segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Homenagem do BLOGDOROCHA aos 357 Anos da Cidade de Manaus – O RELÓGIO MUNICIPAL



 


Ao passar pelo início da Avenida Eduardo Ribeiro, não tem como não notar a presença do ‘Relógio Municipal’ que, juntamente com o ‘Obelisco do Centenário da Cidade de Manaus’, marca aquele local. Uma dezena de estabelecimentos se instalaram ao redor, mas, felizmente, somente os dois permaneceram até os dias atuais, apesar do descuido dos administradores públicos em sua conservação.

Manaus comemorará 357 anos de fundação no dia 24 de outubro, tendo em vista a data de 1669 ser o marco inicial da construção do Forte São José da Barra do Rio Negro, de onde a cidade cresceu e evoluiu. Nada mais justo que, no mês de seu aniversário, prestarmos todas as homenagens ao Relógio Municipal, que faz parte da memória afetiva dos manauaras e era conhecido pelos mais velhos como ‘Relojão’.

Consta em documentos antigos que a sua importação da Suíça se deu no início do século vinte, em plena belle époque manauara. No entanto, ele veio com algumas peças defeituosas, ficando guardado no depósito de coisas inservíveis da Prefeitura de Manaus por longos anos. Na gestão do prefeito Dr. José Francisco de Araújo Lima, cujo mandato foi de 1926 a 1929, resolveu-se resgatar o referido relógio — quando o ciclo da borracha já estava em declínio econômico —, contando com a colaboração do professor, dramaturgo e arquiteto amazonense Coriolano Durand.

Iniciada a construção em 31 de março de 1929, o monumento em estilo neoclássico ganhou uma base de alvenaria e uma torre quadrangular com cerca de cinco metros de altura em pedra lavrada e alvenaria para sustentar a estrutura metálica. Conta com dois mostradores: um para o norte e outro para o sul, visíveis nos dois sentidos da Avenida Eduardo Ribeiro, tanto para quem subia em direção à praça quanto para quem descia rumo ao Porto de Manaus. Coube, também, a Coriolano Durand a famosa inscrição em latim gravada em sua estrutura: "Vulnerant omnes, ultima necat" ("Todas ferem, a última mata"), uma reflexão clássica sobre a passagem das horas e o destino humano.

A ‘Máquina Suíça’, que estava parada há quase trinta anos por falta de peças ou condições técnicas iniciais, foi entregue a uma firma profissional de renomados ourives e relojoeiros conhecida na cidade como ‘Pelosi & Robert’. A empresa fez a montagem, a revisão, a fabricação das peças que faltavam, o ajuste dos componentes e a calibração do intricado maquinário. A inauguração oficial deu-se em 28 de novembro de 1929; portanto, em 2029 próximo, fará cem anos. O acontecimento foi amplamente registrado na edição daquele mesmo dia pelo jornal O Estado do Amazonas e, no dia seguinte (29 de novembro), formalizado no Diário Oficial do Estado. O clima era de modernização urbana comandada pelo prefeito José Francisco de Araújo Lima, que via no relógio um símbolo de progresso para a Avenida Eduardo Ribeiro no final da década de 1920.

Praticamente sessenta anos depois de sua inauguração, o monumento foi tombado como patrimônio histórico pelo CDPHA (Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas), por meio do Decreto Estadual de 16 de junho de 1988, protegendo-o permanentemente.

Algumas coisas marcaram para sempre o Relógio Municipal. Uma delas foi a saga do Senhor Faiez Isaac Sahdo, pai da saudosa atriz Ednelza Sahdo e avô do Kleber Isaac Sahdo, os quais tive o privilégio de conhecer. Ele tornou-se o lendário zelador do relógio desde 1947. Era aposentado do Detran e conhecido na cidade como ‘Professor Pardal’ por ter criado um antigo sinal de trânsito de onze focos. Morador do bairro da Cachoeirinha, passava tanto tempo cuidando do maquinário que mantinha uma rede armada e dormia nos altos da estrutura de pedra do relógio. Em 1988, aos 71 anos de idade e 41 de dedicação, mantinha o relógio britanicamente pontual. Para garantir que Manaus não atrasasse, ele regulava o maquinário suíço acompanhando a frequência de rádio da BBC de Londres.

