terça-feira, 5 de maio de 2009

OS BOIS DE PANO DE MANAUS

Ao ouvir a canção “Garrote de Ouro”, umas das faixas do CD “O Lago das 7 Ilhas”, do músico amazonense Antônio Pereira, lembrei dos nossos boizinhos de pano. A cidade de Manaus nas décadas de 50, 60 e 70, possuía uma grande variedade de bois; a brincadeira era muito apreciada pela população. Os principais eram: Corre-Campo (São Francisco), Malhado (Praça 14), Mina de Ouro (não sei o bairro ), Tira Prosa (Santa Luzia), Campineiro (Glória), Luz de Guerra (Matinha), Brinco de Ouro (também não sei ), Rica Prenda (Praça 14) e Caprichoso (Praça 14).

A brincadeira era formada pelo Boi de Pano, Batucada do Boi (os surdos eram de couro de jibóia), Amo do Boi, Rapazes, Brincantes, Vaqueiros, Miolo do Boi, Índios, Pajé, Padre, Mãe Catirina e Pai Francisco. As apresentações eram feitos nos Currais, lugar de origem dos bois e, no Campo do General Osório e posteriormente na Bola da Suframa (Distrito Industrial), estes locais serviam para apresentação oficial, concorrendo aos prêmios do festival.

Lembro de um causo, narrado pelo compositor Afonso Toscano, foi mais ou menos assim: o miolo do boi do Garrote Luz de Guerra, do saudoso Maranhão, era um negão que trabalhava nos Correios, considerado o melhor de pedaço; num belo sábado quente de Manaus, “secou” todos os botecos da Matinha
, não se aguentava em pé, imaginem dançar embaixo do boi! Naquele dia, o boi iria se apresentar na Bola da Suframa, o miolo foi tratado com bastante água de coco, sucos, banhos de cacimba, sono reparador e Sal de Fruta Eno; melhorou bastante, dava para o gasto. Toda a turma foi à pé para o festival; no caminho, o negão começou a tomar umas batidas de maracujá, não deu outra: voltou o porre. Quando chegaram no local da apresentação, estava no palco o grupo folclórico "Tribo dos Andirás"; o miolo aproveitou o tempo de espera para tomar mais uns goles.

O Paulo Gilberto, eterno apresentador do festival, fez a chamada: EEE aaagoora com vooocês, é ele, é ele, é elê, ooo Gaarrrrooote Luuuuzzz de Gueeeerrrra! Fogos estourando, a noite virando dia, tambores rufando e a galera delirando! Todos os componentes subiram a rampa do Tablado, que era feito de madeira, na forma cilíndrica e com três metros de altura; o miolo foi ajudado pelos colegas, ficou bem no meio da arena, não conseguiu manter o boi em pé, resolveu dormir embaixo do boi, em plena apresentação. O Amo do Boi foi acordá-lo - deu umas bicudas no boi e gritou: - Acorda negão, acorda negão! Movimenta! Gira! Dança! Porra! Faz alguma coisa caralho! O negão se levantou, girou com o boi e correu direto, passou do Tablado, voou uns três metros e meio, foi direto para o chão! Foi "caco" de boi e do negão para todos os lados! Passou a ser chamado de “O Primeiro Boi Voador de Manaus!”

O Brilhante (São José), Garanhão (Educandos) e Corre-Campo (São Francisco) aderiram a “batida” e a megalomania dos bois de Parintins; disputam, atualmente, na arena do Centro Cultural dos Povos da Amazônia. Saudades dos boizinhos de pano de Manaus, do Estádio General Osório e do Tablado da Bola da Suframa!
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