sexta-feira, 1 de abril de 2016

O DESAPARECIMENTO DOS BONDES E O SURGIMENTO DOS PRIMEIROS ÔNIBUS EM MANAUS


Os bondes elétricos prestaram um grande serviço à mobilidade urbana em nossa cidade, porém, com o inicio da Segunda Guerra Mundial, os ingleses que administravam a geração de energia elétrica e os bondes, começaram a ter problemas para atender a contento a população, o que motivou o seu declínio e o surgimento dos primeiros ônibus para suprir essa lacuna.

Com o início da guerra (1939), os ingleses tiveram muitas dificuldades em importar peças de reposição para os bondes e para as subestações de geração de energia elétrica, ocasionando apagões prolongados na cidade e deixando parados alguns bondes, revoltando a população.

Os bondes que sempre foram bem limpos, reluzentes e conservados, porém, na década de quarenta começaram a aparecer com os bancos quebrados e rasgados, sendo abandonados aos poucos pelos ingleses – eles alegavam que estavam tendo prejuízos financeiros, não sendo possível conservá-los e, muito menos, adquirir novos elétricos.

A população começou a se revoltar com essa precariedade, inclusive provocaram o incêndio de um deles.

Diante de tantos problemas nesse sistema de transporte, em 1951, o governo do estado resolveu encampar a companhia inglesa, por iniciativa do governador Álvaro Maia, provocando uma grande indignação por parte deles, vindo diretamente da Inglaterra até Manaus o Mr. Booth, dono da empresa Manaos Tramways, com o intuito de reverter a situação, não sendo aceito os seus argumentos.

O governo do estado não fez os investimentos necessários para a revitalização dos bondes, bem como, demonstrou um péssimo gerenciamento do sistema, sendo obrigado a desativar, em definitivo, a circulação dos bondes em Manaus.
Os bondes ainda serviram por um bom tempo para transporte de cargas para a sub-usina da Cachoeirinha (no final da Sete de Setembro, atual Eletrobras Manaus Energia).

O governador Plinio Coelho (PTB) em campanha política para o governo prometeu a volta dos bondes, no entanto, conseguiu apenas reativar uma linha, em 1957, sendo desativada em seguida.

Lamentamos, profundamente, pela falta de sensibilidade dos governantes em não manterem para as novas gerações de manauaras, pelo menos uma linha regular de bondes elétricos – como escreveu Jefferson Péres “A fim de preservar algo inseparável da memória da cidade” - algumas cidades brasileiras assim o fizeram, constituindo motivo de orgulho e respeito aos seus antepassados, além de servir como fonte de divisas com o turismo – a exemplo dos bondinhos de Santa Tereza, no Rio de Janeiro.

Em 1940, surgiram alguns ônibus de madeira não oficiais (piratas) para suprir, em parte, a deficiência de transporte público dos bondes elétricos – eram apelidados pelos manauaras como “Pirata”, “Perna- de-Pau” e “Periquito da Madame”, uma alusão as marchinhas de carnaval da época.

Esses ônibus foram comprados pelos ingleses, para abafar a concorrência e, posteriormente, deixados ao relento até apodrecerem.

Nesse mesmo ano, os automóveis de luxo começaram a circular em Manaus, eram de chapa brancas (do governo), de aluguel (pertenciam às garagens Avenida e Esportiva) ou de particulares (classe alta) – eram importados dos Estados Unidos, da marca Ford, Chevrolet, Buick, Packard, Studebaken e Cadillac, além dos ingleses Austin e Standard (acessíveis à classe média).

Na primeira fotografia antiga, na esquina das avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro, aparecem um bonde e um ônibus, além de carros estacionados no primeiro plano (possivelmente um Austin e um Studebaker) e vários deles bem meio da avenida (provavelmente são de aluguel da Garagem Avenida).

Depois, surgiram novas empresas de ônibus, pois esse sistema de transporte popular caiu no gosto dos usuários, devido serem mais espaçosos, atendendo linhas onde os bondes não passavam e, não tinham problemas com falta de energia (que deixavam os bondes parados), além de serem mais baratos.

Atendiam, inicialmente, os bairros de Cachoeirinha e Educandos, posteriormente, para os demais bairros, onde houvesse ruas que lhes possibilitasse a circulação.

Os primeiros ônibus tinham a carroçaria em base de madeira, com cobertura de zinco, montados em chassi de caminhão – eram montados artesanalmente na Rua Wapés, no bairro da Cachoeirinha – tinham os nomes de Progresso, Brasil, Radiant, Monte Ararate, Torino, Girassol, Santa Helena, dentre outros.

Os ônibus entraram para valer com o fim da circulação dos bondes, ocorridano final da década de quarenta.


Em 1957, foi criado no governo do Plinio Coelho, a “Sociedade de Economia Mista Transportamazon” (não oficializada e desativada na década de 60), com a compra inicial de 10 ônibus e mais 15 veículos no ano seguinte.




A empresa “Viação Sul Americana”, sediada na cidade de Belém (PA) começou a fabricar um tipo de ônibus muito estranho, pois tinha um formato do dirigível “Zeppelin” – eles circularam naquela cidade e, também em Manaus – a carroceria era de madeira, ferro e flandres, pintados externamente na cor de alumínio, com o interior forrado em couro e os bancos acolchoados.

Alguns veículos tipo Kombi, da Volkswagen, foram transformados em lotação, sendo chamados pelos manauaras de “Expresso”.

Os ônibus de madeira que ficaram na história da cidade, foram os pertencentes à empresa “Ana Cássia”, de propriedade do empresário Cirilo Anunciação, conhecido pela alcunha de “Batará” –tinha a maior frota de veículos, além de provocarem o maior número de acidentes.

Os primeiros ônibus de ferro a circular na cidade vieram da fábrica “Marcopolo”, em São Paulo – aqui receberam o nome de “Hilariante”, apelidado pela rapaziada por “Rabo Quente”, em decorrência do superaquecimento da parte traseira (descarga vertical), impossibilitando aos mais afoitos a pratica de “morcegar” (carona sem pagar).

Apesar de todo o progresso dos dias atuais, com milhares de ônibus e outros veículos circulando pela cidade, os saudosistas ainda desejam alcançar um dia, a volta dos bondinhos elétricos na área história da nossa Manaus. É isso ai.

Fonte:
Blog:
Livros:
Manaus 1920-1967 A Cidade do Céu e Dura em Excesso. José Aldemir de Oliveira
Evocação de Manaus: como eu a vi ou sonhei. Jefferson Péres

Manaus, amor e memória. Thiago de Mello
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