domingo, 3 de outubro de 2021

A MESA DA DIRETORIA DO BAR CALDEIRA

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Até hoje é a preferida pelos mais antigos por dar uma visão privilegiada de todo o interior do bar e ficar bem em frente ao aparelho de televisão. Um lugar ótimo para assistir a um jogo de futebol ou a apresentação de shows musicais interno. Por ser grande é a preferida para fazer comemorações. Tradicionalmente, quem senta na cabeceira de qualquer mesa grande é uma pessoa importante, o chefe superior ou o pai de família. Traz destaque e status para a pessoa. No Bar Caldeira é a mesma coisa. No entanto, ficou famosa até os dias de hoje por outro motivo. Segundo contam os mais antigos quem sentar-se, costumeiramente, na cabeceira e de costa para a parede está chamando a morte, pois traz agouro, antecipando a lista da fila dos que irão para o andar de cima. Se for lenda ou não, eu não sento lá de jeito nenhum. Na realidade, aquele lugar é o preferido pela pessoa que bebe todo dia, pois dificulta a sua visualização por quem passa à pé ou de carro.
Pavão – É representante de laboratórios farmacêuticos. Grande músico e irmão do Mark Clark e do Flávio de Souza. Nunca o vi bebendo no bar, no entanto passava todos os finais de semana por lá, parava e olhava para dentro do bar e caso conhece o sujeito que estava sentado na cabeceira da mesa, falava, na brincadeira: - Tu vais ser o primeiro da fila!
De tanto tirar saro da cara dos outros foi apelidado de “Rasga Mortalha”.
Tapinha – O seu prenome era Atalpha, mas por ser baixinho ficou conhecido no bar como Tapinha. Certa vez ele foi à missa de sétimo dia de um boêmio do Bar Caldeira, na Igreja de São Sebastião, ele chegou atrasado e bêbado, ao entrar falou bem alto: - Falavam que eu era o primeiro da fila, né? Tô nem ai. Ainda irei enterrar muita gente, incluindo até o padre que está ai no altar! A galera do Bar Caldeira estava em peso, todo mundo começou a rir, incluindo a viúva, os parentes e até o padre e os coroinhas. O Tapinha continuou sentando na cabeceira da Mesa da Diretoria e tempos depois atravessou o espelho. O seu filho, o Athalpa Filho, sucedeu ao pai na boêmia. Frequentava o Bar Caldeira aos domingos. Ele tinha um mote: - Prefiro ser corno a ser diabético!
Certa vez, o Athalpa estava em companhia do advogado Dr. Marco Aurélio, conhecido por “Barrão”, os dois estavam bebendo no Caldeira, quando passou por lá a namorada do Sacy da Pareca, a “Sincera”, ela estava com um shortinho e sapatos altos, desfilando pela José Clemente, quando ia descer o ladeirão da Lobo DÁlmada caiu no chão, essa Athalpa deu uma risada bem alta e ficava apontando para ela. Depois dessa, a Sincera nunca mais apareceu por lá. Quando ele ia ao bar ficava admirando a foto de seu pai ao lado do Vinicius de Moraes. Infelizmente, não resistiu a Covid-19 vindo a falecer em dezembro de 2020.
Doutor Lió – Era um dentista da melhor qualidade. Querido por todos. Foi um bom amigo. Era espiritualista. Gozador nato e tirava saro de tudo e de todos. Fumava que nem uma caipora. Era inveterado por cigarros. Em 2011 foi aprovada a Lei 12.546 chamada Lei Antifumo que proibia fumar em todo país em ambientes fechados públicos e privados. Apesar de ainda não ser regulamentada, o que somente aconteceu em 2014, o Adriano Cruz, colocou um aviso proibindo expressamente os clientes fumarem dentro do bar. A lei estabelecia multas e até a perda da licença de funcionamento em caso de desrespeito a norma. A segunda providência foi jogar no lixo todos os cinzeiros. Falava em voz alta: - Quem quiser fumar, que fume, porém, lá fora, aqui dentro, não! Agora é lei. Leia o aviso na parede. Foi complicado. Muitos não aceitavam e teimavam em fumar no interior do estabelecimento, o que eram na hora repreendidos. O Doutor Lió era a única exceção.
Sempre após o expediente batia o ponto no bar e o seu lugar preferido era exatamente àquele em que a maioria fugia por ser agourento: a cabeceira da Mesa da Diretoria, de costas para a parede. Meu Deus. O seu filho mais velho sempre ia ao bar pegar uma grana com o pai, depois que o primogênito saía, ele falava: - O filho passa nove meses na barriga da mãe e o resto da vida colocando no do pai! – ficava batendo a mão direita aberta na mão esquerda fechada. Era tudo brincadeira, pois amava e admirava muito os seus filhos. Quando levantava para “tirar água do joelho” falava: - Agora vou pegar no pesado! – referindo ao seu bilau. Segundo a atriz Socorro Papoula, ele tinha várias namoradas, mas possuía uma preferida, era uma enfermeira baixinha e bonitinha. Após tomar todas, pagava a conta e dizia: - Agora vou prá casa fazer sexo, a minha namorada Juceta já me ligou várias vezes! – era a sua preferida.
Passou uma temporada sem fumar. Ficou abstêmio da nicotina. Quando alguém perguntava o que ele fez para parar de fumar, respondia: - Prometi a mim mesmo se voltasse a fumar daria o traseiro duas vezes por semana! Não cumpriu a promessa e voltou a fumar novamente. Com o tempo apareceu o nódulo no pescoço, foi crescendo lentamente. Um dia reuniu alguns amigos do bar, entre eles o Adriano, Miudinho e o Jorginho, foram para Maués, no navio Dona Carlota. Ninguém sabia, mas estava se despedindo dos amigos e da vida. Morreu de câncer pouco tempo depois. Será sempre lembrado por todos os velhos boêmios.
O Lanterninha Farias – Trabalhou por longos anos no Cine Guarany ajudando assentar as pessoas que chegavam atrasadas, pois com a sua lanterninha sabia perfeitamente onde existiam cadeiras vazias. Ele era um cara que tinha uma grande cabeleira, tirando a todo instante do bolso um pente da marca “Flamengo” para penteá-la. Usava sempre um enorme óculo de sol, acho que se inspirava em algum ator de cinema das antigas, além de ter um vozeirão daqueles e falava pelos cotovelos, parecia com aquele comediante famoso, o “Zé Bonitinho”. O cinema era frequentado por um grupo especial formado pelo Jeremias, Mococa e outros rapazes alegres, que davam em cima da molecada. O Farias sempre ficava de olho nessa turma que aproveitava a escuridão para alisar os marmanjos. Muitos anos depois, reencontrei o Lanterninha Farias, no Bar Caldeira, pois ele morava por aquelas imediações. Conversamos muito sobre o nosso saudoso Cine Guarany, lembrando e sorrindo dos velhos e bons tempos que não voltarão jamais. Aparecia somente aos domingos quando a Velha Guarda se apresentava. Bebia somente no lado de fora do bar. Era invocado com a Mesa da Diretoria, falava que ela trazia agouro e quem ali se abancasse por um bom tempo, faleceria precocemente. Coisas de louco. Passou uma temporada enchendo “a cara” debaixo de uma árvore frondosa, no Bar Mangueira, vindo a falecer tempos depois. De nada adiantou fugir tanto da Mesa da Diretoria.
