sábado, 24 de abril de 2021

ZÉ MUNDÃO TIRANDO ONDA COM UM PUMA

Apaixonadíssimo  por  carros,  Zé  perseguia  seu  desejo  de  consumo  –  dirigir  o  conversível  pertencente  a  um  amigo  filhinho  de  papai (pai  rico).  Era  um  puro  sangue  Puma  GTS,  na  cor  vermelho  Ferrari.  O  coitado  babava  quando  via  o  bacana  desfilando  naquela  máquina,  ele  se  imaginava  sentado  naquele banco de couro, dirigindo em companhia de duas gatinhas, passeando pela praia da Ponta Negra. Tudo era apenas  sonho,  pois  o  Zé  não  tinha  dinheiro 

nem  para  colocar  gasosa  suficiente  no  seu  fusquinha,  quanto  mais comprar o carro do amigo que, diga-se de passagem, não estava à venda, visto que o caboclo estava sentado em cima da carne  seca.  Grana  não  era  problema  para  ele,  além  do  mais, mantinha  mais  ciúmes  do  carro  que  de  sua  namorada,  uma  loira gostosa e cheia de dengo. Zé  nem  olhava  para  a  boazuda,  o  negócio  dele  era  o 

Puma.  Era  um  martírio,  pois,  nem  sequer  era  convidado  para dar  uma  volta  pela  cidade,  emprestar,  nem  pensar,  ele  não emprestava  nem  para  o  pai  dele,  imagine  para  o  coitado  do Zé. Num belo dia, a louraça botou um par de chifres no amigo, depois  que  ela  conheceu  um  marmanjo,  dono  de  um  Opala Comorodo  completo,  com  ar,  direção,  vidros  verdes  e  capota  de  vinil.  Enfim,  tinha  enjoado  de  andar  de  Puma,  pode-se  dizer que ela era tremenda Maria gasolina.

O corneado chorava mais que bezerro desmamado, razão pela qual Zé passou uns tempos consolando o amigo, com terceira  intenção,  claro.  Pois  não  estava  nem    para  a  desilusão amorosa, o negócio dele era um dia ainda dirigir o Puma.

Depois de uns tempos, seu amigo esqueceu a loira, mandou  serrar  os  galhos  e  começou  dar  em  cima  da  Rosinha,  prima  do    Mundão.  Uma  morena  cor  de  jambo,  peituda,  com  pernão  e  bundão  arrebitado,  uma  gata  e  tanto,  dizia-se,  tipo violão. O primo já tinha dado uns amasso nela, pois para ele, prima não é parente nem aderente.

  passou  a  intermediar  o  namoro,  antes,  foi  logo  detonando:    Olha  aqui,  gente  boa,  o  negócio  é  o  seguinte:  passo a  conversa  na  minha  prima,  entrego-a  de  bandeja  para  você,  mas,  em  contrapartida,  você  vai  ter  que  me  emprestar  uma vez e outra o Puma!

O amigo deu um pulo e retrucou: – Nem pensar, não empresto meu Puma prá ninguém, tô fora, papai!

Mas o Zé era um cara paciente, tanto que esperou a volta do  anzol.  Seu  amigo  fez  várias  investidas  pra  cima  da  prima,  jogou todo seu charme, convido-a para umas voltas no Puma, tomar  sorvetes  no  Pinguim,  assistir  a  um  filme  no  Studio Center,  almoçar  no  restaurante  Chapéu  de  Palha,  jantar  no  Canto  da  Peixada e,  nada!  Mal  ele  sabia  que  o      tinha  armado  todo  o  circo  com  a  parenta,  pedindo  na  maior  para  ela ignorar  o  cara,  ser  durona,  não  dar  moleza.  A  estratégia  era deixar o marmanjo secar todos os argumentos possíveis e cair novamente nas mãos do primo Zé.

Ele não era chegado a fazer ameaças, mas, por via das dúvidas,  foi  logo  dando  o  recado:    Priminha  do  coração,  segue direitinho  como  eu  mandei,  sabe  como  é... Se  você  mijar  prá trás, eu conto pra titia todas as ondas que você anda aprontando!

Funcionou,  o  bacana  veio  todo  de  mansinho  falar  com o Zé Mundão: – Meu amigo, a tua prima é dura na queda, vou precisar da tua mãozinha, concordo em te emprestar uma vez por ano meu Puma!

Mas  o    ficou  fulo  da  vida,  e  logo  vomitou:    Uma  vez por ano, tá ficando doido, quero emprestado todo final de semana! O bacana foi à loucura: – Pirou de vez, ficou pinel?

Aí o Zé mandou a bala fatal: – É pegar ou largar, o Puma emprestado toda semana, com o tanque até o toco de gasosa, de  minha  parte,  a  prima  no  seu  colo,  pra  você  deitar  e  rolar.  Vai?

