quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

MANAUS NO INÍCIO DO SÉCULO PASSADO



*Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd.




Situada à margem esquerda do Rio Negro, a oito milhas da sua junção com o Amazonas e a mil do Atlântico, Manaus é um exemplo admirável do rápido progresso do estado. As suas ruas são largas e bem calçadas, as principais asfaltadas e as outras a paralelepípedos. É iluminada à eletricidade, havendo também centenas de casas particulares com instalações elétricas. Cerca de 600 lâmpadas de 2.000 velas cada uma iluminam as ruas e praças públicas. A cidade é abastecida de dez milhões de litros d'água por dia.

As ruas mais importantes são servidas por tração elétrica com um percurso de 16 milhas, havendo uma linha circular que passa pelos pitorescos subúrbios da Cachoeirinha, Flores e outros pontos freqüentados, que apresentam aos passageiros lindas paisagens formadas por densas capoeiras da mais rica vegetação tropical e esplêndidas avenidas de palmeiras. Duas pontes de ferro atravessam o rio nos arrabaldes da cidade. A linha de bondes é bem montada; os carros, de construção moderna; e o serviço muito honra à companhia.

Como já vimos, a cidade tem progredido rapidamente nestes últimos anos. A sua população vai a 70.000 habitantes atualmente. E muito tem aumentado o número de edifícios públicos e casas particulares. Alguns dos edifícios do estado, ricamente construídos, são iguais em tamanho e beleza aos melhores de outras cidades do Brasil. O palácio da Justiça é um lindo edifício de mármore branco.

O teatro Amazonas, um dos mais elegantes da América do Sul, custou £400.000. Está num ótimo local da principal avenida, Avenida Eduardo Ribeiro, e quando o sol lhe bate no zimbório, onde brilham as cores nacionais, oferece um dos mais belos quadros que se avistam do porto. Obra de cantaria, o teatro tem à sua entrada colunas trabalhadas em mármore italiano, sendo o seu interior ricamente decorado.

As igrejas, como em toda a parte do Brasil, não são notáveis pela sua arquitetura. Os estabelecimentos de educação, na sua maioria, se acham em modernos e espaçosos edifícios, inclusive e especialmente o Ginásio e o Instituto Benjamin Constant para meninas.

A Biblioteca Pública tem 10.000 volumes; o museu tem uma coleção notável e muito interessante de curiosidades amazônicas, armas de índios, instrumentos musicais de índios feitos de asas de besouro, dentes de animais etc., e inúmeros espécimes de antiguidades. O mercado público no centro comercial é espaçoso, fresco e bem ventilado; mas, como é natural, as lojas não se podem comparar com as do Rio de Janeiro. À tarde, o lugar mais freqüentado é o Jardim Público, onde toca ao anoitecer uma banda de música.

Outros pontos de vida da cidade são as estações de telefones, telégrafo sem fio e cabos submarinos, matadouro, parques e jardins públicos, sítios de diversões, a catedral e igrejas, hospitais, enfermarias, clubes sociais, orfanatos e asilos para os pobres.

A principal artéria da cidade e o centro do negócio de borracha é a Rua Marechal Deodoro, uma rua curta e estreita que corre paralelamente à extremidade inferior da Avenida Eduardo Ribeiro. Muitas das principais casas de negócio a varejo acham-se na Rua Municipal, ao passo que a Rua Santa Cruz é dedicada aos armazéns e lojas populares.

Os edifícios particulares, especialmente as casas de negócio, revelam a grande confiança depositada no futuro da cidade pelos comerciantes locais. Existem algumas fábricas na cidade, mas 90% dos negócios consistem em exportação de borracha, castanhas e um pouco de cacau.

A vida em Manaus não está tão sujeita às condições climatéricas, como a opinião ignorante do povo tem sustentado até aqui. Apesar de cidade equatorial, está muito longe de ser um inferno. Os habitantes gozam de muitas comodidades: ventiladores elétricos nas repartições públicas e casas particulares, produção ilimitada de gelo, regatas e natação, o que é natural na capital de um estado de rios.

