segunda-feira, 16 de março de 2026

REVIVENDO O ARTISTA PLÁSTICO JORGE PALHETA


 Crônica de José Rocha

Por incrível que pareça, algumas coisas realmente acontecem em série. E, por conta disso, decidi revisitar — e agora ampliar — uma crônica que escrevi em 2015, quando do passamento do nosso saudoso Palheta.

Na sexta-feira passada, a caminho da CONCULTURA, pela charmosa Rua Bernardo Ramos, encontrei o morador Sebastião Aquiles, dono de uma bela casa da Belle Époque. Ele mantém ali uma pequena galeria de arte onde estavam expostas cerca de dez obras de Palheta. No entanto, precisou retirá-las, pois começavam a apresentar sinais de deterioração — notícia que me entristeceu profundamente.

No domingo, meu amigo José Luiz, corretor de imóveis que hoje vive em Balneário Camboriú, ficou apreensivo ao saber da situação. Como é o proprietário das obras, autorizou-me a verificar o estado de cada uma, fotografá-las e até auxiliá-lo na possível venda.

Na segunda-feira, o escritor Jorge Klein entrou em contato perguntando a data do falecimento de Palheta. Preparava uma publicação em sua página no Facebook, já que o artista havia ilustrado a capa de seu livro. Aproveitei para enviar-lhe o link da crônica de 2015 — que agora retomo, aquecida pelas lembranças.

Memórias do amigo e artista

Conheci Jorge Palheta no tradicional Bar do Armando há cerca de uma década. Tive o privilégio de conhecer suas obras, desfrutar da sua amizade e ouvir alguns de seus “causos” mais hilários. Palheta tinha aquele raro talento de unir humor, sensibilidade e uma percepção profunda da alma humana.

Jamais ousaria analisar tecnicamente seus quadros — sou zero à esquerda em artes plásticas. Mas, entre conversas longas e despretensiosas, fui aprendendo sobre sua trajetória e sua essência.

Palheta se dizia amazônida de sangue e coração. Sua arte revelava exatamente isso: floresta, rio, luz, natureza, espiritualidade, identidade. Tudo pulsava forte em cada uma de suas telas.

Sua carreira começou há 45 anos, primeiro com desenhos no papel, até migrar para a pintura em telas. Trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), entre 1975 e 1980, como ilustrador botânico — uma função extremamente minuciosa antes da chegada dos computadores. Era sua missão desenhar flores, folhas e árvores com precisão quase científica. Poderia ter se aposentado ali como servidor federal, mas escolheu o caminho mais arriscado e mais belo: o da arte.

Tinha um talento impressionante para retratos, o que o levou a colaborar com a Polícia Civil, realizando o famoso “retrato falado”. Com a informatização, esse trabalho perdeu espaço, mas nunca perdeu relevância histórica.

Com o dom natural que tinha, sustentou-se por anos fazendo caricaturas nos bares de Manaus e ilustrando capas de livros de diversos autores do Amazonas. Criou também artes para bandas de carnaval, especialmente para a BICA, 5 Estrelas e Caldeira — verdadeiros ícones da cultura baré.

Segundo especialistas, Palheta transitava com habilidade entre o impressionismo e o abstracionismo, criando composições vibrantes, cheias de luz, movimento e emoção.

Realizou exposições na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas, sempre acolhido por amigos, políticos, artistas e empresários. Sua obra, como acontece com tantos mestres, tornou-se ainda mais valorizada após sua partida.

Em agosto de 2013, fiz-lhe um pedido especial: uma pequena tela intitulada “A Maçonaria na Amazônia”. Palheta era membro da Loja Rosa-Cruz, e muitos de seus quadros carregam elementos místicos e simbólicos.

Durante todos esses anos, procurei apoiar e divulgar seu talento no BLOGDOROCHA, e, mais do que isso, cultivar nossa amizade — regada a conversas longas, risadas generosas e histórias que só ele sabia contar.