Sem chance para o filhinho de papai.

Aí foi graça para o Zé Mundão! O carro, emprestado num sábado à noite, deveria ser devolvido no domingo de manhã, limpo,  lavado  e  sem  nenhum  arranhão.  Promessa  feita,  não  cumprida!  Tão  logo  pegou  na  máquina,    ligou  o  toca-fitas  Roadstar cabeça branca, colocou no volume máximo uma música  dos  Beatles  e  saiu  todo  boçal  pelas  ruas  de  Manaus.  Deu  um  pulo  no  bar  do  Gordo,  onde  olhavam  para  o    e  para  o Puma,  ele  na  maior  cara  de  pau.  Então,  falou  alto  e  em  bom  tom: – Esse é meu e está pago, somente saio nos finais de semana, macho carona não entra nele, nem pagando!

Tomou  duas  doses  de  Montilla  com  gelo,  limão  e  koka, sua  bebida  preferida.  Deu  um  rolê  pela  avenida  Getúlio  Vargas,  estacionou  o  carro  em  frente  ao  Cheik  Club,  sentou  no  capô,  estava  mais  alegre  do  que  pinto  na  beira  da  cerca,  não  precisava  paquerar,  as  gatas  se  ofereciam  para  passear  com  o Zé, ele escolheu duas a dedo, rodou por todos os points de Manaus, ele queria mesmo era aparecer.

Escolhidas  as  minas,  saiu  para  pegar  um  vento  na  testa,  pegou a estrada do Tarumã e parou num balneário, conhecido por Cachoeira  das  almas.  O  local,  de  difícil  acesso,  tinha  lama  até o talo, por isso, o Puma começou a ficar sujo, mas o motorista  não  estava  nem  aí,  queria  mesmo  era  levar  as  gatinhas para  tomar  banho  num  igarapé  de  águas  cristalinas.  Lá,  as  beldades ficaram somente de calcinha e sutiã, e o Zé, na maior onda com elas.

Nova  etapa  da  esbórnia,  uma  volta  pela  praia  da  Ponta  Negra; nessa altura do campeonato, o carro já estava todo enlameado,  molhado  e  repleto  de  areia  e  barro.  Numa  encruzilhada próxima, havia um pessoal fazendo um despacho de macumba, uma das beldades pediu uma parada do carro. Então, ela foi até onde acontecia o ritual, e aí o bicho pegou para o Zé

Mundão, pois a garota começou a pegar santo, tendo se enrolado pelo chão, mudado a voz, enfim, ficado toda ralada.

Um  adepto  veio  até  o    para  reclamar  da  intrusa:    Boa noite,  o  senhor,  por  favor,  leve  sua  amiga  de  volta,  ela  está  atrapalhando  nosso  serviço,  pois  a  linha  dela  não  é  igual  a nossa.  O  Zé,  sempre  gaiato,  retrucou:    Deixa  comigo,  fui!  Ao  entrar, a gata sujou de sangue o banco do carro.

Rumou,  então,  para  a  prainha  da  Ponta  Negra,  um  dos points dos jovens. Após um banho na beldade que estava suja e  ralada,  deixou-a  em  standbay,  enquanto  a  outra  foi  para  o  abate.

O dia já estava amanhecendo, quando Zé resolveu ainda dar  um  pulo  na  cachoeira  do  Tarumã.  Ainda  madrugada,  tomaram  banho  pelados  até  o  sol  raiar.    Ao  sair,  contudo,  o    engatou a ré no carro e bateu levemente num tronco de madeira.  Retornando,  tomaram  café  regional  no  Café  da  Loura,  em  seguida, Zé deixou as gatas em casa delas e foi dormir, afinal, ninguém é de ferro Meio dia de domingo, e o herói foi acordado à força. Era seu  amigo:    Zé,  filho  da  baraga,  tu  nunca  mais  vai  pegar  no meu carro, ele tá todo sujo de lama, barro e sangue e tá amassado na traseira!

O  cara  ainda  dormindo,  falou:    Mil  desculpas,  parceiro, deixa que eu vou dar um banho nele, passo até esmeril e cera no  bicho,  vai  ficar  novinho  em  folha,  na  segunda,  mando  desamassar a belezura! Tudo bem?

O  amigo,  todavia,  estava  possesso:    Negativo,  vou  levar  agorinha  o  meu  Puma.  Outra  coisa,  aquela  tua  prima  é  a maior fuleiragem, tô fora!

