segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A TARTARUGADA DOS MANAUARAS




A fotografia acima é da “Folha do Povo”, edição de janeiro de 1950 (digitalizado pela Gerência de Acervos Digitais da SEC), da cidade Manaus, mostrando o quanto era comum o consumo de Tartarugas da Amazônia, um prato típico da Manaus de antigamente, conhecida como “Tartarugada”, e ainda apreciada até hoje por alguns.

O anúncio comercial do “Bar Quitandinha”, um ponto predileto da boemia elegante da Manaus antiga, era aberto dia e noite, onde serviam as “Colossais Tartarugadas”!

Essa iguaria amazônica chamava atenção pelo sabor e variedade de pratos que podia fazer dela: Guisado de Tartaruga – Sarapatel – Picadinho – Farofa no Casco (farinha-d’água assada no casco da tartaruga após a retirada dos ovos, vísceras e carne).

O “Mercado Municipal Adolpho Lisboa”, conhecido carinhosamente pelos manauenses como “Mercadão”, constitui-se num dos mais importantes centros de comercialização de produtos regionais em Manaus, a sua construção iniciou em 1880, sendo inaugurada a parte central em 1883, foram construídos mais dois pavilhões em 1890 (peixe e carne) e, por volta de 1908, foi construído o último, o “Pavilhão das Tartarugas”, um lugar exclusivo para venda de quelônios, permanecendo até 1967, ano em que fora proibido a venda desses animais.

Consta nos registros históricos que o megaempresário J.G. Araújo, proprietário da empresa “Araújo Rosas & CIA”, entre 1892 a 1904, possuía armazéns de fazendas e estivas e teve início o processo de expansão da empresa, principalmente na área de exportação, mandando para os países estrangeiros: Pirarucu, Salsa, Copaíba, Madeira e, pasmem, Banha de Tartaruga!

A tartaruga era tão ligada à cultura dos manauaras que, na “Belle Époque Amazonense” (entre 1880 e 1914) foi construído no cruzamento das ruas Marquês de Santa Cruz e Floriano Peixoto, centro, uma marcante edificação que passou a ser conhecido até hoje como “Edifício Tartaruga”, tombado por lei pelo IPHAN e, quase tombado (caído) por falta de manutenção.

Uma empresária (chef de cozinha) amazonense de origem libanesa foi presa pela Polícia Federal, em 2014, juntamente com o proprietário de um restaurante da Estrada do Turismo e outro situado no Conjunto Manauense, por estar vendendo “Tartarugadas”, de animais capturados na natureza, um crime ambiental, pois somente será permitido consumir tartarugas de viveiros autorizados pela IBAMA.

A prisão desses empresários demonstra como as leis mudaram, porém, o amazonense ainda possui o costume de consumir tartaruga, tracajá e outros quelônios nas festas dos bacanas – para ter uma ideia, enquanto uma tartaruga da natureza não passava de R$ 300, hoje a de cativeiro, média, chega a R$ 1 mil.

Tenho um amigo, conhecido por "Mãozinha", ele é marceneiro de alta qualidade, mas, por um descuido, a serra passou na sua mão direita, cortando três dedos. Certa vez, uma dondoca que mora numa mansão do Conjunto D. Pedro II, fez um pedido de uma porta no estilo colonial - num sábado, ele foi levar a dita cuja, no mesmo instante, passou por lá um sujeito vendendo uma tartaruga grande, estava escondida dentro de uma caixa de papelão.

Não deu outra, a cliente resolveu dar o valor da porta na compra do "bicho de casco", alegando que uns familiares de fora vinham visitá-la e pediram uma "Tartarugada" e ela não poderia perder aquela oportunidade de comprar uma.

Ele argumentou que trabalhou duro e que aquela porta iria durar para a vida inteira, enquanto a "Tartaruga" duraria apenas um final de semana - mesmo assim, ela não voltou atrás!

O “Mãozinha” respirou fundo, quase mandou a madame para aquele lugar, botou a porta no ombro e voltou desolado para casa.

Uma semana depois, o marido da velha ligou, pedindo para ele levar de volta a porta.

Ele falou: - Depois do que a sua esposa me fez passar, o preço da porta colonial agora é igual ao preço de duas Tartarugas grandes!


Os quelônios que enfrentam o desafio de sair da lista de animais em risco de extinção, têm levados muitos fazendeiros a investirem na criação em cativeiro, pois o gosto pelas “Tartarugadas” ainda persiste pelos manauaras mais abastados. É isso ai

Fotos:
Jornal Folha do Povo, janeiro d 1950
Amazonas Rural, Rede Amazonas de Televisão
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