Artista Plástico Palheta – Era frequentador assíduo do Bar Caldeira. Tive o privilegio de conhecer dezenas de trabalhos realizados pelo grande artista plástico, bem como, de usufruir da sua amizade e de ter tido a oportunidade de conhecer alguns causos muitos hilários, tendo como personagem principal o nobre amigo. Trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, no período de 1975 a 1980, na respeitada função de ilustrador botânico. Tinha uma capacidade incrível para retratar o rosto humano, chegando até ser colaborador da Polícia Civil, fazendo o famoso “retrato falado”. Durante todos esses anos de amizade, sempre o apoiei, valorizando os seus trabalhos artísticos, com publicações no BLOGDOROCHA, além de passarmos horas conversando, rindo das piadas e causos que somente ele sabia contar. Gostava de sentar-se somente na Mesa da Diretoria, pois era um artista considerado por todos. Viva somente de seu trabalho, no entanto, passava meses sem vender nenhuma obra, o que o deixava cabisbaixo, mesmo assim não deixava de frequentar o bar e os amigos do peito sempre pagavam umas ampolas para ele. Quando estava “Barão”, andava bem vestido “no linho”, levantava os ombros e a cabeça e pedia somente doses de Uísque. Falavam que ele ficava esnobe e chato (boçal), mas era “mão aberta” e fazia questão de retribuir pagando cervejas para aqueles que ele “serrava”, brindando até com tira-gosto de Queijo Bola. Quando a fonte secava, voltava novamente a “estaca zero”. Era o momento para armar-se de sua prancheta, papel A4, lápis e borracha para fazer caricaturas no Bar Caldeira, principalmente aos domingos à tarde quando se reunia a velha guarda mais abastada financeiramente. Certa vez, ele contou-me um acontecido no bar: chegou por lá um sujeito que ninguém conhecia, ele ficou a observar o Palheta fazendo o seu digno trabalho, chegou perto e falou-lhe: - O amigo pode fazer a minha abreugrafia? O Palheta arregalou os olhos e disparou: - Olha aqui me amigo, sou o artista plástico Palheta e faço caricaturas, quem faz abreugrafias é ali embaixo na Rua Lobo D´Álmada, vai lá e procura o Ambulatório Cardoso Fontes!
O cara insistiu: - Faz essa porra ai mermo! O Palheta levantou-se, tufou o peito e pensou “Puta que o pariu, seu eu não estivesse liso e com duas contas de luz atrasadas eu daria umas porradas neste tuberculoso, somente para respeitar o trabalho do artista plástico”. Mesmo assim fez um trabalho caprichado e pelo abuso do camarada cobrou dobrado pela abreugrafia.
Outra vez, a jornalista Hermengarda Junqueira, do Jornal Amazonas Em Tempo, encomendou uma obra do Palheta. Trancou-se em seu ateliê na Rua Maués, no bairro da Cachoeirinha e fez um belo trabalho. Ele estava “mais liso do que sabão na tábua”. O jeito foi ir de ônibus até o bairro do Aleixo onde ficava a sede o jornal. O busão estava lotado, colocou o quadro na cabeça e foi em pé. Ficava esbarrando em todo mundo. Um cidadão falou: - Não dá para o senhor abaixar essa Tábua de Pirulito! Pense num cara puto de raiva: - Isto aqui é uma obra de arte. Tábua de Purulito é o caralho!
Ao chegar lá depois de muito sacrifício, a jornalista falou: - Passe daqui uma semana para receber o seu dinheiro! Ai foi para acabar de vez com o artista: - Pelo o amor de Deus! Tô na lisura. Vim de ônibus e fui xingado por todos. Sem chance. Pague pelo menos a metade agora!
Ela ficou sensibilizada e pagou tudo no monte. Ai foi graça. Pagou as contas atrasadas e foi direto para o Bar Caldeira, sentou-se na Mesa da Diretoria e começou a tomar Uísque com queijo bola, é claro! Outra vez, ele e o artista plástico Inácio Evangelista foram contratados para fazerem a ornamentação de carnaval do Clube Sírio Libanês, na Avenida Constantino Nery. Quando estava tudo pronto, chegou o promoter da festa para fazer a verificação dos trabalhos. Falou: - Quem fez esta decoração? O Palheta “subiu nas tamancas”: - Olha aqui, meu amigo, decoração é coisa de viado. Eu e o Inácio somos artistas plásticos e fazemos uma obra de arte e não decoração! O Evangelista só achava graça da onda do Palheta.
Teve problemas sérios de saúde e veio a falecer em agosto de 2015. Hoje, as suas obras impressionistas e abstracionistas estão muito valorizadas em Manaus.
A Turma do Meio-Dia – Existe uma turma que desde tempos idos gosta de beber quando relógio bate meio-dia, na hora do almoço. Falam que é para abrir o apetite. Geralmente a pedida é cerveja, cachacinha, limão e sal. Isto é tradição. Passa o tempo, alguns deles partem para o andar de cima, chegam outros, sempre renovando.
Detalhe: eles somente gostam de sentar exatamente na Mesa da Diretoria, sempre existindo um deles na cabeceira de costas para a parede. Cruz, credo!
Certa vez, fui cortar o cabelo na Rua José Clemente. Depois, parei no Bar Caldeira, para conversar com uma turminha que toma uns goles após o almoço. Na famosa Mesa Da Diretoria estava uma sacola cheia de Tamarinos. Pela primeira vez em minha vida provei do fruto. Guardei duas sementes não sei por quê.
O tempo passou.
Dias depois dei um trato em minha mochila encontrei as duas sementes.
Sem nada ler sobre técnicas de plantio, coloquei as duas num algodão embebecido de água dentro de uma cuia, como fazíamos quando éramos crianças.
Dias depois uma delas brotou.
Adotei-a. Pus num vasinho, coloco água, ponho para receber sol na janela.
Com é apenas uma criança, fica ao lado do meu computador onde escrevi parte deste livro.
Serve de inspiração.
Caso consiga sobreviver, levarei daqui uns anos uns dos seus frutos ao Bar Caldeira, para servir de tira gosto na Mesa da Diretoria.
(Bar Caldeira, História & Tradição, José Rocha).
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domingo, 29 de agosto de 2021

A NASCENTE DO IGARAPE DE MANAUS

 NASCENTE DO IGARAPÉ DE MANAUS

        Fiz um trabalho de campo para descobrir, realmente, onde estão as principais nascentes do Igarapé de Manaus. Por incrível que pareça, poucas pessoas sabem onde elas estão localizadas: fica numa baixada da Avenida Barcelos, nas proximidades do antigo Cine Popular. Muitas pessoas falavam que ficava por detrás da TV Encontro das Águas (antiga TV Cultura do Amazonas). No local encontrei um imenso bueiro, construído quando do aterro da baixada da Rua Nhamundá. Segundo moradores, aquela                     nascente   foi               praticamente                     aterrada.