Dessa forma, acabou o sonho de consumo do Zé Mundão, nunca  mais  teve  a  oportunidade  de  dirigir  aquele  carro,  carro  que  fez  história  no  Brasil,  criado  no  início  da  década  de  60 por  um  grupo  de  aficionados  pelo  automobilismo,  liderado pelo  Rino  Malzoni.  Tratava-se de  um  cupê  esportivo  de  vidro,  lembrando  muito  a  Ferrari  250  GTO  da  época,  daí  o  Puminha ser desejado, pois tinha um desenho espetacular, com beleza, agressividade e aerodinâmica, além de ótima dirigibilidade.


segunda-feira, 19 de abril de 2021

SOU MANAUARA

Foto: Praça de São Sebastião, Manaus, Amazonas, Brasil. José Rocha
 Sempre houve uma confusão, uns chamam de manauara, outros, de manauense. Tanto faz, como tanto fez. Os dois termos estão corretos. A diferença está na escolha do sufixo gentílico. –ense é herança portuguesa,     o –ara é tupi (wara = o que veio de).

Os meus antepassados maternos nasceram dentro da mata, no interior           do Amazonas, corre nas minhas veias sangue indígena sim senhor.

Os meus antepassados paternos eram nordestinos que vieram para a Amazônia, no Alto Juruá em busca do látex, sou também um cabra da peste.

A minha mãe era cabocla vinda de Terra Nova e o meu pai um arigó de Uruburetama, por aqui os dois viveram, trabalharam, casaram, tiveram filhos e foram enterrados.                                                   

Nasci em Manaus, no Hospital de Santa Casa de Misericórdia. Todos os meus irmãos são manauaras e nasceram lá também.                       

Fui batizado, comungado, crismado e casado na Igreja de São Sebastião, e quando morrer, nela talvez no sétimo dia seja lembrado.

Sou católico e vou à missa, mas não sei rezar, somente o Pai Nosso e olhe lá.                                     

Morei com a minha família dentro do Igarapé de Manaus, fomos ribeirinhos e acompanhávamos a seca e a enchente do Rio Negro.                           

Ainda consegui alcançar uma Manaus linda e pacata, quando começava no Porto e no Boulevard Amazonas terminava.

Tomava banho de rio. andava de canoa, pulava dentro do igarapé na Primeira Ponte.

Frequentava os cines Guarany, Politheama, Avenida e o Odeon. Adorava o Carnaval da Eduardo Ribeiro.                                 

Passeava no Ródo (Roadway), Mercadão Adolpho Lisboa e no Aviaquário   e assistia ao Festival Folclórico do General Osório.       

Alcancei os banhos no V8, Parque Dez, Tarumã,                   Tarumanzinho, Ponte da Bolívia e Ponta Negra.                                         

Curti o arrocho na Festa do Acocho. Frequentava os bailes do Luso Clube, Sheik Clube, Bancrévea Clube e da União Esportiva Portuguesa.

Passava a régua nas primas nos lupanares Maria das Patas/Saramandaia e lá pelas bandas da Prainha somente detonava as  gatinhas.

Assistia com muito entusiasmo e vibração, o meu Fast Clube jogar contra o Rio Negro ou Nacional no Parque Amazonense, Colina e no Vivaldão.

Gostava também de assistir o ano inteiro, grandes partidas de Voleibol no Ginásio Renné Monteiro.                                

Estudei, inicialmente, no Barão, depois, o fundamental no Benjamin  e no Sólon de Lucena a conclusão.     

Casei com uma cabocla na Igreja de São Sebastião, depois de muita bronca acabou a união. 

Os meus irmãos casaram, tiveram filhos manauaras e tempo depois também descasaram.

Tenho três filhos manauaras que me deram três netos manauaras também. Sou da Universidade do Amazonas com muita satisfação, formado em ciência da Administração.

Estudei também alguns períodos de Direito, não concluir o curso foi o meu grande erro e defeito.

Sempre gostei de suco de Taperebá e Açaí com tapioca, melhor não há.

Nunca dispensei um Jaraqui, muito menos uma Caldeirada de Tambaqui.

Gosto de degustar um Tacacá e detonar uma Tapioca com Banana Frita e Castanha do Pará.

Para completar, gosto de roer um Tucumã com farinha e tomar um suco de Cupuaçu para não entalar.

Não dou bobeira para um Pé de Moleque e de um Bolo de Macaxeira.

Sou boêmio, sou da tradição, gosto do Morro, mas sou de São Sebastião.

Curto o nosso ritmo amazonense, a toada e o ritmo quente parintinense.

Frequento regularmente, o Armando, Caldeira e o ETbar, os botecos tradicionais da nossa Manaus de antigamente.

Passeio pelo Largo de São Sebastião, Praça da Polícia, Praça da Saudade, Praça do Congresso, Mercado Municipal e o Porto de Manaus.

Faço caminhadas pela minha cidade toda semana.

Gosto ainda da Praia da Ponta Negro, Praia da Lua e Tupé.

Vou aos grandes Shoppings e ao Bate Palma também.

Gosto das Feiras e Mercados, onde compro peixes e como Pastel com Caldo de Cana.              

