Fiquei
feliz ao ler a notícia de que a Prefeitura de Manaus assinou a Ordem de Serviço
que transforma oficialmente a Rua Ferreira Pena, no Centro Histórico, na
primeira Rua Gastronômica de Manaus.
A
iniciativa contempla o trecho entre as ruas 10 de Julho e Ramos Ferreira e
representa muito mais do que uma obra de urbanização. É, sobretudo, uma
oportunidade de devolver vida a uma parte da cidade que guarda, atrás de suas
fachadas antigas, histórias que o tempo insiste em apagar.
A
proposta prevê a recuperação econômica da região por meio da ocupação dos
imóveis históricos por bares, restaurantes e empreendimentos ligados ao turismo
e à economia criativa. Ao todo, 26 edificações estão inseridas diretamente no
perímetro da intervenção.
A
rua deverá ganhar novos ares: as redes de energia e telecomunicações serão
enterradas, eliminando a antiga teia de fios que atravessa o céu do Centro;
haverá iluminação cênica em LED, suspensa como um grande varal luminoso; novos
postes, floreiras, bancos, lixeiras e balizadores. A pista receberá blocos de
concreto intertravados e as calçadas serão revestidas com pedra natural
antiderrapante, garantindo também acessibilidade.
Tudo
isso é importante. Mas, para mim, existe algo ainda mais importante: a memória
que vive nesses casarões. E é justamente por isso que a notícia da nova Rua
Gastronômica me fez lembrar de um casarão situado na esquina das ruas Ferreira
Pena e Monsenhor Coutinho.
Há
anos, ele permanece abandonado. Poucos talvez saibam que aquela casa foi morada
de uma mulher que poderia perfeitamente ser lembrada como uma das primeiras
grandes referências da gastronomia amazonense: Charufe Nasser.
Empresária,
cozinheira e escritora, Charufe marcou a vida gastronômica de Manaus durante
décadas. Seus restaurantes fizeram história nas décadas de 1980, 1990 e 2000,
reunindo sabores da culinária árabe e da cozinha regional amazônica. Entre suas
especialidades estava a famosa tartaruga guisada, prato que pertence a uma
época em que comer em Manaus também significava conhecer um pouco da identidade
de quem preparava a comida.
Os
restaurantes de Charufe já não existem. E ela também partiu, em novembro de
2025. Mas algumas pessoas não desaparecem completamente. Ficam nas histórias.
Ficam nas fotografias. Ficam nas receitas. Ficam nas lembranças de quem sentou
à mesa. E, algumas vezes, ficam até nas paredes de uma casa.
Foi
justamente por causa daquele casarão que escrevi O Tesouro Escondido no Casarão
Vernier, obra que nasceu da minha vontade de preservar uma história que poderia
simplesmente desaparecer junto com o imóvel.
Participei
com o projeto de um Edital de Literatura da Prefeitura de Manaus. Não fui
contemplado, mas recebi de um dos pareceristas uma avaliação que guardo com
carinho: “Projeto bem estruturado, com narrativa clara, metas quantitativas
definidas e forte conexão com o patrimônio histórico de Manaus.”
Talvez
o livro não tenha sido escolhido naquela ocasião. Mas a história continuou
esperando. E agora, diante da criação da primeira Rua Gastronômica de Manaus,
acredito que ela merece ser novamente contada.
UM
CASARÃO CHEIO DE VIDA
O
Casarão Vernier passou por diferentes proprietários até chegar às mãos de um
próspero comerciante libanês da família Al Nasser. Uma de suas filhas,
conhecida como “Sultana do Seringal”, por ter nascido no Seringal Príncipe, às
margens do rio Juruá, mais tarde registrou suas memórias. E que memórias! Ao
falar de sua juventude em Manaus, ela não descreveu simplesmente uma casa.
Descreveu um mundo.
O
casarão possuía móveis, objetos, lustres de cristal, abajures, penteadeiras com
espelhos franceses e guarda-roupas de madeiras nobres. No andar superior, o
piso de tábuas corridas alternava peças claras e escuras, lembrando o piso do
Teatro Amazonas e do Ideal Clube.
No
térreo, havia um jardim coberto por um caramanchão de ferro tomado por
buganvílias. No centro, um chafariz com luzes coloridas. Ao lado, um enorme
pinguim de gesso. Era uma casa para ser vivida. E foi. Ali se reuniam jovens
para dançar, conversar, fazer projetos culturais e ensaiar. O casarão conheceu
o Twist, o Rock and Roll, o Hully Gully, o Cha-Cha-Cha e o Tango.
