sábado, 23 de abril de 2016

FIGURAS DOS CINEMAS DE MANAUS


Como tive o privilégio de viver a cidade de Manaus quando terminava no Boulevard Álvaro Maia e, por gostar do passado da minha cidade, irei escrever, de uma forma bem resumida, sobre algumas pessoas ou lugares daquele tempo bom, com o tema figuras dos cinemas.

Dona Yayá

Dona era um termo muito utilizado para substituir “Senhora” e, Yayá, um tratamento dado na época da escravidão para as meninas e moças.

A Dona Yayá era uma “senhora moça”, ou seja, uma mulher não muito jovem que gostavam de usar maquiagem em excesso para parecer mais nova. Na realidade, essa senhora foi uma guerreira, esposa de um empresário do ramo de salas de exibição cinematográficas, em Manaus, na qual permanecia em todas as sessões, sem exceção, fizesse sol ou chuva,na entrada do Cinema Avenida (atual Lojas Bemol), na Avenida Eduardo Ribeiro.

Ficava sentada em uma poltrona de palinha,no hall de entrada e, na maioria das vezes, encostada num gradil próximo a catraca, observando a tudo e a todos– vez e outra tentava seduzir um transeunte a assistir uma película cinematográfica:

- Entre, o filme é ótimo! É colorido!

O que mais chamava a atenção de todos era a sua indumentária, um tanto extravagante para a época e, com o seu perfume francês e a sua postura de madama da alta sociedade - sempre estava com um abano em suas mãos e, pela utilização, em excesso, de maquiagem, abusando no batom e ruge na cor arroxeada, cabelos pretos longos, com os cílios pintados e as sobrancelhas bem fininhas.

Na minha adolescência, dificilmente entrava no Cine Avenida, mas, passava por lá todos os domingos à tarde, pois gostava de perambular pela enigmática e bonita Avenida Eduardo Ribeiro – parava por uns instantes para admirar os cartazes dos filmes e, ficava olhando para aquela senhora extravagante, parecida com a Mortícia, personagem da “Família Addams” – sem imaginar que um dia, quase meio século depois, iria escrever sobre ela e aquele ambiente maravilhoso.

Peixeiro do Juizado de Menores

Ele ficava na portaria dos cinemas Guarany e Polythema, vestido impecavelmente com camisa comprida, calça na goma, cinturão e sapatos brancos, chapéu tipo Panamá, além de um colete preto com letras garrafais escrito nas costas “JUIZADO DE MENORES” – não permitindo a entrada de menores para assistirem a filmes proibidos para a sua idade.

Fora esse nobre trabalho vespertino e noturno, passava todas as manhãs pela Rua Igarapé de Manaus e adjacências com um tabuleiro de peixes na cabeça, exercendo um brioso “bico”, chamando a atenção com o seu estrondoso grito:

- Peeeiiixeeeiiirrro!Tenho Tambaqui, Sardinha e Pacu na baaabbbaaa!

Ele era um senhor da cor branca, careca, estatura mediana e bastante forte - não me lembro do seu nome, acho porque a molecada, incluindo o escriba aqui –não gostava nem um pouco dele, pois tratava a todos com muita grosseria na entrada dos cinemas.

Ele detestava ser chamado de “Peixeiro” quando estava exercendo a sua autoridade de censor, pois se achava o máximo do judiciário – era exatamente o momento de dar o troco no cabocão - que adorava barrar os menores, sedentos em assistir a cenas mais picantes.
Tomavam certa distância e, gritavam:
 - Peeeiiixeeeiiirrro! – acompanhado de um palavrão. 

O cara ficava babando de raiva, respondendo com outro palavrão, saindo em disparada atrás da molecada, sem chance de pegar algum!

Faz alguns anos avistei um cara parecido com o “Peixeiro do Juizado de Menores” dentro de um ônibus – estava com a mesma roupa branca e um colete do juizado de menores -juro que viajei no tempo pretérito e, deu uma vontade danada de gritar:

- Peeeiiixeeeiiirrro!

Fiquei apenas rindo e lembrando aqueles tempos bons!

