quarta-feira, 22 de maio de 2024

O SINO DA LEI DA 'CREOLINA'

 

                                                             Foto: José Rocha

Por José Rocha

Ao entrar pelo portão principal do Mercado Adolpho Lisboa, depara-se ao lado direito com um sino sem o badalo (foi retirado pois as pessoas batiam nele constantemente, inclusive eu fiz isso também), que foi colocado naquele local durante a última reforma do 'Mercadão', em 2013.

Ele possui história.

Foi fabricado em Pádua, na Itália, pela Fundição Coleachini, exatamente na Belle Époque manauara, anos de riqueza e opulência, quando a cidade de Manaus encomendava produtos de alta qualidade na Europa.

Ele foi inaugurado em 1903, pelo Superintendente Municipal (Prefeito) da época, Dr. Martinho de Luna Alencar.

Como não existia, na época, sistemas de refrigeração, as carnes frescas de vacum possuíam um prazo mínimo de validade para a venda à população.

Através da Lei 291, de 3 de março de 1903, ficou estabelecido o seguinte: até às nove da manhã o preço da carne seria de mil e quinhentos réis; das nove até às dez, caía para mil réis.

Exatamente às dez horas, os fiscais começavam a tocar o badalo deste sino.

Era a hora da desinfecção das mesas do talho, onde era aplicada a creolina, um germicida e desinfectante
com um odor muito forte.

As pessoas mais pobres esperavam até antes das dez da manhã para comprar carnes a um preço bem reduzido.

Este hábito perdurou por muito tempo, até a chegada dos freezers e congeladores, quando terminou a 'Lei da Creolina'.

Passados 121 anos, este sino encontra-se no Mercadão para que todos os manauaras conheçam a sua história e a da cidade de Manaus.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

O Violão do Rochinha: O Último dos Moicanos

 

Foto: Marcus Gomes


Por dezessete anos, dediquei-me ao nobre ofício de fabricar instrumentos de cordas, auxiliando meu saudoso pai. Dez desses anos foram dedicados a criar meu próprio violão, um sonho que, infelizmente, nunca se concretizou.

Eu dominava apenas o básico da construção, enquanto meu pai cuidava do cavalete, braço e escala. Meu violão ficava impecável: todo boleado, com laterais e fundo de macacaúba, tampo de pinho e braço de cedro. No entanto, sua permanência em minhas mãos era efêmera; meu pai o vendia ao primeiro cliente que aparecia.

Ano após ano, eu desistia de possuir meu próprio violão. Até que, um dia, peguei um instrumento quebrado, colei, lixei e envernizei. Meu pai fez um enxerto no braço, substituindo-o por um pedaço de um “Di Giorgio”. Quando finalmente ficou pronto, levei-o para casa. Era o meu tão sonhado violão.

Incrivelmente, esse violão fez história. Ele é a única lembrança do Luthier Rochinha, com sua assinatura e a data de 1967 gravadas. Hoje, com 57 anos de fabricação, é uma relíquia.

Permita-me compartilhar um pouco da minha história como auxiliar de luthier:

Nasci na década de cinquenta, na Santa Casa de Misericórdia em Manaus. Logo após o nascimento, fui levado diretamente para a oficina de fabricação de violões, que também servia como nossa casa. Cresci imerso no aroma de serragem, vivendo em um flutuante (uma casa sustentada por grandes toros de madeira) no Igarapé de Manaus.

Lá, aprendi a engatinhar e a andar, além de absorver o ofício de fazer violões sob a tutela de meu pai, Rochinha. As técnicas de fabricação de instrumentos de cordas foram transmitidas a ele por um senhor conhecido como Nascimento, proprietário de uma pequena oficina de violões nos porões da Casa Alba, no centro antigo de Manaus. Esse senhor, por sua vez, havia adquirido conhecimentos de um grande mestre português no início do século passado.

Com o desmonte da Cidade Flutuante no final dos anos sessenta, mudamos para uma casa alugada. A oficina foi transferida para os porões da mansão dos Bringel, na esquina da Rua Igarapé de Manaus com a Rua Huascar de Figueiredo. Lá, durante dezessete anos, ajudei meu pai no sagrado ofício de carpinteiro, moveleiro e artesão. Além dos violões, também fabricávamos cavaquinhos, bandolins, portas, janelas, mesas, cadeiras e tamboretes.

Naquela época, a palavra “luthier” não era comum; a profissão de meu pai era conhecida simplesmente como “artesão”. Não tínhamos máquinas poderosas, apenas uma pequena serra elétrica e muitas ferramentas manuais. A criatividade e o suor eram nossos principais recursos.

Minha função era auxiliar, e meu trabalho era árduo. Buscava “bucho de Tambaqui” no Mercado Municipal Adolpho Lisboa para fazer nossa cola (que era excelente para colar madeiras). Serrava peças de macacaúba (uma árvore nativa) para o fundo dos violões. Lembro-me bem da dureza dessa madeira! Realizei muitos exercícios físicos, como serragem, plainagem, envernização e colagem, sem precisar frequentar uma academia de musculação.

Durante anos, meu pai repetia aos amigos que seus filhos não tinham a vocação para o ofício. Na verdade, ele não desejava que seguíssemos sua bela profissão. Seus sonhos para nós eram outros: queria que nos tornássemos “doutores”. Minha rotina era intensa: trabalhava pela manhã e estudava à tarde, sem folgas. As raras horas de lazer eram preenchidas com brincadeiras com a molecada do Igarapé de Manaus, mas sempre com a certeza de uma “peia” ao voltar para casa.

Hoje, recordo com saudade minha infância e adolescência, marcadas pelo trabalho como auxiliar de luthier. Na oficina do meu pai, tive a oportunidade de conhecer cantores, músicos, amantes da boa música, compositores, artistas, jornalistas, poetas e até doutores. Nos fins de semana, eles se reuniam para cantar e tocar os instrumentos do meu velho. Esses encontros me inspiraram a frequentar os locais onde os “Regionais de Manaus” se apresentavam, como os bares Caldeira, Loura, Gestina, Walter e Jangadeiro.

As pessoas frequentemente me questionam por que não segui a bela profissão do meu pai. Confesso que essa dúvida me angustia. Agora, estou seriamente considerando mudar o rumo. Para começar, buscarei orientações dos discípulos do saudoso luthier Rubens Gomes, da Escola de Lutheria da Amazônia (OELA).

