segunda-feira, 1 de agosto de 2011

PASSEIO A VILA DE PARICATUBA

Depois de uma semana estressante, cheia de cobranças por todos os lados, resolvi me isolar numa comunidade chamada “Vila de Paricatuba”, no município de Iranduba, na margem direita do Rio Negro.

Não deu para ir no sábado, pois, ainda tive batalha no trabalho e, algumas pendências para resolver junto aos filhos/casa, além de ter a missão de levar a caboquinha Maria Eduarda (neta) para passear no Amazonas Shopping.

O meu filho mais velho, o Alexandre Soares, quase me faz perder o ônibus do outro lado do rio, sabe como são as coisas: depender da carona dos outros, é muito difícil, mesmo sendo da família! Pois bem, ele me deixou no Terminal Hidroviário de São Raimundo faltando quinze minutos para as nove horas.

A sorte foi que eu entrei numa “voadeira” que saiu em poucos minutos; a travessia foi rápida, deu para curtir a beleza do nosso majestoso Rio Negro. Chegando ao Porto do Cacau Pirêra, pulei do barco e corri até onde o ônibus costuma ficar estacionado. Dancei, cheguei atrasado, já era a minha viagem!

Não me dei por vencido, resolvi perguntar de um taxista o preço para levar até a comunidade, ele cobrou cinquenta reais, fiquei aguardando mais um retardatário para rachar, esperei, esperei e, nada! Ainda tinha outras opções, pegar um ônibus para a sede do Iranduba e, em seguida um moto taxi; resolvi dar um rolé pelas ruas empoeiradas do lugar e, decidir o que fazer.

Para minha surpresa, encontrei o ônibus de Paricatuba dando a partida, ele estava na Estada Manoel Urbano, os responsáveis tinham mudado a parada dos ônibus, sem colocar nenhum aviso para a população, mas, para a minha sorte, ele estava atrasado na saída (isso não é novidade!).

Surpresa maior foi em encontrar dentro do ônibus o filósofo Paulo Mamulengo, o proprietário da casa onde eu iria passar o domingo. Ele falou que fazia um tempão que ele não aparecia por lá, em decorrência de vários trabalhos que está executando em Manaus, aproveitamos para colocar o papo em dia, afinal, somos dois grandes amigos.

O Paulão é um grande gozador, a primeira coisa que ele notou foi o motorista e a cobradora utilizando máscaras protetoras médicas e, foi logo perguntando de supetão: - Vocês estão com tuberculose ou estão com medo de pegar alguma doença dos comunitários de Paricatuba? O motora respondeu: - Não é isso o que o senhor está pensando, utilizamos máscaras por causa da poeira insuportável das estradas de barro que dão acesso as comunidades de Iranduba!

O Paulão pulou da cadeira: - Quer dizer que o EFEDEPÊ do Alfredo, comeu todo o dinheiro do Ministério dos Transportes, deixou todas as estradas bem escrotas, no barro, não vai devolver nenhum centavo para o erário público e, ainda por cima de tudo, terei que cheirar poeira a viagem toda? Sacanagem desse fuleiro!

Para quem não sabe, o Paulão é um grande ambientalista, lutou durante anos para a preservação de Paricatuba, um santuário ecológico que pode desaparecer com a construção da Ponte Manaus-Iranduba.

Ele foi dono de um barco chamado “Consciência”, morou durante anos dentro dele, inclusive, o seu filho mais velho, o Raul Perigo, ao nascer foi morar dentro da embarcação. Optou por esse tipo de moradia como forma de mostrar para a sociedade que ele e a sua família tinham uma “consciência ecológica” e que era possível morar dentro de um barco sem agredir ao meio ambiente.

Fiquei curioso sobre o destino do barco Consciência, ouvi atentamente o filósofo Paulão: - Olha aqui, meu amigo Rochinha, a consciência é um atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo, no entanto, a mãe da consciência chama-se paciência, sem essa, já era a consciência. Durante muitos anos, tive paciência com o “Consciência”, na enchente e na vazante, pintava, fazia remendos, consertava o motor, revés, et cetera e tal; de madrugada mesmo que estivesse dando uma lenhada na nega velha, qualquer sinal de temporal, corria na chuva para amarrar o barco para não afundar – ultimamente, perdi a paciência com o “Consciência” - moral da história: vendi o casco do barco para um pescador, em troca, comprei um “canoão” com um motor de rabeta, o seu nome é “Impaciente”! Cruz, credo, sai prá lá filósofo doido!



Papo vai, papo vem, chegamos à comunidade, paramos numa mercearia para comprar alguns mantimentos para o vigia da casa e, cerveja para os pobres mortais, é claro! Parte das compras foi paga no dinheiro, outra, o Paulão mandou colocar “no prego” (fiado sem juros), um costume das pequenas comunidades, pois, nos grandes centros é utilizado o cartão de crédito (fiado com juros).

A casa estava um pouco abandonada -, o vigia é conhecido como “Arigó”, um fonfom da melhor qualidade, o cara é chegada a uma água-benta (pinga) que não é moleza! Um grande apreciador da “Caninha 51 veludo no gogó”. O outro vigia, o famoso “Cocota”, está de férias em Manaus, com previsão de retorno somente em Outubro. Três cachorros pulguentos e famintos faziam companhia ao Arigó, fiquei com pena dos animais, comprei algumas latas de carne de desfiar e amenizei um pouco a fome dos cães.

Visitamos os comunitários, fiquei triste ao saber do falecimento do “Todinho”, o dono do único restaurante do lugar. Visitamos o atalier do Paulão, ele faz bonecos para o carnaval da Bica (Bar do Armando) e para a Secretaria de Cultura do Amazonas, depois, fomos tomar banho no Lago de Paricatuba, um lugar exuberante que está com os dias contados, pois o progresso está chegando e com ele vem a destruição.

Fomos “matar a broca” no “Restaurante do Todinho”, a sua filha mais nova está tomando conta do negócio – a pedida foi “Tambaqui Frito”, uma delícia, pois o peixe é comprado diretamente dos pescadores (“na baba”, como diz o caboclo), pedimos para embalar todas as sobras, levamos para os três cães e dois gatos que moram por hora na casa do Paulão.

O ônibus atrasou novamente (não é mais novidade!), pegamos a estrada de poeira, são dez quilômetros de sofrimento, mesmo assim, o Paulão deu alguns cochilos – chegamos ao porto e pegamos um barco “a jato” até o Porto de Manaus (Rodoway).

Cada um foi para o seu lado, o Paulão pegou um ônibus para a sua casa, no bairro do Aleixo e, eu fui direto para o Bar Caldeira, bebericar, ouvir uma boa música e conversar potoca com os amigos até ser expulso pela Dona Maria (a proprietária).

O Rio Negro está em plena vazante, daqui a uns quarenta e cinco dias teremos praia a vontade, vale a pena visitar e curtir um passeio a Vila de Paricatuba! É isso ai.

Fotos: J. Martins Rocha
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