sexta-feira, 26 de novembro de 2021

RITUAL DA TUCANDEIRA

 RITUAL DA TUCANDEIRA


Hoje, 26 de novembro, inicia-se a festa do ritual da tucandeira. Aproveitei um trecho do livro "Conhecendo a Amazônia" (no prelo), do meu irmão Rocha Martins Filho, para os amigos terem uma ideia do evento:


"Antes desta viagem foram com o guia assistir  ao “Ritual da Tucandeira”, um evento que acontece anualmente na Comunidade Ariaú, no município de Manacapuru, distante 80 quilômetros de Manaus. O evento é promovido pelo casal Baku e Acey, indígenas da etnia Sateré-Mauê que migraram da cidade de Maués. Alugaram o carro em Manaus, atravessaram o Rio Negro numa balsa  tipo ferryboat. De lá pegaram a estrada Manoel Urbano (AM-070) e foram até a Aldeia Sahu-Apé, no Rio Ariaú.                                          Este é o ritual de iniciação para a vida adulta, onde meninos e até meninas enfiam as mãos numa luva cheia de formigas Tucandeiras durante aproximadamente vinte minutos. Os meninos demonstram com este ato que estão aptos para a vida, ganhando respeito e admiração, além da certeza de que estão protegidos contra várias doenças.  A Tucandeira é uma formiga cuja picada do ferrão provoca dores durante 24 horas seguidas. Naquele dia foram dezoito meninos e duas meninas que participaram do “Encontro dos Guerreiros”, como foi batizada a programação. Eles vieram de várias comunidades, incluindo a zona rural de Manaus. São necessárias 20 sessões, no mínimo até completar a vida adulta  para completar o ritual. Eles ficam com os braços estendidos, inchados e pintados de tinta de jenipapo, dançando para “esquentar o corpo” e suar, depois descansam e submetendo  a  nova sessão, embora  suas  mãos  ainda  continuassem doloridas. Para conhecer um pouco da cultura dos povos da floresta,  somente o Sally decidiu participar do ritual. Descreveu a emoção:                                                                        “A partir do momento em que coloquei a mão dentro da luva  já comecei a ser picado. É muito forte, parece que a cada minuto   só piora, é como se fosse  uma queimadura por dentro da pele, arde demais, elas não param  de atacar, é como se uma agulha estivesse se movendo dentro da minha mão.                                                           Apesar de  tudo, é  muito emocionante”, afirmou.    

       É recomendado aos turistas que desejam participar do ritual  que verifiquem antes se possui algum tipo de alergia a insetos.  O veneno da Tucandeira é muito forte e pode causar reações    graves a quem for ferroado por uma grande quantidade de formigas,  como as usadas no ritual.                                                                        Os indígenas sateré-mawé abriram ao turismo como forma de manter  viva a cultura indígena por porte dos mais jovens que vivem na cidade  e  para  diminuir os preconceitos contra os índios por parte dos  brancos.

        No dia seguinte, retornaram a Manaus.   O pajé recomendou ao Sally que evitasse por um mês comidas gordurosas, bebidas alcoólicas e sexo. Evidentemente que o primeiro item ele sempre evitou,  agora os dois últimos                          foi difícil segurar  por  tão  longo  tempo."

Observação: Este livro é ambientado na década de 80. Trata de uma viagem de barco, de três suecos e o autor, partindo de Tabatinga, passando por Manaus até Belém.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O PETRÓLEO É NOSSO?


José Rocha


Ao longo dos anos, o Brasil lutou bravamente para ser autossuficiente em petróleo, ou seja, extrair de seu solo o que consumia e ainda exportar o excedente.


Certa dia, a imprensa noticiou que havía chegado a nossa redenção.


Lembra do Pré-Sal?


Foi um sentimento de alívio, pois a nossa balança de pagamentos seria positiva e sobraria dinheiro para investir no bem-estar do povo brasileiro.


Por outro lado, o petróleo brasileiro é do tipo pesado e as refinarias aqui instaladas não possuem tecnologias para o seu processamento.


Elas foram instaladas para processar o petróleo do tipo leve (importados dos países árabes).


