quarta-feira, 29 de junho de 2011

DIÁRIO DE VIAGEM

Para quem tem bala na agulha, pode usufruir das suas férias em lugares exuberantes, viajar para Orlando, Miami e Paris; curtir as praias de Salvador, Fortaleza e até mesmo de Alter do Chão, em Santarém; alguns preferem pegar a estrada e ir até a Isla de Margarita, na Venezuela (destino preferido pelos amazonenses); agora, a turma da lisura, na qual me incluo, o único jeito de viajar é pegar um barco regional e curtir as férias no interior do nosso Amazonas, vale a pena conhecer Maués, Novo Airão, Barcelos, Figueiredo, São Gabriel da Cachoeira, Parintins, dentre outros - este ano o diário de viagem é de Parintins.

Comprei um pacote, com direito a ida e volta, dormir com segurança no barco, som ao vivo, et cetara e tal. Fiquei empolgado, pois segundo o vendedor, o barco era imenso, com capacidade para duas mil pessoas, feito todo de ferro, com equipamentos dos mais modernos da indústria naval – sempre a gente cai no papo do vendedor, eles prometem mil maravilhas, tudo do bom e do melhor, quando chega a hora do vamos ver, tudo muda de figura.

Quinta-Feira:
Cheguei bem cedinho para “esticar a minha baladeira”, fui até o “Catamarã Rondônia”, um tipo de embarcação de passeio com dois cascos esguios, ele é considerado o maior navio do baixo Amazonas, estava aportado na famosa e abandonada “Manaus Moderna”.

No meio daquela “muvuca” encontrei o meu “brother” jornalista Jersey Nazareno, ele estava fazendo uma matéria para o “Blogdafloresta”, fez questão de me acompanhar até a embarcação, tirou várias fotos e, achou muita graça da minha cara, pois eu não tinha nem um pouco de jeito para amarar a rede, apesar de eu ser um caboclo da beira do rio, ainda bem que eu escolhi um lugar bacana, bem longe dos sanitários - não sou doido de ficar cheirando merda a viagem toda!

O dia prometia muito, pela primeira vez na minha vida, tomei um café da manhã bem diferente, fui convidado pelo “Naza” para comermos “Jaraqui Frito” com feijão, arroz, farinha grossa, pimenta murupi, tucupi e bastante guaraná Baré (êta ressaca brava!). No navio, recebi uma pulseira de identificação na cor vermelha, sacanagem dos caras, não colou muito com a minha indumentária, pois estava todo de azul e branco, na cor do meu boi Caprichoso, não ficou nada legal aquele negócio vermelho no meu punho esquerdo, com a cor do “contrário”, por questão de segurança, tive que engolir essa na viagem toda.

Entrei para valer no barco antes da três horas, uma hora antes da hora prevista para zarpar, fiz a minha parte, mas, uma parcela deixou para a última hora, foi um corre-corre danado, o barco pegou gente no Rodoway, parou várias vezes no meio do rio para receber os retardatários, conseguimos sair “dos vera” somente às seis da tarde. Quando estávamos curtindo aquele vento “paidégua”, paramos na primeira inspeção da Marinha do Brasil – desceu todo mundo, primeiros as mulheres, depois os homens, com os “xibius” para um lado e os “bilaus” para o outro, ficamos por duas horas em pé aguardamos a liberação do barco – mas, tudo é festa!

Passei parte da noite na área de lazer do barco, com muita cerveja e mulher bonita na área. Pense num som “escroto”, estavam se apresentando uma “banda” de péssima qualidade, a única coisa que salvava eram as dançarinas, o resto era “fuleiragem”. Peguei um “comercial” na janta, ao preço de dez pilas, a servente fez um prato com três andares, comi que nem um desgraçado, chegando a passar mal e, fui visitar pela primeira vez a privada. Antes da dez da noite resolvi dormir, simplesmente não encontrava a minha rede, fiquei perdido entre centenas delas, era gente saindo pelo ladrão, foi um sufoco total; quando a encontrei, estavam duas atadas em cima da minha, ainda bem que eram de duas beldades, já pensou você ter que aguentar a noite toda “pum” e ronco de macho, preferiria me jogar no rio!

