segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A EXPLOSÃO DA CALDEIRA DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE MANAUS.



Passados quarenta anos, ainda hoje é comentado este trágico acontecimento na cidade de Manaus, com os mais jovens desejosos de saber o motivo da mudança do nome do “Bar Nossa Senhora dos Milagres” para “Bar Caldeira” e, a pedido do novo proprietário desse tradicional estabelecimento, o Senhor Carbajal, efetuei pesquisas em diversos jornais antigos, demandando três semanas de intensas buscas, pois as datas relatadas pelos antigos donos, frequentadores  do bar e moradores do entorno, todas eram controversas.

No dia 14 de Janeiro de 1970, numa quarta-feira fatídica, batiam os sinos da Igreja de São Sebastião, eram exatamente 10 horas de manhã, quando houve a primeira explosão, com um barulho ensurdecedor, todos os moradores das Ruas José Clemente e Lobo D’Amada correram para as janelas de suas casas, viram voando pedras e destroços por todos os lados e, achavam que era um terremoto.

Dois minutos depois, houve a segunda explosão, jogando pelos ares fragmentos de corpos e uma enxurrada de pedras, abrindo fendas na parede onde estava a caldeira, por uma delas, foram jogadas duas pessoas, uma estava sem a cabeça e, a outra, sem os braços e as pernas.

A terceira explosão foi mais forte, chegando a tremer o Tribunal de Justiça, o Quartel do Comando Militar da Amazônia, a Gráfica Rex e dezenas de casas da José Clemente, Lobo D’Almada e Dez de Julho.

Uma pedra caiu dentro do pátio do Comando Militar da Amazônia (atual Colégio Militar), uma parte da caldeira, pesando quase oitenta quilos, caiu dentro de casa de numero 451, quebrando a parede e destruído parcialmente o telhado, além de quebrar quase todas as vidraças das casas do entorno.

Os primeiros a prestar socorros foram os militares que faziam exercícios no Campo do General Osório – com as ordens do Capitão Costa, tiraram as pedras e escombros que estavam em cima do Arsênio Pereira de Matos, porém, não resistiu aos ferimentos, vindo a falecer na entrada do Pronto Socorro São José.

No total foram três mortos e quinze feridos – além do Arsênio, faleceram Benjamin Silva dos Anjos e Lindalva Ferreira Lima e, entres os feridos, estavam Jovelina da Silva Almeida, Teresa Barbosa de Souza, Lilian Alves do Nascimento, Edvige Alves Saraiva, Raimunda Tavares Santos e Augenira de Souza, o menor Fausto Araújo e outras crianças que brincavam de bola na calçada do hospital pela Rua José Clemente.

O acidente foi tão grave que, estivem no lugar várias autoridades para prestar apoio e solidariedades às vitimas e familiares, ente eles, o governador Danilo Areosa, o Prefeito Paulo Pinto Nery e vários oficiais da Policia Militar.


O Benjamin Silva, era foguista da caldeira e, dias antes da acontecer a explosão, fez a seguinte declaração para a sua esposa, de seus receios “Estou pensando naquela caldeira. Ela está velha demais e só vive furando, não adianta consertar que ela fura de novo. Eu já falei que ela não aguenta mais”.

Segundo os peritos que estiveram no local, a causa do acidente foi a super pressão no interior da caldeira, em decorrência do entupimento da válvula de escape e o excesso de lenhas colocadas pelos foguistas.

Os senhores João Martins da Silva, Newton Aguiar e José Ribeiro Soares, do Conselho Deliberativo da Santa Casa, explicaram que a caldeira estava em boas condições de funcionamento, sendo recondicionada, em 1968, pela firma Souza Pinto, na qual fizeram um teste de pressão de 200 libras – culpando os funcionários por erros ou descuidos na manobra dos controles.

Agora que já sabemos da história, está explicado o porquê do nome “Bar Caldeira”, pois naquele ano, ele se chamava “Bar Nossa Senhora dos Milagres” e, por um milagre, nenhum boêmio foi atingido pelos destroços da explosão da caldeira do Hospital da Santa Casa de Misericórdia.

Passados todos esses anos, será instituído, doravante,  “O Dia do Caldeira’s Bar”, exatamente no dia 14 de Janeiro, por sinal, o mesmo dia dos festejos do bairro da 14 – aliás, o dono do estabelecimento não deseja de forma alguma relembrar aquele dia fatídico, mas, a data em que houve a mudança do nome do bar.

Agradecimentos: Esta postagem não seria feita, caso não houvesse a colaboração dos funcionários do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA); do Raimundo Nonato Braga, do Centro Cultural Povos da Amazônia (CCPA) e, principalmente, do Charles Costa e Wilson Cruz Lira, da Biblioteca Pública do Estado Amazonas (apesar de estar fechada ao público, eles não mediram esforços para encontrar os jornais que continham a matéria).

Fontes: Jornal do Commercio e Jornal A Critica, edição de 15 de Janeiro de 1970.
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