quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

UMA ANTÍFONA PARA MANAUS


Fco. De Salles Pantoja Evangelista

Quem te maquiou? Não Importa!
Disseram-me que estais muito diferente:
Mais formosa, produzida e atraente.
Que até as “famílias antigas” não vão mais às ruas,
Que o perigo ronda! Que és “Taiwan és Singapura”.

Para mim, serás sempre meu “Porto de Lenha”:
Com o apito lânguido dos “gaiolas” de antanho,
Com o badalar dos sinos do campanário da Matriz
E o andar apressado das beatas empertigando o nariz.

Ainda ouço o toque de recolher (do clarim) do cabo Calazans
O apito estridente da caldeira da Santa Casa,
Os sons afinadíssimos da “Banda Militar”,
E a voz de mãe tocando a meninada para rezar.
MANAUS, NINGUÉM PODE TUA “CARA” MUDAR!

Não te vejo sem o teu “Plano Inclinado”,
Sem teu “pequeno seringal”,
Sem teu “Ferro de Engomar”, sem teus igarapés,
Sem tuas pontes, sem suas catraias,
Sem tuas quermesses e tuas catedrais.
MANAUS, TERRA DOS CASTANHAIS.

Tu não és passado, saudade e nem recordação;
Tu és o meu AQUI e AGORA (o que fostes e o que serás)
Tu és o meu presente o meu alumbramento;
És sim, a minha oração
Ali estão a passar: bondes, carroças e todos os pregões:
- Olha o Pajurá de racha!
- Olha o peixe fresco!
- Leiteiro!
- Verdureiro!
Lá, vai o Felipe Geleiro!
Ainda é morna, a brisa que sopra do Rodoway
Achando as madeixas das ninfetas e cunhãs.
MANAUS, TERRA DOS TUCUMÃS!

Posso ouvir também o roncar das marcenarias
Trabalhando madeiras de lei,
Extraídas sem lei, transformadas em artefatos
E, exportadas para além-mar.
O que fizeram contigo? Por que te mutilaram?
Onde estão teus Bares? E os teus Bailes?
Onde esconderam tuas figuras populares:
O “Macaxeira”, o “Sapo”, o “Matá-Matá” e o “Cangurú”?
MANAUS, TERRA DO CUPUAÇÚ!

O Mulateiro de tua nobre praça
Guarda lembranças eternas de teus poetas e menestréis.
Sinto cheiro de peixe frito em cada uma de tuas esquinas:
Nos Barés, Bocaiuva, Santa Cruz e Andradas...
MANAUS, TERRA DAS PEIXADAS.

Essa nova maquiagem não condiz contigo,
Acabaram com as tuas quermesses, nada é mais como antes,
Nem mais existe a voz rachada do “bigode cantante”
“Angustia de non tener-te a ti,
Notalgia, de non escutar tua voz”
Sinto tua presença, Manaus, em tudo o que faço:
Nos meus versos de “pé quebrado” e até mesmo
Nas modinhas que nunca cantei;
Meu paladar te deglute,
Meu olhar te enamora,
Meus ouvidos atendem as tuas suplicas
Minhas narinas sentem cheiro de terra molhada.
MANAUS, TERRA ENCANTADA.

Quem te destruiu é um ingênuo é um insensato,
Não sabe ele que teu cheiro é feminino,
Que fostes feita para andar descalça
Que teu olhar se perde na fumaça
Que vem das queimadas dos teus seringais.
É POR ISSO MANAUS, É POR ISSO...
EU NÃO TE ESQUEÇO, JAMAIS!

O De Salles é um grande poeta, foi premiado no dia 29 de Dezembro de 2010, pela Academia Amazonense de Letras. A Antífona (= em sua evolução, aproxima-se hoje da cantata, uma composição poética para ser cantada) acima, foi a grande vencedora da A.A.L., do concurso "Manaus e Poesia". Segundo ele, a sua inspiração vem até a sua mente através dos seus arquétipos (modelo de seres criados).

Nasceu em Manaus, na Rua Lobo D’Almada, 381, próximo ao Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Na sua antiga casa, da década de 40, ainda moram os seus dois irmãos gêmeos, o Inácio (artista plástico) e o Vicente Evangelista (professor). O seus pais chamavam-se Waldemar Barbosa Evangelista ( Engenheiro Agrônomo e Diretor do Ministério da Agricultura) e Dona Dalila Pantoja Evangelista.

O nosso poeta é uma pessoa de largos conhecimentos, fez diversas faculdades e cursos pelo Brasil afora. Recentemente, aos 70 anos de idade, passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil, na cidade de Santarém, no Pará, onde reside faz muitos anos. O seu sonho é voltar com a família para a sua amada Manaus, pretende morar com o seu irmão querido, o famoso artista plástico Inácio Evangelista, bem como, advogar de forma benévola para os pobres e oprimidos da nossa cidade. Parabéns ao De Salles! É isso ai.

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