Crônica de José Rocha
Por incrível que pareça, algumas coisas
realmente acontecem em série. E, por conta disso, decidi revisitar — e agora
ampliar — uma crônica que escrevi em 2015, quando do passamento do nosso
saudoso Palheta.
Na sexta-feira passada, a caminho da CONCULTURA, pela charmosa Rua Bernardo Ramos, encontrei o morador
Sebastião Aquiles, dono de uma bela casa da Belle Époque. Ele mantém ali
uma pequena galeria de arte onde estavam expostas cerca de dez obras de
Palheta. No entanto, precisou retirá-las, pois começavam a apresentar sinais de
deterioração — notícia que me entristeceu profundamente.
No domingo, meu amigo José Luiz, corretor
de imóveis que hoje vive em Balneário Camboriú,
ficou apreensivo ao saber da situação. Como é o proprietário das obras,
autorizou-me a verificar o estado de cada uma, fotografá-las e até auxiliá-lo
na possível venda.
Na segunda-feira, o escritor Jorge Klein
entrou em contato perguntando a data do falecimento de Palheta. Preparava uma
publicação em sua página no Facebook,
já que o artista havia ilustrado a capa de seu livro. Aproveitei para
enviar-lhe o link da crônica de 2015 — que agora retomo, aquecida pelas
lembranças.
Memórias
do amigo e artista
Conheci Jorge Palheta no tradicional Bar do Armando há cerca de uma década.
Tive o privilégio de conhecer suas obras, desfrutar da sua amizade e ouvir
alguns de seus “causos” mais hilários. Palheta tinha aquele raro talento de
unir humor, sensibilidade e uma percepção profunda da alma humana.
Jamais ousaria analisar tecnicamente seus
quadros — sou zero à esquerda em artes plásticas. Mas, entre conversas longas e
despretensiosas, fui aprendendo sobre sua trajetória e sua essência.
Palheta se dizia amazônida de sangue e
coração. Sua arte revelava exatamente isso: floresta, rio, luz, natureza,
espiritualidade, identidade. Tudo pulsava forte em cada uma de suas telas.
Sua carreira começou há 45 anos, primeiro
com desenhos no papel, até migrar para a pintura em telas. Trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA),
entre 1975 e 1980, como ilustrador botânico — uma função extremamente minuciosa
antes da chegada dos computadores. Era sua missão desenhar flores, folhas e
árvores com precisão quase científica. Poderia ter se aposentado ali como
servidor federal, mas escolheu o caminho mais arriscado e mais belo: o da arte.
Tinha um talento impressionante para
retratos, o que o levou a colaborar com a Polícia Civil, realizando o famoso
“retrato falado”. Com a informatização, esse trabalho perdeu espaço, mas nunca
perdeu relevância histórica.
Com o dom natural que tinha, sustentou-se
por anos fazendo caricaturas nos bares de Manaus e ilustrando capas de livros
de diversos autores do Amazonas. Criou também artes para bandas de carnaval,
especialmente para a BICA, 5 Estrelas e Caldeira — verdadeiros ícones da
cultura baré.
Segundo especialistas, Palheta transitava
com habilidade entre o impressionismo e o abstracionismo, criando composições vibrantes, cheias
de luz, movimento e emoção.
Realizou exposições na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas,
sempre acolhido por amigos, políticos, artistas e empresários. Sua obra, como
acontece com tantos mestres, tornou-se ainda mais valorizada após sua partida.
Em agosto de 2013, fiz-lhe um pedido
especial: uma pequena tela intitulada “A Maçonaria na Amazônia”.
Palheta era membro da Loja Rosa-Cruz, e muitos de seus quadros carregam
elementos místicos e simbólicos.
Durante todos esses anos, procurei apoiar
e divulgar seu talento no BLOGDOROCHA, e, mais do que isso, cultivar nossa
amizade — regada a conversas longas, risadas generosas e histórias que só ele
sabia contar.
Faleceu
no dia 18 de agosto de 2015. Seu corpo foi velado em sua residência, na Avenida
Maués, nº 1.120, no bairro Cachoeirinha, em Manaus/AM. O meu amigo está
descansando em paz. Mas sua arte — esta sim — permanece viva, eterna e
iluminada, como ele sempre foi.
https://www.balnearioimoveisbc.com.br/imoveis/kitnet-cidade-nova-manaus-amazonas-id-198358
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