sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O MEU VELHO E SURRADO PALETÓ


Mais um ano terminando, uma boa hora para fazer uma triagem nas roupas e quinquilharias guardadas ao longo do tempo; aproveitei a ociosidade forçada e, comecei a separar o que não iria mais usar, para dar um destino certo, pois sempre encontramos alguém mais necessitado que faça, com certeza, um bom uso do que já foi usado – o problema maior foi descartar o meu velho e surrado paletó, ele está puído com o tempo e não fica nada bem alguém utilizar uma indumentária usada e rasgada – pensando bem, vou ficar com ele até entrar no paletó de madeira, pois o danado tem muita história.
Fiquei a olhar o meu velho e surrado paletó, voltei ao túnel do tempo, lembrei muito bem do sufoco que passei para adquiri-lo. Sabe com é um mancebo de vinte e poucos anos, o tesão fica a mil por hora, não teve jeito, avancei o sinal vermelho, engravidei a minha namorada e, ainda muito jovem tive que casar. E agora, José? Para casar tem que ter um paletó!
Nem pensar em comprar um “paletot” nas lojas famosas da Avenida Eduardo Ribeiro (Palácio da Moda, Casa Nova e Brumel) ou mandar um alfaiate fazer um sob medida, estava fora das minhas parcas economias – pedi ajuda dos amigos, dos colegas universitários, dos vizinhos, dos parentes e aderentes e, nada! Ninguém tinha um paletó para me emprestar!
Duas semanas antes do meu casório forçado, fui ao enlace matrimonial de um colega de rua, o enforcamento dele foi na Igreja de São Sebastião, fiquei na expectativa, não do casamento, mas do seu paletó, o tamanho dava certinho no meu figurino - no final da recepção, fui salvo pelo gongo, consegui o empréstimo do paletó.
Uma semana após o meu casamento, o paletó tinha acabado de voltar de uma lavadeira (lavanderia, nem pensar!), quando foi requisitado por outro colega de rua, o caboco também estava com a namorada prenhe de três meses, fui solidário com ele, emprestei o paletó que estava emprestado de outro colega. O dito cujo já estava famoso, em menos de um mês já tinha servido para três casamentos. É mole ou quer mais?
O meu colega embarcou com o meu terno emprestado, o safado foi passar a lua de mel (ou de fel) em outra cidade, fiquei no maior sufoco, pois o dono começou a cobrar a devolução. Como não tinha avisado que ele estava emprestado para outra pessoa, inventei uma desculpa esfarrapada, ele não engoliu, exigiu a entrega de imediato do paletó ou pagamento do mesmo, não teve jeito, propus o pagamento em suaves prestações.
Depois de um ano do ocorrido, conversando com o meu irmão do meio, comentei sobre a confusão do paletó e o pagamento, foi quando tive a maior surpresa, ele falou que o paletó era dele. Mas como é possível?  O negócio foi o seguinte: ele foi procurado pelo nosso colega de rua para comprar a prazo (no carnê) o dito paletó na Loja Palácio da Moda, as parcelas venceram e não foram pagas e, ele teve que assumir o débito, pagando com juros e correção, dessa forma, o paletó não pertencia ao nossa colega, pois ele não pagou. Caramba! O cara usou o credito do meu irmão, não pagou e ainda me fez pagar novamente por ele.
Pois bem, o paletó ficou na naftalina guardando por mais três anos, quando foi utilizado novamente para receber o “meu canudo de papel” no Teatro Amazonas – voltou a brilhar e, posei para as fotos do álbum de família. Depois, voltou para o armário, saindo de lá somente para ocasiões formais.
Com o passar do tempo, ficou no esquecimento, guardado para o todo e sempre, as traças deram em cima dele - não tem como doa-lo, ele tem história e já falei para os meus filhos que, quando eu for morar na cidade dos pés juntos, eles devem me vestir com o meu velho e surrado paletó. É isso ai.   
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