sexta-feira, 15 de outubro de 2021

DIA DO PROFESSOR

15 DE OUTUBRO, O DIA DO PROFESSOR.


Hoje, 15 de Outubro, dia comemorativo do “lente”, professor e mestre, aquele que no mesmo dia e mês do ano de 1827, o D. Pedro I, editou um Decreto Imperial criando o ensino elementar em nosso país, bem como, no mesmo dia e mês de 1963, o presidente da República, o João Goulart, institui o “Dia do Professor”, através do Decreto Federal no. 52.682.


O Decreto do Imperador era inovador, pois determinava a descentralização do ensino, a remuneração justa dos professores e as matérias básicas que deveriam ser ministradas, porém, desde aquela data até os dias atuais, os governantes vêm desrespeitando isso.


Realmente, a educação e os professores não são levados a sério pelas autoridades governamentais em nosso país.


Somente para exemplificar: no governo do Collor, um empresário paulista faliu em decorrências das políticas econômicas adotadas pelo executivo, ele e a esposa foram para o Japão, em busca de emprego numa empresa automobilística, chegando lá, passaram por uma triagem, o marido foi encaminhado para o setor de descarga de carros, para tirar a rebarba das soldas, mesmo tendo um título de engenheiro no Brasil, ganhando dois mil e quinhentos dólares por mês, enquanto, a sua esposa, formada em pedagogia, foi reverenciada pelos japoneses, sendo admitida como diretora da escola dos filhos dos trabalhadores brasileiros, com um salário inicial de cinco mil dólares (ela ganhava três salários mínimos no Brasil), demonstrando o quanto eles tem respeito pela educação.


Enquanto isso, o Brasil ficou em penúltimo ranking mundial de educação, elaborado pela Unesco. Segundo os professores da UnB as causas foram em decorrência do numero elevado de vagas ofertadas nas escolas do país, sem que houvesse expansão da infraestrutura de ensino e do numero de professores, além da baixa formação dos docentes e da demora por parte do governo para dar prioridade à área.


Apesar de todos esses desrespeitos a educação no nosso país e aos professores, nada mais justo do que lembrarmos e agradecermos aos nossos mestres, com todo o carinho do mundo.


Nesse dia importante, agradeço imensamente aos meus mestres:


Professora Genoveva – uma portuguesa de olhos azuis, morava na esquina das Ruas 24 de Maio e Costa Azevedo, professora de “primeiras letras” no Colégio Barão do Rio Branco, na Avenida Joaquim Nabuco – foi ela que me ensinou a ler e escrever;


Professor Alonso – morador da Rua Marçal (entre a Rua Costa Azevedo e Avenida Getúlio Vargas), ele foi uns dos melhores professores da língua portuguesa em Manaus, lecionou  durante anos no Colégio Benjamin Constant;


Professor Garcytilzo de Lago e Silva – fui seu aluno no Instituto de Educação do Amazonas, a sua sala de aula era o laboratório do colégio, depois, foi lecionar na UFAM e no ICBEU;


Professor Jefferson Peres – fui seu aluno na disciplina de Economia Brasileira, porém, não consegui absorver muito os seus ensinamentos e, fui reprovado, mas, não guardei mágoas, tanto que estou lembrando dele neste momento;


Professor José Seráfico – um dos mais brilhantes professores da Faculdade de Estudos Sociais (Administração de Empresas) da nossa querida Universidade Federal do Amazonas – a base da minha formação profissional devo a ele.


Certa vez, um professor paulista, o Salomão Becker, fez um discurso nessa data, em 1947, ao qual ficou famoso pela frase "Professor é profissão. Educador é missão".


Parabéns aos professores pelo seu dia, em especial, aos meus mestres, com carinho. 


