domingo, 24 de julho de 2011

NONATTO, O CABOCLO-GAÚCHO (MANAUCHO).


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O nosso país é de dimensão continental, com uma diversidade cultural enorme, num extremo faz um calor de derreter a moleira, por estar próximo a linha do Equador, enquanto, no outro, faz frio de doer os ossos, chegando até a nevar, são opostos em tudo, mas, dizem que eles se atraem.

Imaginem uma pessoa que nasce na parte de cima, passando toda a sua infância e adolescência comendo Jaraqui com farinha, tomando banhos nos igarapés e, saboreando de montão o Tacacá na cuia. Pai d’égua, mano!

Porém, na sua fase adulta, resolve morar na parte de baixo, tendo de se acostumar a usar roupas de frio, comer churrasco de costela e, tomar Chimarrão na cuia. Más que barbaridade tchê!

Pois bem, o meu amigo Nonatto Silva, é um bom exemplo dessa situação. A sua irmã Graça Silva fez o seguinte depoimento:  "Ele é o meu irmão mais novo, aprendeu a tocar violão assistindo outros músicos, ou seja, é autodidata. Trabalhou na Mavel e depois no Banco Itaú. Como todos os domingos participava de um passeio turístico num barco da Amazon Explorers, a pedido do  saudoso Bebeh, proprietário e fundador da empresa, e, num dos passeios conheceu LISETE, uma gaúcha que gosta de cantar, e dai começou a mudança na vida do caboclo. Três meses depois foi conhecer Porto Alegre e de lá voltou noivo, para 3 meses depois casar com LISETE CHESLAK. Isso há 32 anos. Em Porto Alegre, ao ser dispensado pelo banco, foi trabalhar na noite, fazendo o que mais gosta - cantar e tocar violão - , e já se vão mais de 10 anos nessa vida de notívago. Como a Lisete também canta, o acompanha fazendo shows. Quando vem a Manaus, gosta de comer Jaraqui frito, mas com um detalhe, não come mais a nossa farinha, acho que adquiriu o costume sulista e esqueceu a nossa farinha do Uarini!  Lá no sul o chamam de manaucho (mistura de manauense com gaúcho), o casal tem uma filha Deborah, que é arquiteta e atualmente mora no Rio de Janeiro, onde faz pós-graduação".

Por ter nascido no Amazonas, conhece o “Amazonês” de cor e salteado, no entanto, teve de aprender na marra um novo idioma, o “gauchês” dos pampas!

O grau de dificuldade é muito grande para entender o linguajar dos gaúchos, somente para ter uma pequena ideia, eis algumas palavras e o seu significado:
Alemoa: loura/Baita: grande/Crêendios pai: exclamação quando algo dá errado/De revesgueio: de um tal jeito/Fincá: cravar/Garrão: calcanhar/Incebando: enrolando, fazendo cera/Jóssa: coisa/Kakedo: pessoas que não valem nada/Malinducado: mal educado/Paiêro: fumo de palha/Resbalão: escorregar/Sinalêra: semáforo/Tchuco: bêbado/Vortiada: passeio/Ximia: doce de passar no pão.

Ele nunca se esquece da sua cultura amazônica, não consegue passar muito tempo longe da sua terra e da sua gente, sempre que possível, ele pega um avião (asa dura, para os amazonenses), quando surgem aquelas promoções relâmpagos, vem bater por estas bandas, curtir o amor da sua mãezinha, a Dona Lili e a da irmã Graça Silva. Adora o Bar Caldeira, centro antigo, onde aos domigos, se reúne com os amigos, para bebericar, jogar conversa fora, cantar e tocar violão. 

Não pode ficar muito tempo na sua cidade natal, pois a sua esposa é gaúcha, ela não está acostumada com o calor de 40 graus de Manaus, além do mais, ele tem de trabalhar e sua vida está lá em Porto Alegre.

Vocês lembram daquela música do Martinho da Vila, chamada “Daqui Prá Lá”? A letra é mais ou menos assim:

Não sei se vou, não sei se fico
Se eu fico aqui, se eu fico lá
Se estou lá tenho que vir
Se estou aqui eu tenho que voltar.

Pois é, o Nonatto passa por essas mesmas inquietações, quando está em Porto Alegre, sente uma saudade danada de Manaus, quando chega aqui, tem de voltar!

Quando está em Porto Alegre, vem à lembrança o hino da sua cidade, do poeta amazonense Áureo Nonato:

Quem viu você
não pode mais esquecer
Quem vê você,
logo começa a querer.
Manaus, Manaus, Manaus,
minha cidade querida.
Manaus, Manaus, Manaus,
és a cidade sorriso,
esperança da nossa Amazônia.
Manaus, Manaus, Manaus,
Minha cidade querida.
Manaus, Manaus, Manaus

Quando está em Manaus, na hora de voltar, começa a cantarolar a música dos gaúchos Kleiton e Kledir:

Deu pra ti
Baixo astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau!
Quando eu ando assim meio down
Vou pra Porto e bah! Tri legal
Coisas de magia, sei lá
Paralelo 30
Alô tchurma do Bonfim
As gurias tão tri afim
Garopaba ou Bar João
Bela dona e chimarrão

O nosso caboclo-gaúcho, vai ter que conviver para o resto da vida com os dois extremos: Manaus/Porto Alegre, Quente/Frio, Tacacá/Chimarrão, Camiseta-sandália/Casaco-bota, Amazonês/Gauchês, Música Popular Amazonense/Música Nativista, Rio Negro/Rio Guaíba, Tambaqui na brasa/Churrasco, Comedor de Jaraqui/Papa-areias e Nacional/Grêmio.

Um gaúcho chega com o Nonatto Silva e, faz a pergunta: - De onde tu és cria, vivente? Ele responde: - Eu sou dos pagos de Manaus, mas estou aquerenciado em Porto Alegre! É mole ou quer mais, tchê! 

Um abraço do tamanho da Amazônia para o Nonatto Silva, o nosso caboclo-gaúcho (manaucho)! É isso ai.

Foto: Graça & Nonato - facebook da Dra. Graça Silva
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