Minha ideia é reunir meus irmãos – um contador e um vendedor nato – e eu, um administrador. Juntos, levantaremos recursos junto à Agência de Fomento do Estado do Amazonas, faremos convênios com o INPA na área de madeiras e descobriremos fornecedores de madeiras certificadas com selo verde. Quem sabe assim, ressurgiremos das cinzas com uma nova oficina de violões.

Quanto ao nome, “Di Rocha” parece uma homenagem perfeita ao meu pai. Está na hora de deixar de ser apenas um auxiliar e me tornar um fabricante de violões! Sonhar não custa nada.

Enquanto esse sonho não se concretiza, o último exemplar de violão construído por meu saudoso pai permanece guardado a sete chaves. Ele é o “Último dos Moicanos”.

domingo, 5 de maio de 2024

NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA

 

Por José Rocha

Hoje, 5 de maio, celebra-se o ‘Dia da Língua Portuguesa’, um idioma originário de Portugal e foi disseminado durante a época colonial no Brasil e em alguns países africanos.

Com a chegada do Império Romano à região ibérica, atualmente correspondente a Portugal e Espanha, o Latim Vulgar foi imposto como língua. Após a queda do império, diversos dialetos emergiram, dando origem ao Catalão, ao Castelhano — também conhecido como Espanhol — e ao Português.

A chegada dos portugueses ao Brasil marcou a imposição de sua língua materna. Contudo, ocorreu uma fusão com os idiomas dos povos indígenas e dos escravos africanos, resultando no que hoje conhecemos como Português Brasileiro.

Nossa língua encontra-se em constante evolução. Basta comparar um jornal do início do século passado com este texto para perceber as transformações.

O estrangeirismo, as gírias e o português coloquial são falados informalmente por todos nós. Por outro lado, o português formal é a modalidade padrão, aceita por um público mais exigente, que ainda preserva o formalismo na língua.

Assim como tudo na vida, nossa língua portuguesa também se transforma.

Parabéns pelo seu dia!

Foto: Microsoft Copilot no Bing (IA)


quarta-feira, 1 de maio de 2024

ANIVERSÁRIO DE CLÁUDIO AMAZONAS

 



Por José Rocha

Hoje, primeiro de maio, o bairro de Educandos celebra com entusiasmo, pois marca o aniversário do estimado jornalista e escritor Cláudio Amazonas. Nascido em Manaus, ele é descendente de uma família tradicional da Cidade Alta, carregando consigo os sobrenomes Rezende, de origem açoriana, e Amazonas, nome que evoca as lendárias índias icamiabas e que também denomina um dos maiores rios do mundo e o maior estado do Brasil.

Cláudio foi laureado duas vezes no Concurso “Prêmio Literários da Cidade de Manaus”, promovido pelo Conselho Municipal de Cultura (Concultura), reconhecido nacionalmente na categoria de jornalismo literário.

Cláudio estudou Biblioteconomia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Amazonas, graduou-se em Teologia pela FATEBOV e iniciou uma pós-graduação em Docência do Ensino Superior.

No serviço público, ocupou cargos como Secretário do Serviço de Loteria do Estado, Assistente Administrativo da Companhia de Eletricidade de Manaus - CEM, chefe do setor de Comunicações, secretário-geral e diretor-administrativo da Celetramazon, entre outros. Foi suplente de Deputado Estadual e diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Amazonas.

Conhecido por seu espírito boêmio desde a juventude, Cláudio cultivou amizades com artistas renomados, tanto nacionais quanto internacionais. Foi grande amigo de Getúlio Dionísio de Castro, a primeira voz do Trio Tropical, que alcançou sucesso com o disco “Adelante” a partir de 1960, e dos integrantes do Trio Cristal, frequentes hóspedes em sua residência em Manaus.

Como músico, Cláudio se destacou individualmente e como membro de um trio formado em 1958, que ganhou notoriedade com a inclusão de Carlos Enrique Gengifo Grandez, o “Kiko”, um dos mais talentosos guitarristas da América do Sul. O Trio Meridional, com Klinger Ferreira Dantas (primeira voz), Roosevelt Rego Lopez (segunda voz e segunda guitarra) e “Kiko” (terceira voz e solista), acompanhou o cantor internacional Pedrito, conhecido como El Ruiseñor del Amor, em uma memorável apresentação na TV Educativa em 23 de março de 1985, alcançando grande sucesso e se apresentando em diversos palcos.

 

Homenagem a Cláudio Amazonas

Nutro um profundo respeito por Cláudio Amazonas e sou eternamente grato pela revisão meticulosa que ele realizou em meu e-book “Igarapé de Manaus”, que será publicado em breve. Sua contribuição foi essencial para aprimorar a obra, garantindo que cada detalhe refletisse a essência da narrativa.

Parabéns, Cláudio Amazonas, pelo seu aniversário e por todas as suas realizações!

sexta-feira, 26 de abril de 2024

SECOS & MOLHADOS

 


CARRÃO DOS SONHOS

José Rocha

Num belo sábado de sol, decidi que era um ótimo dia para exercitar minhas pernas e minha capacidade de sonhar acordado. Lá fui eu, pela Avenida Djalma Batista, quando me deparei com uma concessionária de veículos tão luxuosos que até o ar lá dentro era importado. Resolvi entrar, não para comprar, mas para dar uma de turista em terra de carrão.

Ao entrar, vi um carro tão brilhante que quase precisei de óculos escuros. Era um veículo que só os "Top das Galáxias" poderiam comprar, ou seja, não eu. Um vendedor, todo engomadinho e com um sotaque de paulista do interior, veio ao meu encontro como se eu fosse o "Barão do Bitcoin". Ele sorriu tanto que eu quase pedi para ele me passar o contato do dentista dele.

- Bom dia, senhor! Posso ajudá-lo?

- Oi, quanto custa para dar uma espiadinha? - perguntei, só para ver a cara dele.

- Claro, fique à vontade! Se precisar de algo, estou por aqui. - ele respondeu, já calculando a comissão que não iria ganhar.

- Esse carro é o da minha lista de "coisas para comprar quando eu ganhar na loteria". Quanto custa?

