sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CRÔNICA DE ADEUS AO ESTÁDIO VIVALDO LIMA DE MANAUS



O adeus é uma palavra que dói muito para as pessoas que tem sentimentos, traz uma sensação de perca; para alguns, nem tanto, traz felicidades e impressão de renovação. Pois é, fico no primeiro caso – o adeus ao Estádio Vivaldo Lima (nome em homenagem ao médico, advogado, deputado federal e sócio benemérito de vários clubes de Manaus) está sendo muito duro para mim, estou perdendo um querido amigo que conheci em 1970; lembro muito bem quando fui assisti a um amistoso entre a Seleção Brasileira e a do Amazonas – o Estádio ainda estava em construção, existia apenas o campo de futebol, com cadeiras improvisadas e o estádio rodeado de tapumes, não me importava nem um pouco, o mais importante era a grande praça de esportes, com o privilegio de assistir em campo as feras do naipe do Pelé, Rivelino, Tostão, Gerson, Jairzinho & Companhia. Será que teremos sempre de dar adeus aos nossos antigos estádios? Nem sempre, o Estádio Jornalista Mário Filho, o famoso Maracanã, serviu à Copa do Mundo de 1950, vai ser reformado para a de 2014, não foi necessário ser implodido. Aqui em Manaus, já dei adeus aos campos de peladas do Igarapé de Manaus e ao Parque Amazonense, e, agora, ao Vivaldo Lima – até o Estádio Ismael Benigno será demolido para dar lugar a outro de primeiro mundo – adeus também para a nossa querida “Colina”! Podem derrubar o meu estádio, mas nunca derrubarão as minhas lembranças, acabem com o físico, mas o espiritual ficará para todo o sempre! Os mais jovens, talvez, não entendam a minha posição, por não tiverem tido a vivencia que eu tive com o “Vivaldão”: assisti em 1980 ao jogo do New York Cosmos e Fast Clube, com a lotação de 56 mil pessoas, recorde de público até hoje; curti inúmeras decisões do campeonato estadual e jogos com times de outros Estados, principalmente do Vasco e do Flamengo; reunia com a turma do bairro para assistir aos jogos do maior campeonato de peladas do mundo “O Peladão”; tomava Tacacá e bebia “cevadas” no Bar do Amadeu Teixeira; uma vez e outra pegava um saco com urina na cara e dava o troco na hora; gritava de alegria e chorava de tristeza, nas vitórias e derrotas do meu Fast Clube; xingava o juiz, falava palavrões, soltava fogos de artifícios, paquerava as gatas que iam aos jogos e jogava bagos de laranjas nos torcedores invasores da nossa praia; curtia as charangas do Nacional, com o famoso “Boca de Bilha” e o “Goiaba Nacionalino” no comando, e, do Rio Negro, com o Eurico e o “Galo Gay” dando o maior show; pulava da geral para a arquibancada; ia ao estádio com os meus irmãos e com os amigos de rua para assistir a uma bela partida de futebol do “Rio-Nal”; adorava sair em caravana pela cidade e ir direto para o estádio; mexia no placar somente para sacanear com os torcedores do clube adversário; assistia ao jogo de futebol com um radinho de pilha coladinho ao ouvido, ouvindo os comentários do grande Orlando Rebelo; tive a oportunidade de curtir o mais caro e o melhor placar eletrônico do Brasil, infelizmente, funcionou apenas cinco vezes; utilizei as catracas eletrônicas com cartão magnético, também funcionou apenas para alguns jogos; participei de bingos de automóveis, assisti a varias missas campais e torneios de paraquedismos. Lamento muito, por não ter tido o privilegio de assistir a nenhum jogo na cadeira especial, bem lá de cima, junto com os bacanas, pois sempre faltava a grana para o ingresso e não tinha como dar aquela famosa “carteirada” e, também de nunca ter entrado nos vestiários (não para ver jogadores, é claro!), mas, para conhecer o local e pisar nas gramas do campo de futebol; dizem que o “Tartarugão” tinha um problema sério com o lençol freático, ficava a ”flor da pele”, o pessoal da engenharia do novo estádio vai ter muitas dores de cabeças com as fundações. Somente quem curtiu tudo isso, é que pode ter saudades e lamentar muito a derrubada do estádio, pois é pura história vivida! O grande arquiteto Severiano Mário Porto o responsável pela criação do “Vivaldão”, inclusive ganhou vários prêmios pelo belíssimo trabalho, foi o mesmo que fez o Chapéu de Palha (destruído), o atual Tribunal de Justiça do Amazonas, a Sede da Suframa e o Campus da UFAM – o projeto previa a total cobertura do estádio, passaram anos e anos e, num belo dia de verão amazônico, um famoso governador e os seus secretários, resolveram terminar a obra, fizeram uma licitação viciada, ganhou uma empresa de fora do nosso Estado – dizem, eu não posso afirmar, que foi superfaturada, até aí nenhuma novidade para as obras governamentais, o maldoso e mais cruel é que muito neguinho pegou muita grana no negócio e ainda fizeram uma estrutura de péssima qualidade, vindo abaixo todas aquelas toneladas de ferros - no dia seguinte estariam reunidos no mesmo local, milhares de fieis evangélicos, foi uma benção não ter acontecido uma desgraça de grandes proporções. É mano velho, o nosso “Vivaldão” veio do pó e do pó está voltando e, na sua sepultura nascerá a “Arena Multiuso da Amazônia”, será um megaestádio, fará sua história para a nova geração de amazonense, provavelmente, daqui a quarenta anos será derrubado novamente para a construção de outro maior e mais moderno!

Adeus velho amigo Estádio Vivaldo Lima, grande perca, ficará somente nas lembranças e nada mais! Adeus!

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