A Petrobras direcionou todos os seus investimentos para a exploração e comercialização e não o refino.


Moral da História: continuamos dependentes de petróleo do exterior!


Exportamos o petróleo bruto a "preço de banana" e importamos refinado (gasolina, diesel etc) a "preço de ouro".


E por que não modernizamos as nossas refinarias?


Falta interesse do governo brasileiro,  tecnologias de ponta e pressão internacional dos países ditos industrializados.


Eu sei que isto é apenas um voo panorâmico, pois existem dezenas de razões e motivos que desconhecemos.


Enquanto isso, os brasileiros se humilham na fronteira com a Argentina para comprarem gasolina pela metade do preço praticado no Brasil.


Por que o Etanol é tão caro se toda a produção de cana está em solo brasileiro? Essa é outra historia!


Por que o petróleo de Urucu no Amazonas é o mais leve do mundo e nesmo assim a base foi vendida (ou dada)?


Por que a Refinaria de Manaus foi vendida (ou dada)?


Se o petróleo de Urucu é leve e a Refinaria de Manaus pode processar,  por que a gasolina de Manaus é uma das mais caras do Brasil?


Vender a Petrobras será a solução?


O que vocês acham desta situação?


O petróleo é nosso?


É isso ai.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

OS CAMELÔS E AS MALANDRAGENS DO CENTRO DE MANAUS – DÉCADAS DE 70 E 80

 


No início de minha carreira profissional, trabalhei em três empresas localizadas no centro de Manaus: Central de Ferragens,               Lojas Populares (Braga & Cia.) e Importadora Souza Arnaud (todas extintas), onde tive a oportunidade de conviver e observar durante quase uma década o comportamento dos camelôs e da malandragem da parte central da cidade, na época do “boom” do comércio            de importados da Zona Franca de Manaus.

Os comerciantes ambulantes informais, conhecidos como “Camelôs” sempre estiveram presente aonde existem grandes movimentações             de pessoas e de circulação de dinheiro.

Nas décadas de 70 e 80 o centro da cidade fervilhava de turistas brasileiros, pois o mercado do Brasil era fechado às importações, tornando a Zona Franca uma “Meca” para compras de produtos       “Made in Japan, Hong Kong & Companhia”.

Em decorrência desse grande fluxo de pessoas, os “camelôs” marcavam presença e eram combatidos pelos lojistas e perseguidos pela Guarda Municipal, conhecidos como “Rapa” que levavam tudo       do caboco que dava bobeira.

Por existirem uma grande circulação de pessoas e dinheiro, misturado com produtos disputadíssimos, os ambulantes e a malandragem imperava naquela área central.

Como comentei acima, trabalhei em três empresas, exercendo           a nobre função de expert em comércio exterior, onde foi possível verificar “in loco” toda àquela movimentação das ruas e, como          um bom observador que sou, guardei muitas coisas num cantinho     de minha memória, para um dia escrever em nosso blog para os mais jovens da nossa Manaus.

Quando eu saía da empresa para almoçar, ficava olhando a atuação de alguns camelôs e suas estripulias:

1.   Alguns gritavam bem alto: “Temos fitas cassete TDK, radinhos a pilha, jogos Atari, rádios-relógio, pilhas, baterias                   e brinquedos, tudo importado. Mulher bonita, não paga, mas também não leva!”;

2.   Quando passava uma morena avantajada, uns falavam:        “Eita Capu de Fusca Arrumado, este nasceu e foi criado, sem calcinha, nas águas barrentas do Rio Solimões!”;

3.   Tinha uns caras que andavam com um saco de juta         contendo algumas bolas pequenas de plástico.                       No interior da boca utilizavam um apito que tinha igualmente     o som de um gato miando em desespero. O safado largava       a peia com um pau no saco e assoprava o apito como estivesse maltratando os supostos gatos. A grande maioria dos turistas achava aquilo um horror e parava para pedir:                           “Pelo amor de Deus pare com isto!”, o camelo falava que era apenas um apito e que não existe nenhum gato dentro saco, vendendo na hora um exemplar.

