terça-feira, 25 de março de 2014

O MOTIM DOS GYMNASIANANOS


A Revolução Gymnasiana de 1930, também chamada de “Motim Gymnasiano” e “Agostada Gymnasiana”, teve como figura principal o jovem Mário Ypiranga Monteiro, considerado como “o líder espiritual da Revolução Estudantil”.

O colégio onde ocorreu essa marcante e histórica atuação, recebeu diversas denominações ao longo dos anos: Lyceu Provincial, Gymnasio Amazonense, Gymnasio Amazonense Dom Pedro II (1925, em homenagem ao último Imperador do Brasil), Gymnasio Amazonense (1938), Colégio Estadual do Amazonas (1943), Unidade Educacional Colégio Estadual do Amazonas (1971),Colégio Estadual Dom Pedro II (1975), Escola de 1º. e 2º. Grau Dom Pedro II (1980) e Colégio Amazonense Dom Pedro II (1982).

Inicialmente, o Mário Ypiranga entrou na qualidade de Piolho ou Carrapato de Bicho (Ouvinte), em 1925, depois, passou por todos os anos, assim apelidado pelos gymnasianos: Bicho – 1º. Ano; Bicho Pipoca – 2º. Ano; Merda de Veterano – 3º. Ano; Veterano de Merda – 4º. Ano e Veterano – 5º. ano – concluindo o curso em 1930.

Era um aspirante a intelectual do seu tempo, reunindo as qualidades para ingressar no campo político, no entanto, ao fazer parte ativa nesse movimento político-estudantil demonstrou revolta ou incompreensão sobre o campo político – começou a depositar em sua alma a odiosidade contra os ladrões do erário público, o que o levou a optar mais tarde, definitivamente, pela carreira intelectual.

No dia 11 de agosto de 1930, foi realizada uma passeata de repúdio contra o assassinato, ocorrido em 26 de julho, do presidente da Paraíba, João Pessoa, candidato a vice-presidência da República, na chapa de Getúlio Vargas, pela Aliança Liberal.O movimento tinha fins políticos e, por trás dos gymnasianos estavam os dirigentes da AL, o Dr. Souza Brasil e Hemetério Cabrinha, que iriam discursar no comício.

O evento foi autorizado pela Chefatura de Polícia, o Dr. Martins Palhano, para ser realizado na Praça da Saudade e, momentos antes do início, foram impedidos, cercados pelo “piquete da cavalaria” de guardas e agentes da Policia Civil, tendo sido presos alguns estudantes por “distúrbios e resistência”, pelo Delegado João Cruz Camarão, autoridade policial da época.

No dia seguinte, 12 de agosto, os gymnasianos intencionaram realizar mais uma manifestação, com o objetivo de fazer um “enterro simbólico” do chefe da polícia – apesar do sigilo, um delator avisou a polícia sobre a pretensão dos estudantes – o “point” deles era “A Sereia”, um estabelecimento que vendia chocolate com creme, doces, sanduíches, sorvetes, caldo de cana, refrescos, bebidas nacionais e estrangeiras, leite, cigarros e charutos - ficava na esquina da Rua Rui Barbosa com a Avenida Sete de Setembro.

O local foi cercado por alguns policiais, onde foi encontrado um caixão e dentro dele um urubu, simbolizando a “alma do delegado” - a manifestação acabou não se realizando, entrando novamente os estudantes em choque com a polícia, sendo presos e recolhidos ao xadrez os jovens Mário Ypiranga Monteiro, Francisco Paes Barreto da Silva e Francisco Benfica, onde permaneceram até às 21 horas, sendo soltos graças a um ultimatum enviado pelo Exército à Polícia.

Os outros correram e conseguiram se abrigar dentro do Gymnasio Amazonense, fechando os portões da frente - ao verem os guardas de revolveres em punho e tentando invadir o colégio, os alunos que estavam amotinados arrebentaram a “Arrecadação”, uma dependência que ficava atrás da Portaria, onde havia oito cabides para fuzis, modelo brasileiro 1908, alguns descalibrados, dez caixotes de balas de aço pontiagudas nos respectivos pentes e alguns cunhetes de festim. 

Trocaram tiros, mas, segundo relatos do Gymnasianos, eles utilizaram apenas as balas de festim, por outro lado, os guardas civis mandaram balas de verdade, inclusive, ficou a porta principal cheia de marcas dos projéteis – houve apenas uma morte, foi de uma professora da Escola Normal (ficava no andar de cima do Colégio), ela veio a falecer em decorrência de uma queda. 

O Gymnasio Amazonense era regido por um estatuto aos moldes do Colégio Militar D. Pedro II, do Rio de Janeiro. Os estudantes-reservistas recebiam treinamento militar, com rigoroso exame de tiro real, aprendia a manejar o fuzil e a metralhadora, treinavam para saberem montar e desmontar de forma rápida as armas automáticas, possuindo obrigações tão importantes como as de um soldado regular.

Apesar da rigidez do colégio, os estudantes usavam a farda praticamente em todos os lugares e ocasiões - onde eram respeitados pelos homens e admirados pelas mulheres - aproveitavam para fazerem “arruaças” em bares, praças, ruas e até em barcos que ficavam ancorados no Rodoway. Batiam forte contra aqueles que contrariavam em seus desejos e objetivos. Andavam de bondes na linha Flores, para tomarem banhos no Bosque Municipal e, se recusavam a pagar a passagem e ainda insultavam os cobradores - quando foram impedidos pela empresa Manáos Tramways, começaram a colocar pedras, sebos e vidros nos trilhos, com o propósito de descarrilar os carros. Os Gymnasianos eram “Phoda”!

Esse movimento de 12 de agosto de 1930 foi um símbolo de resistência e do protesto de estudantes e professores contra a arbitrariedade e o abuso de poder, culminando com o envolvimento do Exército e a rendição da Polícia e a deposição do governador Dorval Porto. Esses mesmos jovens escoltaram o governador do Palácio até as dependências do Grande Hotel, onde ficaram hospedados – foi um momento de glória para os estudantes Gymnasianos.

Passados mais de meio século do ocorrido, o Mário Ypiranga escreveu o livro “Mocidade Viril 1930: O Motim Ginasiano”, buscando em suas memórias e registrando para a posterioridade detalhes daquele movimento em que foi parte ativa.


Fonte: trabalho de Dissertação da Elissandra Chaves Lima, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em História da UFAM
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