O relógio não atrasava, muito menos adiantava. Somente em 1985 o relógio e o seu guardião tiveram que se adaptar ao horário de verão, promovido pelo presidente José Sarney, sendo ele obrigado a adiantar as engrenagens em uma hora. A outra faceta que marcou gerações de manauaras era o som que ele produzia. Como em 1988 os sinos originais já estavam quebrados, ele usava um sistema de som adaptado, com as batidas em uma potência inicial de 30 watts, passando depois para 180 watts. A cada hora, o relógio emitia um som cativante, apelidado carinhosamente pelos manauaras de “Big Ben”.

Estive duas vezes embaixo do relógio, onde os descendentes do velho Sahdo ainda trabalham. Na primeira vez, perguntei sobre o som e me informaram que era uma peça quebrada que havia deixado o relógio mudo; na outra, informaram que desligaram o som a pedido dos padres da Igreja da Matriz, pois estava atrapalhando as missas.

O Relógio Municipal passou uma temporada pintado na cor cinza para combinar com a mesma cor do Teatro Amazonas, o que gerava muitas críticas dos historiadores. Em 1979, voltou a receber a sua cor original: o rosa.

O seu entorno passou por muitas utilizações. No início, era o lugar preferido para a Banda de Músicos Militares do 27º BC tocar em homenagem aos visitantes ilustres e autoridades que chegavam à nossa terra. Todas as manhãs de terça-feira de Carnaval, os foliões do Atlético Rio Negro Clube saíam da sede e comemoravam em frente ao Relógio Municipal. Tempos depois, instalaram — sob muitos protestos — uma bomba manual de combustível bem em sua frente e, depois, outra mais adiante. O local também era palco para protestos e comícios.

Em 1940, instalaram dois Tabuleiros da Baiana: um deles em frente ao relógio e outro na Booth Line. Eram abrigos públicos cobertos, feitos de concreto para passageiros de bondes (e depois de ônibus), onde se vendiam cafés e refrescos, tornando-se pontos de encontro tradicionais da cidade. Eles funcionaram até junho de 1975, quando foram demolidos durante a reforma de expansão urbana e modernização do Centro, promovida pelo prefeito Jorge Teixeira. Além de servir de parada de ônibus para lugares bem distantes e dos famosos ‘Manecos’, ali já fora ‘Camelódromo’ e uma moderna estrutura de ferro para bares e lanchonetes com som ao vivo, tornando-se uma "barra pesada" à noite. Mas, felizmente, tudo foi sendo retirado com o passar do tempo, ficando atualmente somente o Obelisco e o seu companheiro, o Relógio Municipal.



Em 1988, quando a cidade celebrava o ano da elevação da vila à condição de cidade (ocorrida em 24/10/1848), uma peça publicitária ganhou o concurso da prefeitura de 140 anos, conforme publiquei aqui neste espaço. Uma dica: que tal em 2029 fazermos o mesmo trabalho para os 360 anos de aniversário de nossa cidade (1669 + 360 = 2029) e/ou os 100 anos de sua inauguração (1929 + 100 = 2029), utilizando o mostrador do nosso relógio?

Os últimos prefeitos de Manaus resolveram gastar fortunas com o ‘Boi Manaus’ e não com a conservação e preservação da nossa memória baré. Esse negócio de boi de pano fica bem lá para Parintins e não tem nada a ver com o aniversário de nossa cidade. Em todo caso, irei homenagear todos os anos o nosso Relógio Municipal, e que os políticos não esqueçam: todas as horas ferem e a última mata!