É isso ai.

domingo, 3 de outubro de 2021

A MESA DA DIRETORIA DO BAR CALDEIRA

Até hoje é a preferida pelos mais antigos por dar uma visão privilegiada de todo o interior do bar e ficar bem em frente ao aparelho de televisão. Um lugar ótimo para assistir a um jogo de futebol ou a apresentação de shows musicais interno. Por ser grande é a preferida para fazer comemorações. Tradicionalmente, quem senta na cabeceira de qualquer mesa grande é uma pessoa importante, o chefe superior ou o pai de família. Traz destaque e status para a pessoa. No Bar Caldeira é a mesma coisa. No entanto, ficou famosa até os dias de hoje por outro motivo. Segundo contam os mais antigos quem sentar-se, costumeiramente, na cabeceira e de costa para a parede está chamando a morte, pois traz agouro, antecipando a lista da fila dos que irão para o andar de cima. Se for lenda ou não, eu não sento lá de jeito nenhum. Na realidade, aquele lugar é o preferido pela pessoa que bebe todo dia, pois dificulta a sua visualização por quem passa à pé ou de carro.
Pavão – É representante de laboratórios farmacêuticos. Grande músico e irmão do Mark Clark e do Flávio de Souza. Nunca o vi bebendo no bar, no entanto passava todos os finais de semana por lá, parava e olhava para dentro do bar e caso conhece o sujeito que estava sentado na cabeceira da mesa, falava, na brincadeira: - Tu vais ser o primeiro da fila!
De tanto tirar saro da cara dos outros foi apelidado de “Rasga Mortalha”.
Tapinha – O seu prenome era Atalpha, mas por ser baixinho ficou conhecido no bar como Tapinha. Certa vez ele foi à missa de sétimo dia de um boêmio do Bar Caldeira, na Igreja de São Sebastião, ele chegou atrasado e bêbado, ao entrar falou bem alto: - Falavam que eu era o primeiro da fila, né? Tô nem ai. Ainda irei enterrar muita gente, incluindo até o padre que está ai no altar! A galera do Bar Caldeira estava em peso, todo mundo começou a rir, incluindo a viúva, os parentes e até o padre e os coroinhas. O Tapinha continuou sentando na cabeceira da Mesa da Diretoria e tempos depois atravessou o espelho. O seu filho, o Athalpa Filho, sucedeu ao pai na boêmia. Frequentava o Bar Caldeira aos domingos. Ele tinha um mote: - Prefiro ser corno a ser diabético!
Certa vez, o Athalpa estava em companhia do advogado Dr. Marco Aurélio, conhecido por “Barrão”, os dois estavam bebendo no Caldeira, quando passou por lá a namorada do Sacy da Pareca, a “Sincera”, ela estava com um shortinho e sapatos altos, desfilando pela José Clemente, quando ia descer o ladeirão da Lobo DÁlmada caiu no chão, essa Athalpa deu uma risada bem alta e ficava apontando para ela. Depois dessa, a Sincera nunca mais apareceu por lá. Quando ele ia ao bar ficava admirando a foto de seu pai ao lado do Vinicius de Moraes. Infelizmente, não resistiu a Covid-19 vindo a falecer em dezembro de 2020.
Doutor Lió – Era um dentista da melhor qualidade. Querido por todos. Foi um bom amigo. Era espiritualista. Gozador nato e tirava saro de tudo e de todos. Fumava que nem uma caipora. Era inveterado por cigarros. Em 2011 foi aprovada a Lei 12.546 chamada Lei Antifumo que proibia fumar em todo país em ambientes fechados públicos e privados. Apesar de ainda não ser regulamentada, o que somente aconteceu em 2014, o Adriano Cruz, colocou um aviso proibindo expressamente os clientes fumarem dentro do bar. A lei estabelecia multas e até a perda da licença de funcionamento em caso de desrespeito a norma. A segunda providência foi jogar no lixo todos os cinzeiros. Falava em voz alta: - Quem quiser fumar, que fume, porém, lá fora, aqui dentro, não! Agora é lei. Leia o aviso na parede. Foi complicado. Muitos não aceitavam e teimavam em fumar no interior do estabelecimento, o que eram na hora repreendidos. O Doutor Lió era a única exceção.
