quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

JOGANDO FORA O GORDINI TEIMOSO


Segundo o meu amigo Jokka Loureiro (um gozador da melhor qualidade), existem três coisas que não valem a pena emprestar: CD, carro e mulher, pois, segundo ele, o CD volta todo arranhado, o carro todo batido e, a mulher toda fodida! Com relação ao CD é normal emprestar e ter decepções na devolução; quanto à mulher, dizem as más línguas que existe muito neguinho por ai que gosta de ceder a sua mulher para os outros – por último, o carro, poucos emprestam, agora, jogar o seu próprio carro fora é muito difícil de acontecer, no entanto, esta eu presenciei, aliás, participei da empreitada.

Na minha juventude, estudei o ensino médio no Colégio Sólon de Lucena, tive um colega de sala chamado Klinger, conhecido por todos por “Peninha”, um “figuraço”, ele tinha a fama de cantor e de pegador das gatinhas, pois além do papo mole de derrubar avião, tinha também um automóvel, coisa muito rara para os rapazes da plebe.

O compadre Klinger, ainda muito jovem, foi trabalhar no setor de câmbio do London Bank, o cara dominava fluentemente a língua inglesa e lecionava em escolas de idiomas, isto o permitiu amealhar uma grana a mais e, comprar um carro Gordini da última safra de 1968, na cor de vinho de buriti.

Este tipo de carro era apelidado de “Teimoso”, uma versão popular do Renault, foi fabricado pela Willys–Overland do Brasil S.A. – era considerado um dos carros mais ordinários produzidos em terras brasileiras. O pessoal na gozação comentava “Compre um Gordini e leve grátis uma caixa de Cibalena para curar a sua dor de cabeça!

Pois bem, todos os finais de semana saímos para caçar as cocotinhas do pedaço – eu não tinha papo e nem jabaculê, era um típico peixe Surubim “liso, mas cheio de pinta”, no entanto, estava ao lado do maior cara de pau da urbe, passeando de carona a bordo do respeitado Teimoso, que não era aquele carrão, mas as famosas “Maria Gasolina” de Manaus davam o maior valor.

O carro já tinha zerado várias vezes a quilometragem, estava fora de linha fazia uns oito anos e, não era fácil encontrar peças de reposição. O Teimoso já estava entrando na terceira-idade e, começando a dar problemas, pegava somente no tranco e o motor esquentava que não era brincadeira.

Numa bela sexta-feira caliente de Manaus, fomos ao aniversário da namorada do Klinger, por sinal, foi a primeira das dez esposas que ele teve – é mole ou quer mais! Depois das onze da noite, resolvemos dar um pulo no puteiro “Saramandaia”, ficava nas imediações onde é hoje o Conjunto Santos Dumont  - foi com a gente o compadre Kleber, o cara era cantor e tocador de guitarra.

O carro não quis dar partida de jeito nenhum, empurramos ladeira abaixo e o bicho pegou no tranco, no trajeto, começou a esquentar o motor, o Klinger parou num posto de gasolina, pediu um balde de água e jogou na máquina quente, foi um santo remédio, deu para chegar até o lupanar.

Depois de passar a régua nas primas, resolvemos voltar lá pelas quatro de manhã, fomos até o Parque Dez deixar o compadre Kleber, na volta, na altura do Marreiro´s Bar (atual Habibs) o Teimoso travou de vez por todas, não pegava nem com reza braba, jogamos vários baldes de água no motor, mas ele não reagia, passamos mais de duas horas emburrando ladeira acima e descendo ladeira abaixo e, nada!

O dia amanheceu, estávamos sentados na sarjeta desconsolados, quando o Klinger tomou a decisão de jogar o carro velho numa vala profunda: - Meu compadre Rochinha, vamos dar a última empurrada no Teimoso, vou deixar os documentos dele e o toca-fitas Roadstar cabeça branca, quem quiser ficar com ele, que fique! – falou com as lágrimas nos olhos.

Seja feita vossa vontade e, assim foi feito! Voltamos de ônibus para as nossas casas. Durante algum tempo, acho que uns três meses o Teimoso permaneceu jogado por lá, depois, alguém se apossou dele e, levou para casa uma bela dor de cabeça!

O Kliger é o primeiro da direita na fotografia abaixo, ele está um pouco doente, mas uma vez e outra vai até o Bar da Loura e no Cipriano para jogar conversa fora e cantar, apesar de todas as dificuldades de locomoção.


Hoje, um Teimoso 1968, vale para os colecionadores a bagatela de vinte e oito mil reais, o preço de um carro Celta zero quilômetro. O compadre Klinger não sabe o que perdeu ao jogar o Teimoso fora! É isso ai.




Foto: J Martins Rocha - Delfim, Assante, Altamira e Klinger.
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