4.   Eles pegavam uma nota de papel moeda, tipo 10 Cruzeiro,         e amaravam a uma linha fina de pescaria.                              Quando passava um sujeito e avistava aquela grana no chão, olhava para um lado e para outro e ao se abaixar para pegar          a nota, o camelô puxava a linha e a negada caia na gargalhada deixando o camarada vermelho e com aquela cara de leso;

5.   Certa vez, um camelô comprou numa loja de importados        um brinquedo tipo Robô, que andava para lá e para cá balançando os braços. Falou e disse que aquele robô iria dar um pulo de vinte metros, dando várias cambalhotas no ar e cairia em pé. Eu e uma multidão ficamos interessados em ver aquilo. O cara era bom de gogó, falava que nem a preta do leite e, nada do robô sair do chão. Quando já tinha “gente saindo pelo ladrão” ao redor do dito robô, o malandro começou a falar       de um remédio milagroso que curava dezenas de doenças, todos compraram, incluindo o abestalhado aqui, o cidadão inventou uma desculpa e “pegou o beco”. Era placebo! Pense.

6.   No meio deles se enturmava “a fina flor da malandragem manauara”. Na época, o desejo de consumo chamava-se      “Vídeocassete Player, Toca-Fitas e Aparelhos de Som”,             o pilantra escolhia a sua presa (geralmente um turista com cara de abestalhado) e falava: - Mano, eu tenho um vídeo cassete de primeira linha, na caixa, vendo pela metade do preço, com nota fiscal e tudo! O olho do camarada arregalava e imaginava que iria ganhar uma montanha de dinheiro em sua cidade origem. Levava o sujeito por várias ruas e parava                   na Rua Marechal Deodoro bem em frente à Galeria Central, pedia uma entrada em grana para ir buscar o produto,             o malandro descia até a Avenida Eduardo Ribeiro e sumia         no mundo, o coitado do cliente deve estar se lamentando até hoje;

7.   O jogo de azar imperava entre eles: Porrinha (sempre ficava um de olho nos palitos que alguns jogadores colocavam nas mãos e fazia gestos para um ganhar a grana dos otários). Sempre era valendo uma grana ou cerveja.                            Tinha, também, a Maria Pretinha. Um manipulava o jogo           e outros dois fingiam serem jogadores que supostamente estariam ganhando muito dinheiro, chamando a atenção         de curiosos. O camarada tinha muita habilidade nas mãos conseguindo trocar as bolinhas para que não tivesse ganhador. Tinha o Golpe da Baluda e do Falso Bilhete. Eram aplicados        nas saídas de bancos, quando a vítima era atraída por um bloco de papel que imitava grandes quantidades em dinheiro.             O outro é a troca de uma quantia em dinheiro da vítima por     um bilhete supostamente premiado;

8.   Quando vendia um produto importado e o cliente perguntava    se havia garantia, eles respondia na maior: “A Garantia soy yo”.

Na primeira administração do Prefeito Arthur Neto, em 1988, ele  mandou “baixar o cacete” nos camelôs. Foi uma perseguição implacável. Muitos anos depois, no segundo mandato de alcaide       de Manaus, tirou uma parte dos camelôs de centro e os recolocou nos chamados em mini shopping populares, para diminuir o peso em sua consciência.  

O tempo passou e tudo mudou, porém, os camelôs continuam         no centro da cidade, agora na qualidade de micros empreendedores.

Acho que a malandragem não existe mais como nos velhos tempos do auge da Zona Franca. Ou continua?

É isso ai.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

DIA DO PROFESSOR

15 DE OUTUBRO, O DIA DO PROFESSOR.


Hoje, 15 de Outubro, dia comemorativo do “lente”, professor e mestre, aquele que no mesmo dia e mês do ano de 1827, o D. Pedro I, editou um Decreto Imperial criando o ensino elementar em nosso país, bem como, no mesmo dia e mês de 1963, o presidente da República, o João Goulart, institui o “Dia do Professor”, através do Decreto Federal no. 52.682.


O Decreto do Imperador era inovador, pois determinava a descentralização do ensino, a remuneração justa dos professores e as matérias básicas que deveriam ser ministradas, porém, desde aquela data até os dias atuais, os governantes vêm desrespeitando isso.