        Conversei com os mais antigos da Avenida Barcelos. Dentre eles, tive a grata surpresa de reencontrar o Jackson Figueiredo, primo-irmão do Adelson e Aldenor Figueiredo Brito,                     meus contemporâneos       da    Rua   Igarapé de Manaus.

O Jackson fez a indicação exata da nascente: o acesso é feito através de dois becos, onde é possível verificar in loco a água brotando da terra. Segundo ele, o professor da antiga Universidade do Amazonas, atual UFAM, Carlos Dias, conhecido por “Carlão”, fez um trabalho no local para a universidade na década de setenta, constando de entrevistas com os moradores do entorno, filmagens e fotografias, onde é possível mostrar toda a exuberância do lugar naquela época, com a mata ciliar preservada, pessoas tomando banhos, com muitos peixes aparecendo ao fundo das águas límpidas e cristalinas. Não pude resgatar esse material, pois o ilustre professor está aposentado e   resolveu   fixar   residência   na   capital   federal,   em     Brasília. 

        No local existe uma área de mata primária protegida pela mãe natureza, com um morro que dá acesso pela Avenida Airão, na Praça Chile. Ele é um grande paredão com cem metros de altura, de difícil acesso, o que não permitiu a invasão e a construção de                 casas         que        impactariam,       com   certeza,    as nascentes.

        No início da Avenida Barcelos existe um prédio antigo, datado de 1909, onde funcionava o Cine Popular, conhecido por Cine Poeira. Esporadicamente, ia assistir a filmes nas tardes de domingo. Na minha infância, lembro que aquela baixada era chamada de “Covão” (uma grande cova), onde eram feitos descartes de lixo pelos moradores do entorno. Frequentava aquele lugar naquela época, pois ali morava um grande amigo do meu pai, o Abdias Bodó (um dos personagens deste livro). Jamais iria imaginar que, um dia, voltaria ao mesmo ambiente e constatar que ali era a nascente do        igarapé           onde      passei    a    minha       infância/adolescência. 

        Na realidade, existem duas grandes nascentes, dentro de terrenos de particulares. Numa delas, a moradora não me deixou adentrar. Na outra,     não     fui    bem recebido pelo dono da    área.

Fiquei sabendo que o local consta dos planos do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus, mais conhecido como PROSAMIM, onde planeja indenizar todos os moradores, tirá-los do local e construir blocos de apartamentos e uma grande praça na nascente, que seria a “Praça da Nascente do Igarapé de Manaus”. Estes moradores não querem sair do local e hostilizam as pessoas que procuram informações sobre a área. O governo do Estado do Amazonas homologou uma licitação para certa empresa especializada em executar estudos, projetos, serviços de campo e relatórios de licenciamento         arqueológico        de       toda     aquela       área. 

 

Foto: Marco Gomes

        Voltei outra vez ao local, em companhia do escritor, poeta e fotógrafo Marco Gomes; do cinegrafista da TV Encontro das Águas, o Zé Carlos “Cartier” (morador antigo da área, lado esquerdo da foto); outro morador que fez questão de nos acompanhar (ao lado direito da foto) e da Ivete Bruce (não aparece na foto), serviu como guia, ela foi minha colega de trabalho na antiga “Lojas Populares”, de Braga & Cia em tempos idos. Adentramos em uma das nascentes, onde foi possível recolher água de uma cacimba alimentada pelas águas cristalinas da nascente. Apesar de existirem fossas biológicas no local, a nascente é monitorada pelos técnicos do IPAAM,     segundo                                  os                                   moradores.

        O registro fotográfico acima, de excelente qualidade, foi feito pelo saudoso Marco Gomes (faleceu meses depois), onde eu apareço coletando a água diretamente da fonte (cacimba), ladeado pelos moradores acima citados. Guardo essa água dentro de uma garrafinha plástica, onde poderei mostrar a outras pessoas quando da apresentação deste livro e ficará como                                lembrança                       daquele             momento            sublime. 

        Em companhia da guia Ivete Bruce foi possível entrarmos pelos Becos Belém e Barcelos, percorrendo todo o caminho das águas, desde a nascente até a Rua Japurá, após que percorremos a Praça Nestor Nascimento, onde as águas do igarapé     passam canalizadas.

Segundo os moradores antigos, naquele local era conhecido como “Cacimbal”, onde existia uma grande quantidade de cacimbas (buracos onde flora águas subterrâneas). Pude confirmar, no local, a existência de algumas cacimbas, confirmando a hipótese de que o Igarapé de Manaus possui duas grandes nascentes e inúmeras outras cacimbas       pelo      caminho     até     encontrar    o    Rio    Negro.   

        Quem observar atentamente a topografia onde passa o Igarapé de Manaus, desde a sua nascente até a sua desembocadura no Rio Negro e também ver o mapa de 1906 (Anuário de Manaus 1913-1914), poderá verificar que naquela área existe uma grande depressão natural (baixada), onde, no passado, as águas        invadiam        toda       a    sua    extensão  quando da cheia dos rios.

        Com o passar dos anos foram feitos vários aterros ligando as margens da Avenida Joaquim Nabuco com a Rua Major Gabriel (antiga Rua Tomás Pinto). Entre as ruas Barcelos e a Nhamundá é possível verificar um pequeno córrego (protegidos por matas ciliares), com as águas advindas da nascente, chamado antigamente de “Cacimbal”,   a  partir da   qual    ele     entra     nas        tubulações.

        A baixada da Rua Japurá apelidada de “Buracão”, o “PROSAMIM” construiu a Praça Nestor Nascimento (ele foi meu amigo e do meu pai) com as águas da nascente passando pelas tubulações.

        Na descida da Avenida Tarumã, inicia-se o conjunto de apartamentos “Parque Residencial Manaus”,                      interligando    com                 a         Rua         Dr.             Machado.