A cidade é bem provida de carros, havendo também bastantes automóveis. A imprensa é bem representada, e os redatores e repórteres são tão ativos como os seus confrades europeus. Há muitas fábricas e companhias mecânicas. Manaus não é um foco de moléstias; as febres ocorrem em casos esporádicos e as queixas contra o calor não são comuns.

Em grande parte, isto é devido à solicitude do governo, aos esplêndidos trabalhos do célebre Dr. Oswaldo Cruz, que saneou o Rio de Janeiro com um bom sistema de drenagem e outras providências.

As obras do Porto de Manaus foram acabadas recentemente, auxiliando imensamente o comércio e colocando este porto do interior entre os melhores da América do Sul. Inaugurado o  porto em agosto de 1902, a companhia exploradora em menos de dez meses edificou uma poderosa casa, construiu seis armazéns de ferro, ocupando uma área de 6.000 metros quadrados, com uma plataforma de 3.000 metros também quadrados, margeando o rio; igualmente se construiu um pontilhão flutuante, ao qual podem atracar dois transatlânticos, um de cada lado.

A capacidade de desembarque de mercadorias, dos vapores para os armazéns, é de 6.000 toneladas em dois minutos. Desde 1902, diversos armazéns se têm inaugurado, assim como uma ponte flutuante que parte do paredão pelo rio adentro e a qual se eleva e abaixa com o rio, variando não menos de 15 metros o seu nível, entre a estação chuvosa e a seca.

O aspecto do porto é muito animado com a ancoragem dos navios de alto mar e dos fluviais, com o movimento de um para outro lado de lanchas a vapor e elétricas, com a variedade de cores das bandeiras, e a tudo isto se deve ajuntar o panorama do rio, impressionante de beleza e pitoresco.

Manaus é o centro do distrito naval de seu nome, que compreende os quatro estados do Amazonas, Pará, Maranhão e Piauí. A força naval consiste em 14 canhoneiras e vedetas. É também o quartel-general militar do Amazonas; as forças, que compreendem 2.500 oficiais e praças, parecem insuficientes para os fins policiais em uma área tão grande.

São irrealizáveis as estatísticas modernas no Brasil, e a do Estado do Amazonas neste particular é tão defeituosa como qualquer outra. Os algarismos oficiais em 1907, quanto às importações e exportações, devem ser, pois apensos a este trabalho, com os de 1897, para o estudo comparativo

As importações elevaram-se de 15.755 contos (cerca de £1.050.000), em 1897, para 26.087 contos (cerca de £1.735.000) em 1907; a exportação em 1897 montou a 37.798 contos (cerca de £2.520.000) e em 1907, a 114.970 contos (cerca de £7.630.000). Estes algarismos provavelmente incluem as mercadorias em trânsito, principalmente borracha do Acre, mas é evidente que o decênio apresentou um aumento muito grande.

Estatísticas mais recentes mostram que, em 1909, as importações foram de £2.187.826 e as exportações foram de £10.877.017; e em 1910, os algarismos foram, respectivamente, £2.729.501 e £12.777.941.

Em 1907, entraram no porto de Manaus 1.512 vapores e navios, de 575.108 toneladas; as saídas foram de 1.497 navios com 558.302 toneladas. Finalmente, pode-se notar que hoje a principal riqueza do Amazonas é a sua borracha; mas, como já o disseram hábeis observadores, entre eles Humboldt, Wallace e Bates, o Amazonas há de se tornar o centro mais rico do mundo quando a ciência houver ensinado o homem empreendedor a tirar proveito das suas incalculáveis riquezas.

Fonte: Impressões do Brazil no Seculo Vinte, editada em 1913 e impressa na Inglaterra por Lloyd's Greater Britain Publishing Company, Ltd., com 1.080 páginas, mantida no Arquivo Histórico de Cubatão/SP. A obra teve como diretor principal Reginald Lloyd, participando os editores ingleses W. Feldwick (Londres) e L. T. Delaney (Rio de Janeiro); o editor brasileiro Joaquim Eulálio e o historiador londrino Arnold Wright.
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