terça-feira, 3 de janeiro de 2012

FIGURAS DE MANAUS

Figura é um termo utilizado, na atualidade, para designar dentre várias coisas, aquela pessoa que tem uma personalidade curiosa, interessante e fora do comum, considerada por muitos como folclórica, ou seja, a que se apresenta de forma espalhafatosa, engraçada, única, diferente das outras pessoas na forma de se vestir, falar ou de se comportar – por ser distinta das demais, é considerado pela maioria como um palhaço (no sentido figurado) ou um lelé da cuca (maluco beleza) – quem anda pela cidade de Manaus presencia muitos deles – citarei apenas alguns: O Rambo de São Jorge, O Michael Jacson Jaraqui de Manaus e O Picolé do Aranha da Cidade Nova.
O nosso Rambo é de matar de rir!
No bairro de São Jorge, zona oeste da cidade, mora um cidadão chamado Aldenir Coti, um fã de carteirinha do Rambo, personagem interpretado pelo Silvester Stallone – assistiu milhares de vezes aos filmes I, II e II, passando a incorporar a figura daquela pessoa fictícia. Deixou os cabelos crescerem igualmente a cabeleira do personagem, malhou bastante na academia para pegar um corpo escultural, começou também a usar diariamente botas, calças folgadas, jaqueta e um lenço vermelho na cabeça, sendo apelidado por alguns como “Rambú”.
Começou a fazer apresentações na sua rua, mostrando para a galera todos os golpes mortais que o Rambo fazia no cinema, além de exibir as armas (de brinquedos) confeccionadas por ele mesmo. Para ganhar a vida, ralou muito numa serralharia do bairro, mas, o seu sonho maior era fazer uma curta-metragem, mostrando em ação o Rambo na floresta amazônica. 
De tanto insistir, os seus colegas de rua começaram a preparar o filme, conseguiram verba junto aos comunitários e fizeram a filmagem “Rambo e a Princesa”- foi sucesso total no bairro de São Jorge, onde é muito querido pelas crianças e comunitários. Com o tempo, fizeram mais dois filmes - “Rambo Contras as Galeras” e “Rambo III: O Rapto do Jaraqui Dourado”, os filmes foram rodados em vários lugares de Manaus.
Contando com o apoio da Secretaria de Cultura do Amazonas, fez o quarto filme “A incrível História de Coti: O Rambo de São Jorge”, fazendo sucesso fora do Amazonas, saindo até no Fantástico, programa televisivo da toda poderosa Rede Globo.
O Rambo de Manaus faz o maior sucesso, sendo aplaudido aonde chega, fazendo apresentações em clubes, circos, programas de auditório, aniversários e confraternizações. Apesar de toda a seriedade nas suas performances, ele tem uma cara muito engraçada e, o seu corpo é uma arremedo do Rambo americano, o que provoca muitas gargalhadas do público.
O Michel Jackson não morreu, pelo menos em Manaus!
O Michel quando estava vivo, jamais imaginou que existia um cover seu, da melhor qualidade na Amazônia, pois bem, o nosso pop star da selva é de Parintins, no médio Rio Amazonas – aos catorze anos de idade veio de mala e cuia para Manaus.
Quando houve aquela explosão do sucesso com os álbuns “Off the Wall” (1979), “Thriller” (1982), “Bad” (1987) e “Dangerous” (1991), milhões de dólares foram arrecadados no mundo inteiro pelo cantor original e, muitos trocados de reais caem até hoje no chapéu do Wanilson de Souza Tavares, o nosso Michael Jackson Jaraqui de Manaus.
O cara começou a fazer sucesso no Calçadão da Ponta Negra, com apresentações diárias em frente ao anfiteatro daquele logradouro público. No final de cada show, as crianças corriam para pedir autógrafos e, ele se apressava na pisada, corria em disparada, alegando que já estava até o talo enrolado com menores de idade. Grande gozador!