        No aterro da Avenida Leonardo Malcher a mãe natureza não perdoou: havia um afundamento constante da pista. Em junho de 1993 houve um grande desabamento do aterro, arrastando varias casas. Neste local foi construída a “Ponte Isaac Sabbá” (em homenagem a um dos homens mais importante da historia do desenvolvimento do Amazonas). Por debaixo da qual                  existe               a       continuação     do    conjunto de apartamentos.

        Seguindo na Avenida Ramos Ferreira existe uma depressão natural, antigamente era conhecido como “Buraco do Pinto” por ficar próxima a Rua Tomás Pinto (Capitão Manuel Tomás Pinto Ribeiro, filho do Major Gabriel). Em 1957 o governador Plínio Ramos Coelho determinou o aterro definitivo. Neste local inicia-se a segunda etapa do conjunto de apartamentos do      “Parque    Residencial   Manaus”.


Foto: Jornal do Commercio

        Rua Ipixuna – o aterro para construção do logradouro deu-se em 1956, conforme fotografia acima do                                    “Jornal        do       Commercio”              daquela                    época.

        Rua Igarapé de Manaus – na cheia do Rio Negro, invadia toda aquela área, atualmente, abriga o Parque Desembargador Paulo Jacob, onde passa    uma     pequena     lâmina de água na   vazante.

        Avenida Sete de Setembro – passa a Ponte Romana I (também conhecida como Primeira Ponte) – na cheia do Rio Negro uma parte do rio teima invadir o que foi aterrado, conforme podem verificar na fotografia abaixo, clicada        por        mim     no      meio  da ponte.

 

Foto: José Rocha (Igarapé de Manaus)


 

Foto: José Rocha (Encontro do Igarapé de Manaus e Igarapé do Bittencourt)

        Parque Senador Jefferson Péres – onde o Igarapé de Manaus se encontra com o Igarapé do Bittencourt (foto acima), percorrendo desde a nascente, três quilômetros, passando por debaixo da Avenida Lourenço Braga (conhecida como “Manaus Moderna”, local onde o governador do Amazonas aterrou a entrada do Rio Negro) até desaguar na foz do “Igarapé do Quarenta” e do “Mestre Chico”, na margem esquerda do majestoso Rio Negro (foto abaixo), seguindo até Rio Solimões, formando o grandioso Rio Amazonas até chegar    ao  Oceano Atlântico. As fontes do nosso Igarapé de Manaus, apesar de ser apenas uma gota no oceano, contribuem e ainda                                          hão             de           contribuir      para    a     imensidão     do mar!

Trechos do Livro EBook "O Igarape de Manaus, José Rocha"

Foto: José Rocha (Desembocadura do Igarapé de Manaus)

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

MANAÓS HARBOUR LIMITED

 






Em de 1900 foi concedido à empresa B. Rymkierwiez & Co.,                 a concessão para construir e administrar o Porto de Manaus, através             do Decreto no. 3.725/00, do governador Silvério Nery (1900-1904), transferindo em seguida para a Manaos Harbour Limited.

O Barão Rymkierwiez, proprietário da empresa concessória, não conseguiu cumprir com o foi acordado, sendo transferido para a MHL que assumiu o compromisso de até 1924, concluir toda                    a infraestrutura necessária para atender às exigências da época áurea do Amazonas, que inundava a nossa região com riquezas advindas da comercialização do látex da nossa borracha nativa.

Esta empresa tinha como sócios os irmãos ingleses Booth, proprietários da empresa de navegação Booth Line Ltd., que para Manaus traziam da Europa e dos Estados Unidos tudo o que existia     do bom e do melhor, pois a riqueza imperava em nossa cidade, levando de volta toda a produção de borracha.

Foi a união perfeita do útil e do agradável, pois possuíam uma frota de imensos navios que fazia rota internacional, carregando                e descarregado pessoas e mercadorias no maior e  mais moderno porto flutuante do mundo, sob a sua administração, levando              o bem mais cobiçado daquele tempo: a borracha in natura               da Amazônia.

O Porto de Manaus, uma obra prima dos ingleses, ficou conhecido     por Roadway, mais conhecido pelos manauaras por Cais Flutuante.    

O povo se acostumou a falar algumas palavras em inglês ou alemão, pois naquela época era permitido fundar empresas com o nome totalmente em estrangeirismo.

“Manaós” como era grafado naquela época Manaus. “Harbour” significa em inglês Porto. E “Limited” significando que era uma empresa constituída de Quotas de Responsabilidade Limitada (pertencentes aos irmãos Booth). Ou seja, em nossa língua portuguesa “Porto de Manaus Ltda.”.

Para conviver com tantos nomes esquisitos, a população fazia as suas adaptações. Por exemplo, Roadway era chamado de “Rodo”.               A Manaós Harbour de “Manausarbu”. Booth Line de “Butlaine”

Para fechar o cerco e ganhar muito dinheiro, os ingleses fundaram empresas para geração e distribuição de energia elétrica; circulação de bondes elétricos; captação e distribuição de água, além da rede     e tratamento de esgotos.

Vários fatores contribuíram para a debandada geral dos ingleses           e a dissolução de suas empresas:

1.   A partir de 1910 o mercado da nossa borracha começou            a desmoronar no exterior, pois entrava aos poucos a produção asiática, ocorrendo falências e fechamento de negócios           em Manaus;

2.   Para agravar o estado de penúria foi eclodida a Primeira Guerra Mundial (1914/1918);

3.   A Gripe Espanhola, em 1918, infectou um quarto da população mundial. Em Manaus. Cerca de 10% da população veio a óbito;

4.   Entre 1920 e 1930 a cidade de Manaus vivia uma situação de penúria.

5.   Em 1930, o presidente Getúlio Vargas tentou a voltar um período de maior prosperidade;

6.   Em 1939 veio a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), para voltarmos novamente a decadência.

A passagem dos ingleses por estas bandas deixaram marcas até hoje: tampas de bueiros com a marca M.I.L – galerias de esgotos  - trilhos do bondes que aparecem aqui e acolá – vários prédios e todo o complexo do Porto de Manaus.

As iniciais M.H.L aparecem na entrada do Roadway, na Casa de Luz    e Força (Museu do Porto) e outros prédios do Porto de Manaus, conforme fotografias.

Quando o Museu do Porto for reaberto ao público, poderemos observar e conhecer um muito mais sobre a famosa “Manausarbu”.

É isso ai.

Fotos: José Rocha

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

GUARDAMORIA



A Guardamoria é um prédio anexo ao da Alfândega do Porto                de Manaus, inaugurado em 1906, pela empresa inglesa Manaós Habour Limited, como parte do contrato de concessão do porto –      foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1967 - localizado na Rua Marquês de Santa Cruz, centro antigo de Manaus – encontra-se, atualmente, abandonado pelo poder público, necessitando, urgentemente, ser revitalizado e devolvido aos manauaras e aos turistas que por essas plagas aportam, pois aquela edificação é pura história e deve voltar a ser um cartão postal de Manaus.