Sou blogueiro que escreve sobre a cidade de Manaus o ano inteiro.            

Escrevo livros sobre a sua gente e sua história e a minha também.

Pretendo ainda conhecer toda a extensão do Rio Negro, deste São Gabriel da Cachoeira, passar pelo Encontro das Águas e entrar no Rio Amazonas até a sua foz no Oceano Atlântico.                          

Apesar de ter nascido na Manaus de Antigamente, ainda tenho muito gás para casar com uma Cabocla novamente.

Não sou mais reprodutor, pois sendo vasectomizado, a fonte secou.

Falo o Amazonês e também gírias do Carioquês.

Sou Manauara da Taba e o meu herói é o índio Ajuricaba.                 

Não sou Manauense, mas, sim, um Manauara Amazonense.

Sou Manauara, com muito orgulho, com muito amor.                                       

Se for a vontade de Deus, hei de morrer aqui em Manaus e ser  enterrado ou cremado tanto faz como tanto fez.      

É isso ai.

domingo, 11 de abril de 2021

CIDADE DE MANAUS - UMA TORRE DE BABEL


Com a descoberta da vulcanização e da procura crescente do látex da borracha nativa da Amazônia, vieram para a nossa região uma leva imensa de estrangeiros, incluindo os ingleses, franceses, peruanos, judeus, alemães, italianos, sírio-libaneses, norte-americanos, portugueses, japoneses e outros, misturados com índios, caboclos e nordestinos,  provocando uma verdadeira Torre de Babel em Manaus.

Eles vieram para fazer riquezas com a exploração e comercialização do “ouro branco”, bem como, para abrir comércio de produtos (casas aviadoras), empresas de exportação, bancos, seguradoras, empresas de transportes e outras.

Com a exportação crescente e o enriquecimento de uma casta privilegiada, a cidade de Manaus ganhou ar cosmopolita, com uma urbe moderna, rica e progressista, com empresas especializadas em produtos finos vindos da Europa para satisfazer um público cada vez mais exigente, esnobe e requintado.

Os estrangeiros se reuniam em grupos homogêneos, formando clubes esportivos e sociais, onde possuíam a mesma afinidade, celebrando a sua cultura, religião e esporte preferido (futebol e o remo).

Como fim do primeiro ciclo da borracha, ocorrido em 1916, além da gripe espanhola (1918) que dizimou grande parte da população manauara e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a grande maioria bateu em debandada “débâcle” voltando para os seus países de origem ou outros lugares mais prósperos, ficando apenas um reduzido numero de pessoas e seus descendentes.

Os portugueses, os sírio-libaneses e os judeus foram os únicos que ficaram em grande número, todos reunidos na parte central da cidade.

Os portugueses fundaram o Luso Sporting Clube, em 1912 (presente até hoje em nossa cidade) e a União Esportiva Portuguesa (destruída), destacando-se nos esportes, comércio em geral, bares e padarias. Famílias: Soares, Grillo, Araújo, Soeiro, Machado, Gonçalves, Loureiro e outros.

Os sírio-libaneses fundaram o Clube Sírio-Libanês, na Rua dos Remédios, atual Rua Miranda Leão, depois na Avenida Constantino Nery (existe até os dias atuais), bem como, o Sheik Clube, na Avenida Getúlio Vargas (hoje é uma academia da Live).      Destacando-se no comércio de miudezas e profissões liberais. Famílias: Mussa, Tuma, Fraiji, Chamma, Azize, Hissa, Caram, Sefair e outras.

Os ingleses reuniam-se no Manáos Ahletic Club (Clube dos Ingleses, atual Bosque Clube), na Avenida Constantino Nery.               Tomaram conta dos bondes elétricos, do Roadway, da geração e distribuição de energias, águas e esgotos, bancos e transportes de navegação.

Eles praticavam o remo com a equipe. Ficaram até a década de 50, batendo em retirada e não deixando nem os descendentes. Deixaram apenas as suas obras como o Porto de Manaus, Museu do Porto (antiga casa de geração de energia), Galerias de esgotos (em pleno funcionamento até hoje no centro da cidade) e a Usina Chaminé (Teatro).

Os japoneses vieram depois, fundando colônias agrícolas no baixo Amazonas, na região de Parintins (Vila Amazônia) e em Manaus na Colônia Japonesa. Sempre foram unidos e fechados, conservando sempre as suas tradições. Foram expulsos e hostilizados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Abandonaram a Vila Amazônia e muitos deles se esconderam na mata, formando pequenos grupos no município de Parintins, interior do Pará e no meio rural de Manaus. Os seus descendentes são grandes empreendedores e produtores agrícolas (hortaliças, frangos e ovos), juta, malva e eletrônicos.

