Ao passar pelo início da Avenida Eduardo Ribeiro, não tem como não notar a presença do ‘Relógio Municipal’ que, juntamente com o ‘Obelisco do Centenário da Cidade de Manaus’, marca aquele local. Uma dezena de estabelecimentos se instalaram ao redor, mas, felizmente, somente os dois permaneceram até os dias atuais, apesar do descuido dos administradores públicos em sua conservação.
Manaus
comemorará 357 anos de fundação no dia 24 de outubro, tendo em vista a data de
1669 ser o marco inicial da construção do Forte São José da Barra do Rio Negro,
de onde a cidade cresceu e evoluiu. Nada mais justo que, no mês de seu
aniversário, prestarmos todas as homenagens ao Relógio Municipal, que faz parte
da memória afetiva dos manauaras e era conhecido pelos mais velhos como
‘Relojão’.
Consta
em documentos antigos que a sua importação da Suíça se deu no início do século
vinte, em plena belle époque manauara. No entanto, ele veio com algumas peças
defeituosas, ficando guardado no depósito de coisas inservíveis da Prefeitura
de Manaus por longos anos. Na gestão do prefeito Dr. José Francisco de Araújo
Lima, cujo mandato foi de 1926 a 1929, resolveu-se resgatar o referido relógio
— quando o ciclo da borracha já estava em declínio econômico —, contando com a
colaboração do professor, dramaturgo e arquiteto amazonense Coriolano Durand.
Iniciada
a construção em 31 de março de 1929, o monumento em estilo neoclássico ganhou
uma base de alvenaria e uma torre quadrangular com cerca de cinco metros de
altura em pedra lavrada e alvenaria para sustentar a estrutura metálica. Conta
com dois mostradores: um para o norte e outro para o sul, visíveis nos dois
sentidos da Avenida Eduardo Ribeiro, tanto para quem subia em direção à praça
quanto para quem descia rumo ao Porto de Manaus. Coube, também, a Coriolano
Durand a famosa inscrição em latim gravada em sua estrutura: "Vulnerant
omnes, ultima necat" ("Todas ferem, a última mata"), uma
reflexão clássica sobre a passagem das horas e o destino humano.
A
‘Máquina Suíça’, que estava parada há quase trinta anos por falta de peças ou
condições técnicas iniciais, foi entregue a uma firma profissional de renomados
ourives e relojoeiros conhecida na cidade como ‘Pelosi & Robert’. A empresa
fez a montagem, a revisão, a fabricação das peças que faltavam, o ajuste dos
componentes e a calibração do intricado maquinário. A inauguração oficial
deu-se em 28 de novembro de 1929; portanto, em 2029 próximo, fará cem anos. O
acontecimento foi amplamente registrado na edição daquele mesmo dia pelo jornal
O Estado do Amazonas e, no dia seguinte (29 de novembro), formalizado no Diário
Oficial do Estado. O clima era de modernização urbana comandada pelo prefeito
José Francisco de Araújo Lima, que via no relógio um símbolo de progresso para
a Avenida Eduardo Ribeiro no final da década de 1920.
Praticamente
sessenta anos depois de sua inauguração, o monumento foi tombado como
patrimônio histórico pelo CDPHA (Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio
Histórico e Artístico do Amazonas), por meio do Decreto Estadual de 16 de junho
de 1988, protegendo-o permanentemente.
Algumas
coisas marcaram para sempre o Relógio Municipal. Uma delas foi a saga do Senhor
Faiez Isaac Sahdo, pai da saudosa atriz Ednelza Sahdo e avô do Kleber Isaac
Sahdo, os quais tive o privilégio de conhecer. Ele tornou-se o lendário zelador
do relógio desde 1947. Era aposentado do Detran e conhecido na cidade como
‘Professor Pardal’ por ter criado um antigo sinal de trânsito de onze focos.