Guardamoria é um termo antigo, em desuso, significando         “guarda-mor”, ou seja, a repartição anexa à alfândega, incumbida     da polícia fiscal no porto e a bordo dos navios.

Em tempos idos, a Guardamoria exercia plenamente este papel, pois era dotada de uma torre com um farol construído em aço, e sua iluminação de arco voltaico produzindo uma luz de grande intensidade, permitindo aos guardas alfandegários uma visão privilegiada de todo o cais flutuante do Roadway, visualizando          as chegadas dos navios, descargas, carregamentos e partidas.

Como se pode observar na fotografia, a Guardamoria fica um pouco ofuscada pela exuberância do prédio da Alfândega, no entanto,                 ela foi construída para servir de lugar privilegiado para a fiscalização do porto.

O estilo do conjunto é eclético, com elementos medievalistas            e renascentistas, lembrando um pouco os prédios londrinos do início do século passado. Externamente, na Guardamoria, observa-se       um prédio de dois andares, com duas janelas frontais e três laterais em cada andar, além de uma cobertura em aço e com telhas           de barro, toda panorâmica (onde o antigo guarda-mor podia visualizar o Rio Negro e cais do porto). 

No meio do prédio existe uma torre com quatro andares (para abrigar internamente uma escada em caracol para acesso até o farol), sendo que no segundo e último contém uma estrutura que lembra os velhos castelos medievais (para impedir a entrada de invasores).              Nos três primeiros andares da torre contem quatro janelas cada um    e no quarto por ser bem menor existe somente uma janela redonda tipo “óculos”. Um mastro em fero fundido está cravado no terceiro andar. 

No alto da Guardamoria está o Farol (com um cata-vento e pára-raios), ainda imponente e belo, clamando para voltar a iluminar         o Roadaway e dar um charme todo especial a porta de entrada         da cidade de Manaus.

Um dos poucos privilegiados que conseguiu adentrar, nos últimos anos, no interior da Guardamoria foi o escritor Otoni Mesquita                       – em seu livro “Manaus, História e Arquitetura, 1952-1910”, descreve com minúcias o que presenciou naquele prédio secular: 

“A construção possui peculiaridades só dela, como, por exemplo,        a escada em caracol, inteiramente em ferro fundido, que vai           do térreo até o farol. Algumas raras peças em seu interior podem estar ali há um século, ou quase isso, como uma pia, em estilo antigo e com o nome do fabricante: Doulton & Co., e a cidade de origem: Londres. Além da pia, um cofre, um armário, e os azulejos              do piso. Do terceiro andar da guardamoria a visão do rio Negro         é fantástica, digna de o local ser transformado num ponto de atração turística. Quando a pedra fundamental da Alfândega completou cem anos, em 2006, falou-se em abri-la para verificar se em seu interior, como era comum antigamente, haviam colocado objetos da época: jornais, livros e qualquer outro que servisse de referência para quem no futuro viesse a descobri-los, mas o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), alegando que tal abertura poderia danificar a peça secular, recusou-se a fazê-lo.”

Durante muitos anos a União ocupou a Alfândega, com a fiscalização aduaneira do Porto de Manaus. Com o tempo, o prédio começou        a sofrer problemas estruturais e com a falta de manutenção             foi abandonado, estando fechado até os dias atuais.                     Sofreu muito com as grandes cheias do Rio Negro de 1953 e 2021,           mas resistiu mesmo com toda a sua base alagada por vários meses.                  

Com relação a Guardamoria, encontra-se fechada faz muito tempo.  Não tenho conhecimento em que ano fechou as suas portas, deixando o Farol de cumprir a sua missão de iluminar o Roadway. 

Resistiu ao tempo, completando 115 anos em 2021 – continua         em pé, firme e forte, sendo somente observado pelos turistas            e manauaras que amam esta terra de verdade.

Na área portuária existe o Museu do Porto (onde era Casa               de Máquinas de Energia da MHL) que está fechado faz décadas. Existe um desejo da Prefeitura de Manaus em reabrir este espaço ainda no ano de 2021, pois faz parte do projeto “Viva Manaus”.        Não sei se o prédio da Alfândega e a Guardamoria foram contemplados em tal projeto.

Na realidade, a população de Manaus não sabe quem são os donos         do nosso Roadway, das Casas da Booth Lines, Museu do Porto               e do prédio da Alfândega e Guardamoria: É a União? O governo       do Amazonas? A Prefeitura de Manaus? A família Di Carli                  ou a empresa Chibatão? Todo mundo quer ser o dono, somente para usufruir, ganhar rios de dinheiro e destruí-los aos poucos,                 isto todos nós sabemos. 

Na minha humilde opinião, todo o complexo do Roadway        pertence     ao povo de Manaus e não a particulares. 

O governo do Estado do Amazonas (SEC) e a Prefeitura de Manaus (ManausCult) devem fazer uma parceria e revitalizar, urgentemente, todo o complexo da Alfândega (pode tornar-se a sede da ManausCult, por exemplo).

Com relação à Guardamoria, todos os objetos citados pelo Otoni Mesquita e outros encontrados no local devem ser transferidos para     o Museu do Porto. 

O local deve ser aberto para visitação pública, tornando-o             uma atração turística, permitindo as pessoas subirem as escadas     em caracol, para usufruírem da visão panorâmica do segundo andar, tomar um suco, água ou café numa lanchonete que deve ser aberta naquele local, além do Farol (pintado nas cores original de verde        e amarelo) voltando a funcionar, dando à noite umas piscadas         de luzes quando os transatlânticos estiverem ancorados no cais        do Roadway.

É isso ai.

Foto: José Rocha

sábado, 14 de agosto de 2021

FESTA DO ACOCHO

 

Quem era adolescente e entrando para a vida adulta no final da década de sessenta lembra muito bem deste tipo de festa, pois a nossa Manaus era pequena, onde praticamente todos se conheciam pelo menos de vista e uma das diversões era fazermos festinhas em nossas casas, para dançar, beber e namorar muito.

A minha irmã Graciete era muito festeira em sua juventude e sempre promovia, aos sábados, festa em nossa casa, mesmo contrariando o nosso pai que não gostava nem um pouco das músicas que curtíamos naquela época.

A turma aqui do centro tinha a sua disposição o Sheik Clube, Bancrévia Clube, União Esportiva (Sambão), Ideal Clube, Rio Negro Clube, Olímpico Clube e as Boites Danilo´s, Crocodilo´s, Faces in the Groove, Starship e Spectron e outras tantas, mas, o bom mesmo dos bons tempos era a Festa do Acocho.