- Ah, esse pequeno milagre da engenharia? Com um desconto especial de cem mil reais, sai por apenas quatrocentos e sessenta e nove mil!

Comecei a fazer as contas em voz alta: meu carro velho vale uns nove mil... Se eu vendesse a alma, talvez conseguisse mais uns sessenta mil emprestado no ‘Banco Tamborete da Praça’, para pagar em sessenta suaves prestações. E os outros quatrocentos mil? Bom, quem sabe na próxima vida eu reencarne como filho do Elon Musk.

- O senhor está brincando, né? - ele perguntou, já sem esperanças.

Antes que eu pudesse responder, ele saiu de fininho, provavelmente pensando em me mandar para Marte com um foguete da SpaceX.

E como diz a escola de samba Mocidade de Padre Miguel:

“Sonhar não custa nada

O meu sonho é tão real.

Estrela de luz

Que me conduz

Estrela que me faz sonhar”

E assim, meu amigo, um carrão daqueles só mesmo no país dos sonhos!

Observação: Texto corrigido pela Inteligência Artificial (IA) e fotografia estilizada gerada pela IA da Microsoft Copilot Bing.


 

ITACOATIARA, A CIDADE DA PEDRA PINTADA

A cidade de Itacoatiara, a terceira mais populosa do Amazonas, com mais de cem mil habitantes, tem um nome indígena devido à descoberta de uma pedra pintada com inscrições em tupi, daí ser conhecida como a Cidade da Pedra Pintada (ita = pedra / coatiara = pintado, gravado, escrito). Anteriormente chamada Serpa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário de Serpa, foi posteriormente renomeada com seu nome original. Localizada a cerca de 267 quilômetros por rodovia (AM-10) de Manaus, faz parte da Região Metropolitana de Manaus.

Tenho um carinho especial por Itacoatiara e já compartilhei muitas fotos antigas e atuais em nosso BLOGDOROCHA, disponível em http://www.jmartinsrocha.blogspot.com/.

Lembro-me da minha primeira visita a essa bela cidade quando tinha cerca de dezenove anos. Na época, trabalhava em uma empresa de importação em Manaus e fiz amizade com o pessoal do setor de câmbio do London Bank, na Rua Guilherme Moreira (atual Top Internacional). Eles estavam organizando uma excursão para passar um final de semana em Itacoatiara, e eu aceitei imediatamente.

Viajei com meu compadre Klinger, conhecido como “Peninha”, um excelente intérprete da música popular brasileira, principalmente do samba-canção, e meu amigo Kleber, um talentoso músico que tocava violão maravilhosamente bem. Formamos um grupo muito unido e aproveitamos ao máximo o final de semana prolongado. Foi uma experiência animada e inesquecível, e guardo com carinho as lembranças da minha primeira vez na cidade, incluindo algumas fotografias tiradas lá e durante nossa passagem pelo Rio Urubu.

Também me lembro da primeira vez que fui ao Festival da Canção de Itacoatiara (FECANI), um evento anual em setembro que descobre novos talentos musicais da região Norte. Fiquei hospedado na casa de um casal amigo, Isaac (ou “Louro”, como é conhecido pelos íntimos) e Nety, que hoje moram em Boa Vista (RR). Tive a oportunidade de conhecer melhor a cidade, visitar diferentes bairros, fazer novas amizades e explorar a vida noturna local. Fiquei fascinado com os prédios antigos, já que tenho um interesse especial por história. Assim como Manaus e Belém, Itacoatiara teve seu auge durante o ciclo da borracha.

Espero que as autoridades municipais, em colaboração com o IPHAN, possam revitalizar o centro histórico da cidade. Imaginem uma Itacoatiara restaurada, com sua beleza única à beira do Rio Amazonas, e seu povo acolhedor. Seria um destino turístico popular durante todo o ano para visitantes nacionais e estrangeiros.

A foto acima mostra a "Praça do Relógio" e uma famosa casa da aviação do início do século passado. Não tenho certeza se a praça ainda existe, pois faz muitos anos que não visito Itacoatiara, mas o casarão antigo ainda está de pé, como pude observar em minhas viagens de barco para Parintins. Estou ansioso para voltar a Itacoatiara, a cidade da pedra pintada, talvez no próximo FECANI.

Feliz Aniversário, Pedra Pintada!

 

CAUSOS DE PESCADOR

Por José Rocha (o pescador mais sortudo – ou não – do pedaço)

Dizem que pescador que é pescador tem mais histórias que peixe na rede, e eu não sou exceção. Minhas pescarias são tão épicas que até o peixe sai da água só pra ouvir melhor.

Numa bela manhã de sol, fui pescar no Careiro da Várzea, mais precisamente no Lago dos Reis – que de rei mesmo só tinha o nome, porque peixe que é bom... bom, vamos ao que interessa. Lá estava eu, sozinho na canoa, quando avistei um Poraquê, o famoso Peixe Elétrico. Ele estava tão parado que parecia estar carregando a bateria.

Cheguei de mansinho, toquei no rabo dele e... nada. "Ué, deve estar desligado", pensei. Tentei a cabeça e também nada. Aí, com a sabedoria de um verdadeiro cientista, peguei na cabeça e no rabo ao mesmo tempo, esperando aquele choque que faria meu cabelo parecer um ouriço. E adivinha? Nada! "Esse peixe tá mais pra lâmpada queimada", concluí.

Coloquei o bicho no banco da canoa e, com uma faca que cortava até pensamento, abri seu bucho. E não é que dentro dele tinha três contas atrasadas da Amazonas Energia? O pobre coitado estava com o fornecimento cortado! Nenhum choque porque o Poraquê estava no escuro, literalmente.

E não para por aí. Outro dia, eu e meu comparsa Pedrão estávamos no mesmo lago. Ele jogou a tarrafa, e ela ficou presa no fundo. "Rocha, a rede tá dançando mais que forró em festa junina", ele disse. "Deve ter um 'Traca' ou um baile deles lá embaixo". Sem pensar duas vezes, mergulhei e... surpresa! Não era um 'Traca', mas sim três 'Jacas' – e não estou falando de frutas, mas de jacarés!

Voltei e gritei: "Pedrão, prepara o tempero que o almoço vai ser crocante!" Puxamos a rede e os jacarés, que mais pareciam bolsas de luxo em potencial, entraram na canoa como se fossem convidados de honra.

