segunda-feira, 28 de março de 2011

O CÃO DAS PASTORINHAS DO LUSO

Para quem está abaixo dos quarenta anos de idade e, não viveu em Manaus até o início da década de setenta, necessário se faz definir, mais precisamente, o título da nossa postagem - o Cão não era um canídeo (cachorro), mas, um personagem que representava o Diabo, o chefe dos demônios, marcou toda uma geração de manauenses, – as Pastorinhas, era uma encenação, representando o Auto do Natal, com início em Dezembro e ia até Março do ano seguinte – finalmente, o Luso Sporting Club, uma agremiação de portugueses, fundado em 1917, de caráter desportivo que mantinham também uma atividade teatral. Dos três elementos, o Luso era o mais importante, porém, nas Pastorinhas, o Cão foi o que mais marcou a nossa época de criança e adolescente.

Para resgatar um pouco desta fase feliz da minha vida, tive a sorte de encontrar no Sebo “O Alienista”, do meu amigo poeta Celestino Neto, o livro “Cenário de Memórias - Movimento Teatral em Manaus (1944-1968). Selda Vale da Costa e Ediney Azancoth. – Manaus: Editora Valer/Governo do Estado do Amazonas, 2001”. Na orelha do livro, os editores escreveram o seguinte: “É lugar comum: o país não tem memória. E, especificamente, o teatro brasileiro uma vaga lembrança. Voltando nosso olhar para o teatro amazonense, a situação é mais apavorante. Selda e Ediney não só nos dão um rico presente, para aqueles que fazem ou fizeram teatro; não só levantaram poeira do esquecimento que paira sobre o fazer teatro, mas como que jogam em nossa cara um pouco de vergonha pelo que não temos feito para o crescimento teatral em nossa terra. Mostra-nos que o teatro não é só importante para aqueles que fazem do ofício teatral uma paixão, mas um bem, um patrimônio simbólico, espiritual e político, imperativo para a sociedade”. Muito bem, pelo puxão de orelha!

Fui morar na Rua Tapajós, na década de sessenta, a minha casa ficava bem próximo ao Teatro Amazonas, Teatro Juvenil e ao Luso; apesar de não ter nenhuma vocação para a encenação teatral, fiz parte dos bastidores da peça teatral “As Pastorinhas do Luso”, mais especificamente, como ajudante do “Cão do Luso”, na realidade, existiam vários demônios, conhecidos por Lusbel, Trinca-Ferro, Come-Fogo e Gigante-das-Trevas (o famoso Belisca Lua), fazia um trabalho pesado, apesar de ser franzino e com poucas forças musculares, ajudava na alavanca que impulsionava os capetas para saírem de um alçapão e entrarem em cena, além de ajudar a encher um cachimbão com pólvora, onde eram jogados labaredas (língua de fogo) e na sonoplastia, balançando algumas folhas de zinco e batendo nos pratos de bateria, era o momento mágico e aterrorizante, onde o publico infantil se assustava e se abraçava fortemente nos braços dos seus pais.

Certamente que conheci “As Pastorinhos” e o “Cão do Luso” no seu final, entre 1968 e 1970, pois, com o surgimento da televisão em Manaus, o cinema e o teatro fecharam as suas portas por longo tempo. Segundo os historiadores, já em agosto de 1917 o Teatro do Luso já apresentava as famosas pastorinhas, inclusive, construíram uma escola chamada “João de Deus”, onde era formada a maioria dos artistas – conheci esta escola e, muitos dos meus colegas estudaram lá – frequentei a escola “Divina Providência”, ligada aos capuchinhos da Igreja de São Sebastião, criadores do “Teatro Juvenil”.

Um Folheto Informativo denominado “Movimento Luso 2000, lançado em 1997, publicado no livro acima, faz o seguinte comentário: “As Pastorinhas, ou Autos do Natal, do Luso, tomavam conta do sentimento da cidade. Não havia uma só família que não levasse suas crianças para assistirem ao espetáculo. O anúncio das Pastorinhas era feito pelas próprias personagens que desfilavam pela pacata cidade em cima de um velho caminhão, todo enfeitado, com se fora palco. As batidas dos pratos de metal despertavam atenção e alvoroçavam a população, mas a personagem que mais se destacava era Lúcifer. O famoso Cão do Luso, todo vermelho, com enorme garfo preto, fez muita criança correr em disparada buscando abrigo no colo dos adultos. Metia medo e sedução”.