Todo final do mês motivo não faltava para fazer uma festa: aniversário de alguém da família ou de um vizinho, conclusão de um curso (até de datilografia era motivo), férias escolares, despedida de alguém que ia viajar ou quando não se tinha nenhum motivo se inventava um.

A festa era mais ou menos assim: colocavam-se lâmpadas de luz negra ou cobria as comuns com papel celofane na cor roxa – o importante era ficar o ambiente na penumbra, pois “à noite todos os gatos são pardos (todos são iguais ou semelhantes no escuro)”. Ficava mais chique com a "luz estroboscópica".

A moda dos anos 70 era de calça comprida boca de sino, vestidos românticos cheios de flores e franjas, estampas psicodélicas e coloridas, com um visual hippie.

Os homens gostavam do cabelo tipo “black power”, com influencia das discotecas. Muito brilho e looks extravagantes, com o filme “Os Embalos de Sábado À Noite” influenciando muitos jovens.

As roupas jeans era um legitimo uniforme da moçada, com muito brilho presente em blusas, vestidos, calças e saias. Sandálias de plataforma, colares artesanais e bijuterias.

Solta o som ai DJ - o aparelho era 3 em 1 (toca-discos, tape deck e rádio), com discos de vinil e fita cassete.

As músicas que faziam o maior sucesso “A Hora de Mexer O Esqueleto”: Sociedade Alternativa (Raul Seixas), Os Mutantes, Barato Total (Gal Costa), Doce Vampiro (Rita Lee), Dê Um Rolê (Os Novos Baianos), Sossego (Tim Maia), Sangue Latino (Secos & Molhados), Sampa (Caetano Veloso), Dancin Days (As Frenéticas), Apenas Um Rapaz Latino Americano (Belchior), Cálice (Chico Buarque), O Que Será (Chico Buarque), Conga, Conga, Conga (Gretchen) e outros mais.

O pessoal curtia mesmo era os hits da disco music: Love To Love You, Baby (Donna Summer), I Will Survive (Gloria Gaynor), Macho Man (Village People), Dancing Queen (ABBA), Stayin´Alive (Bee Gees) e outros mais.

O mais esperado mesmo era “A Hora do Acocho” – para quem não sabe o termo “acocho” era uma gíria muito usada nos anos 70 e até 80, quando os casais se abraçavam e beijavam na boca, ao som de músicas românticas, vizinhos(as), primos(as) – muitos até começavam namorar naquela noite e até casavam.

Não poderia faltar uma bebida para animar a festa: Cuba Libre; Leite de Tigre (uma mistura muito doida); Dry Martíni; Padrinho Acrísio (bebida artesanal feita pelo nosso vizinho Acrísio, pai de criação da Mira) e outras.

Tudo na vida passa. Os nossos tempos bons passaram. Ficou somente a saudade da “Festa do Acocho”.

É isso ai.

Foto: www.tuacasa.com.br/festas-anos-70 

terça-feira, 10 de agosto de 2021

SORVETERIA PINGUIM

 


Ficava no térreo de um prédio de três andares, bem em frente à Praça Antônio Bittencourt, mais conhecida como Praça do Congresso (em decorrência de um Congresso Eucarístico Diocesano de Manaus, realizado naquele logradouro em 1942) – um local que marcou toda uma geração de jovens que estudavam em seu entorno nas décadas de setenta e oitenta, sendo muito lembrada, atualmente, nas redes sociais.

Lembro-me muito bem - eu era um jovem estudante do Instituto Benjamim Constant e saímos aos bandos para tomar sorvete e paquerar as gatinhas do IEA que marcavam presença em peso na sorveteria Pinguim – elas usavam uma farda constituída de uma blusa branca e saia que virava minissaia, deixando os marmanjos babando. A Caixa era uma moça muito bonita, acredito que era a filha do proprietário.

Na realidade, todo o entorno era bonito e a Sorveteria Pinguim o ponto de encontro e paqueras dos jovens, além de saboreávamos um sorvete tipo carioca (casquinha, o mais barato que cabia nos bolsos dos estudantes). Somente não gostávamos dos estudantes do Colégio Militar, pois eram muito assediados pelas meninas do IEA e do IBC.

A fotografia em preto e branco um acervo do saudoso prefeito de Manaus, Frank Abrahim Lima, postado no site do Instituto Durango Duarte (IDD), onde aparecem em destaque estudantes normalistas (IEA), em 1973, além de uma lixeira em formato de uma Taça, com o logotipo da Prefeitura Municipal de Manaus.

Tempos depois, fui estudar à noite no IEA, acabaram os sonhos juvenis e começava a trabalhar e sentir o peso da responsabilidade. O sorvete já não era mais a pedida, pois a sorveteria montou um Bar ao lado onde é hoje a Biblioteca Pública.

Em 1973, o colunista social Nogar publicou em sua coluna social o seguinte: “Dia 31 a Sorveteria Pinguim Limitada, vai inaugurar um luxuoso salão de drinques, refeições e dança, onde a família amazonense poderá divertir-se num ambiente seleto usufruindo da direção da mesma a hospitalidade, a paz, a alegria e o respeito merecido. A entrada é pela Rua Monsenhor Coutinho no. 529”.

Recentemente, recebi o seguinte e-mail (motivador desta postagem): “Chamo-me André Varela. Sou de Manaus, minha esposa está atualmente como diretora da Biblioteca Pública João Pantoja Evangelista. A Sorveteria Pinguim possui um valor sentimental, pois na década de 80 aos 14 anos de idade foi chapeiro com muito orgulho. Minha mãe conhecia a dona do estabelecimento e foi por algum tempo sua empregada. O seu trabalho é imprescindível para a nossa história. Parabéns”.

A fotografia atual é minha autoria – mostra o local onde era a Sorveteria Pinguim - está fechada e sem nenhuma atividade econômica, somente as lembranças dos velhos tempos.

No entanto, as aulas estão voltando a normalidade, a Praça da Saudade está toda revitalizada e o palacete da esquina virou biblioteca pública, faltando somente voltar a frequentar o local as nova geração de estudantes.

A escrever essas linhas saudosistas veio-me a mente a ideia de conversar com o meu filho Alexandre Soares, que é do ramo de sorveteria, para conversar com o proprietário do prédio e, caso o aluguel não for salgado, mas, sim, doce que nem um sorvete misto de casquinha, quem sabe um dia abrirmos em novo estilo a nova Sorveteria Pinguim.

