domingo, 3 de agosto de 2014

O CONJUNTO DOS JORNALISTAS


No final da década de setenta, a cooperativa habitacional INOCOOP pleiteou junto a Caixa Econômica Federal – CEF/AM o financiamento de casas para abrigar os jornalistas do Estado do Amazonas, mas, por questões técnicas, resolveram mudar para habitação tipo apartamentos, o que desagradou muitos profissionais da imprensa – muitos desistiram e, a solução foi abrir ao público.

O terreno pertencia ao extinto Grupo Moto Importadora, era uma área nobre, pois ficava na Avenida Constantino Nery, uma das principais artérias de Manaus, onde no início do século passava uma linha do bonde e, entrecortado pelo Igarapé dos Franceses, um famoso balneário de outrora.

Foram construídos oito blocos de três andares, com quarenta e oito apartamentos em cada um, com direito a uma vaga de garagem na parte térrea, perfazendo trezentos e oitenta e quatro unidades.

Na época não existia toda essa burocracia e “assalto a mão armada” que as construtoras fazem com o comprador – somente era obrigado a fazer uma “poupança forçada” em dois anos, o tempo previsto para a construção e servir como entrada ou entrega das chaves.

Participei de todo esse processo, com o sorteio dos apartamentos realizado no Auditório Gilberto Mendes de Azevedo (SESI) – o meu saiu para o primeiro andar do Bloco H, considerado a “cozinha” do conjunto, pois ficava na parte detrás, passando o igarapé e, muitos achavam que eram os mais desvalorizados, em decorrência de ficar longe da Avenida.

Com o tempo, esses apartamentos ficaram mais valorizados, pois reinava a tranquilidade, sem barulho de carros e ônibus, além de esta rodeada de floresta primária, em contado direto com a natureza, onde circulava cotias, macacos pregos, cobras, bicho preguiça, camelões e muitos passarinhos.

Mudei para lá em 1982, estava casado e com o meu filho mais velho, o Alexandre, com apenas um ano de idade – por lá nasceram a Adriana e a Amanda e a minha neta Maria Eduarda (a Duda).

O conjunto foi dotado de sistema de tratamento de esgotos, área de lazer imensa, com um chapéu de telha, banheiros e chuveiros, parquinho para as crianças, quadra de voley e um imenso campo de futebol.

O ponto de encontro dos biriteiros era o Mercadinho União, um estabelecimento muito grande, parte de um depósito de uma distribuidora de medicamentos, com acesso pelo conjunto – a área era imensa, onde podia beber e jogar dominó embaixo das árvores – foi um local de encontro por mais de duas décadas – os proprietários eram os paulistas Alberto Biondo (coronel aviador, reformado da FAB) e o Moacir Biondo (atual apresentador do programa Ervas e Plantas do Amazonsat).

Num certo sábado, toda a galera estava no point tomando umas cevadas, nesse dia, estava rolando uma reunião no condomínio para escolher o novo síndico, fomos em peso participar e, em apenas alguns minutos o meu nome foi indicado, votado e aclamado síndico, depois, voltamos ao bar, para comemorar a vitória da ala dos bebuns – no dia seguinte, quando tinha passado o porre, fui ver a besteira que tinha feito, mas, não teve volta, tive que trabalhar “de graça” por quase dois anos!

Ainda lembro-me dos antigos moradores: Vanessa Graziotin, Eron Bezerra, Marcos Barros, Dr. Iracildo, Jorge Parente, Conceição e Frank, Leal da Cunha, Tony Biondo, Inácio e Solange, Zezinho e Martha, Rocha Filho (meu irmão), For Make Love, Calcinha Junior, Flávio Lauria, Dona Nazaré (H), Jersey Nazareno e Maria Luiza, Zé Galinha (paraense), Bianor Garcia, Moisés Mota, Marcelo Lambanceiro, Klinger Peninha, Léo da Sefaz, Marcos Klain (alemão), dentre outros.

Com o tempo, foram construídos ao seu redor outros conjuntos habitacionais mais arrojados, ficando o do “Jornalistas” como o “patinho feio”, porém, ficou muito valorizado, pois quase todas as linhas de ônibus passam por lá, com acesso rápidos a três shopping centers e ao Parque dos Bilhares e a Arena da Amazônia.

Tivemos problemas sérios com a ponte que dar acesso aos blocos G e H, pois caíram três vezes, obrigando aos moradores a passarem pela vizinhança e até por ponte improvisada de madeira – a última, foi feita pelo então prefeito Serafim, passando somente por uma reforma, estando perfeita até hoje.

Na época da inflação galopante, as prestações foram para o espaço, tentei transferi-lo para outras pessoas, mas foi em vão, pois ninguém queria “nem de graça” – hoje, está quitado e muito valorizado, servindo de moradia para a minha filha e neta.

Apesar do progresso, ainda pode-se ver próximo ao igarapé alguns jacarés, cotias (na parte noturna), camaleões e muitos pássaros. Uma parte lateral onde fica o Mercadinho União foi vendida para uma faculdade que, derrubou todas as árvores, colocou asfalto e luzes potentes, para servir de estacionamento aos seus alunos – ainda bem que não construíram uma ponte sobre o igarapé, onde ainda permanece uma floresta nativa, servindo de abrigo para os animais silvestres e ainda permitindo um ar mais ameno para os moradores.


O tempo passou, o Conjunto dos Jornalistas já conta com trinta e três anos da sua construção e, aos domingos, a velha guarda gosta de se reunir embaixo de uma mangueira, para lembrar dos velhos tempos e, apreciar as brincadeiras infantis da terceira geração de vizinhos, os netos dos primeiros moradores. É isso ai.
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