quinta-feira, 2 de agosto de 2012

ARMANDO LUCENA, O PERSISTENTE.


Ao passar pela antiga Praça da Polícia, parei na banca de sebo “O Alienista”, pertencente ao meu amigo Lê, ao entrar, encontrei o poeta Marceleudo – ele toma conta do espaço pela parte da manhã – passei uma vista pelos livros, encontrei desde tratados da área de saúde, até livros de apenas dois reais, nestes tive mais interesse, pois a firma está trincada – para minha surpresa, encontrei o livro “No Trilho do Tempo – Memórias”, do Armando Lucena, um guerreiro, conhecido como “O Persistente”.

Passei o resto da tarde lendo o livro, entrei pela noite, adormeci agarrado com ele e, ao acordar, comecei a lê-lo novamente, terminando horas depois – é um tipo de obra literária que a pessoa sente o prazer em passar pelas suas páginas, indo do inicio ao fim, sem parar.

Foi registrado como Armando de Paula Lucena, nasceu em 17 de Dezembro de 1921 e, se considerava um paraibano (por ascendência), nascido em Roraima e manauara de coração, pois veio para essas plagas aos 35 anos de idade e, nunca mais deixou a nossa cidade, somente indo para a sua querida Roraima, em férias, para fazer pesquisas e rever parentes e amigos.

Na minha juventude, lembro muito bem da figura do Armando Lucena, um respeitado motorista de taxi, um senhor que sempre estava envolto na política partidária e, vez e outra, o encontrava distribuindo um tabloide (formato de meio jornal) denominado “O Volante”.

O apelido de “O Persistente” tem tudo a ver com a sua vida, pois tentou de tudo para sobreviver e criar a sua família, tendo decepções uma atrás da outra – tentou, tentou e, tentou, nunca desistindo dos seus sonhos, isto o marcou por toda a sua vida.

Ainda muito pequeno foi trabalhar na roça, para ajudar a mãe e os irmãos, pois perdeu precocemente o seu pai – estudou muito pouco na escola, mas, tornou-se autodidata, sendo um devorador de livros – tentou trabalhos em fazendas de gados, não se adaptou, preferiu ser garimpeiro, profissão que tomou boa parte da sua vida, mas, nunca “bamburrou” – foi Cabo do exército brasileiro, construtor de escolas, patrão de garimpo, comerciante e dono de olaria - tudo o que ele tentava fazer, dava errado, ficou desgostoso, porém, nunca desistiu de começar tudo de novo.

Casou por procuração e, veio para o Amazonas, indo trabalhar nas perfurações de petróleo em Nova Olinda do Norte, depois, foi para o Maranhão, trabalhando durante nove anos na companhia petrolífera - foi também um atuante sindicalista, chegando ao posto de Delegado Sindical – o que lhe custou a sua demissão da Petrobras, na Revolução de 1964.

Passou o maior sufoco na vida para sustentar a família, teve que ser motorista de taxi por mais de vinte anos – um dia, aconteceu um sério acidente automobilístico, causado por um carro oficial, passando por uma longa e lenta recuperação e, foi obrigado a ficar mais de um ano sem trabalhar, pois o Estado negava-se a pagar-lhe o prejuízo total do seu fusca ZA-3306 – ao publicar no jornal “A Crítica” uma longa carta em que narrava todo o acontecido, o governo rapidinho deu-lhe um taxi novo, mas, não pagou os lucros cessantes (por um ano parado, sem trabalhar na praça).

Foi um dos fundadores do “Projeto Jaraqui”, junto com o Frederico Arruda e o pessoal do INPA e da UA; militou na MDB (atual PMDB), onde foi candidato duas vazes a vereador. Influenciado pelo Brizola, mudou para o PDT, onde foi novamente candidato, depois, filiou-se ao PSDB, sendo candidato por duas vezes e, ficou decepcionado, partindo para o PPS, onde foi, novamente, candidato -, por fim, foi parar no PT e, por ser persistente, foi novamente, candidato – perdeu todas as eleições, por ser honesto e, algumas vezes, ingênuo, mas, sempre levando a bandeira da honra, da ética e do amor a nossa cidade e a sua pátria.

O homem tinha muito folego, escreveu os seguintes livros: O Varadouro da Morte, 1981 – Carta Aberta, 1995 – O Brasil, 1995 – O Taxista, 1995 – O Povo no Poder, 1996 – O Grito, 1996 – No Trilho do Tempo, 2002 – com relação a este último livro, o Armando Lucena já estava com 82 anos de idade, com direito a 2ª. Edição em 2005. Foi também da "Ordem Maçônica Glória do Ocidente", situada na Rua Silva Ramos, 305.

Depois de muitos anos, foi alertado pelos seus companheiros que tinha direito à aposentadora, retorno à Empresa e até uma indenização; peregrinou por Belém, Rio de Janeiro e Brasília, conseguindo ser anistiado e, em 1990, ele já estava com 70 anos de idade, o INSS reconheceu os seus direitos, e a seguir a própria Petrobrás, conquistando a sua merecida aposentadoria, porém, perdendo outras vantagens.

Através de uma propositura do vereador Francisco Praciano (PT), em 2003, o Armando Lucena recebeu a Medalha de Ouro Cidade de Manaus – recebeu também a Medalha Ordem ao Mérito Legislativo do Estado do Amazonas, por indicação do Deputado Estadual Sinésio Campos (PT).

No dia 6 de Dezembro de 2007, a cidade de Manaus perdeu o Armando Lucena – no Senado Federal, o Arthur Virgílio Filho fez uma homenagem póstuma “Manaus perdeu um dos seus políticos mais queridos e populares. Não por sua densidade eleitoral, mas, como assinalou Alessandro Malveira, no jornal A Crítica, “certamente pela retidão, espírito público e disposição para a luta”. Seu filho, também Armando Lucena, assinalou que ele “viveu sempre pelo benefício dos seus semelhantes, lutou sempre para melhorar as coisas, não apenas para ele, mas para todos”. Foi sempre, sobretudo, um idealista. Ainda acreditava numa sociedade solidária. Pela contribuição que deu ao exercício da política com correção e seriedade, ele faz jus à homenagem póstuma que ora proponho”.

Quem desejar conhecer mais este senhor, basta o ler o seu livro de memórias “No Trilho do Tempo” – ele é pai do cantor e compositor roraimense/amazonense Armando de Paula – a sua filha mais velha, a Janel Parga, administra o “Clube do Livro”, na antiga residência do Armando Lucena, na Avenida Codajás, 546, bairro de Cachoeirinha.

Este figura ficou para a história, parabéns ao Armando Lucena, O Persistente! É isso ai. 
Postar um comentário