E assim, meus amigos, termina mais um causo do José Rocha, o pescador que, se não pega peixe, pelo menos pega boas histórias.

 

FACHADAS DAS CASAS

José Rocha

Um amigo me mostrou uma foto de uma casa antiga e ficou surpreso com a beleza da fachada, perguntando por que não construímos mais assim. Respondi:

- No final do século dezenove e até o final da década de 10 do século vinte, as residências das famílias abastadas e o comércio do centro antigo eram meticulosamente projetados, com uma equipe de profissionais especializados, muitos deles europeus, já que Manaus aspirava ser uma "Paris dos Trópicos". Um exemplo notável é a casa da família Biasi, uma verdadeira joia localizada na Avenida Eduardo Ribeiro. Até a década de sessenta, ainda éramos capazes de construir casas belas, bem elaboradas e com jardins, como a Casa da família do Dr. Arlindo Frota, na Praça do Congresso. Com o tempo, houve uma perda de apreço estético e passaram a ser erguidas apenas estruturas monótonas, como o caso de uma loja próxima ao Ideal Clube. Tudo mudou, para pior, é claro.

*O BRANCO & O ZÉ MUNDÃO DE MANAUS*

*Por José Rocha*

Este relato faz parte do meu livro 'Vila Paraíso', ainda em prelo, que espero um dia publicar.

Meu vizinho Damião, mais conhecido como Branco, partiu para o andar de cima ontem. A tristeza tomou conta dos moradores da Vila Paraíso, pois ele era uma pessoa boa e muito amada por todos. Era alguém que realmente fazia a diferença. Em vez de chorar pela perda do meu amigo, escolhi contar uma história que vivi com o Branco na nossa juventude, uma forma de homenageá-lo com sorrisos, não lágrimas.

"A turma do Zé Mundão, que incluía o Damião Branco, Bola, Bira, Getúlio e Faraó, era o coração do carnaval. Eles eram parte do bloco Unidos da Getúlio Vargas, onde o Zé tentava comandar o espetáculo, mas o Mestre Bola, um negão de puro samba no pé e uma barriga que precedia sua fama, não deixava por menos. 'Zé Mundão, para de bagunçar o samba, senão vou te ensinar a dançar com uns bons sopapos!' Mas o Zé, escorregadio que só, retrucava: 'Tudo bem, mas se eu sair, levo a cerveja do Bira e a turma toda comigo!' Diante dessa ameaça, o Mestre Bola dava uma aliviada.

No dia do desfile na Avenida Eduardo Ribeiro, o Zé só encontrava o ritmo após embalar-se com o conhaque 'Padrinho Acrísio', uma bebida tão potente que fazia o guaraná Baré parecer água.

O Zé e seu Fusquinha '75, apelidado de 'Suado', eram figuras conhecidas nos recantos mais peculiares da cidade, mas só se aventuravam quando o dinheiro permitia, pois o Zé era conhecido por segurar cada centavo.

Numa noite, ele e o Branco decidiram ir ao bordel, mesmo sem um tostão no bolso, mas a sorte lhes sorriu com um achado inesperado: um maço de dinheiro no chão do banheiro do Posto Cinco. Com os bolsos recheados, rumaram para o Piscina Club, onde o Zé se transformou em um seringalista da belle époque, esbanjando cerveja e churrasco como se fosse seu último carnaval.

No bordel, o Zé e o Branco foram cortejados por duas 'donzelas', que logo perceberam que o Zé estava 'armado' financeiramente e começaram a pedir luxos e mimos. Uma delas sugeriu que fossem para a casa dela, prometendo um ambiente mais confortável. E assim fizeram: os quatro embarcaram no 'Suado' e seguiram para a Rua da Cachoeira, no bairro de São Jorge, um local mais tranquilo e abençoado que o altar de uma igreja.

Antes de partirem, o Branco sugeriu ao Zé esconder metade do dinheiro sob o tapete do carro, desconfiados da índole das moças. Num momento de lucidez, o Zé concordou com o conselho do amigo leal.

Ao chegarem, perceberam que a casa era muito pior que os quartos do bordel. Mas o que importava era aproveitar a companhia das moças e gastar o dinheiro que não era deles.

A festa foi interrompida abruptamente quando alguém bateu na porta com força. A 'princesa' do Zé alertou: 'É meu marido, e ele é perigoso! Fujam pelo quintal, peguem o carro e sumam daqui antes que ele os encontre!'

Os dois amigos escaparam por um triz e, ao conferirem os bolsos, perceberam que todo o dinheiro havia desaparecido. Então se lembraram do conselho do Branco: a outra metade do dinheiro estava segura sob o tapete do Fusca. Com os bolsos novamente cheios, eles tinham agora uma história incrível para contar por muitos anos nos bares da Vila Paraíso.

Voltando ao presente, imagino que o Branco esteja rindo lá de cima dessas aventuras que estou compartilhando. Um abraço, meu amigo Branco, e obrigado pelos bons momentos que compartilhamos aqui na Terra. Conte essas histórias aí no céu para os malucos da Vila Paraíso que se foram antes de você, incluindo o Lapinha, Taca, Nascimento, Deusa, Rocha do Violão, Seu Quirino, Dona Baia, Walder, Boa, Mestre Álvaro, Ulisses Doido, Durval, Graça e tantos outros."

quinta-feira, 18 de abril de 2024

FESTART – FESTIVAL DE ARTES INTEGRADAS – AUTAZES 2024

 


Nos dias 19, 20 e 21 de abril, acontecerá um grande evento em Autazes, cidade do interior do Amazonas, com Teatro, Música, Dança, Literatura e Artes Visuais, na Quadra Pe. Tiago Perrault, do colégio GM3, com shows de Ellen Fernandes, Torrinho, Dj Dennys Costa e Artistas Locais, um evento contemplado no edital da Lei Paulo Gustavo 2023.

Segundo o jornalista Evaldo de Souza: “Durante todo o FestArt Autazes, o grande homenageado será o poeta, compositor e músico Flávio de Souza, 94, autor do Hino do município. Flávio de Souza foi escolhido pela curadoria do Festival pelo seu legado artístico e cultural para o Amazonas e para Autazes, tendo ainda construído uma trajetória de sucesso no futebol amazonense. Em 2021, o escritor José Rocha lançou o livro biográfico ‘Flávio de Souza, uma vida feita de futebol e música’.”