Sempre após o expediente batia o ponto no bar e o seu lugar preferido era exatamente àquele em que a maioria fugia por ser agourento: a cabeceira da Mesa da Diretoria, de costas para a parede. Meu Deus. O seu filho mais velho sempre ia ao bar pegar uma grana com o pai, depois que o primogênito saía, ele falava: - O filho passa nove meses na barriga da mãe e o resto da vida colocando no do pai! – ficava batendo a mão direita aberta na mão esquerda fechada. Era tudo brincadeira, pois amava e admirava muito os seus filhos. Quando levantava para “tirar água do joelho” falava: - Agora vou pegar no pesado! – referindo ao seu bilau. Segundo a atriz Socorro Papoula, ele tinha várias namoradas, mas possuía uma preferida, era uma enfermeira baixinha e bonitinha. Após tomar todas, pagava a conta e dizia: - Agora vou prá casa fazer sexo, a minha namorada Juceta já me ligou várias vezes! – era a sua preferida.
Passou uma temporada sem fumar. Ficou abstêmio da nicotina. Quando alguém perguntava o que ele fez para parar de fumar, respondia: - Prometi a mim mesmo se voltasse a fumar daria o traseiro duas vezes por semana! Não cumpriu a promessa e voltou a fumar novamente. Com o tempo apareceu o nódulo no pescoço, foi crescendo lentamente. Um dia reuniu alguns amigos do bar, entre eles o Adriano, Miudinho e o Jorginho, foram para Maués, no navio Dona Carlota. Ninguém sabia, mas estava se despedindo dos amigos e da vida. Morreu de câncer pouco tempo depois. Será sempre lembrado por todos os velhos boêmios.
O Lanterninha Farias – Trabalhou por longos anos no Cine Guarany ajudando assentar as pessoas que chegavam atrasadas, pois com a sua lanterninha sabia perfeitamente onde existiam cadeiras vazias. Ele era um cara que tinha uma grande cabeleira, tirando a todo instante do bolso um pente da marca “Flamengo” para penteá-la. Usava sempre um enorme óculo de sol, acho que se inspirava em algum ator de cinema das antigas, além de ter um vozeirão daqueles e falava pelos cotovelos, parecia com aquele comediante famoso, o “Zé Bonitinho”. O cinema era frequentado por um grupo especial formado pelo Jeremias, Mococa e outros rapazes alegres, que davam em cima da molecada. O Farias sempre ficava de olho nessa turma que aproveitava a escuridão para alisar os marmanjos. Muitos anos depois, reencontrei o Lanterninha Farias, no Bar Caldeira, pois ele morava por aquelas imediações. Conversamos muito sobre o nosso saudoso Cine Guarany, lembrando e sorrindo dos velhos e bons tempos que não voltarão jamais. Aparecia somente aos domingos quando a Velha Guarda se apresentava. Bebia somente no lado de fora do bar. Era invocado com a Mesa da Diretoria, falava que ela trazia agouro e quem ali se abancasse por um bom tempo, faleceria precocemente. Coisas de louco. Passou uma temporada enchendo “a cara” debaixo de uma árvore frondosa, no Bar Mangueira, vindo a falecer tempos depois. De nada adiantou fugir tanto da Mesa da Diretoria.
Artista Plástico Palheta – Era frequentador assíduo do Bar Caldeira. Tive o privilegio de conhecer dezenas de trabalhos realizados pelo grande artista plástico, bem como, de usufruir da sua amizade e de ter tido a oportunidade de conhecer alguns causos muitos hilários, tendo como personagem principal o nobre amigo. Trabalhou no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, no período de 1975 a 1980, na respeitada função de ilustrador botânico. Tinha uma capacidade incrível para retratar o rosto humano, chegando até ser colaborador da Polícia Civil, fazendo o famoso “retrato falado”. Durante todos esses anos de amizade, sempre o apoiei, valorizando os seus trabalhos artísticos, com publicações no BLOGDOROCHA, além de passarmos horas conversando, rindo das piadas e causos que somente ele sabia contar. Gostava de sentar-se somente na Mesa da Diretoria, pois era um artista considerado por todos. Viva somente de seu trabalho, no entanto, passava meses sem vender nenhuma obra, o que o deixava cabisbaixo, mesmo assim não deixava de frequentar o bar e os amigos do peito sempre pagavam umas ampolas para ele. Quando estava “Barão”, andava bem vestido “no linho”, levantava os ombros e a cabeça e pedia somente doses de Uísque. Falavam que ele ficava esnobe e chato (boçal), mas era “mão aberta” e fazia questão de retribuir pagando cervejas para aqueles que ele “serrava”, brindando até com tira-gosto de Queijo Bola. Quando a fonte secava, voltava novamente a “estaca zero”. Era o momento para armar-se de sua prancheta, papel A4, lápis e borracha para fazer caricaturas no Bar Caldeira, principalmente aos domingos à tarde quando se reunia a velha guarda mais abastada financeiramente. Certa vez, ele contou-me um acontecido no bar: chegou por lá um sujeito que ninguém conhecia, ele ficou a observar o Palheta fazendo o seu digno trabalho, chegou perto e falou-lhe: - O amigo pode fazer a minha abreugrafia? O Palheta arregalou os olhos e disparou: - Olha aqui me amigo, sou o artista plástico Palheta e faço caricaturas, quem faz abreugrafias é ali embaixo na Rua Lobo D´Álmada, vai lá e procura o Ambulatório Cardoso Fontes!