Morador do bairro da Cachoeirinha, passava tanto tempo cuidando do maquinário
que mantinha uma rede armada e dormia nos altos da estrutura de pedra do
relógio. Em 1988, aos 71 anos de idade e 41 de dedicação, mantinha o relógio
britanicamente pontual. Para garantir que Manaus não atrasasse, ele regulava o
maquinário suíço acompanhando a frequência de rádio da BBC de Londres.
O
relógio não atrasava, muito menos adiantava. Somente em 1985 o relógio e o seu
guardião tiveram que se adaptar ao horário de verão, promovido pelo presidente
José Sarney, sendo ele obrigado a adiantar as engrenagens em uma hora. A outra
faceta que marcou gerações de manauaras era o som que ele produzia. Como em
1988 os sinos originais já estavam quebrados, ele usava um sistema de som
adaptado, com as batidas em uma potência inicial de 30 watts, passando depois
para 180 watts. A cada hora, o relógio emitia um som cativante, apelidado
carinhosamente pelos manauaras de “Big Ben”.
Estive
duas vezes embaixo do relógio, onde os descendentes do velho Sahdo ainda
trabalham. Na primeira vez, perguntei sobre o som e me informaram que era uma
peça quebrada que havia deixado o relógio mudo; na outra, informaram que
desligaram o som a pedido dos padres da Igreja da Matriz, pois estava
atrapalhando as missas.
O
Relógio Municipal passou uma temporada pintado na cor cinza para combinar com a
mesma cor do Teatro Amazonas, o que gerava muitas críticas dos historiadores.
Em 1979, voltou a receber a sua cor original: o rosa.
O
seu entorno passou por muitas utilizações. No início, era o lugar preferido
para a Banda de Músicos Militares do 27º BC tocar em homenagem aos visitantes
ilustres e autoridades que chegavam à nossa terra. Todas as manhãs de
terça-feira de Carnaval, os foliões do Atlético Rio Negro Clube saíam da sede e
comemoravam em frente ao Relógio Municipal. Tempos depois, instalaram — sob
muitos protestos — uma bomba manual de combustível bem em sua frente e, depois,
outra mais adiante. O local também era palco para protestos e comícios.
Em
1940, instalaram dois Tabuleiros da Baiana: um deles em frente ao relógio e
outro na Booth Line. Eram abrigos públicos cobertos, feitos de concreto para
passageiros de bondes (e depois de ônibus), onde se vendiam cafés e refrescos,
tornando-se pontos de encontro tradicionais da cidade. Eles funcionaram até
junho de 1975, quando foram demolidos durante a reforma de expansão urbana e
modernização do Centro, promovida pelo prefeito Jorge Teixeira. Além de servir
de parada de ônibus para lugares bem distantes e dos famosos ‘Manecos’, ali já
fora ‘Camelódromo’ e uma moderna estrutura de ferro para bares e lanchonetes
com som ao vivo, tornando-se uma "barra pesada" à noite. Mas,
felizmente, tudo foi sendo retirado com o passar do tempo, ficando atualmente
somente o Obelisco e o seu companheiro, o Relógio Municipal.
Em
1988, quando a cidade celebrava o ano da elevação da vila à condição de cidade
(ocorrida em 24/10/1848), uma peça publicitária ganhou o concurso da prefeitura
de 140 anos, conforme publiquei aqui neste espaço. Uma dica: que tal em 2029
fazermos o mesmo trabalho para os 360 anos de aniversário de nossa cidade (1669
+ 360 = 2029) e/ou os 100 anos de sua inauguração (1929 + 100 = 2029),
utilizando o mostrador do nosso relógio?
Os
últimos prefeitos de Manaus resolveram gastar fortunas com o ‘Boi Manaus’ e não
com a conservação e preservação da nossa memória baré. Esse negócio de boi de
pano fica bem lá para Parintins e não tem nada a ver com o aniversário de nossa
cidade. Em todo caso, irei homenagear todos os anos o nosso Relógio Municipal,
e que os políticos não esqueçam: todas as horas ferem e a última mata!






