domingo, 18 de outubro de 2009

O FALAR CABOCO: A ROUPAGEM E O DISCURSO

*Sérgio Augusto Freire de Souza

O que caracteriza o falar caboco? Qual a margem que o localiza como pertencente a um sujeito diferente? Definir essas margens é um dos grandes desafios dos lingüistas. Até que ponto isso é um termo do falar amazonense e não mais uma herança do falar nordestino incorporada ao patrimônio lingüístico local pela diacronia lingüística, que apagou o traço da história?

Na análise de nosso corpus, são duas as grandes influências que compõe o falar amazonense: a influência nordestina e a influência indígena. É preciso um breve histórico dessa influência.

Segundo Freire (2004), o Português é língua hegemônica na Amazônia há apenas 150 anos. Até então a presença lingüística da Língua Geral (Nheengatu) era preponderante, bem como as demais línguas das nações indígenas existentes.
Com o início do Ciclo da Borracha (1879-1912), a presença de migrantes nordestinos foi acentuada e seu falar passou a compor o cenário lingüístico da região. Os migrantes, principalmente cearenses, fugiam da seca e da miséria que avassalava sua região então.

Sob a base do português geral, essas duas variáveis passaram a desenhar os traços do linguajar amazônico. Quando falamos da dificuldade de definir bordas é exatamente a esses limites opacos que nos referimos. Nordestinos reconhecem em termos cabocos sua filiação nordestina. Indígenas vêem a presença de seus termos de forma forte no português amazônico. Termos e expressões como arrudear, bucho, caga-raiva e desconforme trazem uma cor nordestina, da mesma forma que carapanã, mangarataia, empachado, jururu, pitiú apontam para uma indigeniedade marcante.

Se o reconhecimento é um critério de identificação, o desconhecimento também o é. Uma vez feito o levantamento do vocabulário, passamos a “testar” suas bordas com pessoas não pertencentes ao universo discursivo amazonense. Expusemos os vocábulos a paulistas, mineiros, gaúchos, baianos, cearenses, fluminenses e catarinenses. Alguns termos foram reconhecidos na acepção utilizada pelo amazonense, mas a maioria dos termos era desconhecida. Sabendo da impossibilidade de um recorte preciso, porque a língua é volátil, tentamos ajustar o máximo possível as fronteiras que definiam o que ficava dentro e fora do dicionário.

Assim, antes que alguém reclame que determinada palavra não é exclusividade do falar amazonense, explicamos que a dinâmica da língua nunca garantirá tal propriedade exclusiva.

Afinal, é bom ou ruim ser caboco? Como nos diz Derrida (1997), todos os signos são pharmakon. Podem ser bons ou ruins, dependendo da dosagem e do paciente. Não seria diferente com a imagem de ser caboco. Encontramos índices de identificação e de contra-identificação (Pêcheux 1988) nas falas analisadas.

Algumas falas de identificação: “… é muito bom falar de coisas nossas, amazonenses. A nossa linguagem é única e fantástica”, “…ouvir essas palavras de novo me faz voltar o que de mais feliz eu tive: a minha infância”, “… é (sic) muito chibata essas expressões”, “gente, como é bom falar e ser entendida. Odeio quando falo as coisas aqui no Rio e ninguém me entende”.
Algumas falas de contra-identificação: “… é muita caboquice falar assim, coisa de gente pobre, do bodozal’, “… triste esse jeito de falar. Só cabocão fala assim…”, “… é uma pena que muita gente fala esse português errado…”.

Aqui voltamos à tese de que não há coincidência entre identidade lingüística e identidade discursiva. Por um lado, muitas frases de identificação vêm de falantes que não utilizam os termos cabocos com freqüência. Algumas frases traduzem o preconceito lingüístico (Bagno 1999) da associação biunívoca entre norma padrão e língua portuguesa, sendo todos os outros registros considerados como sendo português errado ou de pior qualidade. Por outro lado, essa mesma associação habita o imaginário das classes mais pobres que possuem acesso restrito à língua padrão, quando associam o registro que usam a uma língua inferior. Mesmo utilizando o registro, não o aceitam como de valor na economia das trocas simbólicas (Bourdieu 1999), mimetizando em sua própria auto-imagem da identidade social esse não-valor.