Flávio de Souza não poderá ir ao evento, mas nomeou um representante, o jornalista e escritor Evaldo Ferreira, que irá ler uma carta de agradecimento emocionante.

Segundo Mário Fernando, secretário de Turismo de Autazes: “Na cidade de Autazes, temos como atração a Agrofazenda Paiva e o laticínio Autalac, que produzem vários derivados do leite. O nosso cartão-postal é a praça da Cidade onde está localizada a igreja de São Joaquim e Sant’Ana, os padroeiros do município, cuja festa em sua honra acontece em agosto.”

Para chegar lá, os visitantes podem ir de barco, atravessar na balsa no Porto da Ceasa, seguir pela BR-319 até chegar na AM-254, que se estende por 94 quilômetros até o porto da balsa que leva até o porto de Autazes.



sábado, 6 de abril de 2024

*O BRANCO & O ZÉ MUNDÃO DE MANAUS*

 


*Por José Rocha*

 

Este relato faz parte do meu livro 'Vila Paraíso', ainda em prelo, que espero um dia publicar.

Meu vizinho Damião, mais conhecido como Branco, partiu para o andar de cima ontem. A tristeza tomou conta dos moradores da Vila Paraíso, pois ele era uma pessoa boa e muito amada por todos. Era alguém que realmente fazia a diferença. Em vez de chorar pela perda do meu amigo, escolhi contar uma história que vivi com o Branco na nossa juventude, uma forma de homenageá-lo com sorrisos, não lágrimas.

"A turma do Zé Mundão, que incluía o Damião Branco, Bola, Bira, Getúlio e Faraó, era o coração do carnaval. Eles eram parte do bloco Unidos da Getúlio Vargas, onde o Zé tentava comandar o espetáculo, mas o Mestre Bola, um negão de puro samba no pé e uma barriga que precedia sua fama, não deixava por menos. 'Zé Mundão, para de bagunçar o samba, senão vou te ensinar a dançar com uns bons sopapos!' Mas o Zé, escorregadio que só, retrucava: 'Tudo bem, mas se eu sair, levo a cerveja do Bira e a turma toda comigo!' Diante dessa ameaça, o Mestre Bola dava uma aliviada.

No dia do desfile na Avenida Eduardo Ribeiro, o Zé só encontrava o ritmo após embalar-se com o conhaque 'Padrinho Acrísio', uma bebida tão potente que fazia o guaraná Baré parecer água.

O Zé e seu Fusquinha '75, apelidado de 'Suado', eram figuras conhecidas nos recantos mais peculiares da cidade, mas só se aventuravam quando o dinheiro permitia, pois o Zé era conhecido por segurar cada centavo.

Numa noite, ele e o Branco decidiram ir ao bordel, mesmo sem um tostão no bolso, mas a sorte lhes sorriu com um achado inesperado: um maço de dinheiro no chão do banheiro do Posto Cinco. Com os bolsos recheados, rumaram para o Piscina Club, onde o Zé se transformou em um seringalista da Belle époque, esbanjando cerveja e churrasco como se fosse seu último carnaval.

No bordel, o Zé e o Branco foram cortejados por duas 'donzelas', que logo perceberam que o Zé estava 'armado' financeiramente e começaram a pedir luxos e mimos. Uma delas sugeriu que fossem para a casa dela, prometendo um ambiente mais confortável. E assim fizeram: os quatro embarcaram no 'Suado' e seguiram para a Rua da Cachoeira, no bairro de São Jorge, um local mais tranquilo e abençoado que o altar de uma igreja.

Antes de partirem, o Branco sugeriu ao Zé esconder metade do dinheiro sob o tapete do carro, desconfiados da índole das moças. Num momento de lucidez, o Zé concordou com o conselho do amigo leal.

Ao chegarem, perceberam que a casa era muito pior que os quartos do bordel. Mas o que importava era aproveitar a companhia das moças e gastar o dinheiro que não era deles.

A festa foi interrompida abruptamente quando alguém bateu na porta com força. A 'princesa' do Zé alertou: 'É meu marido, e ele é perigoso! Fujam pelo quintal, peguem o carro e sumam daqui antes que ele os encontre!'

Os dois amigos escaparam por um triz e, ao conferirem os bolsos, perceberam que todo o dinheiro havia desaparecido. Então se lembraram do conselho do Branco: a outra metade do dinheiro estava segura sob o tapete do Fusca. Com os bolsos novamente cheios, eles tinham agora uma história incrível para contar por muitos anos nos bares da Vila Paraíso.

Voltando ao presente, imagino que o Branco esteja rindo lá de cima dessas aventuras que estou compartilhando. Um abraço, meu amigo Branco, e obrigado pelos bons momentos que compartilhamos aqui na Terra. Conte essas histórias aí no céu para os malucos da Vila Paraíso que se foram antes de você, incluindo o Lapinha, Taca, Nascimento, Deusa, Rocha do Violão, Seu Quirino, Dona Baia, Walder, Boa, Mestre Álvaro, Ulisses Doido, Durval, Graça e tantos outros."

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Um Lampejo de Inspiração para um Romance Histórico

 Por José Rocha (com ajuda da IA)

Em meio às páginas virtuais do nosso BLOGDOROCHA, narrei eventos que marcaram os corações manauaras em tempos remotos. Com o fluir das horas, decidi mergulhar mais fundo nesse tema, tecendo um texto mais robusto, embasado em relatos de livros, jornais e o burburinho das mídias sociais. O eco desse trabalho reverberou numa página do Facebook, abraçada por uma legião de seguidores, e a acolhida foi calorosa, vibrante. Confesso que me emocionei com as palavras de alguns leitores; o texto pulsava com emoção e, sem dúvida, acariciou a alma dos amazonenses.

E então, um pensamento me assaltou: “Esse episódio de nossa cidade merece ser eternizado em um livro!” Minha mente se pôs em frenesi, imaginando a criação da obra. Diabinhos e anjinhos travaram uma dança em minha consciência, sussurrando palavras para serem escritas. Minha jornada literária se resume a um romance em gestação, uma colaboração com meu irmão mais velho, e nada além. Desde eras passadas, me deleito escrevendo crônicas, esse gênero textual que pinta o cotidiano com pinceladas leves e descontraídas, frequentemente salpicadas de humor e ironia.