É isso ai.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

ANOS DOURADOS



Em oposição aos anos de guerras, estagnações e destruições, acontecidos no período da Segunda Grande Mundial (1939-1945), vieram os anos de concórdia e o desenvolvimento social, tecnológico e financeiro, ocorrida na década de 50, uma década conhecida como “anos dourados”, com sentimentos de otimismo e esperança por todo mundo.
Historicamente, este período foi marcado com o seguinte:
1. Inauguração, em 1960, de Brasília, a nova capital federal;
2. O nosso Brasil torna-se Bi-Campeão da Copa do Mundo de 1962;
3. O soviético Iuri Gagárin foi, em 1961, o primeiro a ir ao espaço;
4. Surgem os Beatles e os The Rolling Stones, influenciando no Brasil, do rock, com o nome de “iê-iê-iê”;
5. Marcam muito as mortes da atriz Marilyn Monroe, em 1961, e do assassinato, em 1963, do presidente americano John F. Kennedy;
6. No Brasil surgiram as enceradeiras, liquidificadores, panelas de pressão, vitrolas de alta fidelidade e televisores - eram bens de consumo que mudaram muito a vida dos brasileiros;
7. Os jovens começaram imitar James Dean e sua juventude transviada - as roupas mais utilizadas eram as jaquetas de couro e calça comprida;
8. Na música, os moderninhos dançavam o rock and roll e o twist com seus topetes caídos na testa;
9. Iniciavam-se os festivais de música brasileira que revelaram compositores e cantores de talento, dentre eles, Vandré, Torquato Neto, Alciole Carlos. Roberto e Erasmo Carlos, além do surgimento dos Novos Baianos e do Tropicalismo e da Bossa Nova;
10. Em Manaus, nos primeiros anos da década sessenta, antes da “Revolução de 64”, ainda vivíamos o finalzinho do famoso “anos dourados”, uma época em que deixou muitas saudades, pois, tudo era chique, diferente, algumas pessoas chamavam de “anos glamorosas”, outros tantos, gostavam de referir aos jovens riquinhos de “jeunesse dourè ou juventude dourada”.
A grande maioria dos sessentões de hoje, ainda gostam de falar: “Eu era feliz e não sabia”.
Até hoje, quando se quer fazer uma “Festa Retrô”, voltando ao túnel do tempo, estes anos nunca são esquecidos, pois existem inúmeras empresas de serviços especializados em roupas, acessórios e DJ´s mandando ver as músicas daquele belo tempo que passou.
Após os anos dourados, passamos por décadas perdidas, onde as pessoas ficaram mais egoístas, medrosas, restritas ao seu trabalho, sua família e um grupo restrito de amigos.
O mundo e a humanidade são marcados por altos e baixos, acredito que, depois de tantos baixos, precisamos vivenciar novo “Anos Dourados”.
É isso ai.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

O VEREADOR DAVID REIS AFRONTOU A COMUNIDADE DA PRAÇA 14 DE JANEIRO

 O VEREADOR DAVID REIS AFRONTOU A COMUNIDADE AFRO ORIGEM DA 14

O vereador é o representante do povo, dessa forma, têm o dever de propor leis que vão de encontra aos anseios da sociedade e beneficar aos seus membros. 

O que o vereador David Reis fez foi totalmente contrário a este princípio básico. 

Tanto que a comunidade da Praça 14 de Janeiro está se mobilizando para reverter esta lei. 

Onde já se viu, trocar o nome de uma Praça que homenageou uma pessoa querida, amada e respeitada da comunidade afro origem?

 O Oscarino Peteleco foi um icone cultural da cidade de Manaus e morou no local onde está inserida a Praça, merece ser lembrado o seu nome em um logradouro público, porém, numa nova praça dentro do bairro (ou revitalizar uma já existente que está em seu nome). 

Agora, tirar o nome de uma personalidade histórica do bairro e colocar outra também importante, sem consultar o povo é um contrassenso e um derespeito aos manauaras. 

O prefeito David Almeida foi induzido ao erro ao sancionar tal lei esdrúxula. Vai pegar bem se for imediatamente revogada. Lembre-se vereador David Reis um dia voltarás a pedir votos da comunidade da 14!

Obs. Esta Praça fica entre as ruas Japura e Taruma. (foi construída pelo PROSAMIM), onde passam as águas da nascente do Igarape de Manaus (Cacimbal da Rua Barcelos). 

Toda a comunidade da 14 têm o dever de adotar e cuidar com muito carinho da Praça Nestor Nascimento e ignorar a proposta deste vereador.

PRAÇA 14 DE JANEIRO

Por José Rocha 

O Berço do Samba

O Samba na 14 é de Janeiro a Janeiro

Vila Maranhense

Governador maranhense Eduardo Ribeiro doou todas aquelas terras para os seus conterrâneos se alojarem

Praça Fernandes Pimenta

Praça 14 (levante que derrubou o governador)

Praça Portugal

"Não é direito/Não é legal/ Mudar o nome de Praça 14/Para Praça Portugal. Zé Ruindade e cantada em forma de protesto por Tia Lourdinha"

Praça 14

Escola Mixta da 14

GRES Vitória Régia

Barranco de São Benedito

Dona Severa Nascimento

Segundo Quilombo Urbano do Brasil

Samba da Resistência

Praça Oscarino Peteleco

Nestor Nascimento, advogado dos pobres e oprimidos, líder da comunidade, fundador da Escola Vitória Régia e do Movimento Alma Negra e meu professor e amigo

Praça Nestor Nascimento

Movimento Alma Negra

Pão Torrado

Couro Velho 

"Não mexe comigo que eu não ando só/Que eu não ando só, que eu não ando só/Não mexe, não... M. Betânia"

Hoje, teremos manifestações na Praça Nestor Nascimento

Vamos respeitar a história e a tradiçao do nosso bairro!

É isso ai.

terça-feira, 20 de julho de 2021

O FUTURO É AGORA


Aquilo que assistíamos no passado nos filmes e desenhos animados está virando realidade no presente.

Aulas virtuais e home office em escala mundial é uma realidade, vieram para serem mesclados com o presencial, sem a volta total do sistema antigo.

Os carros elétricos são produzidos em larga escala e aos poucos estão substituindo os antigos de combustiveis fósseis.

Os carros voadores já entraram em testes, com produção em larga escala nos próximos anos.

Os voos espaciais por civis já estão em andamento, com previsão de tornar-se um lugar comum viagem de turismo para o espaço com estada em hotéis dentro de estações orbitais e até na Lua e Marte.

Nanotecnologia, realidade virtual, inteligência artificial já são coisas comuns.

Na realidade, estamos destruindo o nosso planetinha e se preparando para uns poucos felizardos morararem no espaço.

A despeito de tudo isto, eu queria regredir e passar o resto do meu tempo dentro de um sítio no interior, em contato com a natureza na Amazónia, onde moro.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

ALEX TRADICIONAL ALEX BAR FECHA AS PORTAS EM DEFINITIVO.


O Alex Bar ficava na esquina da Avenida Getúlio Vargas com a Rua Saldanha Marinho, centro antigo de Manaus.