Mas
conheceu também algo que hoje parece pertencer a outro tempo: as serenatas.
Músicos amigos chegavam com seus instrumentos. Cantavam para a lua, para as
estrelas, para o amor e para a saudade. Havia tertúlias, conversas sobre
literatura, arte, política e filosofia. Havia encontros que atravessavam a
noite.
E
havia comida. Muita comida. Tambaqui, pirarucu, carnes, sobremesas, sucos de
frutas regionais e tantas outras iguarias faziam parte daqueles encontros. À
meia-noite, quando a maioria das casas já estava silenciosa, o casarão
continuava acordado. Servia-se um lanche com coalhada, ovos fritos, sardinhas
portuguesas, azeitonas gregas e pão quente, recém-saído do forno da Padaria do
Sujo, que ficava ao lado do Rio Negro Clube.
Enquanto
isso, no pátio e no jardim, os jovens conversavam, cantavam e ouviam música. Um
piano. Violões. Cavaquinhos. Atabaques. E, entre uma música e outra,
provavelmente alguém contava uma história.
Talvez
seja isso que mais me emocione quando penso naquele casarão. Ele não era apenas
uma construção. Era um lugar onde a vida acontecia.
E
AGORA, UMA RUA GASTRONÔMICA
É
por isso que considero tão simbólica a escolha da Rua Ferreira Pena para
receber a primeira Rua Gastronômica de Manaus. A gastronomia pode trazer
novamente pessoas para o Centro. Pode ocupar os casarões. Pode gerar empregos.
Pode movimentar o turismo. Pode transformar imóveis abandonados em lugares de
encontro.
Mas
existe uma condição para que tudo isso faça realmente sentido: não podemos
devolver vida aos prédios e matar a memória de quem viveu dentro deles.
Uma
rua gastronômica não deveria oferecer apenas pratos. Deveria oferecer
histórias. Deveria permitir que alguém pudesse sentar-se à mesa, experimentar
um tambaqui ou um prato de inspiração árabe e, ao mesmo tempo, descobrir que
naquele mesmo endereço, décadas atrás, uma família reunia amigos, jovens
dançavam, músicos tocavam serenatas e uma mulher chamada Charufe Nasser ajudava
a construir a história gastronômica de Manaus.
Por
isso, penso que, se estivesse entre nós, Charufe Nasser deveria ser uma das
primeiras pessoas homenageadas pela nova Rua Gastronômica de Manaus.
Ela
não foi apenas uma chef. Foi empresária. Foi escritora. Foi guardiã de sabores.
E, acima de tudo, foi uma mulher que viveu a gastronomia como parte da própria
cultura de Manaus. Talvez um dia uma placa possa lembrar seu nome naquele
casarão. Talvez uma fotografia. Talvez uma pequena exposição. Talvez um
restaurante. Talvez apenas uma mesa. Porque algumas homenagens não precisam ser
grandiosas. Precisam apenas ser sinceras.
E
eu gostaria que, quando a nova Rua Gastronômica estiver pronta e as pessoas
caminharem por suas calçadas iluminadas, entre restaurantes, mesas e aromas,
alguém pudesse perguntar: “Quem viveu aqui?”
E
a cidade pudesse responder: “Aqui viveu Charufe Nasser. E antes que esta rua se
tornasse gastronômica, ela já fazia parte da história da gastronomia de
Manaus.”
É
por isso que escrevi O Tesouro Escondido no Casarão Vernier. Porque acredito
que Manaus possui muitos tesouros escondidos. Alguns estão enterrados sob o
chão. Outros estão atrás de portas fechadas. E existem aqueles que permanecem
vivos apenas na memória de quem se dispõe a procurá-los.
Meu
livro é uma dessas buscas. Uma viagem a um casarão, a uma família, a uma época
e a uma Manaus que já não existe, mas que ainda pode ser reencontrada nas
páginas de uma história.
O
livro ainda não foi publicado em edição física, mas disponibilizo a obra em PDF
pelo valor de R$ 30,00. Quem desejar conhecer essa história pode solicitar o
livro pelo WhatsApp: (92) 99153-7448
Talvez,
depois de lê-lo, você nunca mais passe pela esquina da Ferreira Pena com a
Monsenhor Coutinho da mesma maneira.
Porque
uma cidade muda quando suas ruas são reformadas. Mas ela só renasce de verdade
quando aprende a lembrar.

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