Mas aventurar-se na arte do romance? Ah, isso não é para os fracos de espírito. O romance é uma tapeçaria literária tecida em prosa, um mosaico narrativo que desdobra uma história completa, adornada com narrador, enredo, temporalidade, cenário e personagens intricadamente esculpidos. Para um cronista humilde, isso parecia um sonho distante.

Refleti sobre a evolução da escrita: das inscrições em pedra aos papiros, da pena dançando sobre o papel ao ritmo da máquina de escrever, com seus rolos de fita preto e vermelho. Então, as máquinas digitais assumiram o palco, cada inovação brotando da imaginação e dos ensinamentos dos grandes mestres. O tempo avançou, e com ele, a tecnologia. O computador, a impressora e o famoso Word, com seus corretores automáticos, ofereceram novas possibilidades para aprimorar a escrita. Tudo muda, tudo se transforma, mas a chama da criatividade sempre arde, incansável.

E agora, nos encontramos na era da Inteligência Artificial, uma aliada fiel na jornada diária do escritor. Alguns podem lamentar: “A criatividade se esvaiu; o pensamento humano está sendo usurpado pelas máquinas!” Eu discordo. As ferramentas estão aí para serem utilizadas, mas o escritor deve primeiro conceber, redigir e então buscar na IA o auxílio para polir o texto. A resposta da máquina deve ser filtrada pela sensibilidade do autor, pois só a sinergia humana pode conferir alma às palavras.

Inspirado por essa simbiose tecnológica, tive um insight: escrever um romance histórico e romântico, com o suporte das novas ferramentas da inteligência artificial. Iniciei a escrita, solicitando à IA que me guiasse, e fui prontamente atendido. No entanto, procedo com cautela e zelo, pois o livro só tomará forma no papel ou no digital se houver, de minha parte, uma compreensão profunda e intuitiva sobre o tema, como um farol que se acende em minha mente, iluminando o caminho para a solução e o entendimento da obra.

Em suma, a Inteligência Artificial pode ser uma mão amiga, mas é o meu insight que dará vida ao romance, permitindo que um dia ele saia do prelo e alcance o mundo.

Passei horas a escrever, com os meus neurônios fazendo sinapses e queimando de tanto pensar. Depois, pedi para a IA corrigir o meu texto. O resultado foi uma simbiose do que escrevi, fruto do meu pensamento humano, com a inteligência da máquina. E não me arrependo, não!

sábado, 16 de março de 2024

CANAL "MANAUS NA HISTÓRIA" PARTE III - AVENIDA CONSTANTINO NERY

 Por José Rocha

A Avenida Constantino Nery, em Manaus, é uma das principais vias de acesso ao centro da cidade. Com mais de um século de existência, essa antiga via tem uma rica história e passou por várias denominações ao longo do tempo. Seu nome homenageia um governador que desempenhou um papel significativo na sua transformação.

No final do século XIX, essa avenida era conhecida como Estrada de Epaminondas, terminando no bairro de Flores, um lugar distante na época. Nesta região existia a Chácara Pensador, uma propriedade pertencente ao governador Eduardo Ribeiro, hoje, no local, encontramos a UBS Walter Rayol, o Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro e o Hemoam. Uma linha de bonde elétrico chamada “Flores” conectava o centro à Colônia João Alfredo (atual Avenida Djalma Batista), que, por sua vez, marca o início da atual Estrada Torquato Tapajós.

Para permitir a passagem dos bondes dessa linha e dos primeiros automóveis, foi construída a Ponte da Cachoeira Grande (também conhecida tempos depois como Ponte dos Bilhares), inaugurada em 1895 e ainda existente. No entanto, com a duplicação da Avenida Constantino Nery, outra ponte de cimento armado foi construída, embora funcional, essa nova ponte não possui o charme da antiga ponte de ferro.

Antes de ser chamada de Avenida Constantino Nery, essa área era aprazível, com vários igarapés de águas límpidas e cristalinas, além de uma densa mata primária. Era um local ideal para famílias abastadas estabelecerem suas chácaras, pequenas propriedades rurais com hortas, pomares e criação de animais, assim como fez o governador Eduardo Ribeiro.

Curiosamente, a Rua Epaminondas, que passa em frente à sede do Atlético Rio Negro Clube, recebeu esse nome por ser o início da antiga Estrada de Epaminondas, que hoje corresponde à Avenida Constantino Nery.

Essa avenida é um testemunho vivo da evolução da cidade e das mudanças ao longo do tempo, conectando o passado com o presente. Antes de ser oficialmente denominada Avenida Constantino Nery, essa via recebeu mais cinco denominações.

Segundo o saudoso historiador Carlos Zamith, em 28 de dezembro de 1904, o então governador Constantino Nery realizou trabalhos significativos nessa avenida, o que culminou na mudança de nome. Até hoje, uma placa de mármore está afixada em um pequeno obelisco em frente à casa da ex-vereadora Lúcia Antony, parente da mãe de Constantino Nery, Maria Antony Nery, e ao lado do Terminal de Integração T1, no sentido centro-bairro.

O governador Constantino Nery optou por substituir o nome anterior pela sua própria designação, uma prática que, embora proibida atualmente, ainda é adotada por alguns governantes, que colocam o nome de seus pais, parentes e aderentes.

Por pressão política, em 30 de novembro de 1905, o nome da avenida foi alterado para homenagear João Coelho (1852-1926), um militar paraense que também atuou como político, professor e engenheiro em Manaus.

Em 26 de março de 1919, a avenida passou a se chamar Olavo Bilac (1865-1918), em homenagem ao jornalista, cronista, poeta e membro imortal da Academia Brasileira de Letras. Essa mudança ocorreu um ano após a morte de Bilac.

Em 1927, após a morte de Constantino Nery, ocorrida em 1926, a avenida voltou a receber o nome do ex-governador. No entanto, em 1930, houve outra mudança, retornando a Olavo Bilac.

Finalmente, por meio da Lei n.º 295, de 12 de outubro de 1953, a avenida recebeu seu nome definitivo: Avenida Constantino Nery.