Realmente, a educação e os professores não são levados a sério pelas autoridades governamentais em nosso país.


Somente para exemplificar: no governo do Collor, um empresário paulista faliu em decorrências das políticas econômicas adotadas pelo executivo, ele e a esposa foram para o Japão, em busca de emprego numa empresa automobilística, chegando lá, passaram por uma triagem, o marido foi encaminhado para o setor de descarga de carros, para tirar a rebarba das soldas, mesmo tendo um título de engenheiro no Brasil, ganhando dois mil e quinhentos dólares por mês, enquanto, a sua esposa, formada em pedagogia, foi reverenciada pelos japoneses, sendo admitida como diretora da escola dos filhos dos trabalhadores brasileiros, com um salário inicial de cinco mil dólares (ela ganhava três salários mínimos no Brasil), demonstrando o quanto eles tem respeito pela educação.


Enquanto isso, o Brasil ficou em penúltimo ranking mundial de educação, elaborado pela Unesco. Segundo os professores da UnB as causas foram em decorrência do numero elevado de vagas ofertadas nas escolas do país, sem que houvesse expansão da infraestrutura de ensino e do numero de professores, além da baixa formação dos docentes e da demora por parte do governo para dar prioridade à área.


Apesar de todos esses desrespeitos a educação no nosso país e aos professores, nada mais justo do que lembrarmos e agradecermos aos nossos mestres, com todo o carinho do mundo.


Nesse dia importante, agradeço imensamente aos meus mestres:


Professora Genoveva – uma portuguesa de olhos azuis, morava na esquina das Ruas 24 de Maio e Costa Azevedo, professora de “primeiras letras” no Colégio Barão do Rio Branco, na Avenida Joaquim Nabuco – foi ela que me ensinou a ler e escrever;


Professor Alonso – morador da Rua Marçal (entre a Rua Costa Azevedo e Avenida Getúlio Vargas), ele foi uns dos melhores professores da língua portuguesa em Manaus, lecionou  durante anos no Colégio Benjamin Constant;


Professor Garcytilzo de Lago e Silva – fui seu aluno no Instituto de Educação do Amazonas, a sua sala de aula era o laboratório do colégio, depois, foi lecionar na UFAM e no ICBEU;


Professor Jefferson Peres – fui seu aluno na disciplina de Economia Brasileira, porém, não consegui absorver muito os seus ensinamentos e, fui reprovado, mas, não guardei mágoas, tanto que estou lembrando dele neste momento;


Professor José Seráfico – um dos mais brilhantes professores da Faculdade de Estudos Sociais (Administração de Empresas) da nossa querida Universidade Federal do Amazonas – a base da minha formação profissional devo a ele.


Certa vez, um professor paulista, o Salomão Becker, fez um discurso nessa data, em 1947, ao qual ficou famoso pela frase "Professor é profissão. Educador é missão".


Parabéns aos professores pelo seu dia, em especial, aos meus mestres, com carinho. 


É isso ai.