O cara insistiu: - Faz essa porra ai mermo! O Palheta levantou-se, tufou o peito e pensou “Puta que o pariu, seu eu não estivesse liso e com duas contas de luz atrasadas eu daria umas porradas neste tuberculoso, somente para respeitar o trabalho do artista plástico”. Mesmo assim fez um trabalho caprichado e pelo abuso do camarada cobrou dobrado pela abreugrafia.
Outra vez, a jornalista Hermengarda Junqueira, do Jornal Amazonas Em Tempo, encomendou uma obra do Palheta. Trancou-se em seu ateliê na Rua Maués, no bairro da Cachoeirinha e fez um belo trabalho. Ele estava “mais liso do que sabão na tábua”. O jeito foi ir de ônibus até o bairro do Aleixo onde ficava a sede o jornal. O busão estava lotado, colocou o quadro na cabeça e foi em pé. Ficava esbarrando em todo mundo. Um cidadão falou: - Não dá para o senhor abaixar essa Tábua de Pirulito! Pense num cara puto de raiva: - Isto aqui é uma obra de arte. Tábua de Purulito é o caralho!
Ao chegar lá depois de muito sacrifício, a jornalista falou: - Passe daqui uma semana para receber o seu dinheiro! Ai foi para acabar de vez com o artista: - Pelo o amor de Deus! Tô na lisura. Vim de ônibus e fui xingado por todos. Sem chance. Pague pelo menos a metade agora!
Ela ficou sensibilizada e pagou tudo no monte. Ai foi graça. Pagou as contas atrasadas e foi direto para o Bar Caldeira, sentou-se na Mesa da Diretoria e começou a tomar Uísque com queijo bola, é claro! Outra vez, ele e o artista plástico Inácio Evangelista foram contratados para fazerem a ornamentação de carnaval do Clube Sírio Libanês, na Avenida Constantino Nery. Quando estava tudo pronto, chegou o promoter da festa para fazer a verificação dos trabalhos. Falou: - Quem fez esta decoração? O Palheta “subiu nas tamancas”: - Olha aqui, meu amigo, decoração é coisa de viado. Eu e o Inácio somos artistas plásticos e fazemos uma obra de arte e não decoração! O Evangelista só achava graça da onda do Palheta.
Teve problemas sérios de saúde e veio a falecer em agosto de 2015. Hoje, as suas obras impressionistas e abstracionistas estão muito valorizadas em Manaus.
A Turma do Meio-Dia – Existe uma turma que desde tempos idos gosta de beber quando relógio bate meio-dia, na hora do almoço. Falam que é para abrir o apetite. Geralmente a pedida é cerveja, cachacinha, limão e sal. Isto é tradição. Passa o tempo, alguns deles partem para o andar de cima, chegam outros, sempre renovando.
Detalhe: eles somente gostam de sentar exatamente na Mesa da Diretoria, sempre existindo um deles na cabeceira de costas para a parede. Cruz, credo!
Certa vez, fui cortar o cabelo na Rua José Clemente. Depois, parei no Bar Caldeira, para conversar com uma turminha que toma uns goles após o almoço. Na famosa Mesa Da Diretoria estava uma sacola cheia de Tamarinos. Pela primeira vez em minha vida provei do fruto. Guardei duas sementes não sei por quê.
O tempo passou.
Dias depois dei um trato em minha mochila encontrei as duas sementes.
Sem nada ler sobre técnicas de plantio, coloquei as duas num algodão embebecido de água dentro de uma cuia, como fazíamos quando éramos crianças.
Dias depois uma delas brotou.
Adotei-a. Pus num vasinho, coloco água, ponho para receber sol na janela.
Com é apenas uma criança, fica ao lado do meu computador onde escrevi parte deste livro.
Serve de inspiração.
Caso consiga sobreviver, levarei daqui uns anos uns dos seus frutos ao Bar Caldeira, para servir de tira gosto na Mesa da Diretoria.
(Bar Caldeira, História & Tradição, José Rocha).
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domingo, 29 de agosto de 2021

