terça-feira, 11 de janeiro de 2011

INTÉRPRETES DE APARIÇÃO DO CLOWN

O padre-poeta Luiz Augusto de Lima Ruas escreveu um livro poema, intitulado “Aparição do Clown”, publicado em Manaus, por Sérgio Cardoso Editora, em 1959.

Considerada por muitos, como uma das obras mais importante da literatura amazonense. Para os leigos entenderem o que o ilustre poeta escreveu, o pesquisador Roberto Mendonça, conseguiu reunir uma gama muito grande de material publicado nos jornais antigos sobre o poema, organizou em 2010 o livro “Intérpretes de Aparição do Clow”, pela “Realce Editora”, de Fortaleza.

Contou com a seguinte contribuição:

Elson Farias – O livro de Ruas – “A intenção de Roberto Mendonça foi atendida. Mostrou que o poema Aparição do Clown de L. Rua ao ser visto de vários ângulos afunilou o olhar na síntese de uma única imagem. A imagem do poeta é como se fosse um diálogo insistente estabelecido com ele próprio. O mais é o surto do processo criador que a obra de arte propicia. Lembra-me de uma lição que me repassara o amigo Ruas, em nossas andanças pelas noites de Manaus. Como falávamos de Charles Chaplin e Artur Rimbaud, concluiu ele com seu jeito de ser claro e simples: Chaplin e Rimbaud era gêmios e um gênio não se analisa, sobre um gênio se cria. Ele estava coberto de razão. Sobre Aparição do clown se cria”.

André Araújo – Interpretação do clown – “Aparição do clown do padre Ruas é um poema místico, filosófico, cujos símbolos se multiplicam em cada verso, em cada trecho do poema admirável, rico em idéias e em palavras. O sempiterno clown aparece ao luar, num céu e chão azuis. Uma boneca. Riso e pranto, porque “o destino dos palhaços é fundir à luz da lua, o alegre riso e o triste pranto”. O palhaço é aqui um mistério na poética do padre Luiz Ruas, quando Ruas interroga: onde está tua face palhaço? No riso, no pranto, na dor. A luz da ribalta, a música, os guizos, trapézio são faces da velha máscara. O que o padre Luiz Ruas procura é a face verdadeira, a que se parte, desse palhaço eterno que é o homem em si, artista, músico ou dançarino”.

Padre Raimundo Nonato Pinheiro – Aparição do clown – “O palhaço tem sido objeto de numerosos estudos através dos tempos. Muitos zombaram dessa figura estranha, encarnação viva do disfarce. A verdade é que o palhaço também zomba, muitas vezes, dos espectadores. Lembro-me de uma cena num dos palcos de França. Toda a representação do palhaço consistia numa longa e saborosa gargalhada. O teatro repleto. O palhaço ria, ria a bandeiras despregadas, e no fim elucidou a longa gargalhada. “Vocês pagam para ver um palhaço no palco; eu recebo para ver mil palhaços na platéia, nas frisas, nos camarotes e nas arquibancadas...” A verdade verdadeira é que só descobrimos o “clown” nos outros, e nunca em nós mesmos. O autor veio renovar o eterno tema do destino do palhaço, que é sempre “fundir o alegre riso e o triste pranto”. O padre Luiz Ruas, com a argúcia de seu espírito perquiridor e a opulência de sua imaginação de poeta produziu um poema magnífico, onde há lances de rara sensibilidade e descrições de faiscante colorido”.