domingo, 3 de outubro de 2021

A MESA DA DIRETORIA DO BAR CALDEIRA

Até hoje é a preferida pelos mais antigos por dar uma visão privilegiada de todo o interior do bar e ficar bem em frente ao aparelho de televisão. Um lugar ótimo para assistir a um jogo de futebol ou a apresentação de shows musicais interno. Por ser grande é a preferida para fazer comemorações. Tradicionalmente, quem senta na cabeceira de qualquer mesa grande é uma pessoa importante, o chefe superior ou o pai de família. Traz destaque e status para a pessoa. No Bar Caldeira é a mesma coisa. No entanto, ficou famosa até os dias de hoje por outro motivo. Segundo contam os mais antigos quem sentar-se, costumeiramente, na cabeceira e de costa para a parede está chamando a morte, pois traz agouro, antecipando a lista da fila dos que irão para o andar de cima. Se for lenda ou não, eu não sento lá de jeito nenhum. Na realidade, aquele lugar é o preferido pela pessoa que bebe todo dia, pois dificulta a sua visualização por quem passa à pé ou de carro.
Pavão – É representante de laboratórios farmacêuticos. Grande músico e irmão do Mark Clark e do Flávio de Souza. Nunca o vi bebendo no bar, no entanto passava todos os finais de semana por lá, parava e olhava para dentro do bar e caso conhece o sujeito que estava sentado na cabeceira da mesa, falava, na brincadeira: - Tu vais ser o primeiro da fila!
De tanto tirar saro da cara dos outros foi apelidado de “Rasga Mortalha”.
Tapinha – O seu prenome era Atalpha, mas por ser baixinho ficou conhecido no bar como Tapinha. Certa vez ele foi à missa de sétimo dia de um boêmio do Bar Caldeira, na Igreja de São Sebastião, ele chegou atrasado e bêbado, ao entrar falou bem alto: - Falavam que eu era o primeiro da fila, né? Tô nem ai. Ainda irei enterrar muita gente, incluindo até o padre que está ai no altar! A galera do Bar Caldeira estava em peso, todo mundo começou a rir, incluindo a viúva, os parentes e até o padre e os coroinhas. O Tapinha continuou sentando na cabeceira da Mesa da Diretoria e tempos depois atravessou o espelho. O seu filho, o Athalpa Filho, sucedeu ao pai na boêmia. Frequentava o Bar Caldeira aos domingos. Ele tinha um mote: - Prefiro ser corno a ser diabético!
Certa vez, o Athalpa estava em companhia do advogado Dr. Marco Aurélio, conhecido por “Barrão”, os dois estavam bebendo no Caldeira, quando passou por lá a namorada do Sacy da Pareca, a “Sincera”, ela estava com um shortinho e sapatos altos, desfilando pela José Clemente, quando ia descer o ladeirão da Lobo DÁlmada caiu no chão, essa Athalpa deu uma risada bem alta e ficava apontando para ela. Depois dessa, a Sincera nunca mais apareceu por lá. Quando ele ia ao bar ficava admirando a foto de seu pai ao lado do Vinicius de Moraes. Infelizmente, não resistiu a Covid-19 vindo a falecer em dezembro de 2020.
Doutor Lió – Era um dentista da melhor qualidade. Querido por todos. Foi um bom amigo. Era espiritualista. Gozador nato e tirava saro de tudo e de todos. Fumava que nem uma caipora. Era inveterado por cigarros. Em 2011 foi aprovada a Lei 12.546 chamada Lei Antifumo que proibia fumar em todo país em ambientes fechados públicos e privados. Apesar de ainda não ser regulamentada, o que somente aconteceu em 2014, o Adriano Cruz, colocou um aviso proibindo expressamente os clientes fumarem dentro do bar. A lei estabelecia multas e até a perda da licença de funcionamento em caso de desrespeito a norma. A segunda providência foi jogar no lixo todos os cinzeiros. Falava em voz alta: - Quem quiser fumar, que fume, porém, lá fora, aqui dentro, não! Agora é lei. Leia o aviso na parede. Foi complicado. Muitos não aceitavam e teimavam em fumar no interior do estabelecimento, o que eram na hora repreendidos. O Doutor Lió era a única exceção.