A NASCENTE DO IGARAPE DE MANAUS

 NASCENTE DO IGARAPÉ DE MANAUS

        Fiz um trabalho de campo para descobrir, realmente, onde estão as principais nascentes do Igarapé de Manaus. Por incrível que pareça, poucas pessoas sabem onde elas estão localizadas: fica numa baixada da Avenida Barcelos, nas proximidades do antigo Cine Popular. Muitas pessoas falavam que ficava por detrás da TV Encontro das Águas (antiga TV Cultura do Amazonas). No local encontrei um imenso bueiro, construído quando do aterro da baixada da Rua Nhamundá. Segundo moradores, aquela                     nascente   foi               praticamente                     aterrada.

        Conversei com os mais antigos da Avenida Barcelos. Dentre eles, tive a grata surpresa de reencontrar o Jackson Figueiredo, primo-irmão do Adelson e Aldenor Figueiredo Brito,                     meus contemporâneos       da    Rua   Igarapé de Manaus.

O Jackson fez a indicação exata da nascente: o acesso é feito através de dois becos, onde é possível verificar in loco a água brotando da terra. Segundo ele, o professor da antiga Universidade do Amazonas, atual UFAM, Carlos Dias, conhecido por “Carlão”, fez um trabalho no local para a universidade na década de setenta, constando de entrevistas com os moradores do entorno, filmagens e fotografias, onde é possível mostrar toda a exuberância do lugar naquela época, com a mata ciliar preservada, pessoas tomando banhos, com muitos peixes aparecendo ao fundo das águas límpidas e cristalinas. Não pude resgatar esse material, pois o ilustre professor está aposentado e   resolveu   fixar   residência   na   capital   federal,   em     Brasília. 

        No local existe uma área de mata primária protegida pela mãe natureza, com um morro que dá acesso pela Avenida Airão, na Praça Chile. Ele é um grande paredão com cem metros de altura, de difícil acesso, o que não permitiu a invasão e a construção de                 casas         que        impactariam,       com   certeza,    as nascentes.

        No início da Avenida Barcelos existe um prédio antigo, datado de 1909, onde funcionava o Cine Popular, conhecido por Cine Poeira. Esporadicamente, ia assistir a filmes nas tardes de domingo. Na minha infância, lembro que aquela baixada era chamada de “Covão” (uma grande cova), onde eram feitos descartes de lixo pelos moradores do entorno. Frequentava aquele lugar naquela época, pois ali morava um grande amigo do meu pai, o Abdias Bodó (um dos personagens deste livro). Jamais iria imaginar que, um dia, voltaria ao mesmo ambiente e constatar que ali era a nascente do        igarapé           onde      passei    a    minha       infância/adolescência. 

        Na realidade, existem duas grandes nascentes, dentro de terrenos de particulares. Numa delas, a moradora não me deixou adentrar. Na outra,     não     fui    bem recebido pelo dono da    área.

Fiquei sabendo que o local consta dos planos do Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus, mais conhecido como PROSAMIM, onde planeja indenizar todos os moradores, tirá-los do local e construir blocos de apartamentos e uma grande praça na nascente, que seria a “Praça da Nascente do Igarapé de Manaus”. Estes moradores não querem sair do local e hostilizam as pessoas que procuram informações sobre a área. O governo do Estado do Amazonas homologou uma licitação para certa empresa especializada em executar estudos, projetos, serviços de campo e relatórios de licenciamento         arqueológico        de       toda     aquela       área. 

 

Foto: Marco Gomes

        Voltei outra vez ao local, em companhia do escritor, poeta e fotógrafo Marco Gomes; do cinegrafista da TV Encontro das Águas, o Zé Carlos “Cartier” (morador antigo da área, lado esquerdo da foto); outro morador que fez questão de nos acompanhar (ao lado direito da foto) e da Ivete Bruce (não aparece na foto), serviu como guia, ela foi minha colega de trabalho na antiga “Lojas Populares”, de Braga & Cia em tempos idos. Adentramos em uma das nascentes, onde foi possível recolher água de uma cacimba alimentada pelas águas cristalinas da nascente. Apesar de existirem fossas biológicas no local, a nascente é monitorada pelos técnicos do IPAAM,     segundo                                  os                                   moradores.

