sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A Rua Tapajós

A Rua Tapajós começa na Rua Dez de Julho, atravessa outras ruas e avenidas e chega à Rua Japurá, onde a denominação da via muda. Entretanto, algumas pessoas afirmam que seu percurso se estende até o Boulevard Amazonas.

Com relação à origem do nome, ainda não encontrei nenhum documento oficial que determine quem ou o que foi efetivamente homenageado. Existem duas hipóteses. A primeira é que o termo Tapajós seja uma homenagem direta aos povos indígenas Tapajós, uma das populações indígenas que habitavam a região do rio Tapajós, onde hoje se encontra o município de Santarém, no Pará, antes da colonização europeia.      A segunda possibilidade é uma homenagem a uma família de sobrenome Tapajós, a exemplo do que ocorre com outras denominações de vias públicas, como a Avenida Torquato Tapajós.

Ainda não consegui confirmar documentalmente a data exata em que a rua recebeu esse nome. Há indícios de que a denominação Rua Tapajós já existia em 1888, ano da inauguração da Igreja de São Sebastião. Naquela época, a via estava inserida no bairro de São Sebastião. O nome teria sido mantido no decreto municipal de 1894, o que, se confirmado pelos documentos originais, demonstra que a denominação é anterior à inauguração do Teatro Amazonas, ocorrida em 1896.

Existem registros de que, durante as primeiras décadas do século XX, consolidando-se essa denominação na década de 1950, a via passou a aparecer em documentos e no cotidiano de Manaus como Rua Portugal. Posteriormente, por iniciativa de vereadores da época, a denominação teria sido alterada novamente para Rua Tapajós, recuperando o nome tradicional daquela histórica ladeira do Centro de Manaus. A documentação dessa mudança ainda merece ser examinada com atenção.

A Rua Tapajós é uma das vias mais charmosas, carregadas de memória e estrategicamente situadas na capital amazonense. Ligando o coração histórico e cultural da cidade, nas proximidades do Largo de São Sebastião, a áreas residenciais   e de serviços em direção à Avenida Leonardo Malcher, ela reúne vestígios da Belle Époque, antigas residências, instituições tradicionais, estabelecimentos comerciais e serviços de saúde.

A seguir, apresento um compilado de informações sobre as diferentes facetas dessa conhecida rua de Manaus, reunindo referências históricas, edificações e lembranças que ajudam a compreender sua importância para a memória urbana da cidade.

Casarões, instituições e memória histórica - O trecho da Rua Tapajós entre Dez de Julho e Leonardo Malcher concentra importantes referências históricas e arquitetônicas do Centro. A rua preserva marcas do período áureo da borracha e de outras fases da evolução urbana de Manaus.

Entre os imóveis e locais que merecem destaque, estão: O casarão de esquina, conhecido como Seringal Hotel. O prédio da ADUA, ligado à Universidade Federal do Amazonas (UFAM). A sede do Luso Sporting Club, instituição tradicional da cidade. A casa do desembargador André Vidal de Araújo, pai da empresária e educadora Ritta de Cássia de Araújo Calderaro, esposa do jornalista Umberto Calderaro Filho, fundador do jornal A Crítica. O prédio da Divina Providência, onde também funcionou o Play Center e que atualmente abriga uma unidade da UNIP.

A escadaria da Rua Tapajós. Escondida na descida em direção à Avenida Leonardo Malcher, a famosa escadaria é uma das referências mais marcantes da rua. Com seus 36 lances e três patamares, ela integra a paisagem de uma Manaus que ainda guarda lembranças de outros tempos. Relatos históricos sugerem que sua construção remonta à época do Barão de São Leonardo. A escadaria representa, assim, uma verdadeira pausa na memória de uma cidade que se transformou profundamente ao longo dos anos.

A casa da família Madeira - Na ladeira da Rua Tapajós encontra-se a casa da família Madeira, um raro exemplar residencial remanescente de um antigo chalé de grandes dimensões. O imóvel preserva sua estrutura original entre dois quintais, constituindo uma importante referência da arquitetura residencial de outros tempos.

O mural dos vultos do Amazonas - Outro destaque é o mural pintado em uma das paredes da rua, retratando os fundadores da Academia Amazonense de Letras com base em uma fotografia de 1920. A pintura contribui para manter viva a memória de personalidades que participaram da formação cultural e intelectual do Amazonas.