Sempre após o expediente batia o ponto no bar e o seu lugar preferido era exatamente àquele em que a maioria fugia por ser agourento: a cabeceira da Mesa da Diretoria, de costas para a parede. Meu Deus. O seu filho mais velho sempre ia ao bar pegar uma grana com o pai, depois que o primogênito saía, ele falava: - O filho passa nove meses na barriga da mãe e o resto da vida colocando no do pai! – ficava batendo a mão direita aberta na mão esquerda fechada. Era tudo brincadeira, pois amava e admirava muito os seus filhos. Quando levantava para “tirar água do joelho” falava: - Agora vou pegar no pesado! – referindo ao seu bilau. Segundo a atriz Socorro Papoula, ele tinha várias namoradas, mas possuía uma preferida, era uma enfermeira baixinha e bonitinha. Após tomar todas, pagava a conta e dizia: - Agora vou prá casa fazer sexo, a minha namorada Juceta já me ligou várias vezes! – era a sua preferida.
Passou uma temporada sem fumar. Ficou abstêmio da nicotina. Quando alguém perguntava o que ele fez para parar de fumar, respondia: - Prometi a mim mesmo se voltasse a fumar daria o traseiro duas vezes por semana! Não cumpriu a promessa e voltou a fumar novamente. Com o tempo apareceu o nódulo no pescoço, foi crescendo lentamente. Um dia reuniu alguns amigos do bar, entre eles o Adriano, Miudinho e o Jorginho, foram para Maués, no navio Dona Carlota. Ninguém sabia, mas estava se despedindo dos amigos e da vida. Morreu de câncer pouco tempo depois. Será sempre lembrado por todos os velhos boêmios.
O Lanterninha Farias – Trabalhou por longos anos no Cine Guarany ajudando assentar as pessoas que chegavam atrasadas, pois com a sua lanterninha sabia perfeitamente onde existiam cadeiras vazias. Ele era um cara que tinha uma grande cabeleira, tirando a todo instante do bolso um pente da marca “Flamengo” para penteá-la. Usava sempre um enorme óculo de sol, acho que se inspirava em algum ator de cinema das antigas, além de ter um vozeirão daqueles e falava pelos cotovelos, parecia com aquele comediante famoso, o “Zé Bonitinho”. O cinema era frequentado por um grupo especial formado pelo Jeremias, Mococa e outros rapazes alegres, que davam em cima da molecada. O Farias sempre ficava de olho nessa turma que aproveitava a escuridão para alisar os marmanjos. Muitos anos depois, reencontrei o Lanterninha Farias, no Bar Caldeira, pois ele morava por aquelas imediações. Conversamos muito sobre o nosso saudoso Cine Guarany, lembrando e sorrindo dos velhos e bons tempos que não voltarão jamais. Aparecia somente aos domingos quando a Velha Guarda se apresentava. Bebia somente no lado de fora do bar. Era invocado com a Mesa da Diretoria, falava que ela trazia agouro e quem ali se abancasse por um bom tempo, faleceria precocemente. Coisas de louco. Passou uma temporada enchendo “a cara” debaixo de uma árvore frondosa, no Bar Mangueira, vindo a falecer tempos depois. De nada adiantou fugir tanto da Mesa da Diretoria.
Artista Plástico Palheta – Era frequentador assíduo do Bar Caldeira. Tive o privilegio de conhecer dezenas de trabalhos realizados pelo grande artista plástico, bem como, de usufruir da sua amizade e de ter tido a oportunidade de conhecer alguns causos muitos hilários, tendo como personagem principal o nobre amigo. Trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, no período de 1975 a 1980, na respeitada função de ilustrador botânico. Tinha uma capacidade incrível para retratar o rosto humano, chegando até ser colaborador da Polícia Civil, fazendo o famoso “retrato falado”. Durante todos esses anos de amizade, sempre o apoiei, valorizando os seus trabalhos artísticos, com publicações no BLOGDOROCHA, além de passarmos horas conversando, rindo das piadas e causos que somente ele sabia contar. Gostava de sentar-se somente na Mesa da Diretoria, pois era um artista considerado por todos. Viva somente de seu trabalho, no entanto, passava meses sem vender nenhuma obra, o que o deixava cabisbaixo, mesmo assim não deixava de frequentar o bar e os amigos do peito sempre pagavam umas ampolas para ele. Quando estava “Barão”, andava bem vestido “no linho”, levantava os ombros e a cabeça e pedia somente doses de Uísque. Falavam que ele ficava esnobe e chato (boçal), mas era “mão aberta” e fazia questão de retribuir pagando cervejas para aqueles que ele “serrava”, brindando até com tira-gosto de Queijo Bola. Quando a fonte secava, voltava novamente a “estaca zero”. Era o momento para armar-se de sua prancheta, papel A4, lápis e borracha para fazer caricaturas no Bar Caldeira, principalmente aos domingos à tarde quando se reunia a velha guarda mais abastada financeiramente. Certa vez, ele contou-me um acontecido no bar: chegou por lá um sujeito que ninguém conhecia, ele ficou a observar o Palheta fazendo o seu digno trabalho, chegou perto e falou-lhe: - O amigo pode fazer a minha abreugrafia? O Palheta arregalou os olhos e disparou: - Olha aqui me amigo, sou o artista plástico Palheta e faço caricaturas, quem faz abreugrafias é ali embaixo na Rua Lobo D´Álmada, vai lá e procura o Ambulatório Cardoso Fontes!