Faleceu no dia 18 de agosto de 2015. Seu corpo foi velado em sua residência, na Avenida Maués, nº 1.120, no bairro Cachoeirinha, em Manaus/AM. O meu amigo está descansando em paz. Mas sua arte — esta sim — permanece viva, eterna e iluminada, como ele sempre foi.


https://www.balnearioimoveisbc.com.br/imoveis/lote-terreno-zona-de-expansao-rio-preto-da-eva-amazonas-id-322210

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domingo, 8 de março de 2026

Dona Maria Portuguesa: A Rainha do Mercadão



No Dia Internacional da Mulher, achei justo lembrar de uma mulher que Manaus. Falo de Maria Moreira Gomes, a 

Manaus. Falo de Maria Moreira Gomes, a inesquecível Dona Maria Portuguesa.

Dona Maria nasceu em 10 de maio de 1887, numa Manaus que ainda se preparava para viver os seus tempos de grandeza. Veio ao mundo um ano antes da inauguração da Igreja de São Sebastião e nove anos antes do Teatro Amazonas abrir suas portas. Era uma cidade que crescia e se iluminava com o dinheiro da borracha, enquanto o destino daquela menina já parecia ligado ao coração popular da cidade:   o Mercado.

E foi assim que aconteceu.

No dia 17 de dezembro de 1919, Dona Maria começou    a trabalhar no Mercado Adolpho Lisboa, o nosso querido Mercadão. E ali ficou praticamente a vida inteira. Imagine só:   em 1986, com 99 anos de idade, ainda era vista no mercado, firme, vendendo verduras, conversando com fregueses e cuidando do seu pequeno comércio como quem cuida de um pedaço da própria história de Manaus.

Concedeu uma entrevista ao Jornal do Commercio. Contou que seu pai era português e sua mãe brasileira. O pai trabalhava no mercado e transmitiu esse amor pelo comércio aos filhos. E Dona Maria fez o mesmo com a geração seguinte, passando o ofício para os filhos Jorge, Antônio e José Matos.

Nas suas lembranças, ela falava de um Mercadão bem diferente do de hoje. Contava que houve tempo em que o prédio era iluminado por lampiões de querosene. E lembrava também do bonde, que passava bem em frente, trazendo fregueses do centro da cidade para comprar peixe, frutas, verduras e ouvir as novidades do dia.

Mas Dona Maria não vivia apenas do mercado. Em casa, cultivava uma horta famosa em Manaus: a “Horta da Vitória”, localizada na Rua Dr. Machado, em um terreno que pertencera à sua avó. A horta era tão caprichada que chegou a receber prêmio como a melhor horta da cidade.

Certa vez, em entrevista ao jornal A Crítica, Dona Maria deu uma receita simples para enfrentar tempos difíceis. Disse assim:

“Para enfrentar a crise, nunca pare de trabalhar!”.

E não era frase de efeito, não. Era filosofia de vida.
Mesmo quase chegando aos cem anos, ela acordava às quatro horas da manhã para preparar as verduras e seguir para o Mercadão.

Entre seus filhos estava o conhecido Antônio, figura popular no mercado, apelidado carinhosamente de “Antônio Macumbeiro”. Ele mantinha um box vendendo artesanato e artigos religiosos de umbanda. Antônio também foi diretor da União Esportiva Portuguesa, o lendário “Sambão” da Avenida Joaquim Nabuco, um dos redutos tradicionais do samba manauara.

Com o passar do tempo, o box passou para Alberto, meu compadre, que até hoje mantém o negócio vivo com o seu irmão, no mesmo ponto onde o pai trabalhou, como quem preserva uma pequena herança da história do Mercadão.

Dona Maria morou muitos anos com filhos e netos no fim da Travessa Dr. Machado, área que hoje faz parte do Prosamim. Depois, a família comprou um terreno na Rua Major Gabriel, onde seus descendentes continuam vivendo até hoje.

Histórias assim não podem desaparecer nas brumas do tempo.

Porque Dona Maria Portuguesa não foi apenas uma vendedora de verduras do mercado.

Ela foi, na verdade, uma dessas mulheres anônimas que ajudaram a construir Manaus com trabalho, coragem e dignidade.

E por isso, neste Dia Internacional da Mulher, fica aqui a lembrança: no coração do velho Mercadão ainda parece ecoar a voz firme de Dona Maria Portuguesa — mulher de fibra, dessas que o tempo não consegue apagar.

Fontes: Livro 'MEMÓRIA BARÉ: CRÔNICAS DE JOSÉ ROCHA'

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