sábado, 26 de setembro de 2015

FLUTUANTES – ONTEM E HOJE


Nasci na Santa Casa de Misericórdia, o meu primeiro lar foi um flutuante (casa de madeira apoiada em enormes toras, próprias para flutuar na água), no igarapé de Manaus, onde passei parte da minha infância e carrego boas recordações daquele tempo bom – atualmente, os flutuantes estão restritos a “pontões” (posto de gasolina) e locais de lazer e prática de esportes.

O local onde morei era um braço do rio - parte de um conglomerado de residências, conhecido por Cidade Flutuante (com a maior concentração de casas situada detrás da Rua Barão de São Domingos). O processo de ocupação do leito do rio foi iniciado quando do declínio do fausto da borracha, que ocasionou a falência dos seringalistas, e levou uma multidão de seringueiros a ficarem sem eira nem beira.

Não tendo onde morar, a solução inicial foi a construção de casas sobre as águas da orla do rio Negro e, claramente, pelos igarapés que cortavam a cidade de Manaus. As habitações construídas sobre troncos submergíveis, tornando-as assim flutuantes, possuíam os assoalhos e os cômodos de madeira, tendo a cobertura, em grande maioria, feita de palha.

O sufoco era total, pois tinham que recorrer às lamparinas, candeeiros e lampiões para iluminação dos cômodos - um martírio, pois não podiam usar nenhum aparelho eletrodoméstico em casa. O café era torrado e pilado dentro da habitação e fervido num fogareiro à lenha; as roupas eram passadas com ferro de engomar a carvão e a comida era cozida num fogão a lenha, com tudo manual, típico de uma casa de ribeirinhos da Amazônia.

Na vazante, a família levava alguns meses para limpar toda a área externa, pois ficavam muito lixo espalhado pelo chão, como garrafas de vidro quebradas, latas enferrujadas, tábuas com pregos etc., por isso, o eu vivia sempre com cortes nos pés e muitas feridas pelo corpo.

Os banhos eram feitos em cacimbas ou camburões de metal, com água de beber sendo filtrada em potes, bilhas e filtros de barro. Existia uma grande vantagem: caso o caboco tivesse algum problema sério com o vizinho, bastava pegar o machado e cortar a corda principal que amarrava o flutuante à beira rio, ou colocar uma amarra num barco regional, pedir para ser puxado e mudar-se para o outro lado do rio. Como a minha família era benquista por todos os vizinhos, nunca precisamos sair do local onde morava.

Durante a enchente, o balneário ficava a altura da janela do nosso flutuante, bastava pular dentro do rio e tomar banho nas águas refrescantes, pois ainda não havia poluição em demasia, apesar dos moradores despejarem dejetos de privadas diretamente no igarapé.

Os barcos regionais ancoravam no flutuante, oferecendo a preço acessível peixe, leite, queijo, farinha e outros produtos regionais, além de tábuas e palhas para a manutenção da casa. O flutuante servia de base para muitos pescadores amadores e banhistas - alguns achavam que aquilo era um cancro, uma vergonha para os habitantes da terra firme, mas foi exatamente ali que passei de forma muito feliz a minha infância.

Atualmente, os flutuantes instalados na região do Tarumã, na orla de Manaus, servem de restaurantes, bares, para curtir o Rio Negro e prática de esportes, principalmente do Stand Up Paddle (SUP), uma modalidade similar ao surf, onde o praticante utiliza um remo.

Segundo dados da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental, existem 94 flutuantes cadastrados, sendo 61 deles de postos de gasolina (pontoes) – todos eles devem obedecer às normas de segurança e ao cumprimento das legislações ambientais.

Os proprietários dos flutuantes-restaurantes procuram convencer os clientes a não jogarem lixos no rio; fazem coleta seletiva, aproveitamento do óleo de cozinha, para o fabrico de sabões, além do tratamento de esgotos, filtrando a água dos banheiros através de biodigestores, com a tecnologia ultravioleta para a eliminação de bactérias.

Os flutuantes mais procurados são os seguintes: Peixe-Boi, Abaré, Da Tia, Sedutor e Vitória Régia, no Tarumã e, Flutuante do Leão, no Puraquequara - existem outros tantos, mas, diferentemente da minha infância, a preocupação ambiental é muito forte, pois a fiscalização é severa.

Nos que moramos em Manaus, temos o privilegio de ter um imenso e bonito rio passando no quintal das nossas casas, o majestoso Rio Negro – essa relação com o rio e a natureza sempre foi um constante - curtir muito os flutuantes de outrora, hoje, quem se deleita são os meus filhos e, no futuro, serão os meus netos. É isso ai.

Fontes:
Zé Mundão (projeto de um livro)

Jornal Diário do Amazonas, edição de 20 de Setembro de 2015.
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