        O registro fotográfico acima, de excelente qualidade, foi feito pelo saudoso Marco Gomes (faleceu meses depois), onde eu apareço coletando a água diretamente da fonte (cacimba), ladeado pelos moradores acima citados. Guardo essa água dentro de uma garrafinha plástica, onde poderei mostrar a outras pessoas quando da apresentação deste livro e ficará como                                lembrança                       daquele             momento            sublime. 

        Em companhia da guia Ivete Bruce foi possível entrarmos pelos Becos Belém e Barcelos, percorrendo todo o caminho das águas, desde a nascente até a Rua Japurá, após que percorremos a Praça Nestor Nascimento, onde as águas do igarapé     passam canalizadas.

Segundo os moradores antigos, naquele local era conhecido como “Cacimbal”, onde existia uma grande quantidade de cacimbas (buracos onde flora águas subterrâneas). Pude confirmar, no local, a existência de algumas cacimbas, confirmando a hipótese de que o Igarapé de Manaus possui duas grandes nascentes e inúmeras outras cacimbas       pelo      caminho     até     encontrar    o    Rio    Negro.   

        Quem observar atentamente a topografia onde passa o Igarapé de Manaus, desde a sua nascente até a sua desembocadura no Rio Negro e também ver o mapa de 1906 (Anuário de Manaus 1913-1914), poderá verificar que naquela área existe uma grande depressão natural (baixada), onde, no passado, as águas        invadiam        toda       a    sua    extensão  quando da cheia dos rios.

        Com o passar dos anos foram feitos vários aterros ligando as margens da Avenida Joaquim Nabuco com a Rua Major Gabriel (antiga Rua Tomás Pinto). Entre as ruas Barcelos e a Nhamundá é possível verificar um pequeno córrego (protegidos por matas ciliares), com as águas advindas da nascente, chamado antigamente de “Cacimbal”,   a  partir da   qual    ele     entra     nas        tubulações.

        A baixada da Rua Japurá apelidada de “Buracão”, o “PROSAMIM” construiu a Praça Nestor Nascimento (ele foi meu amigo e do meu pai) com as águas da nascente passando pelas tubulações.

        Na descida da Avenida Tarumã, inicia-se o conjunto de apartamentos “Parque Residencial Manaus”,                      interligando    com                 a         Rua         Dr.             Machado.

        No aterro da Avenida Leonardo Malcher a mãe natureza não perdoou: havia um afundamento constante da pista. Em junho de 1993 houve um grande desabamento do aterro, arrastando varias casas. Neste local foi construída a “Ponte Isaac Sabbá” (em homenagem a um dos homens mais importante da historia do desenvolvimento do Amazonas). Por debaixo da qual                  existe               a       continuação     do    conjunto de apartamentos.

        Seguindo na Avenida Ramos Ferreira existe uma depressão natural, antigamente era conhecido como “Buraco do Pinto” por ficar próxima a Rua Tomás Pinto (Capitão Manuel Tomás Pinto Ribeiro, filho do Major Gabriel). Em 1957 o governador Plínio Ramos Coelho determinou o aterro definitivo. Neste local inicia-se a segunda etapa do conjunto de apartamentos do      “Parque    Residencial   Manaus”.


Foto: Jornal do Commercio

        Rua Ipixuna – o aterro para construção do logradouro deu-se em 1956, conforme fotografia acima do                                    “Jornal        do       Commercio”              daquela                    época.

        Rua Igarapé de Manaus – na cheia do Rio Negro, invadia toda aquela área, atualmente, abriga o Parque Desembargador Paulo Jacob, onde passa    uma     pequena     lâmina de água na   vazante.

        Avenida Sete de Setembro – passa a Ponte Romana I (também conhecida como Primeira Ponte) – na cheia do Rio Negro uma parte do rio teima invadir o que foi aterrado, conforme podem verificar na fotografia abaixo, clicada        por        mim     no      meio  da ponte.

 

Foto: José Rocha (Igarapé de Manaus)


 

Foto: José Rocha (Encontro do Igarapé de Manaus e Igarapé do Bittencourt)

        Parque Senador Jefferson Péres – onde o Igarapé de Manaus se encontra com o Igarapé do Bittencourt (foto acima), percorrendo desde a nascente, três quilômetros, passando por debaixo da Avenida Lourenço Braga (conhecida como “Manaus Moderna”, local onde o governador do Amazonas aterrou a entrada do Rio Negro) até desaguar na foz do “Igarapé do Quarenta” e do “Mestre Chico”, na margem esquerda do majestoso Rio Negro (foto abaixo), seguindo até Rio Solimões, formando o grandioso Rio Amazonas até chegar    ao  Oceano Atlântico. As fontes do nosso Igarapé de Manaus, apesar de ser apenas uma gota no oceano, contribuem e ainda                                          hão             de           contribuir      para    a     imensidão     do mar!

