quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ZÉ MUNDÃO, O REI DA GETÚLIO VARGAS

Na sua juventude, entre os dezoitos e vinte um anos de idade, a Avenida Getúlio Vargas era a praia do Zé, o cara mandava e desmandava naquele pedaço, tudo acontecia por lá – existiam na área os seguintes bares: Aroeira, Gordo, Alex e Garfo de Ouro; os clubes: Sheik e Bancrévia e os cinemas Politheama e Guarany. Por ser o Rei do pedaço, tinha os seus súditos, as principais figuras, escolhidas a dedo, eram: O “Campos” – um bonitão, grandão, servia de segurança e conquistador das beldades, para o Zé Mundão, é claro! O “Rato” - um cara-de-pau, gozador até a alma, cheio de marmotas, era o bobo da corte. O “Cara de Velha” - pense num cara mais feio do que um processo - era o dito cujo, porém, tinha bastante bom senso e sabedoria, era o conselheiro do reinado. O “Branco” - vivia rindo, parecia uma hiena, era o pau-mandado (mensageiro) do Zé e, por último, o “Bira” - o único filhinho-de-papai, recebia uma gorda mesada do seu pai, era o ordenador das despesas, servia como tesoureiro do reinado do Zé Mundão.

A reunião acontecia bem cedo no Bar do Gordo, montavam as estratégias para invadir e aprontar em outros reinados: sexta-feira, beber no Gordo, pagar a metade e fiar a outra, depois, zoar no baile do Sheik Club; sábado, passar pelo Bar Aroeira, depois no Alex e por ultimo, dar um pulo até o Garfo de Ouro e comer uma galinha a “La Claudia Barroso” e, no domingo, pela manhã, jogar futebol de salão, na quadra do Colégio Estadual D. Pedro II, tomar banho no Igarapé de Manaus e pular da Primeira Ponte, depois do meio-dia, correr para casa, pegar o rango às presas e, ir aos cinemas Politheama ou Guarany, à noite, aprontar todas no Bancrévia Clube.

O Zé por ser o líder da galera, ordenava logo na sexta-feira: - O lance é o seguinte cabocada: vamos hoje ao Sheik, primeiro entra o Bira, o Rato e eu - o Campos, o Cara de Velha e o Branco ficam lá embaixo, no alçapão – o Rato fica entretendo o segurança, o Bira vai providenciar gelo e Coca-Cola, ao meu sinal, abro o alçapão e entram os três com o Montilha escondido na cueca e limões nos bolsos, tudo bem? Todos concordavam.

Depois de encherem a cara com ”Cuba Libre” sem pagamento da rolha, o Zé começava a mandar, novamente: - Campos e Rato, tá na hora de vocês botarem pra cima da mulherada, vou chegar de mansinho, falem para elas que eu sou filho de fazendeiro, o “Rei do Gado” -, elas adoram ser enganadas, depois de dançar e de ter dado aquele amasso na gata, finjo que vou ao WC e dou o fora, pela tangente!

O Cara de Velha, ponderava: - Olha lá, Zé Mundão, pega leve, senão só vai dá pro teu! Enquanto isso, o Rato detonava: - Deixa comigo, gente fina, tá tudo no papo! E o Branco, nada falava, sempre rindo: - He, he, he, he, he! O Bira, gente boa, dono do capim, prometia: - Deixa a bronca comigo, eu pago a conta! O Campos, dava a maior força: - Bota no toco, Zé, vai ser uma loucura, papai! O cara era, realmente, o Rei do pedaço, aprontava e se dava bem na maioria das vezes.

Certo dia foi a um baile chamado de “Vereda Tropical”, o Zé estava no bem bom com uma gata, não sabia que estavam filmando o evento para um comercial na TV Ajuricaba – não deu outra: O Zé foi filmado dançando, aparecia dentro de um disco de vinil, dando o maior show, ao som da musica Vereda Tropical, na voz do Javier Solis - “Voy por la vereda tropical, la noche plena de inquitud, com su perfume de humedad... Foi tema para gozação em casa, na rua, no trabalho e na escola – era chamado de “Zé, o pé-de-valsa do Sheik”, ficou de molho por um tempão, estava puto da vida e deixou de frequentar o seu clube preferido.

Agora, imaginem essa turma na época do carnaval! O bicho pegava, o sexteto fazia parte da bateria da Escola de Samba Unidos da Getúlio Vargas – nos ensaios, o Zé Mundão queria ditar o ritmo, mandar mais do que o “Mestre Bola”, um negão barrigudo, grande sambista importado lá da Matinha. O Bola, puto da vida, mandava ver: - Porra, Zé, tu tá atravessando o samba, cai fora, caralho! O Zé não se fazia de rogado: - Tá bom, mas tem um detalhe: vai comigo toda a minha galera, inclusive o Bira, o cara ia pagar hoje três grades de cerveja! Ai, o Bola sentia a parada dura, pois sabe como é a vida: sem veludo no gogó não dá samba -, procurava logo amenizar: - Tá bom, Zé Mundão, mas, bate de vagar no Surdo, vou fingir que nem estou ouvindo! Geralmente, o Zé somente aprontava nos ensaios, pois, no dia do desfile na Avenida Eduardo Ribeiro, o cara ficava dentro do ritmo, apesar de só descer a Avenida depois de já ter detonado várias doses do “Padrinho Acrísio”, uma bebida alcóolica feita artesanalmente pelo “Sêo Acrísio”, um famoso “químico” da fábrica de Guaraná Baré. Olha o Zé Mundão no carnaval, aí gente!

Bom mesmo eram os bailes no Bancrevia, um clube dos funcionários do Banco da Amazônia, aberto aos domingos para a comunidade, desde que pagassem o ingresso, é claro! O local ficava na penumbra e tocava somente musicas “lentas”, um lugar ideal para o Zé Mundão dar aquele acocho nas caboquinhas do pedaço e aproveitar para encostar maliciosamente o “remo” nas coxas das gatas.

É isso ai, Zé Mundão, o Rei da Getúlio Vargas!

Nota do Blog - O Zé Mundão é um personagem criado pelo blog – um cabocão manauense, ambientalista, gozador, enrolado até o cabelo, amante da cidade de Manaus, curtidor da vida social, cultural e etílica da sua cidade. Alguns leitores assíduos do blog gostam das peripécias do Zé Mundão, inclusive, confundem com a pessoa do editor do blogdorocha, mas não tem nada a ver, tudo é uma mistura do passado, com a realidade e ficção da vida de um típico manauense.
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