O nosso cabocão possui o biótipo do original, o mesmo tamanho, o corpo franzino, o cabelo pixaim longo e alisado na chapinha, pele negra da época do “Thriller” e com o rosto antes das plásticas deformadoras, apenas os dentes que estão precisando de uma dentadura do tipo “sorriso de Hollywood”.
Quando ele se veste e, se transforma no Michael Jackson Jaraqui de Manaus, as crianças, os pais, os jovens e os velhos correm para ver aquela loucura se apresentando, com a famosa dança sensual e, andando nas nuvens, para frente e para trás - muitas gargalhadas, aplausos, filmagens, fotografias e, dinheiro no chapéu.
Ele é um profissional, ganha dinheiro com as suas apresentações nos lugares públicos, fazendo também shows onde é contratado, dizem que ele cobra trezentos paus de cachê. Com a morte do Michel Jackson, em junho de 2009, passou a fazer mais sucesso ainda, sendo muito aplaudido no Bar do Armando, na Praça do Relógio Municipal e no Largo de São Sebastião. Pouco tempo atrás, comprou uma motocicleta setentinha, uma caixa amplificada, um micro systen com muito CD pirata, o camarim portátil, uma grande bolsa contendo a indumentária do artista, microfones com fio, um pequeno banco, espelho, brilhantina, óculos escuros, lenços, etc. – fica tudo amarrado na moto, indo para vários lugares fazer as suas apresentações - somente em ver aquela figura passando pelas ruas de Manaus, muitos caem na gargalhada.
Picolé, picolé, sou eu, o Homem Aranha!
A cidade de Manaus é tão quente que urubu voa com uma asa e se abana com a outra! É isso mesmo, quarenta graus na sombra, com o maior consumo per capita de picolé do país.
Para matar a sede senegalesco dos manauaras, o que tem de picolezeiro na nossa cidade não é brincadeira! Para driblar a concorrência, o senhor Ney de Oliveira Valente, resolveu comprar um carrinho de picolé, um guarda-chuva, apito e, vender o seu produto vestido igualzinho ao Homem Aranha.
Já pensou um cara passar o dia todo vestido com aquela indumentaria, vendendo os seus picolés da massa, num calor de 40 graus, não é para qualquer um trabalhador, tem que ser um valente. Ele tem o mote “Picolé, picolé, sou eu, o Homem Aranha, velhos, crianças e adultos, picolé, picolé, de manhã e de tarde, de domingo a domingo, picolé, picolé, sou eu, o Homem Aranha!”.
Este senhor já foi vendedor de frutas, guaraná em pó e xarope, em Porto Velho; chegou a ser garimpeiro, onde houve uma desavença, tendo uma pequena perfuração na cabeça por bala de fogo, toma até hoje remédios controlados, porém, leva a vida numa boa, de bom humor, trabalhando normalmente, sendo muito festejado pelas crianças e adultos, apesar de ainda ser muito perseguido por pessoas que não entendem que ele utiliza aquela roupa como uma ferramenta de trabalho, de uma forma lúdica e diferenciada para vender os seus picolés.
Ele é um homem de bom coração, chega a doar boa parte dos seus picolés para as crianças carentes e, para quem não tem dinheiro, ele vende até fiado. Aos domingos a tarde, após um dia de labuta, ele gosta de frequentar a famosa “Casa do Terror”, na Lagoa Verde, uma casa de cheia de teias de aranhas, onde somente toca vinis e fitas cassete da melhor qualidade; gosta de curtir muito forró e boleros, dizem as mulheres que ele é um tremendo “pé de valsa”.
O cineasta Anderson Mendes fez um documentário de 20 minutos sobre O Picolé do Aranha, chegando a ganhar, em 2009, o melhor filme júri popular, do Amazonas Filme Festival.
Para conhecer mais esse grande brasileiro, basta acessar o site www.picoledoaranha.blogspot.com.

Tem mais figuras de Manaus, irei comentar brevemente. É isso ai.
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