Durante muito tempo, os antigos chamavam o trecho entre a Avenida Ramos Ferreira e o Boulevard Amazonas de Rua João Coelho, apesar da mudança oficial ocorrida em 1905. Com o passar do tempo, a Avenida Constantino Nery ficou conhecida pelos manauaras desde o término da Avenida Torquato Tapajós até a Avenida Ramos Ferreira, onde inicia a Rua Epaminondas.

Constantino Nery era irmão do influente Silvério Nery, que dominou a política do Amazonas por várias décadas. Os dois irmãos tramaram para permanecer no poder: Silvério deixou o Senado para concorrer e ganhar o governo do Estado do Amazonas em 1900, enquanto ajudava seu irmão Constantino a se eleger e ocupar sua vaga no Senado Federal.

Naquela época, a Constituição Federal, não permitia que o sucessor do governador (após cumprir todo o seu mandado de seis anos, pois não existia reeleição) fosse um parente próximo (irmão, pai ou mãe), no entanto, Silvério Nery renunciou no tempo certo para que o seu irmão pudesse concorrer para o governo sem ferir a Constituição. O Constantino, por sua vez, renunciou ao Senado Federal e se elegeu governador do Amazonas, para o período de 1904 a 1910.

Sua trajetória deixou marcas na cidade que perduram até hoje, conectando o passado com o presente.

Além de alargar a antiga Estrada de Epaminondas, Constantino Nery construiu a Penitenciária de Manaus (embora atualmente abandonada, essa estrutura testemunha o passado e a visão do governador).

Biblioteca Pública do Amazonas: Um prédio imponente que permanece até hoje, um legado de Constantino Nery. Ela abriga conhecimento, cultura e história, servindo como um farol intelectual para a cidade.

Hospedaria para os italianos em Paricatuba: Onde hoje encontramos as Ruínas de Paricatuba, Constantino Nery criou uma hospedaria para os imigrantes italianos. Esse local testemunhou histórias de esperança, desafios e recomeços.

Parque Amazonense: Constantino Nery também contribuiu para o esporte da cidade, um espaço que conectava as pessoas ligadas às corridas de cavalos e ao futebol de campo.

No entanto, sua paixão por obras e desenvolvimento desequilibrou as contas públicas, e ele ficou conhecido como um “mau pagador”. Desgostoso da vida pública, Constantino Nery entregou os últimos anos de seu governo aos seus assessores. Após o término de seu mandato, ele retornou ao exército, onde se aposentou como General. Sua jornada culminou em 1926, quando faleceu em Belém, cidade onde passou seus últimos anos.

Eu, José Rocha, a minha conexão com a Avenida Constantino Nery é verdadeiramente especial. Ela transcende o concreto e se entrelaça com as minhas memórias, experiências e a própria história da cidade.

Vamos continuar explorando essa jornada:

Colégio Sólon de Lucena: Onde estudei na juventude. O título de Técnico em Contabilidade que conquistei lá era altamente valorizado naquela época. O Ginásio René Monteiro foi palco de muitas disputas esportivas. Bem em frente ficava a toda poderosa fábrica da Coca-Cola e das Bolachas Papaguara, um prédio que resiste até os dias atuais.

Torre de Transmissão da Rádio Difusora do Amazonas: Ao lado do colégio, essa torre era um marco da comunicação. Hoje, ela se transformou no Condomínio Maria da Fé, associado à irmã de Josué Claudio de Souza, conhecida como Fezinha. E quem diria que essa torre testemunharia tantas mudanças!

Lupanar ‘Verônica’ e o Millennium Shopping: As lembranças também incluem o decadente Lupanar Verônica, que agora é o Millennium Shopping. Essa transformação é um reflexo da evolução da cidade.

Chácara da Família Nery: Tive a oportunidade de conhecer a Chácara da Família Nery, hoje esse espaço se transformou em um condomínio de apartamentos da classe média.

Duplicação da Avenida Constantino Nery e Tubos de Gás: Presenciei a expansão dessa avenida e a colocação dos tubos de gás em toda a sua extensão. Além disso, vi o Estádio Vivaldo Lima ser derrubado (lembrando o jogo de 1980 entre Fast Clube e New York Club).

Arena da Amazônia na Copa do Mundo: O privilégio de assistir a um jogo na Arena da Amazônia durante a Copa do Mundo de Futebol é uma memória que ecoa até hoje.

Acompanhando as Transformações: Mesmo com o passar do tempo, continuo acompanhando as mudanças na Avenida Constantino Nery. Viadutos, passagens de nível, centros comerciais, instituições de ensino, novos conjuntos habitacionais e os desfiles no Bumbódromo fazem parte dessa história em constante evolução.

Sonhos Futuros: Pretendo morar num futuro próximo no Condomínio Casa e Jardim, pois poderei ser o próximo capítulo dessa jornada, permitindo que eu permaneça conectado à histórica Constantino Nery e às transformações da cidade.

Observação:

1.      Correção do texto: Inteligência Artificial: Microsoft Bing/Chat GPT/Language Tool;

2.      Fontes: Robério Braga/Durango Duarte/Manaus de Antigamente/Blogdorocha/Wikipedia/Carlos Zamith/

domingo, 10 de março de 2024

CANAL “MANAUS NA HISTÓRIA” - Parte II – Um local chamado Remédios.

 


Por José Rocha

Após várias décadas, retornei à Igreja dos Remédios, onde recebi o batismo.

Meus padrinhos foram amigos de meu pai, e apenas tive contato com o padrinho, dono de uma fábrica de carrocerias de caminhão, próxima ao atual Edifício Garagem.

Embora tenha entrado na igreja três vezes após meu batizado, nunca assisti a uma missa lá.



A construção da Igreja dos Remédios iniciou-se em 1901, sendo conduzida pelo arquiteto italiano Felintho Santoro, exibindo uma beleza notável com escadas de pedras de Lioz (Portugal).

A igreja recebeu esse nome em homenagem à

Nossa Senhora dos Remédios, um título dado à Virgem Maria, mãe de Jesus, na Igreja Católica. Este título está associado à crença de que Maria pode trazer alívio e cura para aqueles que rezam a ela.



Na escadaria lateral da Rua Leovegildo Coelho, residia um mendigo, filho do ex-patrão de meu pai, um homem rico que faliu devido aos jogos de azar (baralho).

Em sua frente, há uma praça, que foi outrora um cemitério.