Os italianos foram grandes construtores (ajudaram na construção do Teatro Amazonas, Igreja de São Sebastião, Monumento da Praça de São Sebastião e Relógio Municipal (1927). Especializando-se na comercialização de jóias e relógios. Foram também perseguidos na Segunda Guerra Mundial, com as suas lojas e residências sendo depredadas. Com o afundamento do navio Baependi (nome dado a uma vila que fica na Rua 24 de Maio, antes se chamava Vila Itália) morreram vários manauaras ilustres, ocasionado revolta na cidade. Foram embora depois, mas deixaram descendentes. Famílias: Pelosi, Demasi, Cassina e outras.

Os judeus se reuniam no Grêmio Sion & Azul e Branco, na Rua da Instalação, onde praticavam as suas tradições religiosas.          Foram comerciantes natos. Ficaram na cidade de Manaus                  e no interior. Hoje temos como exemplo a família Benchimol       (Lojas Bemol e Fogás), Isaac Sabá e outras. A Sinagoga deles fica na Avenida Leonardo Malcher.

Os alemães se destacaram nas Casas Exportadoras. Fundaram o Manáos Ruder Club (Clube Alemão de Remo). Segundo o saudoso senador Jefferson Peres, no seu livro “Evocação de Manaus”, o nome Clube do Remo foi mudado em decorrência das hostilidades ocorridas na Segunda Guerra Mundial (até o Consulado da Alemanha foi invadido). Tinha a sua garagem toda de zinco, ficava estacionada no Igarapé de Manaus, com acesso pela Ponte Cabral (Primeira Ponte da Avenida Sete de Setembro). Hoje está atracado embaixo da Ponte de Educandos.

A sede social chamava-se Deutscher Kegelklub (Clube Alemão), ficava na Rua João Coelho (atual Avenida Constantino Nery) esquina com a Rua Leonardo Malcher. Este clube foi abandonado e invadido por brasileiros. O Olímpico Clube tomou a posse através de usucapião, ficando até 1966. Os alemães não brigaram pela pose, pois temiam represálias. O local serviu para a Boate Starship, Drogarias e Padarias. Está fechado e praticamente descaracterizado. Dizem que lá existe uma maldição: todo empreendimento não vinga. Famílias:  Andressen, Huebner, Scholz e outras. Foram embora com todos os seus descendentes.

Os norte-americanos estiveram aqui em peso em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Trouxeram equipamentos pesados (tratores, retro escavadeiras etc.) fazendo em tempo recorde           o Aeroporto de Ponta Pelada (1944). Fundaram a RDC - Rubber Development Corporation (empresa de desenvolvimento                 da borracha), na Ilha de Monte Cristo (atualmente é um estacionamento da Feira da Manaus Moderna), para comprar toda         a produção de borracha e contribuir com os esforços de guerra.     Eram embarcadas em aviões anfíbios (Clippers e Catalinas)              e depois por possantes aviões no novo aeroporto.

Segundo o saudoso Jefferson Peres no livro acima citado:        “Vieram muitos americanos e suas famílias para a nossa pacata cidade, provocando um grande choque cultural, com pessoas loiras de olhos azuis, falando uma língua estranha para a grande maioria   (o inglês), fumando cigarros de marcas nunca vista antes, pagando altas gorjetas em dólar, inflacionando o mercado local                      e expondo comportamentos muito liberais, contrastando               com uma sociedade local fechada, tradicional e conservadora”.

Gostavam de recostar comodamente nas cadeiras dos bares com os pés apoiados sobre as mesas (igual aos filmes de faroeste).             As suas esposas eram brancas, altas, sardentas, gordas e cafonas.  As “secretárias” andavam sem sutiã e anágua, aparecendo os peitos e a calcinha. Era um escândalo para a época. Foram embora assim que a guerra terminou. Doaram todos os equipamentos pesados para a Prefeitura de Manaus, onde foi possível construir a Avenida Getúlio Vargas e outras grandes avenidas.

Com o advento da Zona Franca de Manaus, bombando no comércio de importados (o Brasil tinha o comércio fechado para o exterior), vieram em grande leva os chineses (Shing Ling), árabes (mulçumanos, a Mesquita deles fica na Avenida Ramos Ferreira)        e indianos (ex. Ransons, filhos de Ran) para comercializarem esses produtos.

Esses e outros estrangeiros ficaram em Manaus mesmo com o descrédito da Zona Franca. São donos da maioria das lojas de quinquilharias, confecções do  “Shopping Bate Palma”, eletroeletrônicos e linha branca.

Recentemente, por questões humanitárias, presenciamos novamente a nossa cidade ser invadida por estrangeiros venezuelanos (incluindo os índios) e os haitianos, além de cubanos e colombianos. Trabalham no mercado ambulante “camelôs” e outras profissões especializadas.