Tenório Telles – A poesia como metáfora do sagrado – “O poeta L. Ruas marca a sua estréia literária com a publicação de uma das obras mais importantes da literatura amazonense. Trata-se de Aparição do clown, um inquietante livro de poesia. Sim, de poesia, pois trata-se de um único poema, desdobrado em várias sequências. Alias, as várias sequências do poema são a chave da sua compreensão. Ao analisarmos a estrutura, percebemos se tratar de um roteiro de iniciação aos mistérios insondáveis da existência. Expressão de suas preocupações místicas, o livro reproduz simbolicamente o itinerário de Cristo na Terra, a promessa de redenção do mundo; a busca do homem, um palhaço no palco da vida, à procura de sua verdadeira face, sua tentativa de reencontro com o divino, o sagrado”

Rogel Samuel – Pássaro em vôo – “Ruas nasceu em Manaus em 1931. Com 11 anos entra no seminário (em Fortaleza e Rio de Janeiro), depois volta para Manaus onde era “pároco, professor, jornalista, crítico de cinema e poeta. Principalmente foi ele um dos maiores poetas deste Brasil e um dos mais desconhecidos. O mito que nasce da descoberta é o de Narciso. E o de Eros e a Psique. A descoberta do clown é a descoberta de si. O ver-se no espelho da face do outro levanta desde logo a questão reflexa do igual, que se recolhe no largo. O corpo do outro recolhe o meu mesmo, transforma-se, o seu corpo de barro, seu corpo de estrelas, entre o céu e o chão se fundem o alegre riso e o triste pranto. O tempo é de metamorfose no lago da lua, tempo mítico do luar. E a referência é da Metamorfose, de Ovídio, mas com a lua cheia e o lago, espelhada face onde aparece: um anti-Narciso. Seu corpo é um demônio, um sedutor demoníaco, corpo de chafariz (de esperma) e de terra (de barro). A feminidade pansexual do velho clown se contagia da boneca que ele beija”.

Jorge Tufic – Sobre Aparição do clown – “Esse ponto longínquo de nossa vida, o janeiro de 1959, se constitui num dos mais altos da literatura amazonense, em particular do movimento Madrugada. L. Ruas tal como assinava os seus livros, artigos e crônicas, surpreende a todos com este seu longo poema, ao mesmo tempo estranho e revolucionário, mas no fundo mesmo uma projeção corajosa da personalidade do autor. Considero a Aparição do clown uma batalha entre a cruz, como dever a Deus, e a liberdade, como dever e à poesia. Uma forma terrena e divina de conciliação dos extremos, mas onde, graças à poesia, os extremos também desaparecem, enquanto libertam. Meu testemunho sobre L. Ruas abrange esse largo período de nossa existência, que vai da fundação do Clube da Madrugada, em novembro de 1954; atravessa os anos selvagens da ditadura militar; sangra nos tempos em que o poeta esteve longe de nosso convívio; termina com o seu falecimento e a minha transferência domiciliar de Manaus para Fortaleza. Foram memoráveis os nossos encontros de final de semana! Memoráveis os seus discursos ao pé do mulateiro, na Praça da Polícia Militar! Memoráveis as missas que celebrava! E os porres, também, com muita dignidade!”.



Roberto Mendonça – Amazonense, nasceu em Manaus (AM), passou pelo Seminário São José de Manaus, mas terminou a vida profissional na Polícia Militar do Estado. Aposentado, resolveu caçar notas e fatos jornalísticos em páginas amareladas. Pertence ao Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, desde 1994.

André Vidal de Araújo (1905-1975) – Pernambucano, mas educado em Manaus, onde fez carreira no judiciário. Juiz de Menores por anos, encerrou sua atividade judicante como desembargador. Também exerceu o magistério em faculdades e colégios da cidade. Na condição de líder católico, representava o laicato com firmeza. Amigo do padre Luiz Ruas, prefaciou o poema Aparição do Clown.

Padre Raimundo Nonato Pinheiro (1922-1994) – Era sacerdote secular do Amazonas, colega do padre Luiz Ruas, de quem fora professor no Seminário. Homem de vasto saber, escritor de competência. Sua produção literária encontra-se espalhada por todos os jornais de Manaus. É autor de Com João da Matta, biografia (1956).

Tenório Telles (1963) – É professor de Literatura Brasileira, ensaísta, autor do CD-ROM O Amazonas em sua literatura (1996) e da peça Derrota do Mito (1997), entre outros. É coordenador editorial da Editora Valer, que já efetuou um número respeitável de publicações. E ainda atua como conferencista e articulador de movimentos culturais na capital e interior.

