sábado, 25 de agosto de 2012

“EL CAMINO” É APENAS UM CAMINHO PARA VOCÊ COMPREENDER LOGO



 Acredito que a grande maioria dos nossos leitores não entendeu o título da nossa postagem, mas, para aquelas pessoas que curtiram a juventude da minha época, ao ver a fotografia do automóvel, sabem perfeitamente que ela possui sentido, na realidade, trata-se de um automóvel utilitário, que fez muito sucesso na cidade de Manaus, nas décadas de setenta e oitenta.


A empresa Braga Veículos & Companhia, pertencia aos irmãos João, Carlos e Ernesto Braga, eles foram os pioneiros na revenda de automóveis da fábrica General Motors, uma empresa norte-americana fabricante dos veículos da marca Chevrolet.






Alguns brasileiros ainda lembram muito bem da declaração do Color de Mello, presidente do Brasil de 1990 a 1992, ao afirmar que, os carros fabricados no Brasil não passavam de uma carroça (comparando-os a um carro com tração animal, para o transporte de cargas e passageiros), pois, desejoso de abrir o mercado para o exterior, batia de frente com a indústria automobilística brasileira, atrasada “no balde” tecnologicamente (o Chevette passou vinte anos no mercado, praticamente, sem nada a agregar).

Com o advento da Zona Franca de Manaus, a nossa cidade começou a gozar de alguns benefícios fiscais que, nenhuma cidade brasileira tinha, tanto que era possível importar automóveis utilitários com a suspensão do recolhimento dos tributos federais, deixando o resto dos brasileiros babando de raiva das nossas regalias e, ainda babam até hoje, com certeza.

A firma Braga Veículos resolveu importar diversas marcas (Malibu, Monte Carlos e El Camino), diretamente da fábrica nos Estados Unidos, mas, o que mais fez sucesso e marcou toda uma geração, foi o famoso “El Camino” – para quem não sabe, ele era um automóvel utilizado pelos ianques em suas fazendas, para o transporte de diversos produtos da área rural, enquanto, em Manaus, dava status para os bacanas da alta sociedade, pois, os carros brasileiros de passageiros não chegavam nem aos pés dos utilitários americanos.

O “El Camino” tinha as seguintes características: Produção: 1959-1960 – 1964-1987 / Carroceria: Picape / Motor: 3.9 6cc, 4.6 V8, 5.7 V8 / Caixa de velocidades: 2, 3 ou 4.

Existiam várias versões, do mais simples ao luxuoso, porém, o mais bonito e charmoso existente em Manaus, o considerado “top”, o numero um das paradas de sucesso, era um modelo que ficava estacionado, nos finais de semana, bem em frente ao “Ideal Clube”, um clube da elite manauara, situado na Avenida Eduardo Ribeiro – acho que o referido carrão pertencia a algum diretor ou ao presidente do clube – deve estar guardado, como relíquia, na garagem de algum empresário.

Para quem não sabe, os irmãos Braga foram e, ainda são, grandes empreendedores, com o João na liderança, ele foi um político atuante, chegando a ser Senador da República, enquanto o do meio, o Carlos, foi um grande administrador e estrategista das empresas do grupo, ele é o pai do Senador Eduardo Braga – o Ernesto era pau para todas as obras nas empresas, comandava a parte de serviços e venda de peças de tratores da marca Komatsu, ele é o pai do Rodolpho Braga, dono das Pizzarias Splash. – foram os meus patrões nas “Lojas Populares” (atual Supermercado DB, da Avenida Eduardo Ribeiro) e “Máquinas Pesadas” (atual Parintins Veículos, da Avenida Djalma Batista), 

Certa vez, chegou à nossa loja, um jovem empresário paulista, ele tinha acabado de comprar um “El Camino”  usado e, foi conversar com o Senhor Ernesto Braga, para conseguir a documentação de importação do veículo (Guia de Importação, Invoice e Declaração de Importação), para poder liberar na Alfândega de Manaus, pois a legislação permitia, naquele tempo, a internação (saída para outras unidades da federação), sem recolhimento dos tributos (Imposto de Importação e IPI), dos produtos importados com mais de cinco anos.

Fui incumbido de procurar no “arquivo morto” tais documentos, passei três dias “desenterrando defunto” – o paulista ficou na minha cola, prometendo uma gorda gorjeta para eu encontrar com rapidez os documentos. Levei a documentação para o meu chefe, ele pediu para ir até a Braga Veículos, na Avenida Ramos Ferreira, mandou o paulista levar o carro para conferir se batia a série do carro com os documentos – deu tudo certo.

Na volta para a loja do centro, o paulista me deu uma carona, recebi a gorjeta prometida e, ainda me prometeu dar mais ou menos uns mil reais (no valor atual), caso eu descobrisse onde ficava a antena do carro – passei mais de vinte minutos procurando e, nada! Por incrível que pareça, isso já faz mais de trinta anos e, a antena já vinha instalada dentro do vidro para-brisas, como é que eu iria saber, pois as nossas “carroças”, digo veículos, tinham a antena externa e ainda não eram automáticas.

No caminho, com a baba no bolso, estava mais alegre do que pinto no merdeiro, quando sem ao menos esperar, o paulista disparou: - Rocha, toma mais duzentas pilas, mas, me faz uma favor, aquele teu chefe escroto, ele me deu a maior canseira da vida, fala que eu o mandei para a PQP!  Respondi: - Tu és doido, o cara é brabo, se eu falar isto, ele vai te caçar até na balsa da transportadora e o teu carro vai ficar preso eternamente, além do mais, ele vai dar a minha conta, eu posso ser leso, mas, não sou doido! Ele fez a réplica: - Então, dá um “cotoco” pelas costas dele! Claro que eu não fiz isso e, jamais faria uma coisa dessas! Eu hein!

Brincadeiras a parte, o “El Camino” parecia uma balsa e era beberão de gasosa, uma pura refinaria, mas, tinha tecnologia de montão e transbordava charme, sendo desejado por muitos neguinhos da minha cidade e do meu Brasil varonil – ele era apenas “um caminho para você compreender logo” (esta era a frase constante nos comerciais do veículo)! É isso ai.


Fotografias em preto em branco: reprodução de jornais antigos, sendo a terceira, do fotografo Amaranto (aparecem da esquerda para a direita, o João Braga Junior, a Maria de Lourdes Archer Pinto e o Ernesto Braga, na data do seu aniversário) 
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