As casas da Belle Époque - Várias casas antigas ainda resistem ao tempo, principalmente no trecho que vai até a esquina da Avenida Ramos Ferreira. São testemunhos de uma época em que Manaus experimentava as transformações econômicas, arquitetônicas e sociais impulsionadas pela riqueza da borracha.

Entre os estabelecimentos comerciais e serviços que ocupam a rua, destacam-se: Artesanato indígena e regional: a loja Etnia Amazônia, no número 19, dedicada a artigos que valorizam a ancestralidade e a memória regional, e o Artesanato da Jaci, no número 43.

Agências de turismo: nas proximidades do Teatro Amazonas, a Amazon Gero Tours, no número 27, oferece serviços relacionados a passeios e experiências turísticas na região.

Também merecem ser lembradas a casa do senhor Clearco Antony, atualmente ocupada por uma casa espírita, e a residência de um português situada no alto da ladeira da Tapajós.

Infelizmente, outras construções não tiveram a mesma sorte. A bela casa que deu lugar ao atual prédio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foi demolida, cedendo espaço a uma construção que, particularmente, considero pouco harmoniosa com a paisagem histórica. A fotografia do lançamento da pedra fundamental da sede do Luso Sporting Club ajuda a recordar aspectos dessa paisagem que já não existe.

As demolições e as transformações da rua - Ao lado do Colégio Adalberto Valle, existia uma vila, além do comércio do senhor Nogueira e de dona Edna e da casa da família do Carlinhos. Eram imóveis que faziam parte da vida cotidiana daquele trecho da Rua Tapajós.

Segundo minhas lembranças, todas essas construções foram derrubadas pelos padres franciscanos para a construção de um centro social. Posteriormente, a área teria sido destinada à locação, abrigando instituições de ensino e, mais recentemente, o Conselho Regional de Enfermagem (COREN).

É uma transformação que merece registro, pois, junto com as edificações, desapareceram referências da vida comunitária e da memória dos antigos moradores.

Quando a Rua Tapajós foi ligada à Avenida Leonardo Malcher - A rua também passou por importantes mudanças na infraestrutura urbana. Durante a administração do prefeito Josué Cláudio de Souza, pai, a Rua Tapajós recebeu recapeamento no trecho entre a Avenida Ramos Ferreira e o alto da ladeira.

Somente na administração do prefeito Paulo Pinto Nery, entretanto, teria sido feita a ligação com a Avenida Leonardo Malcher. Naquele local, existia um grande buraco por onde passava o Igarapé dos Remédios, conhecido popularmente pelos moradores como “Vala”.

A intervenção alterou a configuração daquele trecho e contribuiu para integrar melhor a rua ao sistema viário da região. É mais um exemplo de como a cidade foi sendo modificada, muitas vezes sem que se preservassem as referências físicas que ajudavam a contar sua história.

Escolas públicas e serviços de saúde - A Rua Tapajós também desempenha importante função educacional. Entre as escolas públicas nela localizadas, estão a Escola Estadual Frei Sílvio Vagheggi e a Escola Estadual Professor Antenor Sarmento Pessoa.

Depois da Avenida Leonardo Malcher, a paisagem apresenta outras características, com maior presença de estabelecimentos de saúde, serviços e infraestrutura urbana. Entre as referências dessa área estão: Hospital Rio Negro, situado no número 561, uma das referências hospitalares da região central de Manaus. Prodimagem Medicina Nuclear, no número 685, entre os estabelecimentos voltados à medicina diagnóstica.

Além desses serviços, a rua abriga restaurantes, lanchonetes e outros estabelecimentos comerciais. Durante o horário de funcionamento do comércio, o movimento de veículos e a disputa por vagas de estacionamento tornam o trânsito bastante intenso em determinados trechos.

Uma rua que merece ser lembrada - A Rua Tapajós não é apenas uma via de circulação. É parte da história de Manaus, com suas ladeiras, escadarias, casarões, instituições, escolas, estabelecimentos comerciais e lembranças de antigos moradores.

Algumas construções sobreviveram, outras desapareceram sob o avanço das transformações urbanas. Permanecem, contudo, as fotografias, os relatos e a memória daqueles que conheceram uma rua diferente da que vemos hoje.

Como memorialista, acredito que registrar essas histórias é uma maneira de preservar aquilo que o tempo e as demolições não deveriam apagar: a identidade de uma cidade construída também pelas experiências de seus moradores.

José Rocha — BLOGDOROCHA