Pelo visto, esses últimos não irão embora tão cedo. Os seus filhos estão nascendo aqui e com o tempo vão adquirido o modo brasileiro e manauara de viver e ser.

A nossa cidade desde o final do século dezenove é uma mistura de raças, credos e línguas diferentes. Uma verdadeira Torre de Babel.

É isso ai.

Observação: Torre de Babel

A Torre de Babel, segundo Gênesis 11:1-9, é um mito de origem usado para explicar por que as pessoas falam diferentes línguas no mundo. De acordo com esta narrativa, a humanidade era uniforme nas gerações seguintes ao dilúvio, falando um único idioma. Wikipédia

quarta-feira, 31 de março de 2021

REINO ENCANTADO (RIO AMAZONAS) - LETRA E MÚSICA DE FLÁVIO DE SOUZA

 

RIO AMAZONAS

REINO ENCANTADO

Vem vê

Uma obra prima do criador

Um cenário majestoso

Que ele criou com tanto amor

Neste mundo encantado

Você sonha acordada

Com riquezas colossais

Onde o gigante Rio Mar

Ensina você a cantar

Uma canção de amor ô – ô

Nossa terra, nossa gente

Deus abençoou

II

É o imenso Amazonas

Cheio de lendas e rios bravís

O cheiro que vem das matas

Perfuma as mulatas

Com beijos febrís

Vem vê

Um reino encantado

Este imenso Eldorado

De magia e coisas mil

Beleza no mundo igual não há

Vem vê onde está

O coração do meu Brasil.



Fotos: José Rocha (o editor deste blog). Rio Amazonas, em frente a cidade de Parintins, Amazonas, Brasil. 

             Flávio de Souza, Tainah Paulain.

Extraído do Livro (ainda no prelo) FLÁVIO DE SOUZA - UM GRANDE DESPORTISTA E MÚSICO DO AMAZONAS - AUTOR: JOSÉ ROCHA).


quinta-feira, 18 de março de 2021

BLOGDOROCHA: OSCARINO E O BONECO PETELECO

BLOGDOROCHA: OSCARINO E O BONECO PETELECO: O Peteleco nasceu em Manaus, na década de cincoenta, ele é um típico negão beiçola, moleque, maluvido e respondão, foi criado pelo ve...

quinta-feira, 11 de março de 2021

A VILLA MARTINS

Ficava na Avenida Leonardo Malcher, 1141, centro de Manaus, era um casarão da época da “Belle   Époque” amazonense, deve ter sido construída no inicio       do século passado por um rico seringalista, possuindo um pavimento superior todo em alvenaria    com       duas entradas laterais e a parte inferior com portas        em forma de arcos típico de estrebarias.

O termo Vila (Villa em latim) era na Roma antiga uma casa de campo (residência campestre). Em todos os registros de jornais antigos a Villa Martins aparece com dois “l”. Alguns historiadores relatam que aquela imensa casa pertencia a um seringalista. Nos mesmos periódicos comentam a existência de um seringal com o mesmo nome, no Rio Tarauacá, onde é hoje a cidade de Eirunepé, no Amazonas. Presume-se que pertencia ao mesmo dono, a família Martins.

Guardo boas lembranças daquele local. Fui morador da Rua Tapajós, que ficava bem próximo a esta Vila, onde grande parte dos meus colegas da minha adolescência morava ali.

A mais famosa moradora foi a Messody Serruya Israel, que nasceu na Villa Martins. Foi eleita, em 1979, Rainha do Carnaval, representando o Akiko´s Cabelereiros e, posteriormente, Miss Amazonas, pelo Clube Sírio-Libanês.

Em 1980 ela foi trabalhar na famosa Revista Eficaz, editada pelos fiscais da Secretária de Fazenda. O seu irmão Abrahão Serruya foi Delegado de Polícia Civil do Amazonas.

Moisés Serruya
Em 1988, o Jornal do Commercio, fez uma reportagem denominada “O Paraíso da Villa Martins”, da jornalista Ana Célia Ossame. Naquela época, moravam 20 famílias muito unidas. Por lá nasceu Francisco Assis de Souza que morava com os seus cinco filhos.       Os seus pais chegaram lá em 1926.

As casas eram pequenas, sem muito conforto, mas era estratégico e ficava no centro da cidade. Os primeiros quartos na parte superior eram de alvenaria e os restantes de madeira. Segundo o Senhor Francisco “A vida era tranquila, ninguém se incomodava com ninguém, não havia fofocas nem brigas entre os vizinhos. Os moradores eram tradicionais e permaneciam por muito tempo por lá, moravam velhos e novos moradores, com alguns pagando até um valor irrisório no aluguel”.