O cara insistiu: - Faz essa porra ai mermo! O Palheta levantou-se, tufou o peito e pensou “Puta que o pariu, seu eu não estivesse liso e com duas contas de luz atrasadas eu daria umas porradas neste tuberculoso, somente para respeitar o trabalho do artista plástico”. Mesmo assim fez um trabalho caprichado e pelo abuso do camarada cobrou dobrado pela abreugrafia.
Outra vez, a jornalista Hermengarda Junqueira, do Jornal Amazonas Em Tempo, encomendou uma obra do Palheta. Trancou-se em seu ateliê na Rua Maués, no bairro da Cachoeirinha e fez um belo trabalho. Ele estava “mais liso do que sabão na tábua”. O jeito foi ir de ônibus até o bairro do Aleixo onde ficava a sede o jornal. O busão estava lotado, colocou o quadro na cabeça e foi em pé. Ficava esbarrando em todo mundo. Um cidadão falou: - Não dá para o senhor abaixar essa Tábua de Pirulito! Pense num cara puto de raiva: - Isto aqui é uma obra de arte. Tábua de Purulito é o caralho!
Ao chegar lá depois de muito sacrifício, a jornalista falou: - Passe daqui uma semana para receber o seu dinheiro! Ai foi para acabar de vez com o artista: - Pelo o amor de Deus! Tô na lisura. Vim de ônibus e fui xingado por todos. Sem chance. Pague pelo menos a metade agora!
Ela ficou sensibilizada e pagou tudo no monte. Ai foi graça. Pagou as contas atrasadas e foi direto para o Bar Caldeira, sentou-se na Mesa da Diretoria e começou a tomar Uísque com queijo bola, é claro! Outra vez, ele e o artista plástico Inácio Evangelista foram contratados para fazerem a ornamentação de carnaval do Clube Sírio Libanês, na Avenida Constantino Nery. Quando estava tudo pronto, chegou o promoter da festa para fazer a verificação dos trabalhos. Falou: - Quem fez esta decoração? O Palheta “subiu nas tamancas”: - Olha aqui, meu amigo, decoração é coisa de viado. Eu e o Inácio somos artistas plásticos e fazemos uma obra de arte e não decoração! O Evangelista só achava graça da onda do Palheta.
Teve problemas sérios de saúde e veio a falecer em agosto de 2015. Hoje, as suas obras impressionistas e abstracionistas estão muito valorizadas em Manaus.
A Turma do Meio-Dia – Existe uma turma que desde tempos idos gosta de beber quando relógio bate meio-dia, na hora do almoço. Falam que é para abrir o apetite. Geralmente a pedida é cerveja, cachacinha, limão e sal. Isto é tradição. Passa o tempo, alguns deles partem para o andar de cima, chegam outros, sempre renovando.
Detalhe: eles somente gostam de sentar exatamente na Mesa da Diretoria, sempre existindo um deles na cabeceira de costas para a parede. Cruz, credo!
Certa vez, fui cortar o cabelo na Rua José Clemente. Depois, parei no Bar Caldeira, para conversar com uma turminha que toma uns goles após o almoço. Na famosa Mesa Da Diretoria estava uma sacola cheia de Tamarinos. Pela primeira vez em minha vida provei do fruto. Guardei duas sementes não sei por quê.
O tempo passou.
Dias depois dei um trato em minha mochila encontrei as duas sementes.
Sem nada ler sobre técnicas de plantio, coloquei as duas num algodão embebecido de água dentro de uma cuia, como fazíamos quando éramos crianças.
Dias depois uma delas brotou.
Adotei-a. Pus num vasinho, coloco água, ponho para receber sol na janela.
Com é apenas uma criança, fica ao lado do meu computador onde escrevi parte deste livro.
Serve de inspiração.
Caso consiga sobreviver, levarei daqui uns anos uns dos seus frutos ao Bar Caldeira, para servir de tira gosto na Mesa da Diretoria.
(Bar Caldeira, História & Tradição, José Rocha).
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