Ao fundo da praça , pela Rua dos Bares, existia a Casa Alba, onde o meu pai Rocha aprendeu o ofício de Luthier.



Ao lado, notamos a famosa Faculdade de Direito, conhecida como "Jaqueira", agora esquecida e abandonada.

A igreja possui uma bela torre, onde um avião um dia quase causou um grande acidente ao colidir com sua asa.



O Bonde Saudade cruzava por ali, e até recentemente, era possível ver os trilhos pela Rua dos Andradas, agora cobertos pelo novo asfalto.

Nos fundos da igreja, existia uma escola pública e, mais tarde, a Faculdade de Farmácia e Odontologia, agora integradas à igreja.

A região era preferida pela comunidade Sírio-Libanesa, que deixou algumas belas residências, muitas agora abandonadas e descaracterizadas.

A igreja e aquele lugar chamado Remédios são partes de minha história e da história antiga de Manaus.

Fotos: José Rocha

domingo, 3 de março de 2024

CANAL “MANAUS NA HISTÓRIA” - Parte I – Início

 

José Rocha

A cidade de Manaus tem sua origem na construção do Forte de São José da Barra do Rio Negro. O dia 24 de outubro foi escolhido como o aniversário da cidade, pois foi nessa data que a Vila da Barra do Rio Negro foi elevada à categoria de cidade.

De acordo com os historiadores, a fundação de Manaus ocorreu em 1669, com a edificação do Forte de São José do Rio Negro. Em 1832, ela foi elevada à categoria de vila, com o nome de Vila de Manaós. Em 10 de outubro de 1848, passou à categoria de cidade, com o nome Cidade da Barra do Rio Negro, que manteve até 1856, quando voltou a se chamar Cidade de Manaus (04/09/1856). Em 1948, foi erguido um Obelisco no final da Avenida Eduardo Ribeiro, para homenagear o centenário da elevação de Manaus à categoria de cidade.

Por muito tempo, houve uma divergência entre os historiadores e as autoridades públicas sobre a data da fundação da cidade de Manaus, pois alguns consideravam a de 1848 (ano da elevação à categoria de cidade) e outros, a de 1669 (ano da construção do Forte), sendo este último o adotado por todos atualmente e a data de 24 de outubro (da elevação a categoria de cidade).

O Forte, ou Fortaleza, era um nome pomposo para uma construção que deveria ser chamada de Fortim (uma fortificação pequena). O Forte recebeu vários nomes ao longo dos anos, mas foi o marco inicial da cidade de Manaus. A sua função primordial era a proteção dessa parte do Brasil contra a invasão dos holandeses e espanhóis, que estavam sediados nas atuais Guianas, e que contavam com o apoio dos povos indígenas que habitavam essa região milhares de anos antes do ‘descobrimento’ do Brasil pelos portugueses. Estes últimos, por sua vez, escravizaram e mataram os índios como se fossem animais de caça.

Para amenizar as revoltas dos índios que não aceitavam ser escravizados, os portugueses permitiram que os oficiais da armada se casassem com as filhas dos caciques, dando origem ao caboclo (em tupi, procedente do branco), uma miscigenação entre o índio e o branco, pronunciada pelos habitantes como ‘caboco’.

No ano de 1875, o Forte foi abandonado e virou ruína. Existem alguns relatos de que parte do material foi destinado para a construção do Palácio do Governo (atualmente, Paço da Liberdade e Museu da Cidade, na Praça D. Pedro II). Existe uma sala no museu com o piso de vidro onde se veem ao fundo algumas urnas indígenas e alguns pilares de pedra, que podem ser vestígios do Forte, se os relatos forem verdadeiros.

Os administradores do Porto de Manaus cometeram um crime contra o patrimônio público ao destruírem todo um quarteirão conhecido como “Complexo Booth Lines”. Comentou-se que nessa área apareceram vestígios do Forte que o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), com outros órgãos federais, conseguiu embargar a obra. Ordenaram que o local fosse aterrado para evitar a presença de curiosos e a depredação do que restou da nossa memória.

Espera-se que um dia aquela área seja revitalizada e que parte do Forte seja mostrada ao público, caso ainda exista. Afinal, lá é o berço da cidade de Manaus.

Milhares de anos antes do “descobrimento do Brasil” pelos portugueses, já habitavam toda essa imensa região diversas etnias indígenas, entre elas a dos Manau, um povo bravo e guerreiro, que se destacou pelo líder Ajuricaba, que preferiu se suicidar a ser escravizado.

Em homenagem a essa etnia, os habitantes desta terra resolveram dar o nome de Manaus à cidade, escrita antigamente como Manaós, que significa na língua indígena “A mãe dos deuses”. Outra etnia que habitava a maior parte da calha do Rio Negro era a dos Barés. Eles também influenciaram a cultura dos habitantes de Manaus, tanto que até hoje usamos a expressão ‘Leseira Baré’ (para se referir às bobagens que os manauaras falam, por causa do calor intenso que derrete os miolos na capital Manaus) e outros termos pejorativos.

No passado, os manauaras não gostavam de ser chamados de ‘índio’, Baré ou ‘caboco’, pois era considerado um insulto, mas com o tempo foram aceitando a sua origem e miscigenação, tanto que atualmente a maioria dos brasileiros do sul do país começou a respeitar e admirar a nossa origem e cultura. No passado, o gentílico de quem nascia em Manaus era ‘Manauense’, assim como são chamados o paraense, o maranhense, o cearense, etc., pois são formas aportuguesadas. Hoje em dia, a grande maioria que nasce nesta terra prefere ser chamada de ‘Manauara’, pois reconhece que os seus antepassados eram indígenas da tribo Manau.

A cidade de Manaus é repleta de histórias, assuntos para centenas de livros publicados pelos nossos historiadores, além de ter um acervo enorme de fotografias e filmes que continuam disponíveis para as novas gerações, e dos jornais antigos guardados na Biblioteca Pública do Estado do Amazonas. Há também prédios e monumentos que conseguiram sobreviver à fúria destruidora de pessoas insensíveis ao longo desses 355 anos de história da cidade de Manaus.

Esta série, denominada “Canal - Manaus na História”, buscará de forma simples e didática contar um pouco sobre o nosso passado e, também, comentar um pouco sobre a Manaus atual.