O Lanterninha Farias

Quando iniciava uma sessão de cinema, o interior ficava numa escuridão total, entrando em ação o Farias, o Lanternina do Cine Guarany – ajudando assentar as pessoas que chegavam atrasadas, pois com a sua lanterninha sabia perfeitamente onde existiam cadeiras vazias.

Ele era um cara que tinha uma grande cabeleira, tirando a todo instante do bolso um pente da marca “Flamengo” para penteá-la – usava sempre um enorme óculo de sol, acho que se inspirava em algum ator de cinema das antigas – além de ter um vozeirão daqueles e falava pelos cotovelos – parecia com aquele comediante famoso, o “Zé Bonitinho”.

Tinha também outras funções, como apaziguador de brigas e insultos entre a molecada, principalmente dos “maus elementos” que ficavam num mezanino conhecido como “Poleiro”, pois gostavam de jogar tudo o que tivesse em suas mãos no pessoal que ficava embaixo, alguns deles até cuspiam na maior – quando eram pegos pelo bedel Farias, eram expulsos do cinema.

O cinema era frequentado por um grupo especial formado pelo Jeremias, Mococa e outros rapazes alegres, que davam em cima da molecada – o Farias sempre ficava de olho nessa turma que aproveitava a escuridão para alisar os marmanjos e praticarem “otras cositas más”.
Muitos anos depois (bote anos nisso), reencontrei o Lanterninha Farias, no Bar Caldeira e no Bar Mangueira (centro antigo de Manaus, pois ele morava por aquelas mediações) – conversamos muito sobre o nosso saudoso Cine Guarany, lembrando e sorrindo dos velhos e bons tempos que não voltarão jamais!
Certa vez, ele me presenteou com algumas revistas de pescaria – fiquei surpreso em saber que, além do cinema, o camarada adorava também fisgar uns peixes nos nossos Rios Negros e Solimões!
Ele não gostava de senta-se em uma cadeira principal de uma grande mesa que fica, até hoje, no Bar Caldeira, pois, segundo a tradição, todo aquele que ali se abanca por um bom tempo, falecerá precocemente.
Pois bem, o Farias resolveu fugir daquele agouro e, doravante, passou uma temporada enchendo “a cara” debaixo de uma árvore frondosa, no Bar Mangueira - por lá ficou, bebeu,chorou e contou muitas histórias do seu amado Cine Guarany, falecendo ano retrasado!

Jaú Mão Boba

O Jaú era um deficiente visual que pedia esmolas no Cine Guarany – era um senhor bem moreno, com os cabelos brancos, usava uma bengala de madeira e ficava com duas moedas antigas (patacas) na mão direita, fazendo barulho para chamar atenção das pessoas.

Antes de começar um filme no Cine Guarany, fazia uma grande fila para a compra de ingressos na bilheteria – era o momento certo para o Jaú pedir de um a um a sua esmolinha:

- Uma esmola para o ceguinho, uma esmolinha, por favor!

Quando era um macho, o Jaú mantinha certa distância, porém, quando era uma fêmea, ele chegava bem pertinho, tocando às vezes nos seus seios ou no traseiro, sendo sempre repelido por elas, com um empurrão e alguns palavrões – ele se defendia, pedindo desculpas e falava que era cego.

Todos ficavam na dúvida se o cara era realmente um cego, pois se desviava perfeitamente dos machos e, sempre se esbarrava, maliciosamente, nas mulheres.

Eu nunca tinha uma moeda para dar-lhe de esmola, pois o meu dinheirinho era sempre certinho para o ingresso ao cinema e, para a merenda na saída, de uma sanduíche de cachorro quente e um copo de suco de maracujá ou de caju.

Enquanto estava na fila, ficava a observar o comportamento daquele senhor estranho que, no futuro, ousaria em escrever um pouquinho a seu respeito!

Com o tempo, os cinemas do centro fecharam, deixando apenas no cantinho da minha memória a figura da “Dona Yayá”, do “Peixeiro do Juizado de Menores”, do “O Lanterninha Farias” e do “Jaú Mão Boba”.

É isso ai.
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