segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O NOSSO FRANCÊS DE CADA DIA


Êpa, para ai! Não é o que vocês estão pensando! Estou me referindo ao pão, consumido todo dia, sendo o tipo francês a preferência dos brasileiros e, esse alimento diário, não possui outro que o substitua – pode inventar tapioca, cuscuz, bolachas, biscoitos e o que o caboco quiser, sem o nosso pão francês não dá para passar sem ele.
Existe uma infinidade de pães, sendo os mais conhecidos o árabe, de forma, de alho, integral, de queijo, de centeio, doce e de milho. Mas, por que o “pão francês” vingou? Tudo remete a cultura dos brasileiros em sempre valorizar e gostar do que vem de fora.
É isso mesmo, tudo começou no início do século XX quando os brasileiros da próspera burguesia voltavam de temporada de estudos em Paris e, pediam para reproduzir a receita do pão de lá, com o miolo branco e casca dourada, um precursor do baguete - naquele tempo, o mais consumido no Brasil era o do tipo italiano, com miolo e casca escuros.
Na realidade, surgiu na terra tupiniquim o “pão francês brasileiro”, diferente um pouco do europeu, levando um pouco mais de açúcar e gordura em sua composição, recebendo vários apelidos pelo Brasil afora: pãozinho (São Paulo), pão massa grosa (Maranhão), cacetinho (Rio Grande do Sul e Bahia), pão careca (Pará), média (Baixada Santista), pão Jacó (Sergipe), pão aguado (Paraíba), pão carioquinha (Ceará).
Aqui, em Manaus, não possui apelido - sendo o pão de “meio quilo” dominado por muito tempo, depois, foi substituído pelo baquete e, finalmente, pelo nosso “pão francês” de todos os dias.
Falar em pão de antigamente, vem logo à lembrança os portugueses e as padarias - esses estabelecimentos da nossa antiga Manaus, sem exceção, eram tocados por lusitanos e seus descendentes - sabemos que o termo vem do latim “pada = panata, de pane, pão pequeno” e “aria = atividade de”, ou seja, local em que se dedicavam a fabricar e vender pães, bolachas e biscoitos.

O periódico “Amazônia Jornal”, um bi mensário de propriedade do Sr. Raimundo Nonato Garcia Filho, tinha como redator o Sr. David J. Israel e, na sua edição de 9 de Fevereiro de 1948, mostra o comercial de todas as padarias que existiam naquela época.
As padarias eram as seguintes:

Fábrica Victoria – de Loyo & Cruz – situada a Avenida Eduardo Ribeira, 490 canto com a Rua Saldanha Marinho – “Neste estabelecimento tem sempre pão de todas as qualidades, biscoitos finos, bolachas e mais artigos próprios desse ramo de negócio, pelos melhores preços do mercado”;
Fábrica Francfort – de Marques Matias & Ca. Ltda. – situada a Avenida Joaquim Nabuco, 732 – “Panificação a Vapor e Biscoitaria/Fábrica de Massas e Torrefação de Café”;

Padaria Amazonense – de Simões & Cia. – situada a Rua Marques de Santa Cruz, 271 – “Com Amassadeira mecânica movida à eletricidade – Panificação e Estivas/Fábrica de massas Alimentícias – Doces de chocolates e seco/Bolachas de Leite, Água e Sal/Café moído e artigos de mercearia”;

Fábrica Brasil – de Simões & Cia. – situada a Rua Barão de São Domingos, 61, - “Panificação e Biscoitaria/Moagem de trigo, arroz e outros cereais pelo sistema europeu/Doces de chocolate/Bolacha Maria e Água e Sal/Rosca comum e a Barão”;

Fábrica Portuense – de Lopes, Santos & Esteves – situada a Avenida Joaquim Nabuco, 424 – “Pão, Bolachas, Biscoitos e Massas Alimentícias”;

Fábrica Aurora – de Pinho Couto & Arteiro – situada a Rua dos Andradas, 62 – “Panificação, Massas Alimentícias e Torração de Café”;

Fábrica Modelo – de J. Barbosa Grosso – situada a Avenida Joaquim Nabuco, 554 e José Paranaguá, 345 – “Mercearia, Padaria e Confeitaria - Estivas por grosso e a retalho, fabricação e depósito de roscas e bolachas para o interior e aviamentos, especialista em pães e massas alimentícias”;

Fábrica Progresso – de Nogueira Irmãos & Cia. Ltda. – situada a Rua da Instalação, 121 – “Fabricação de massas alimentícias extrafinas, biscoitos, torrefação de café e refinação de açúcar, artigos de mercearia, chocolates e bombons finos, importação direta”.

Desde aquela época, já havia uma preocupação muito grande com o custo das matérias-primas, principalmente do trigo, com os panificadores sempre solicitando juntos aos poderes públicos uma majoração no quilo do pão (preço tabelado), apesar da gritaria dos consumidores.

Das citadas, apenas a Padaria Modelo continua operando - os descendentes dos donos da Padaria Amazonense e Fábrica Brasil construíram um império chamado “Grupo Simões”, com vários segmentos, mas, nada voltado para as padarias dos seus ancestrais.

Na minha infância, tive a oportunidade de comprar pães e bolachas nas padarias Francfort e Modelo e, na adolescência, na Pátria e Mimi – atualmente, existem mais de mil padarias em Manaus, eles vendem de tudo, são lanchonetes e, até restaurantes, com uma variedade enorme de pães, mas, todos com produtos químicos prejudiciais a nossa saúde e, nada mais lembra os portugueses e das antigas padarias de Manaus.

Voltando ao presente - existe uma portaria do INMETRO, determinando, desde o ano de 2006 que, o pão francês deve ser vendido no território brasileiro somente por peso, com o preço liberado, variando em Manaus, de cinco a onze e cinqüenta reais o quilo, uma diferença de até 140%, mesmo sendo desonerado e livre do pagamento de impostos federais, pois faz parte da “Cesta Básica”, conforme determinação da Presidente Dilma Rousseff, em 08/03/2013.

Não faz parte da cultura dos brasileiros em acompanhar os preços dos produtos que consumem, mas, no caso particular do pão francês, fiz uma pesquisa e, encontrei no bairro onde moro, o quilo sendo vendido a R$ 5,50, enquanto numa famosa padaria da Avenida Joaquim Nabuco (próximo ao antigo Cine Popular), ele é vendido a R$ 10,00, quase o dobro do valor - além do mais, a padaria dos bacanas perde em sabor, consistência e tudo o mais da localizada na Cidade Nova II. É isso ai.
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