segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

CANTO DO FUXICO

O termo fuxico pode ser traduzido como intriga, mexerico ou futrica, simplesmente, entende-se como “falar mal da vida alheia”, agora, soma-se a isso, um canto de duas importantes ruas de uma cidade pacata, onde as pessoas, principalmente, os homens, se reúnem nos finais de expediente de trabalho, para jogar conversa fora, formando o “point” dos fuxiqueiros.

Pois é, mano velho, este local ideal para colocar a conversa em dia, existia em Manaus, nas décadas de 50 a 80, ficava exatamente na esquina da Rua Henrique Martins com a mais charmosa avenida da nossa cidade, a famosa Avenida Eduardo Ribeiro. Era o local preferido pelos aposentados, estudantes de nível superior, políticos, jornalistas, desempregados e trabalhadores do comércio.

Não participei das rodadas que se formavam naquele entorno, pois ainda era muito jovem, porém, gostava de passar por lá e ficava observando aquele monte de pessoas conversando, muitos falavam em voz alta, formavam grupinhos, comentavam sobre assuntos diversos: política, futebol, mulheres, saúde, notícias dos jornais, o dia-a-dia da cidade e, principalmente, da vida dos outros.

Após secar a garganta de tanto de conversarem, muitos deles se dirigiam para uma famosa lanchonete, ficava no térreo de um prédio onde abrigava os escritórios da empresa de aviação “Varig-Cruzeiro”, a grande maioria gostava de tomar o famoso café com leite (pingado) e fumar cigarros Gaivota e Minister; muitos gostavam de ler os jornais e comentar sobre as notícias do dia; outros, se dirigiam para a Livraria Universal ou para as Lojas Capri, tudo girava por lá.

Eu tinha um professor universitário, ele era também advogado, contava que após sair de uma audiência no Tribunal de Justiça, na Avenida Eduardo Ribeiro, reunia-se com outros colegas de profissão, espalhavam uma pequena mentira bem em frente ao Ideal Clube, davam um tempo e, depois se deslocavam para o Canto do Fuxico, chegando lá, a lorota já tinha tomado pernas, fora passada de “boca a boca”, a famosa “Rádio Cipó”, com as mais diversas versões, das mais fantasiosas possíveis. Ele e os amigos achavam bastante graça dos fuxiqueiros de plantão e, começavam tudo de novo, no dia seguinte.

O tempo é cruel, o progresso também! Tudo tem o seu fim, ficando somente as lembranças e, nada mais! O local está descaracterizado, os camelôs tomaram conta do pedaço, as pessoas passam correndo, não param mais para conversar, o tempo é outro, o medo da violência impera. Hoje, existem as “Salas de Pate-Papo”, o e-mail, o Orkut, o Facebook, o Twetter, o Mensager e outros meios eletrônicos de “fuxicagens” virtuais. Apesar disso, ainda encontro poucas pessoas conversando na Praça Helidoro Balbi (antiga Praça da Polícia) e no Largo de São Sebastião – dois lugares revitalizados e com segurança 24 horas.

Com a revitalização do centro antigo de Manaus, prometido pelas autoridades, tendo em vista a Copa do Mundo de 2014, quem sabe as pessoas poderão voltar a conversar e futricar no “Canto do Fuxico”! É isso ai.

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