sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

HAHNEMANN BACELAR

*por Álvaro Pascoa

O menino que um dia quis ser pintor. E foi.


E Também o mais genuíno dos pintores amazonenses, porque não houve outro ainda que tivesse as raízes tão profundamente entranhadas na terra.

Quando o conheci tinha ele 13 ou 14 anos. Expunha pela primeira vez na Feira de Artes Plástica do clube da madrugada, lá na Praça da Saudade. E já então  os seus quadros tinham por tema o povo e os costumes da sua terra, onde nasceu.


Tanto a ingenuidade faceira das moças do interior, como o bulício desbragado das meninas “da Frei José dos Inocentes”, eram tratados com a mesma leve ironia e tocante ternura de quem é da mesma gente.



Porém, como não é possível, de momento, fazer-se um catálogo das suas pinturas, pois grande parte dos seus quadros se encontra dispersa e não localizada, resolvemos dar a público um álbum dos desenhos encontrados no seu caderno de apontamentos e papéis avulsos.

Simples, com uma economia extrema de pormenores, mas de uma força telúrica intensa, estes esboços fixaram no momento eterno as atitudes da sua gente, às vezes de modo grotesco, irreverentemente, mas sempre marcadas pelo gesto ancestral.


Por elas se pode medir o gênio de Hahnemann.


Aquela foi a época da demolição de valores, da negação da arte, das drogas, do movimento hippie  Hahnemann, como muitos outros jovens, não pode deixar de se envolver pela doutrina nova e fascinante.
Usou cabelo “black power”, jeans, deixou de pintar – “quadro a óleo já era”- fez “viagens”.

Depois... Depois foi tempo de pesadelo. A notícia apareceu no jornal em pleno carnaval. Mostrei para a Regina, e durante toda a manhã, sombrios, não trocamos comentários.

Só a hora do almoço, na defesa das paredes de nossa casa, ainda sem falarmos, a Regina me abraçou, choramos sem controle. Só então conversamos sobre a notícia. Tinha de haver alguma coisa errada.


Lúcia apareceu ao fim da tarde. O que aconteceu Lúcia, dilacerada, foi à Delegacia de Polícial Lá não sabiam de nada.


Telefonaram para Belém. E a resposta veio num telegrama lacônico e cru. Era verdade.

Não sei quantos dias se passaram sem que tivesse coragem de ir a casa de Hahnemann. A mãe, alucinada, chorando falava, repetia-se numa obsessão  sem que as frases se ligassem. Segurei-lhe a cabeça para que não enlouquecesse.

Hahnemann suicidou-se em Belém no dia 22 de Fevereiro de 1971. Tinha 23 anos. Naquele dia, a lâmina da tesoura se cravou em todos os nossos corações, não só no dele. Ainda dói.

Fonte: Hahnemman - Amazonas, Gov. do Estado. Fundação Cultural.


*Álvaro Pascoa - Nasceu em Oliveira do Bairro, distrito de Aveiro (Portugal), em 1920, faleceu na cidade de Manaus, Estado do Amazonas (Brasil), em 1997. Considerado como um dos maiores representantes ilustres da classe dos artistas plásticos da cidade Manaus. Segundo o site da Biblioteca Virtual do Amazonas “Em sua terra natal participava de militâncias socialistas e grupos de teatro experimental. Era um autodidata. Aprendeu as técnicas de entalhe, xilogravura e escultura observando os grandes artistas plásticos. Mudou-se para o Brasil, em 1958, vindo a residir em Manaus, onde rapidamente integrou-se aos movimentos culturais da época, um deles, o Clube da Madrugada, por meio do qual participou de diversas exposições com obras em técnicas variadas: esculturas, gravuras, entalhes e desenhos". Foi dirigente da Fundação Cultural do Amazonas, embrião da atual Secretaria de Cultura do Amazonas (SEC).


Conheci o Sr. Pascoa quando eu ainda tinha os meus doze anos de idade, ele sempre ia aos sábados visitar o meu saudoso pai Rochinha, na oficina de violões que ficava nos porões de um chalé da família Bringel, na Rua Huascar de Fiqueiredo. Era uma oportunidade para eu ganhar os trocados para ir ao cinemana Guarany, pois lavava com todo zelo o seu automóvel, um Citroen importado.

Tive oportunidade de visitar a sua casa, no Conjunto Manauense, no bairro de Aleixo, inclusive, a sua mãezinha gostava muito de mim. Com relação as fotografias, tirei de um exemplar de um livro editado pela Fundação Cultural do Amazonas, onde o Sr. Pascoa já foi presidente - este livro está na Biblioteca Pública, na sala onde estão os jornais antigos. Esta postagem foi feita na própria BPA, pois ela está toda informatizada, disponibilizando aos usuários dezenas de computadores com acesso a internet. 



O Hahnemann Bacelar (1948-1971), recebeu este nome em homenagem ao alemão Hahnemann, um médico que difundiu a homeopatia em Paris. Foi um jovem amazonense de talento, premiado em 1966, destacou-se na pintura e foi profundamente influenciado pelo caráter expressionista de seu mestre Álvaro Páscoa – tendo como temática de sua obra a figura humana e a denúncia social, com colorido intenso e vibrante.


A primeira fotografia, da esquerda para a direita estão: Aurélio, Enéas, Álvaro Páscoa e Hahnemann. A quarta fotografia é de uma talha que está exposta no Bar do Armando, no Largo de São Sebastião, ele foi feita pelo artística plástico Roberto Cravo, a partir de um desenho do Hahnemann.

A Universidade Federal do Amazonas (UFAM) teve a feliz ideia em homenagear o nosso saudoso artista plástico, com a criação do Centro de Artes Hahnemann Barcelar, no CAUA, situado à Rua Tapajós com a Rua Monsenhor Coutinho, no centro antigo de Manaus. É isso ai.  

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