domingo, 13 de março de 2011

ÁLVARO REIS PÁSCOA

* Luciane Barros Viana Páscoa

A obra - Dentre as suas obras pictóricas, destaca-se o painel “As Forças Armadas e a Integração da Amazônia”(1972), que é uma pintura mural em azulejos coloridos com grandes dimensões (8,19m X 7,28m) instalada em logradouro público, junto ao Colégio Militar de Manaus. A obra possui uma sequência narrativa, que mostra vários aspectos do trabalho humano. A atividade no seringal, o trabalho feminino (índias com o pilão), o aprendizado da leitura, e o esforço físico do militares aparentam uma harmonia pacifica. Porém algumas figuras humanas estão com os rostos propositalmente escondidos, talvez como uma referência ao sentido da coletividade e do anonimato, mas certamente como uma indicação dos trabalhadores silenciados pela força das armas. Os corpos possuem um contorno formal bem definido, e o gestual a postura do caboclo é acentuada. Embora seja uma das suas menções menos contundentes do ponto de vista da crítica social, teve um impacto forte sobre as pessoas que acompanhavam a sua obra, justamente por estar instalada num bastião militar. Ali está o retrato fiel do que é a exploração e a degradação das criaturas humanas aqui na Amazônia. Ninguém melhor do que o professor Álvaro Páscoa, conseguiu retratar num painel essa situação toda de Amazônia, mostrando um aspecto que a gente nunca conseguiu ver, por que aqui sempre foi o reino encantado, o reino das mil maravilhas, o reino das grandes ilusões. Então as coisas sempre pintadas da forma como o colonizador sempre gostou e apesar de ser português e morar aqui na Amazônia, o professor Álvaro Páscoa teve a sensibilidade de captar exatamente o drama da sociedade amazonense.

O autor - Nascido em Oliveira do Bairro, Portugal, em 1920 e falecido em Manaus, Brasil, em 1997, Álvaro Reis Páscoa, foi escultor, entalhador, gravurista, professor, e atuou na administração cultural do Estado do Amazonas. Mas a relação de sua família com Manaus começou no início do século XX quando seu pai, José Reis Páscoa, imigrou para o Amazonas. Vindo durante os anos áureos do Ciclo da Borracha, ele estabeleceu negócios nesta cidade, dentre os quais a firma de importação e exportação com um sócio, chamada Páscoa & Monteiro.

Por volta de 1909, indo residir numa vila de casas habitadas, mormente por imigrantes portugueses, na Rua Rocha dos Santos, José Reis Páscoa conheceu Maria dos Anjos Pereira com quem se casaria em 1911. Em 1913 na capital do Amazonas, nasceu a primeira filha do casal, Celeste dos Anjos Páscoa. A família precisou se separar temporariamente, pois nos anos seguintes a mãe precisou ir para a Europa com certa urgência, vitimada que estava por uma paralisia decorrente de trauma psicológico vivido em um incêndio, à época em que residia ao lado da Igreja de São Sebastião.

A partir deste momento, José Reis Páscoa dividiu-se entre os negócios que manteve até a década de 30, simultaneamente na cidade do Porto e em Manaus. Em 1917, na Rua das Pedras Negras, em Lisboa, nasceu o segundo filho do casal, Jaime dos Anjos Páscoa, mas a família não se fixou na capital lusa.

Em 1919, a crise que abalava as grandes cidades em consequência da Primeira Guerra Mundial, levou os Páscoa a residir durante um tempo em Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro. Lá, Maria dos Anjos juntava-se aos familiares de seu esposo e em 1920, em meios às baixas da gripe espanhola, nasceu o filho mais novo do casal, Álvaro Reis Páscoa.

Vivendo então sua primeira infância em Oliveira do Bairro, Álvaro Páscoa realizou o curso primário na Escola Secundária de Espinho, local onde a família possuía uma casa de veraneio, no número 1042 da Rua 14. Já no Porto, onde os Páscoa estabeleceram-se na Rua da Constituição, foi fazer o curso liceu na Escola Acadêmica e posteriormente o curso comercial da Escola Raul Dória na mesma cidade. Esta última não aconteceu apenas pelo desejo paterno em preparar o filho para os negócios, de vez que o mais velho formava-se em Economia na Universidade de Coimbra. Já dependente das muletas, situação ocasionada por um tumor na medula, a Escola Raul Dória tinha proximidade conveniente ao novo endereço da família, na Travessa da Fontínha, mandado construir por José Reis Páscoa. Frequentou os círculos intelectuais portuenses que se formavam justamente no perímetro de suas andanças. Desse modo, toda a sua formação acadêmica e artística foi realizada em Portugal.

Aos vinte anos afastou-se de suas atividades escolares pelos motivos de saúde já mencionados. A doença desencadeou uma série de tratamentos e após a realização de uma cirurgia para a remoção do tumor (a primeira a ser realizada em Portugal), ficou internado em recuperação durante dois anos, tendo como sequela a paralisia da perna direita. Mas o isolamento fez com que aprimorasse seu desenho, experimentando também a escultura e o entalhe, técnica tradicional do norte de Portugal.

Álvaro Páscoa chegou a Manaus em setembro de 1958 e logo em seguida integrou-se à movimentação cultural existente, especificamente o Clube da Madrugada. Como já conhecia as tendências da vanguarda européia, influenciado, sobretudo pelo Neo-Realismo e pelo Expressionismo, o caráter social de sua produção artística tornou-se ainda mais acentuado no Amazonas, a partir da observação dos costumes da população, do trabalho dos caboclos e de suas feições características. Foi Diretor da Pinacoteca Pública e Presidente da Fundação Cultural do Amazonas.

A articulação histórica e cultural que Álvaro Páscoa fez de maneira consciente com o seu ambiente social, expondo aí os suas preocupações sociais mostram que sua concepção estética não se baseava em preceitos estreitos ou em rótulos fechados que poderiam se confundir com uma ânsia de afirmação de identidade e consequentes tentativas de engajamento ou absorção a «grandes centros». Sua atuação foi ampla e feita de modo discreto: como membro do Clube Madrugada, como professor, como gestor cultural e como artista, deixou uma contribuição muito importante, que foi a intervenção social e intelectual na cidade.

* Doutora em História Cultural, pela Universidade do Porto/Faculdade de Letras, Portugal.
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