sábado, 14 de novembro de 2009

FÍGARO DEL REI, SALÃO CRISTAL & PEDRO DA SILVA



Passando pela Rua Marechal Deodoro, centro antigo de Manaus, lembrei da Galeria Central – era uma passagem para a Avenida Eduardo Ribeiro, ficava num enorme prédio do mega empresário J. G. Araújo (do tempo áureo da borracha), no local funcionavam inúmeras lojas, com destaque para a barbearia “Fígaro Del Rei”; apesar de nunca ter dado “um tapa no telhado” no local, quando eu era moleque gostava de ficar observando os barbeiros fazerem a barba dos adultos, achava legal aquela toalha quente no rosto, sonhava em ficar adulto para sentar naquela cadeira antiga e mandar fazer a minha barba – não deu certo: primeiro, em decorrência de um empresário mau caráter ter mandado tocar fogo no prédio (para receber o valor do seguro), detonando toda a Galeria Central, levando para o espaço a minha barbearia; segundo, por eu ter os traços indígenas, a minha barba é “bem rala”, com um fiapo aqui e ou outro acolá, sem chance de fazer a barba!


Conheço o Sr. Pedro da Silva, um profissional que presta os seus serviços no Salão Cristal, na Rua Lima Bacuri, centro, mostra com orgulho um quadro de um recorte de jornal, contendo uma reportagem sobre a sua atividade desde a sua adolescência – “Barbeiro dos anos dourados lembra o início da carreira” – um trabalho do Rodrigo Araújo, foi publicado na “A Crítica”.


A história é mais ou menos assim:


Aos 12 anos de idade, ele saiu da zona rural do município de Maués (a 267 quilômetros de Manaus) e rumou para a “cidade grande”, em companhia de um tio, que morreu poucos meses após os dois chegarem a Manaus – “Me senti órfão, mas felizmente um casal me adotou e pude continuar na cidade” lembra. Aprendeu o oficio aos 13 anos de idade, no Salão V-8, ficava na Rua Rocha dos Santos, embaixo da antiga Capitania dos Portos; depois conseguiu um emprego no salão do português Albino Santos, que ficou curioso ao saber que um garoto franzino sabia fazer a barba e cortar cabelo como gente grande – “Ele me deu o emprego porque quando estava trabalhando muito gente parava para olhar, pois eu era muito baixinho e tinha que cortar cabelos na ponte dos pés, serviu para atrair os clientes para o salão, o português me pagava 50% de todo o serviço que eu fazia” diz Pedro. Em 1956, com 18 anos de idade, Pedro entrou para o Exército. “Só servi porque sabia fazer o trabalho de barbeiro, como era o melhor da cidade, era sempre requisitado para fazer a barba e cabelo dos oficiais da mais alta patente”, afirma. O menino de Maués foi para o Rio de Janeiro, na década de 60; depois voltou para Manaus, onde casou e constituiu família, possui três filhos já criados. Continua exercendo a sua profissão, lembra sempre da Manaus da sua infância, uma cidade cheia de oportunidades que acolhia com generosidade os filhos do interior, algo bem diferente dos dias de hoje, quando os aventureiros geralmente terminam engrossando as filas dos miseráveis, que cada vez mais se amontoam na periferia da capital.


Para matar a saudade do Salão Fígaro del Rei, gosto de bater um papo com o pessoal do Salão Cristal: os barbeiros Pedro da Silva e Walter e a manicure Marina. É isso ai!
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