Ainda como exemplo de que a transversalidade valorativa perpassa as várias classes sociais, citamos dois exemplos recentes. A rede de drogarias Pague Menos chegou a Manaus oferecendo descontos de 60% nos medicamentos por ela vendidos. Os dois grupos que dominam o mercado farmacêutico em Manaus começaram uma propaganda maciça fazendo um chamamento à amazonidade, utilizando o slogan “Amazonense como você”, utilizando frases como “quem não lhe conhece não pode inspirar confiança” e coisas do gênero. O Banco HSBC decidiu fazer propagandas regionalizadas e utilizou várias expressões, como “Cortar a curica”, por exemplo. A repercussão foi extremamente positiva na cidade e o comercial bastante comentado. Vale ressaltar que a atitude positiva veio de um público que é cliente de banco e que tem acesso aos meios de comunicação.
AMAZONÊS

PERIGO loc. adv. – 1 Sem dinheiro. “Paga o lanche pra mim, cara, que eu tô a perigo”. 2 Muito tempo sem manter relações sexuais. “O Amaro está a perigo. Está pegando até velha desdentada”.
ABESTADO adj. – Apalermado, imbecil, idiota, estúpido, pessoa que não entende de nada. “Não gosto dele, não. Ele é muito abestado pro meu gosto”.
AFOLOSADO adj. – Frouxo, largo. “O parafuso não segura porque ele está cuspido e a porca está afolosada”.
ASA DURA s. f. – Avião. Usada na região de Parintins. “Não perco o festival por nada. Vou até de asa dura se precisar, apesar de morrer de medo”.
BANHO TECHO s. m. – Banho rápido, em que só se lava as partes íntimas.
BODOZAL s. m. – Bairro pobre, periferia. “Lá no bodozal onde ela mora não tem nem água e nem esgoto”.
BRONHA s. m. – Masturbação masculina. “Esse moleque só vive trancado no banheiro batendo bronha”.
CAIR NA BURAQUEIRA exp. id. – Cair na gandaia, ir para a farra. “Babita no bolso, carro novo… eita que eu vou é cair na buraqueira!”
CAIXA-PREGO s. f. – Lugar distante. “Para chegar lá temos que pegar três ônibus. Ela mora lá na caixa-prego”.
DE BODE loc. adj. – Menstruada. A associação vem do fato desse caprino, que não gosta de banho, exalar um cheiro muito forte, semelhante ao cheiro do sangue de origem uterina que ciclicamente a mulher expele. “Todo mês essa mulher diz que está doente, mas está mesmo é de bode!”
DE MALA E CUIA loc. adv. – Transferir-se para outro lugar com todos os pertences. “Ela foi de mala e cuia pra casa da mãe. Deixou o marido mesmo”.
ÉGUA! interj. – Égua pode ser usado em várias situações. Tomou um susto: “égua!” Alguém faz algo que você não entendeu: “égua…”. Uma situação estapafúrdia? “Éééguaa, maninho…”. A entonação faz parte do sentido.
FULEIRAGEM s. f. – Porcaria, coisa ruim. “O filme é a maior fuleiragem”.
INVOCADO adj. – Difícil de entender, de fazer, etc. “Esse brinquedo é invocado, né?” “Égua! Ele saiu com uma e voltou com outra? Invocado…”
KETCHBACK s. m. – Um lance amoroso, rolo. “Tive uns ketchbacks com ela no passado”.
LAMBANÇA s. f. – 1 Gabolice, bazófia, fanfarrice. “Ele falou que era rico?! Haha… pura lambança…” 2 Serviço mal realizado, sujeira. “Vou ter que pagar pra consertar o carro de novo. O outro mecânico foi mexer sem saber e fez a maior lambança”.
LESO adj., LESEIRA s. f. – Leso é alguém que sofre de leseira. Leseira é um abestalhamento momentâneo que acomete o leso. Se a leseira for uma característica contínua, dizemos que o leso sofre de leseira baré. Dizem que a leseira baré ocorre entre os amazonenses devido ao sol quente na cabeça, que queima alguns neurônios. Temos ainda as expressões derivadas: “Deixa de ser leso!” e “Pára de leseira!” Dizem que todos os amazonenses têm três minutos de leseira por dia. Mas como tudo tem seus dois lados, dizem também que o sol também causa nos amazonense o tesão de mormaço, um aumento na capacidade sexual devido ao sol quente.
MAIOR PALHA loc. adj. – Muito ruim. “Esse cantor é a maior palha”.
MANO voc. – Tratamento carinhoso entre conhecidos ou não. Muito usado para fazer perguntas e pedidos. “Mana, faz um favor pra mim?” “E aí, tudo bem, mano?” Variações no diminutivo: maninho, maninha.
PAID’ÉGUA adj. – Algo ou alguém muito bom, muito legal. “O filme é paid’égua”. “O teu pai é um cara paid’égua!”
PINGUELO s. m. – 1 Órgão sexual feminino. “Menino nasce por onde entra: pelo pinguelo”. 2 Clitóris.
PIRIGUETE s. f. – Mulher fácil. Aglutinação de Piranha (ou Perigosa) com Gueguete. “As piriguetes do trabalho do meu marido ficam dando em cima dele direto”.
TÁ, CHEIROSO! exp. id. – Não, mesmo! “Vou pegar teu carro esse fim-de-semana, tá bom?” “Tá, cheiroso! Esquece!”