Segundo a mesma reportagem, em 1988 ainda morava no mesmo local o senhor Moisés Serruya (foto acima), motorista profissional e o pai da miss Amazonas. Ele gostava de se embalar numa cadeira na varanda da casa, tinha orgulho de ser o pai da miss que não morava mais na vila, declarou: “Estou afastado por problema de saúde, mas aqui é tudo calmo, não sou incomodado pelos vizinhos e nem pelo barulho das crianças”.

Por lá ainda morava a Eliana Serrya, que já tinha conseguido uma casa no Conjunto Cidade Nova, mas tinha um comércio no local, onde vendia alimentos e refrigerantes, pagava dois mil cruzados pelo aluguel.

Outra moradora entrevistada pela jornalista foi a Dona Lourdes Santos, que estava morava há 27 anos, declarou: “Estou doente e cansada e tudo o que se pode falar daqui é que a vida é tranquila”.

Para concluir a reportagem, a jornalista Ossame escreveu:“Na grande Manaus, das propagandas oficiais, as vilas, estâncias e moradias sem condições acabam destoando da Villa Martins, que se livra da especulação imobiliária que atinge boa parte dos brasileiros. Não é difícil encontrar um morador que compare a Villa a um paraíso, principalmente pelo preço do aluguel, dada a localização do imóvel  e a tradição dos moradores”.

Infelizmente, este paraíso que era a Villa Martins não venceu a fúria devastadora do progresso e foi ao chão, assim como foram centenas de outros prédios antigos, pois não eram tombados (protegidos por lei).

Todos os moradores tiveram que sair do local, depois de longos anos vivendo em comunhão. O proprietário vendeu o imóvel para dar lugar a um prédio moderno, abrigando, atualmente, a Escola Superior de  Estudos Sociais, da Universidade Estado do Amazonas (UEA).

Os moradores mais antigos, que ainda moram no entorno, quando alguém comenta com menosprezo sobre a Vila Martins, rebatem na hora “A Vila Martins é pura história e ali nasceu uma miss do Amazonas”.

Fonte: 

Jornal do Comércio, edição 13/05/1988 (Hemeroteca Digital Brasileira).

Fotos: 

Jornal A Crítica - Jornal do Commercio - José Rocha

quarta-feira, 10 de março de 2021

AS INJEÇÕES DA DONA ROSA

 


        Ela era uma típica enfermeira de antigamente:                     uma senhora de idade que ainda trabalhava nos hospitais públicos. Sempre vestida de branco, gordinha, ranzinza, parecendo estarde mal com o mundo. Mascava um tabaco de corda.                           Era o terror da molecada da rua, pois era a única que aplicava aquelas injeções que doía até a alma. Quando algum curumim ficava doente os pais tinham de amarrar o caboquinho e levá-lo até a Dona Rosa. Acho que ela era sádica, pois cumpria um ritual:            colocava álcool num recipiente, tocava fogo para esterilizar as agulhas grandes e grossas e as ampolas de vidro. Depois metia a agulha num vidro, quebrava uma ampola e fazia um teste, escorrendo um pouco do líquido, aquilo era cruel para a meninada. Olhava por cima dos óculos e com uma voz rouca                                    dava                           as                      ordens            aos        pais:

- Tira a calça dele, a injeção vai ser na bunda, não quero               que     se     mexa     e      muito   menos  choro, senão aplico outra! 

Meu Deus! Pense num sufoco! O pai segurava o moleque pela cabeça e a mãe pelas pernas. Ela ainda ria,   chamando  o  guri   de   frouxo!

        A mulher era durona, não gostava de ninguém, muito menos de crianças barulhentas. Mas, próximo ao Natal, o seu coração amolecia, mudava de feição, ficava mais alegre, não aplicava as malditas injeções e, pasmem, fazia chocolate quente com biscoitos, convidava todas as crianças para lancharem em sua casa. Mudava da água para o vinho. Fazia uma lapinha e pedia para a molecadarezarem ao redor.

Depois do Natal a Dona Rosa voltava ao oficio de aplicar           injeções doloridas e fazer chorar um monte de crianças da nossa rua!

segunda-feira, 8 de março de 2021

O “BOLA” DA VILA MARTINS


Bola é o apelido de um colega de rua que possui a estatura mediana, moreno, gordinho e redondinho, daí o apelido por ser parecido com uma bola de futebol – Vila Martins era uma imensa casa da “belle époque”, que pertencia a uma seringalista e que ficava na Rua Leonardo Malcher, onde é hoje é uma faculdade da Uninorte, com o fim do primeiro ciclo da borracha aquele imóvel foi dividido em dezenas de quitinetes – era o local onde o Bola morou por longos anos, mudando-se depois para o bairro da Matinha.

Mesmo morando em outro bairro, o seu local preferido continua sendo a Avenida Getúlio Vargas, Vila Paraíso e Rua Tapajós, onde conserva a amizade de velhos amigos de rua e de birita.

