terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

POETATU

“Os poetas amazonenses não se emendam. Não tomam jeito. Não procuram fazer algo de útil para a sociedade. Pelo contrario. Resolveram engrossar a couraça, reuniram um time de peso-pesado e decidiram bagunçar de vez com o coreto da Praça da Policia, onde surgiu o Clube da Madrugada. Em vez de pé de mulateiro, pé de miratinga. No lugar do Café do Pina ao final da tarde, Bar do Armando de madrugada. Nada de vampirismo sutil, chegou a hora do banho de sangue.
Se os curitibanos homenageiam Leminski com o movimento Perhappiness (um inteligente jogo de palavra para exprimir a nossa “quase felicidade”), a turma do Poetatu homenageia o poeta Ernesto Penafort mostrando a cor azul que determina a palavra primária: palavras, as palavras de que são feitas as árias.
O Retorno de Jedi não pede passagem: simplesmente passar por cima de tudo e de todos, doa a quem doer. “O mais são sentimentos, palavras ocas, jogadas ao vento”. Simão Pessoa, poeta e escritor.

CARÍCIAS
As minhas mãos são pentagamas
Acordando sons no teu corpo
Ponta de dedos imã o tato se vai
Percutindo notas descobrindo portos
Um toque de cheiro no silencio úmido.
Nos teus cabelos teço a fina partitura
Feita de duas claves:
A mao direita
Sola um sol agudíssima
A esquerda se faz em fá
O grave fado
O gesto do teu tesão
Fala do meu pulsar
(Um sopro morno fala baixo
no bafo abafado em tua boca)
O suor dos nossos corpos
-enquanto garoa no lençol –
Lava por instante
O tempo de um ritmo sem metromo
um cheiro concreto de amêndoas
Aníbal Beça, poeta, escritor e compositor.

NOITE EM CLARO
(azul plúmbeo)
Por
amanhecer-me,
sujigo-me
ao dia
CURTA-METRAGEM
(marrom)
A fogueira
Dos meus olhos
não apaga
a cinza do amanha.
Cunha faceira
Lava o rosto
À beira da lama
VÔO
(arsênico)
Querer-me em ti
É um suplicio
das dores,
sem cores
para o meu bem-te-vi
Jersey Nazareno, poeta,jornalistas e produtor cultural
ABCDADO
Anarquista (alheio à conquista)
Boêmio (corpo molhado, abatêmio)
Celibatário (até caso contrário)
Diferente (de todo inocente)
Extremado (um apaixonado)
Fatal ("vem pro meu bem, vem pro mal")
Grávido (dia novo, ávido)
Hermafrodita (só leso acredita)
Indio (testemunha do genocídio)
Judeu (à esquerda, ateu)
Louco (por tão pouco...)
Marginal (margem é rasa, sou perau)
Narciso (no que for preciso)
Odiado (melhor que ser amado)
Palhaço (tipo velho Inácio)
Querubim (safado deus curumim)
Ridículo (provo e explico)
Suicida (pra morte entrego a vida)
Teratologista (de carne sem visita)
Uamiri (com veneno atroari)
Volátil (brisa molhada, banzeiro de rio)
Xoxoteiro (graduado em puteiro)
Zonzo (tô morrendo de banzo)
Marco Gomes, poeta anarquista e produtor cultural.

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