quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

CANTOR NUNES FILHO

O cantor de brega Nunes Filho sempre foi uma grande atração no Bar do Armando, devido a grande irreverencia dos frequentadores mais habituais, aliado da valorização dos artistas da terra, marca registrada dos biqueiros.

Em homenagem ao grande talento da musica amazonense, publico o trabalho do Valmir Lima, do Decon/Fapeam.

Música brega é tema de dissertação
Nunes Filho e Wanderley Andrade, quem diria, se tornaram os principais personagens de uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia. Intitulado “Essa música foi feita pra mim: relações amorosas, paixões e cotidiano presentes na música brega em Manaus”, o trabalho de autoria de Noélio Martins Costa, 30, foi defendido em 2005.

A intenção do pesquisador, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), foi identificar de que maneira a chamada música brega influenciava na vida das pessoas que consomem esse tipo de produto da indústria cultural. Para isso, Noélio entrevistou dezenas de pessoas que freqüentavam bares, clubes noturnos e balneários, onde o brega era forte atrativo, na década de 1990, período abarcado pela pesquisa.


Foi durante as entrevistas que o a frase-título do trabalho foi encontrada. “Eu estava entrevistando uma mulher, ela falava sobre o seu gosto pela música brega e começou a tocar uma música. Ele disse: ‘Essa música foi feita pra mim’. Eu achei a frase muito significativa e decidi dar esse título à dissertação”, explicou Noélio.


O pesquisador precisou mergulhar no mundo da música brega para compreendê-lo. O primeiro obstáculo que teve de vencer foi o preconceito. Ele disse que quando estudava na graduação se sentia incomodado com os vizinhos que ouviam música em alto volume. “Existia uma rejeição, um preconceito mesmo, a uma coisa que eu não conhecia. Achava as letras e os enredos pejorativos”. Noélio resolveu dialogar com os vizinhos e aos poucos foi entendendo os motivos que os levavam a consumir aquele tipo de música.


O tema o fascinou a ponto de querer conhecer os cantores de maior sucesso. A indicação dos dois artistas analisados pela pesquisa veio dos próprios consumidores. “O primeiro nome ligado ao brega foi o do Nunes Filho, considerado o Príncipe do Brega. Passei a ouvir as músicas dele e depois o entrevistei algumas vezes”.


O cotidiano do brega, considerado no trabalho, é o ambiente em que a música é executada: os bares, as casas noturnas, os lares. A zona Leste foi escolhida como o espaço geográfico da pesquisa, também por um preconceito do pesquisador, que relacionava o brega à pobreza. Como a zona Leste concentra a maior parte da população de baixa renda de Manaus, Noélio pensou que fosse mais adequado elegê-la como o espaço do brega. “Depois eu descobri que não são só os pobres que gostam desse tipo de música”. Como diz uma canção do cantor Reginaldo Rossi, considerado o rei do brega, “No brega entre preto e entra branco, no brega entre pobre e barão”.


O que uma pessoa vai fazer no brega? Essa questão, que aparece no trabalho, tem duas respostas: os homens vão em busca de uma noite de amor, enquanto as mulheres querem diversão. “Geralmente a intenção do homem é terminar a noite com uma mulher que ele possa levar para a cama. As mulheres pensam de outra maneira, querem dançar, beber, se divertir. O sexo seria uma conseqüência natural de uma noite de diversão”.


A música brega, como toda música, acompanha seus consumidores além do clube ou do bar. Como forma de recordar a noite de alegria ou de dor, ou como forma de afogar as mágoas, as pessoas ouvem em casa as mesmas canções da noite. Foi numa dessas situações que a mulher entrevistada por Noélio disse a frase celebre: “Essa música foi feita pra mim”.


Ao discutir a relação das pessoas com o brega, o pesquisador encontrou aspectos sociológicos e antropológicos interessantes, como a independência feminina na noite. “Você encontra nos clubes e bares inúmeras mulheres que se desprendem do âmbito doméstico e vão se divertir, curtir a noite sem a companhia de nenhum homem. Uma delas me disse que se fosse acompanhada não poderia dançar com quem tivesse vontade”. Na dissertação, Noélio trabalha com duas categorias para diferenciar a mulher que busca diversão da profissional do sexo: mulher na noite, para a primeira, e mulher da noite, para a segunda.


Nunes Filho X Wanderley Andrade
Nunes Filho e Wandeley Andrade são como água e óleo no brega, na opinião de Noélio Costa. As músicas e os estilos são totalmente diferentes, mas ambos fizeram muito sucesso no passado recente. Enquanto Nunes Filho busca retratar o romantismo, com letras que falam dos apaixonados, de ciúmes e da traição; Andrade busca nos marginalizados inspiração para criar letras que falam de amor, mas de forma mais grotesca.


Nunes Filho canta “Ai carinho”; Wanderley Andrade prefere “roubar coração”, é o “traficante do amor”. “Ele utiliza muito os presidiários como fonte de inspiração, enquanto o Nunes Filho é mais romântico”.


Os estilos no palco também são destacados no trabalho: Nunes Filho é cômico com seu trejeito de dançar, mas fica nisso suas apresentações. O que mais chama a atenção do público são as letras de suas canções. “É um clássico do brega”, classifica Noélio. Já Wanderley Andrade prefere o estilo espalhafatoso, caricatural. “Ele veste um personagem, se traveste e choca o público com o cabelo colorido, as roupas brilhantes e os óculos irreverentes. Ele é o personagem principal do show”.


Os diferentes estilos dos dois artistas de reconhecido prestígio no mundo brega têm relação direta com o ambiente onde cada um começou sua carreira artística: Nunes é genuinamente amazonense e Andrade vem do Pará, onde o brega é considerado um movimento cultural. “Lá em Belém, cidade que visitei durante o trabalho, as pessoas têm orgulho de dizer que vão ao brega e se vestem a caráter para a festa”.


No Amazonas, as pessoas não incorporam o brega. Vão ao clube para se divertir, beber ou afogar as mágoas. “Em Manaus é difícil você encontrar uma pessoas que assuma ser um bregueiro. As pessoas são muito dissimuladas”.
Esse problema está na raiz da discriminação à música Brega, na opinião de Noélio. Ele afirma que quando uma pessoas de maior poder aquisitivo é encontrado por um conhecido no brega, usa a dissimulação. “Sempre dizem que estão ali por acaso”. Mas durante o trabalho de campo Noélio pode perceber que no mesmo clube em que pessoas chegam a pé, de ônibus ou em um fusquinha superlotado, outros cegam em carros caros. “No mesmo bar em que uns bebem cerveja, outros bebem uísque”.
Valmir Lima Decon/Fapeam

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