Rogel Samuel (1943) – Nascido em Manaus, completou os estudos superiores na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nela exerceu o magistério por anos, até sua aposentadoria. Também foi professor na UFAM. É contista e ensaísta, e também poeta. Explora com assiduidade e muita presteza o espaço da web.

Jorge Tufic (1930) – Nasceu em Sena Madureira (AC), veio para Manaus, onde participou da fundação do Clube da Madrugada (1954) e do qual foi presidente. Autor consagrado de diversos livros em prosa e verso, vários deles premiados, hoje reside em Fortaleza (CE). É também autor da letra do Hino do Amazonas.


Luiz Augusto de Lima Ruas (1931-2000), que adotou o nome literário de L. Ruas, nasceu em Manaus e aqui faleceu, estando sepultado no cemitério de São João. Foi transferido para o Seminário da Prainha, em Fortaleza (CE), ali, a partir de 1949, estudou filosofia. Em 1952, desembarca na Capital Federal para, no Seminário do Rio Comprido, seguir os estudos eclesiásticos. Em razão da instalação aqui do seminário maior, por obra de dom Alberto Ramos (1949-58), Ruas retorna a Manaus, onde conclui seus estudos. No ano seguinte, em 31 de outubro, recebe o sacramento da Ordem. O ano de 1954 viu nascer, além do padre Ruas, a Rádio Rio Mar; o Instituto Christus, hoje CIEC, e o Clube da Madrugada. Em todas essas organizações, Ruas atuou de forma competente. Tão logo retornou a Manaus, Ruas iniciou-se no jornalismo. Sua primeira colaboração ocorreu no Universal, jornal dominical editado pela Igreja Católica. Afastado do semanário católico, por seu colega Orígenes Martins, foi apresentado ao fundador de A Crítica, Umberto Calderaro. Este prontamente aceitou a colaboração do padre, que passou a escrever uma coluna (quase diária) Ronda dos Fatos, (entre 1957-58), quando consagra seu nome literário. Escreveu ainda para O Jornal, no Suplemento do Clube da Madruga, mas ainda se encontra publicações suas no Jornal do Commercio, Diário Oficial e Jornal Cultura. Parou de escrever quando foi atingido por um grave AVC (1992), que o levou à morte. Também enquanto a saúde permitiu foi professor da UFAM, mas se iniciou no CIEC, passando pelo Seminário e alguns colégios públicos. Foi cronista radiofônico na Rio Mar, responsável pela A voz do povo. E, na condição de sacerdote, foi pároco de São Jorge, Remédios e Redenção. Em 1970, publica Linha d´Água, composto por crônicas publicadas em sua coluna Ronda dos Fatos. O dificultoso trâmite cumprido pelo livro até seu lançamento transformou-o em “livro legendário”, assinala Élson Farias. O terceiro livro – Os graus do poético – teve o patrocínio da Rádio Rio Mar, em comemoração as suas bodas de prata (1979). Trata-se de um livro de ensaios, alguns dos quais já publicados em jornais. De 1985 é o quarto livro: Poemeu: ou o (meu) sentir dos outros. Publicado quinze anos depois da premiação, e isto devido à insistência e devotamento de amigos. Do voto da comissão: “a parte final do livro é constituída de sonetos, os mais belos que temos lido em língua portuguesa”. Para mais informações: ver o livro L. Ruas: itinerário de uma vocação, de Roberto Mendonça.
Observações:

Maiores informações sobre o padre-poeta L. Ruas podem ser encontradas no endereço: http://aparicaodoclown.blogspot.com/2009/01/roberto-mendona-biografia-de-luiz-ruas.html  

O livro “Intérpretes de Aparição do Clown” foi enviado, gentilmente, pelo meu amigo Rogel Samuel, diretamente da Urca, no Rio de Janeiro, onde o mestre reside. Todo o material acima, foi transcrito do referido livro. Muito obrigado, Rogel!
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