Ele e outros colegas de rua faziam parte da “Galera Selvagem”, um grupo infanto-juvenil que deu muito trabalho para os homens da lei, pois aprontavam todas naquele entorno, promovendo brigas e arruaças dentro do Bancrévea Clube e no Sheik Clube, ambos na Getúlio Vargas.

Este grupo não existe mais, são todos cinquentões e sessentões, porém, gostam de se reunir no final de ano para lembrar os velhos tempos.

O Bola desde novinho sempre gostou de batucar em qualquer coisa que desse som, mesa, prato, garrafa de plástico ou de vidro etc. Com o tempo, foi pegando gosto por pandeiro, atabaque, tantã e o surdo de primeira, sendo chamado para as baterias das escolas de samba de Manaus.

Ele faz parte do livro O Zé de Mundão de Manaus “...Agora, imagine o Zé Mundão com a sua Galera. na época do carnaval. O bicho pegava. Eram seis e faziam parte da bateria da Escola de Samba Unidos da Getúlio Vargas. Nos ensaios, o Zé queria ditar o ritmo, mandar mais que o Mestre Bola, um negão barrigudo, grande sambista importado lá da Matinha. O Bola ficou chateado e mandou ver: – Zé Mundão, tu tá atravessando o samba, cai fora agora ou quebro tua cara de porrada! O Zé não se fazia de rogado: – Tá bom, mas tem um detalhe: vai comigo toda a minha galera, inclusive o Bira, o cara que ia pagar logo hoje três grades de cerveja, mano! Mestre Bola sentiu a parada dura, pois sabe como é a vida: sem veludo no gogó, não dá samba! Procurou logo amenizar: – Tá bom, Zé, mas bate devagar no surdo de primeira, vou fingir que nem estou ouvindo! O Zé somente aprontava nos ensaios, pois, no desfile na Avenida Eduardo Ribeiro, o cara ficava dentro do ritmo, apesar de só descer a avenida depois de ter detonado várias doses do padrinho Acrísio, uma bebida alcoólica preparada artesanalmente pelo “Sêo Acrísio”, famoso “químico” da fábrica do guaraná Baré...”.

Um micro empreendedor da Rua Leonardo Malcher resolveu inovar: fez um rodízio de sanduíches + refri a vontade por dez reais, achando que o caboco não aguentaria comer mais de três samdubas. O Bola foi lá e detonou seis X-Salada e um Kokão. O dono acabou a promoção na hora. Para quem come um pacote de macarrão e seis ovos antes do jantar, aqueles sanduichinhos eram moleza para o Bola.

Certa vez, houve uma roda de samba na Rua Costa Azevedo, próximo a Calçada Alta, com direito a palco e tudo o mais, lá pela tantas o locutor anunciou: - E agora com vocês, um grande sambista vindo diretamente do Rio de Janeiro, o Bola da Vila Isabel. Entra um gordinho sambando e tocando um surdo na maior bossa.   O Jorge Faraó, outro amigo de infância deu um grito para ecoar em todo o quarteirão: - Esse ai é o Bola lá da Vila Martins. Não é do Rio, não, ele é da Vala da Vila Paraíso.                                      Ele não deu a mínima, botou pra tocar e animou a festa.

Na época das galeras, ele e o Peri (filho de criação do Dr. Viriato) eram malinos, gostavam de botar para correr quem não era da área. Numa noite escura, os dois estavam na entrada da Vila Paraíso e avistaram ao longe um bêbado que vinha na direção deles. O Bola falou: - Peri, corre um dá um tapa naquele vagabundo, se ele não correr eu dou o arremate aqui. O Peri voltou ofegante: - Bola, Bola, não bate nele não, é o porra do Maroco (um vizinho da Vila Paraíso que quase apanha na escuridão).

Outra vez, passou por lá um “filhinho-de-papai” todo becado com um tênis All Star zerado (o desejo de consumo do Bola). Não deu outra, o Bola deu-lhe um tapa e gritou: - Tira agora o sapato e calça o meu surrado! O Bola todo boçal foi para o baile no Sheik, lá o camarada reconheceu o Bola e foi buscar um segurança para tomar o tênis. Os dois ficaram se encarando. O Bola abriu a mão que tem o tamanho de um pandeiro de quatorze polegadas, o camarada como já tinha sentido o peso da parruda, falou:                                                         - Parece com o meu, mas não é, não!

O Bola fez semana passada 55 anos de idade. Ele não apronta mais. É um cara de responsa. Um amigo de infância o empregou numa locadora onde faz lavagens e higienização dos veículos.

Continua batucando e batendo com força no surdo de primeira da Pareca e do Reino Unido, além de encontrar com os amigos no Bar Aroeira da Getúlio Vargas para lembrar dos velhos tempos da Vila Martins.

É isso ai.