Irei reproduzir dois atos:

III ato – A pastora perdida e Lusbel (o Cão do Luso)
(A cena representa uma floresta fechada. O Diabo surge do alçapão numa gargalhada satânica).
LUSBEL – Há... Há... Há... Eis-me novamente em campo, prosseguindo no meu intento de em tudo contrariar esse Deus..
(Grita para dentro do alçapão): Trinca-Ferro!
TRINCA-FERRO (saltando) – Pronto! Que ordenais?
LUSBEL – Come-Fogo!
COME-FOGO (saltando) – Aqui estou!
LUSBEL – Feiticeiro!
FEITICEIRO – Hi... Hi... Hi...
LUSBEL – Gigantes-das-trevas! Que é isto? Estais amarelos?
TODOS – Nós, amarelos? Nunca!
LUSBEL – Nada de vacilações!
LUSBEL (canta):
No meu reino sou invencível
Lutarei até vencer
Contra Deus e contra tudo,
Far-me-ei obedecer.
TODOS (coro):
Não temer nem recuar.
O inferno nos protege
Em tudo vamos ganhar.
LUSBEL:
Do inferno imperador
De minha grei rodeado
Serei sempre insubmisso
Mas não serei humilhado
(Ouve-se ao longe o canto da Pastora Perdida. Os Diabos escutam, ocultando-se em seguida)
PASTORA PERDIDA:
Perdida eu vivo nesta solidão
Entregue somente às leis desta sorte.
É minha sina. Ó, Deus, tem compaixão
Dá-me forças precisas para enfrentar a morte.
Deus do Céu, enviai, por amor de Maria,
Um anjo celeste e protetor, que me sirva de guia.
LUSBEL:
Pastora perdida, eu te guiarei,
Por lindas estradas
Que meu reino tem.
Se queres ser rainha,
Diz-me que és minha
Possuo riqueza, sou homem de bem.
PASTORA PERDIDA:
Não quero riqueza, nem tua bondade,
Quero o meu pastor
Da minha igualdade. Vivo na pobreza
Abandono a riqueza.
Eu só queria um guia
Que tivesse piedade.
LUSBEL:
Pois já que me recusas e me fazes sofrer, no reino do inferno tu vais padecer (chamando os infernais):
- Infernais! Amarrem-na e levem-na para o meu reinado para alegrar o nosso festim de hoje...Há...Há... Há... Inferno! (Desaparece no alçapão).

IV Ato
CENA: O inferno. Os diabos dançando e pulando, gritando, berrando ao redor da Pastora Perdida, que se encontra amarrada, chorando, de cabeça baixa.
LUSBEL – Estou vingado, mais um trunfo que eu conquistei ao reino do Eterno. Há...Há...Há... Fogo, infernais!
PASTORA PERDIDA (grita): Valei-me, São Miguel! (São Miguel aparece de espada em punho)
SÃO MIGUEL – Para trás, espíritos infernais!
(São Miguel derrota os diabos e castiga Lusbel)
SÃO MIGUEL – A Cruz Divina quebrará o teu poder e te obrigará a rojar-te no chão (mostra a cruz)... Agora, sobe ao teu trono para seres castigado e seres transformado em dragão.
LUSBEL (urrando) – Ó, maldito sobre o inferno! Maldito Miguel! Ó, inferno que me abandonas!
(sobe ao trono, arrastando-se. Transforma-se em dragão).
Anjinhos cantando
ANJINHOS (para a pastora) – Teus companheiros te esperam para Jesus ir adorar.

As pastorinhas ficaram em cena por cinquenta anos, os demônios ficavam sempre a cargo dos portugueses, deveria ser muito engraçado a encenação com o "Cão do Luso" com sotaque lusitano. Na minha época, todas eram brasileiros, o elenco de algumas montagens era formado pelo Antônio Nogueira de Sá (Lusbel), Bastos, Chaguinha (este eu conheci, morava onde é hoje o Sebrae) e Plácido, como os Diabos Trinca-Ferro, Come-Fogo e Gigante-das-Trevas, respectivamente. Conhecí o "Lapinha", era o “Belisca-Lua”, ele mora na Vila Paraíso, na Avenida Getúlio Vargas (foi o único Cão do Luso que foi morar no paraíso, é mole!).

Quase todo o quarteirão onde estão os prédios do Teatro do Luso e Teatro Juvenil, foram alugados pela Universidade do Norte - UNINORTE, o Luso virou Centro Cultural. A direção desta escola de ensino superior e os seus estudantes, bem que poderiam ressurgir das cinzas “As Pastorinhas”, com certeza, eu teria o maior prazer em levar os meus netinhos para assistirem a encenação do "Auto de Natal", eles teriam o maior temor dos Atos III e IV, guardariam na mente, para contar, no futuro, como metia medo e sedução o “Cão do Luso”! É isso.

Foto: J Martins Rocha
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