeito como o Zé gosta!

Quando chegou à noite, a coisa toda mudou de figura – O Zé correu para tomar banho pelado no rio, ficou “de bubuia”, ou seja, na flor d'água, para driblar as carapanãs, mas, não teve jeito, as diabas chegaram em “nuvem”.

Foi para o abrigo, passou repelente em todo o corpo, vestiu uma meião até os joelhos, calça de moletom e camisa comprida e um casaco de frio, mas, não teve jeito, elas entravam mesmo assim.

Tomou uma dose de pinga e foi para o forró, na entrada do barracão o porteiro deu-lhe umas carimbadas, ficou parecendo um boi marcado, depois, foi informado que era uma forma de controle, pois ele poderia sair e voltar sem pagar novamente o ingresso.

Partiu pra cima de uma cabocla gostosa, ela exalava aquele famoso perfume de “patchouli”, o Zé ficou logo arretado, não tinha a mínima ideia como tirar uma mulher interiorana para dançar, mesmo assim, foi buscar no fundo do baú, mandou ver:

- A senhorita, me dar o prazer desta contradança?

 Ela respondeu:

- Vixi!

Ele ficou um pouco desconcertado, deu um tempo e, partiu novamente:

- Vamos dança esta parte?

Ela:

- Vixi!

Partiu para o ataque final:

- Olha aqui gatinha, vamos remexer os esqueletos, botar no toco, dançar até o Sol raiar, colar o cabo do meu remo na tua coxa, topa?

Ela respondia sempre:

- Vixi!

Sem chances para o garotão da cidade, o jeito foi pegar umas dicas com o dono do barracão, o cara simplesmente mandou o Zé ficar perto de uma “cunhã” e observar como é feito o pedido para dançar.

Chegou um cabocão perto da gata e, mandou o recado:

- Qué já?

Ela respondeu:

- Quero!

Ele:
 - Então, engata já!

O Zé partiu pra cima da caboquinha, fez o pedido conforme a moda da casa, ela aceitou e, dançaram forró até depois da meia-noite - encostou o seu bigode no ouvido dela e botou para roçar o cabo do remo na “perseguida” dela – esquecendo até dos ataques das carapanãs!

A turma do Zé tinha montado um motel ambulante, ficava dentro de um fusquinha, a vez para entrar era tirada no par ou ímpar. Quando ganhou, primeiro, deu um banho de gato na cabrocha, fez a dança do acasalamento e, entraram no “Fusca Motel”, com a companhia de centenas de carapanãs, sem falar nas outras centenas que já estavam agasalhadas dentro do automóvel - pense num sufoco que o Zé passou pelado lá dentro!

Voltou para o seu QG, atou a sua rede de dormir e, não conseguia pegar no sono, com milhares de carapanãs tocando violino no seu ouvido. Foi até a cozinha, fazer companhia para os “pés-inchados” e, contaram “lorotas” o resto da noite, tomou muita pinga para ficar sedado e não sentir mais as picadas das carapanãs.

Pela manhã, o Zé foi ver o prejuízo, estava todo empolado e furado o corpo inteiro, os seus amigos também estavam na mesma situação, não dava mais para ficar nenhuma noite mais naquele lugar, arrumaram as mochilas, fizeram o comboio de carros e, pegaram a estrada rumo a cidade de Manaus.


Mesmo com tanta carapanã naquela comunidade, o Zé Mundão e o seu grupo ainda voltaram várias vezes, pois o que mais atraia era a natureza, a hospitalidade e o namoro com as belas caboquinhas do Caldeirão.  
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