quarta-feira, 27 de abril de 2016

JUAN, O ARGENTINO-PERUANO.


Na década de oitenta conheci o Juan, um cara folclórico que se considerava um legítimo argentino, porém, somente era chamado pelos manauaras do centro da cidade por “Peruano”, servindo de zombaria por todos, em decorrência de “pegar corda” e responder com palavrões, provocando risos por onde passava.

Eu e os meus irmãos Rocha Filho e Henrique Martins gostávamos de reencontrar, nos finais de semana, com os nossos colegas de infância e dos novos moradores da Rua Igarapé de Manaus – o local era o Bar do Amadeu (depois Bar da Sogra), um casario antigo que ficava na esquina da Rua Huascar de Figueiredo com a Avenida Joaquim Nabuco.

Por lá conheci o Juan, um corretor de imóveis que servia de “bobo da corte” para todos que frequentavam aquele lugar, pois o tempo todo a turma se dirigia a ele e, na gozação, falavam:

- Fala, Peruano!

Ele entornava um copo de cerveja, levantava os óculos, respirava fundo e soltava o verbo, babando de raiva:

- Soy argentino, da Tierra Del Fuego! Peruano é a puta que los pariu!

Dizem que ele veio morar no Brasil ainda muito jovem, no entanto, nunca deixou de falar o “portunhol”, o que sempre serviu para os manauaras chamá-lo de peruano, pois todo e qualquer cidadão, independentemente do país de origem (do idioma castelhano) é assim conhecido.

O Juan sempre gostou de falar mal do Brasil, da nossa cidade e dos manauaras – reclamava de tudo e de todos:

- Essa ciudad es una merda, muy caliente, escrota e nada presta!

Ai o pessoal mandava bala:

- Volta pra tua terra, peruano fodido!

- Peruano es el caralho! Soy argentino, porra! – respondendo na bucha

Todos riam da resposta do Juan – ninguém esquentava com ele, na realidade, era provocado a todo instante, pois a galera queria mesmo era tirar onda com o pretenso argentino.

Apesar de tudo, ele era nosso amigo de copo - jogávamos “porrinha” (um jogo de azar, de palitos de fósforo), sempre valendo cerveja – ríamos juntos das brincadeiras e das provocações.

Num certo sábado, o Juan convidou a turma para saborear um peixe frito em sua casa – ele morava numa vila situada na Rua Igarapé de Manaus (próximo a Rua Lauro Cavalcante) – seria tudo por sua conta, acho que era o aniversário dele.

Um amigo nosso, o baixinho Neno, avisou a todos:

- Cara, sou vizinho do Juan, a mulher dele é braba no balde, ela veio lá de Maués, uma legítima índia saterê-mauê – bate no Juan toda vez que ele chega bêbado em casa! Tô fora, mermão!

Mesmo sendo avisada, a galera foi em peso à casa do Juan - chegando lá, a mulher apareceu à porta vestida de um camisão, bobe na cabeça e uma vassoura na mão – o Juan foi o primeiro a apanhar, dispersando o resto da cabocada na base da vassourada- esse fato serviu de gozação por um tempão.

Na última Copa do Mundo de Futebol fui até a Rua Santa Isabel, no bairro da Praça XIV, para tirar algumas fotografias, pois aquela rua é uma das mais animadas, premiadas e enfeitadas de Manaus.

Para minha surpresa, encontrei o Juan por lá – ele disse que tinha comprado uma casa e morava fazia alguns anos naquele local, mas estava a fim de vendê-la, pois em toda copa de mundo a rua virava um inferno e todos gostavam de encher o seu saco.

Falei-lhe:

- Poxa, camarada (deu vontade de chamá-lo de peruano, mas mordi a minha língua), aqui tudo é festa, a rua fica bonita, com animação total entre os vizinhos!

Ele respondeu:

- Porra nenhuma, Roxita! Fica una multidão aqui em frente de mi casa, quando apareço na janela, todos gritam “peruano, peruano, peruano” – entonces digo “soy argentino, de Tierra Del Fuego, caralho” – ai eles respondem “é tudo a mesma mierda” - tengo que llevar todo esto até a copa acabar!

Faz alguns meses entrei numa “LanHouse” que fica bem frente ao “Shopping Popular dos Remédios”. Sabe quem eu encontrei por lá? É isso mesmo, o argentino-peruano Juan! Ele falou que gostava daquele lugar, pois podia tomar grátis una água geladinha, um cafezito ou um chazinho de erva-doce, além de ficar no ar condicionado e fazer contatos com seus clientes pela internet.

Antes de terminar a nossa conversa, entrou um senhor de paletó e gravata, parecendo um advogado, o cara quando avistou o Juan foi logo dizendo com a sua voz possante:

- Fala, Peruano!

O Juan levantou os óculos, respirou fundo e soltou o verbo, babando de raiva:

- Soy argentino, de Tierra Del Fuego! Peruano é a puta que los pariu!

O advogado, o dono do estabelecimento, as funcionárias, eu e o próprio Juan e todos que estavam no local demos uma gargalhada geral! Continuava tudo igual como antigamente!

O argentino-peruano Juan pode ser encontrado todo santo dia naquela lan house e na Praça da Polícia – ele gosta de parar nas esquinas das ruas para papear – a cada instante passa uma pessoa e grita:

- Fala, Peruano!


A resposta vocês já sabem qual é, né?! É isso ai. 
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