QUERIDA voc. – Falso cognato. O uso da palavra “querida” no Amazonas denota certo sarcasmo ou ironia. “Escuta aqui, minha querida. Eu sou a mulher dele, entendeu?” “Você não está entendo, querido. (ou seja, você é um burro!)”. Mulher amazonense odeia ser chamada de querida.
RÁDIO CIPÓ s. f. – A boca pequena, a fofoca. “Diz a Rádio Cipó que o Gláucio vai ser demitido”.
RATADA s. f. – Mancada, pisada de bola. “Eu ia fazer uma festa surpresa, mas o João acabou contando antes. Deu a maior ratada!”
TE METE! Exp. id. – Humilhou! “Olha o anel de ouro com brilhante dela!” “Te mete!”
VAI TE LASCAR! interj. – Expressão de raiva ou de decepção. “Vai casar de novo? Ah, vai te lascar!”
ZERO-BALA adj. – Renovado, pronto pra outra. “Tava de porre ontem, mas agora estou zero-bala”.

*Sérgio Augusto Freire de Souza é amazonense de Manaus, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Letras pela própria UFAM e Doutor em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Publicou dois livros. O primeiro, em co-autoria, foi a série Citizen 2000, pela Editora Novo Tempo. A série didática foi utilizada por anos pelos alunos do ensino médio da rede pública do Amazonas, tendo sido reformulada em 2004 e rebatizada de New Citizen. O segundo livro, Conhecendo Análise de Discurso: linguagem, sociedade e ideologia, apresenta uma introdução à área de Análise de Discurso e foi publicado pela Editora Valer.

O autor tem publicado artigos em vários periódicos impressos e on-line e apresentado trabalho em encontros e congressos, além de proferir palestras em várias instituições. Suas áreas de interesse na lingüística são a Análise de Discurso, Produção de Material Didático, Aquisição de Linguagem e Informática e Ensino de Línguas. Mais recentemente ampliou seu interesse por Gestão da Educação Pública.

É casado com Fabiana Eid e pai de Ana Clara e de Marina. Em seu site pessoal
www.elton.com.br podem ser encontradas mais informações e outros textos do autor, como suas crônicas, muitas publicadas em jornais locais.
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