Sexta-Feira:
Acordei de madrugada, não estava aguentando dormir direito, uma das beldades colocou os dois pés na minha cara, fui para a área de lazer, estava tudo calmo, apesar de ainda ter uma turma bebendo pesado, estavam querendo pegar o Sol com a mão. Paramos em Itacoatiara, a terra da pedra pintada, estou devendo uma visita aos amigos daquela bonita cidade. Próximo ao passadiço do barco estava um casal de idosos, a senhora lamentava muito, pois fazia muito anos que não via uma prima que mora naquela terra, entrei na conversa, para minha surpresa, ela me apresentou o seu marido, chama-se Carlos Alberto Cunha Bringel, parente do Sr. João Bringel, amigo do peito do meu pai Rochinha, quase que eu choro na hora. Passamos por Silves e Itapiranga, tinha um casal que conhecia todos os lugares que passávamos, apesar de estarmos na escuridão da noite do Rio Amazonas.

Tomei o café da manhã (pago, é claro!). Acho que caprichei no leite de vaca e ainda tomei um copázio de mugunzá, não sei o que contribuiu mais para eu correr novamente para a privada. Fiquei invocado, tudo que batia na barriga, saia pela tangente – um baixinho falou: - Toma logo uma cerveja que ela vai estancar! Dito e feito! Tomei um tanque de cerveja, peguei sol, tomei banho de chuveiro, comecei a gostar da “banda” escrota e, esqueci de almoçar o meu comercial. A barriga ficou maneira (por hora!).

Terra à vista! Apareceu ao longe a torre da Catedral da Nossa Senhora do Carmo, foi um corre-corre total, a negada em peso desatando as redes, todos iria ficar em alguma casa em Parintins, fiquei meio atordoado, pois ficaram apenas algumas pessoas em suas redes.

Fiquei na minha, coloquei a camisa do Caprichoso, tênis e bermuda, visitei o novo Porto de Parintins, deu um pulo no Mercado Municipal, tomei uma Sopa de Mocotó, passei pelo “Chapão”, entornei algumas, peguei um “Triciclo” e rumei para o “Bumbodrómo”, tirei dezenas de fotografias, tomei cervejas e, entrei na “Galera” do meu boi bumbá.

O primeiro a entrar na arena foi o Boi Garantido, eu estava cansado, sentei e adormecei, somente acordei com a “Maruja da Guerra”, curti de montão o meu boi, porém, antes de terminar a apresentação, a minha barriga começou a roncar, corri novamente para a privada, voltei mais duas vezes, não estava mais aguentando, peguei um triciclo de volta para o barco. Mano velho, o bicho pegou, mudei a minha rede para frente do sanitário, dei um nó errado, cai no chão, não cheguei a me machucar.

Sábado:
Sem chance de ser feliz! Vim de tão longe para ver o meu boi, mas, alguma coisa afetou o meu estômago, tive que passar vinte e quatro horas dentro do barco, hora em hora correndo para a privada, ainda tive febre a noite toda. Um caboclo vendo a minha situação, deu logo a receita: - Pega um copo com coca-cola e bota um sonrisal, toma de uma vez, é bater e ver! Posso ser doido, mas não sou leso! À noite, fui até a área de lazer para ver o show pirotécnico dos bois e, nada mais! Acabou o festival para mim!

Domingo:
Bem cedo, fiz um esforço e fui até a Catedral da Nossa Senhora do Carmo, fiz as minhas oraçoes, depois, subi 162 andares da torre da igreja. Liguei para os meus familiares, fui aconselhado ir a um posto médico, peguei um “MotoCar”, um novo tipo de veículo urbano que está pegando no Amazonas, fui até o Pronto Socorro Emilia Cohen, fui atendido por um médico novinho, com sotaque de sulista, nem olhou para a minha cara e foi logo detonando: - O senhor está com infecção intestinal, vai ter que tomar Bacteracin + Reidrante Oral + Buscopan. Tudo o que eu ia gastar com comidas e bebidas tive que direcionar para remédios, água mineral, frutas e papel higiênico.

Segunda-Feira:
Mais um dia torturante, o barco estava previsto sair somente às dezessete horas, passei a manhã e a tarde intercalando entre a rede e a privada. Para complicar, o meu boi perdeu! Joguei a toalha, liguei para a digníssima, peguei um ralho, mas, fui resgatado pela minha família, fui colocado num avião Embraer da Trip, viajei as oito e meia da noite para Manaus, para completar, vinha a minha frente o Tony Medeiros, Amo do Boi Garantido, o cara passou três noites sacaneando na arena com o Boi Caprichoso.

Em pleno vôo, prometi que nunca mais iria ao festival dos bois, estava enjoado de tudo aquilo, nada mais de bebidas e, viagem de férias para o interior. As minhas tinham sido literalmente uma “caga”! Pretendo nas próximas férias ir para Alter do Chão ou Fortaleza, espero não mudar de idéia e fazer todo de novo em Parintins! Eu, hein!
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