Trechos do Livro EBook "O Igarape de Manaus, José Rocha"

Foto: José Rocha (Desembocadura do Igarapé de Manaus)

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

MANAÓS HARBOUR LIMITED

 






Em de 1900 foi concedido à empresa B. Rymkierwiez & Co.,                 a concessão para construir e administrar o Porto de Manaus, através             do Decreto no. 3.725/00, do governador Silvério Nery (1900-1904), transferindo em seguida para a Manaos Harbour Limited.

O Barão Rymkierwiez, proprietário da empresa concessória, não conseguiu cumprir com o foi acordado, sendo transferido para a MHL que assumiu o compromisso de até 1924, concluir toda                    a infraestrutura necessária para atender às exigências da época áurea do Amazonas, que inundava a nossa região com riquezas advindas da comercialização do látex da nossa borracha nativa.

Esta empresa tinha como sócios os irmãos ingleses Booth, proprietários da empresa de navegação Booth Line Ltd., que para Manaus traziam da Europa e dos Estados Unidos tudo o que existia     do bom e do melhor, pois a riqueza imperava em nossa cidade, levando de volta toda a produção de borracha.

Foi a união perfeita do útil e do agradável, pois possuíam uma frota de imensos navios que fazia rota internacional, carregando                e descarregado pessoas e mercadorias no maior e  mais moderno porto flutuante do mundo, sob a sua administração, levando              o bem mais cobiçado daquele tempo: a borracha in natura               da Amazônia.

O Porto de Manaus, uma obra prima dos ingleses, ficou conhecido     por Roadway, mais conhecido pelos manauaras por Cais Flutuante.    

O povo se acostumou a falar algumas palavras em inglês ou alemão, pois naquela época era permitido fundar empresas com o nome totalmente em estrangeirismo.

“Manaós” como era grafado naquela época Manaus. “Harbour” significa em inglês Porto. E “Limited” significando que era uma empresa constituída de Quotas de Responsabilidade Limitada (pertencentes aos irmãos Booth). Ou seja, em nossa língua portuguesa “Porto de Manaus Ltda.”.

Para conviver com tantos nomes esquisitos, a população fazia as suas adaptações. Por exemplo, Roadway era chamado de “Rodo”.               A Manaós Harbour de “Manausarbu”. Booth Line de “Butlaine”

Para fechar o cerco e ganhar muito dinheiro, os ingleses fundaram empresas para geração e distribuição de energia elétrica; circulação de bondes elétricos; captação e distribuição de água, além da rede     e tratamento de esgotos.

Vários fatores contribuíram para a debandada geral dos ingleses           e a dissolução de suas empresas:

1.   A partir de 1910 o mercado da nossa borracha começou            a desmoronar no exterior, pois entrava aos poucos a produção asiática, ocorrendo falências e fechamento de negócios           em Manaus;

2.   Para agravar o estado de penúria foi eclodida a Primeira Guerra Mundial (1914/1918);

3.   A Gripe Espanhola, em 1918, infectou um quarto da população mundial. Em Manaus. Cerca de 10% da população veio a óbito;

4.   Entre 1920 e 1930 a cidade de Manaus vivia uma situação de penúria.

5.   Em 1930, o presidente Getúlio Vargas tentou a voltar um período de maior prosperidade;

6.   Em 1939 veio a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), para voltarmos novamente a decadência.

A passagem dos ingleses por estas bandas deixaram marcas até hoje: tampas de bueiros com a marca M.I.L – galerias de esgotos  - trilhos do bondes que aparecem aqui e acolá – vários prédios e todo o complexo do Porto de Manaus.

As iniciais M.H.L aparecem na entrada do Roadway, na Casa de Luz    e Força (Museu do Porto) e outros prédios do Porto de Manaus, conforme fotografias.

Quando o Museu do Porto for reaberto ao público, poderemos observar e conhecer um muito mais sobre a famosa “Manausarbu”.

É isso ai.

Fotos: José Rocha