Foi fundado em 1953 pelo português Alexandre Loureiro.


Após a morte do Alex, o negócio foi tocado pelos filhos.


Eles até inauguraram o famoso A2, uma boite preferida pelo público LGBT.


Segundo os historiadores, praticamente todos os bares tradicionais eram tocados por família portuguesa. Muitos fecharam as suas portas e outros ainda resistem até hoje.


Relaçao de Bares Portugueses:


BAR SÃO DOMINGOS

Endereço: Rua Barão de São Domingos

MARQUES DE POMBAL

Endereço: Wilkens de Matos c/Rua Alexandre Amorim

ALEX BAR

Endereço: Av. Getúlio Vargas c/Rua Saldanha Marinho

ESTELA BAR

Endereço: Av. Joaquim Nabuco c/Rua Quintino Bocaiuva 

BRASIL BAR

Endereço:Rua Epaminondas 

BRASILUSO

Endereço: Rua Leonardo Malcher 

PUREZA BAR

Endereço: Rua 10 de Julho

CARMONA BAR

Endereço: Rua Lobo Dalmada

BAR NATALIA

Endereço: Rua Epaminondas c/R José Clemente

BAR SOEIRO

CASA DIAS

CAÇALDA ALTA

Endereço: Rua Costa Azevedo

BAR JANGADEIRO

Endereço: Edifício Tartaruga

BAR SÃO MARCOS

Endereço: Rua Floriano Peixoto 

CALDEIRA BAR

Endereço: Rua José /Clemente c/Lobo Dalmada

BAR DO MARCILIO

KATQUERO BAR

Endereço: Rua Floriano Peixoto

BAR CAROCHINHA

BAR DO ARMANDO

Endereço: Rua 10 de Julho

BAR DO QUINTINO

Endereço: Rua Henrique Antony

BAR FAROL VERDE

Endereço: Rua Humbe

BALALAIKA BAR

Endereço: Rua Leonardo Malcher c/Rua Epaminondas

LOBOS BAR

Endereço: Av. Getúlio Vargas c/Rua Dr. Machado

MICRO BAR

Endereço: Av. Eduardo Ribeiro 

BAR BOLA SETE

BAR SOLAR DA OLÍMPIA

Endereço: Rua Leonardo Malcher c/Av. Getúlio 

ALVORADA BAR

Endereço: Rua Japurá c/Comendador Clementino

AURORA BAR 

BAR DO ZÉ GRILO


Com a pandemia o Alex Bar ficou fechado por todo esse tempo. Ainda tentaram reativa-lo, mas não foi possível, sendo aberto em seu lugar uma Drogaria.


É isso ai.

14 DE JULHO, A FESTA FRANCESA

 A França está em festa, comemorando a tomada inesperada e violenta da Bastilha (uma fortaleza medieval que abrigava prisioneiros), ocorrida em 1789, um movimento popular que culminou com a derrubada da monarquia e o início da Revolução Francesa, gerando mudanças no mundo inteiro (Liberdade, Igualdade e Fraternidade).

Os franceses tentaram várias vezes invadir o Brasil. No ano de 1555, eles fundaram a França Antártica, na baía da Guanabara, atual Rio de Janeiro.

Rondavam algumas partes do litoral brasileiro onde fizeram algumas feitorias e fortes militares, além de fazerem alianças com os povos indígenas (sem exigir trabalhos forçados como faziam os portugueses).

Após serem expulsos, em 1567, os franceses se estabeleceram em São Luís, onde fundaram, em 1612, a França Equinocial.

Após a sua expulsão, em 1615, foram para as Guianas, onde fundaram a Guiana Francesa.

Mesmo não conseguindo colonizar o Brasil, os franceses deixaram grande influência no pensamento (direitos humanos e revolucionários), artes (Academia de Belas Artes) e cultura (ABL foi inspirada na Academia Francesa).

A nossa cidade Manaus teve uma grande influência da França, no período conhecido como Belle Époque (1871-1914, período de grande produção artística, literária e desenvolvimento econômico), sendo conhecido como a Paris das Selvas, onde os ricos seringalistas e suas famílias viviam a moda e costumes franceses.

Mesmo sendo o dia mais importante para os franceses, não poderemos deixar de registrar a data e parabenizá-los, pois a influencia deles para a nossa formação cultural foi muito grande.

Vive La France!

Foto: G1

sexta-feira, 9 de julho de 2021

GORGONHA

 GORGONHA

Informo com bastante pesar o passamento do meu amigo e vizinho da Rua Tapajos, o Zezinho Gorgonha.

O seu pai conhecido como Seo Gorgonha, foi o presidente do Rio Branco FC, um time da segunda divisão do campeonato amazonense da FADA.

A família Gorgonha é conhecidíssima em nossa rua, mas tive um contato maior com o velho Gorgonha e o Zezinho quando prestavam serviços para a empresa Souza Arnaud.

Eles possuíam caminhões tipo Munck, dotados de guindastes.

Os dois faziam o trabalho de retirada no Roadway dos motores de centro marca "Yanmar" e leva-los para o depósito que ficava no V8 (atual Condomínio Efigenio Salles) e também de entrega-los aos clientes do interior.

O velho Gorgonha era um homem negro, alto, de fala mansa, sério, muito inteligente e com uma força fora do comum perdendo somente para o Munck.

Existem muitos causos dele que "mata de rir" até hoje os mais antigos moradores .

Por outro lado, o Zezinho Gorgonha era baixinho e magro, falava pelos cotovelos, era da "rede rasgada", um gozador nato.

Foi o braço direito de seu pai até o velho morrer.

Quando se aposentou as doenças começaram aperecer.

Ficava sentado em frente a sua casa (defronte ao estacionamento do Sebrae), com um sorriso largo, sempre conversava com todos, gozando de um e de outro, não se deixando abater com os seus problemas de saúde.

Quando eu passava por lá e tinha tempo para ouvi-lo, a prosa era longa.

Gostava de falar dos velhos tempos do Souza Arnaud e da nossa associação, a Arsa e dos velhos amigos.

Sempre falava bem do Senhor Douglas Arnaud, do  Dr. José Carlos Lima, Irineu, Jorge Cordeiro, Adelson Cordeiro, Conceição Kramer, Sebastiana, Cabralzinho, Agenor Braga, Cleidir, Antonio Folhadela, Domingos, Bosco, Reis, Celina, Sildete, João Lambança, Gricelda, Antonio da Contabilidade, Carlos Pernambuco, Henrique Martins, Emilio, Nobre, Melo, Plínio, Joãozinho, Raimundinho, Compadre Alberto, dentre outros.

Era uma volta ao passado.

No mês de maio foi a última vez em que conversamos.

Que Deus o tenha em um bom lugar.

Descanse em paz meu amigo Zezinho Gorgonha!