A Rua Tapajós começa na Rua Dez de Julho, atravessa outras ruas e avenidas e chega à Rua Japurá, onde a denominação da via muda. Entretanto, algumas pessoas afirmam que seu percurso se estende até o Boulevard Amazonas.
Com relação à origem do nome, ainda não encontrei nenhum documento oficial que determine quem ou o que foi efetivamente homenageado. Existem duas hipóteses. A primeira é que o termo Tapajós seja uma homenagem direta aos povos indígenas Tapajós, uma das populações indígenas que habitavam a região do rio Tapajós, onde hoje se encontra o município de Santarém, no Pará, antes da colonização europeia. A segunda possibilidade é uma homenagem a uma família de sobrenome Tapajós, a exemplo do que ocorre com outras denominações de vias públicas, como a Avenida Torquato Tapajós.
Ainda não consegui
confirmar documentalmente a data exata em que a rua recebeu esse nome. Há
indícios de que a denominação Rua Tapajós já existia em 1888, ano da
inauguração da Igreja de São Sebastião. Naquela época, a via estava inserida no
bairro de São Sebastião. O nome teria sido mantido no decreto municipal de
1894, o que, se confirmado pelos documentos originais, demonstra que a
denominação é anterior à inauguração do Teatro Amazonas, ocorrida em 1896.
Existem registros
de que, durante as primeiras décadas do século XX, consolidando-se essa
denominação na década de 1950, a via passou a aparecer em documentos e no
cotidiano de Manaus como Rua Portugal. Posteriormente, por iniciativa de
vereadores da época, a denominação teria sido alterada novamente para Rua
Tapajós, recuperando o nome tradicional daquela histórica ladeira do Centro de
Manaus. A documentação dessa mudança ainda merece ser examinada com atenção.
A Rua Tapajós é uma
das vias mais charmosas, carregadas de memória e estrategicamente situadas na
capital amazonense. Ligando o coração histórico e cultural da cidade, nas
proximidades do Largo de São Sebastião, a áreas residenciais e de serviços em
direção à Avenida Leonardo Malcher, ela reúne vestígios da Belle Époque,
antigas residências, instituições tradicionais, estabelecimentos comerciais e
serviços de saúde.
A seguir, apresento
um compilado de informações sobre as diferentes facetas dessa conhecida rua de
Manaus, reunindo referências históricas, edificações e lembranças que ajudam a
compreender sua importância para a memória urbana da cidade.
Casarões,
instituições e memória histórica - O trecho da Rua Tapajós entre Dez de Julho e
Leonardo Malcher concentra importantes referências históricas e arquitetônicas
do Centro. A rua preserva marcas do período áureo da borracha e de outras fases
da evolução urbana de Manaus.
Entre os imóveis e
locais que merecem destaque, estão: O casarão de esquina, conhecido como
Seringal Hotel. O prédio da ADUA, ligado à Universidade Federal do Amazonas
(UFAM). A sede do Luso Sporting Club, instituição tradicional da cidade. A casa
do desembargador André Vidal de Araújo, pai da empresária e educadora Ritta de
Cássia de Araújo Calderaro, esposa do jornalista Umberto Calderaro Filho,
fundador do jornal A Crítica. O prédio da Divina Providência, onde também
funcionou o Play Center e que atualmente abriga uma unidade da UNIP.
A escadaria da Rua
Tapajós. Escondida na descida em direção à Avenida Leonardo Malcher, a famosa
escadaria é uma das referências mais marcantes da rua. Com seus 36 lances e
três patamares, ela integra a paisagem de uma Manaus que ainda guarda
lembranças de outros tempos. Relatos históricos sugerem que sua construção
remonta à época do Barão de São Leonardo. A escadaria representa, assim, uma
verdadeira pausa na memória de uma cidade que se transformou profundamente ao
longo dos anos.
A casa da família
Madeira - Na ladeira da Rua Tapajós encontra-se a casa da família Madeira, um
raro exemplar residencial remanescente de um antigo chalé de grandes dimensões.
O imóvel preserva sua estrutura original entre dois quintais, constituindo uma
importante referência da arquitetura residencial de outros tempos.
O mural dos vultos
do Amazonas - Outro destaque é o mural pintado em uma das paredes da rua,
retratando os fundadores da Academia Amazonense de Letras com base em uma
fotografia de 1920. A pintura contribui para manter viva a memória de
personalidades que participaram da formação cultural e intelectual do Amazonas.
As casas da Belle
Époque - Várias casas antigas ainda resistem ao tempo, principalmente no trecho
que vai até a esquina da Avenida Ramos Ferreira. São testemunhos de uma época
em que Manaus experimentava as transformações econômicas, arquitetônicas e
sociais impulsionadas pela riqueza da borracha.
Entre os estabelecimentos
comerciais e serviços que ocupam a rua, destacam-se: Artesanato indígena e
regional: a loja Etnia Amazônia, no número 19, dedicada a artigos que valorizam
a ancestralidade e a memória regional, e o Artesanato da Jaci, no número 43.
Agências de
turismo: nas proximidades do Teatro Amazonas, a Amazon Gero Tours, no número
27, oferece serviços relacionados a passeios e experiências turísticas na
região.
Também merecem ser
lembradas a casa do senhor Clearco Antony, atualmente ocupada por uma casa
espírita, e a residência de um português situada no alto da ladeira da Tapajós.
Infelizmente,
outras construções não tiveram a mesma sorte. A bela casa que deu lugar ao
atual prédio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foi demolida, cedendo espaço
a uma construção que, particularmente, considero pouco harmoniosa com a
paisagem histórica. A fotografia do lançamento da pedra fundamental da sede do
Luso Sporting Club ajuda a recordar aspectos dessa paisagem que já não existe.
As demolições e as
transformações da rua - Ao lado do Colégio Adalberto Valle, existia uma vila,
além do comércio do senhor Nogueira e de dona Edna e da casa da família do
Carlinhos. Eram imóveis que faziam parte da vida cotidiana daquele trecho da
Rua Tapajós.
Segundo minhas lembranças,
todas essas construções foram derrubadas pelos padres franciscanos para a
construção de um centro social. Posteriormente, a área teria sido destinada à
locação, abrigando instituições de ensino e, mais recentemente, o Conselho
Regional de Enfermagem (COREN).
É uma transformação
que merece registro, pois, junto com as edificações, desapareceram referências
da vida comunitária e da memória dos antigos moradores.
Quando a Rua
Tapajós foi ligada à Avenida Leonardo Malcher - A rua também passou por importantes
mudanças na infraestrutura urbana. Durante a administração do prefeito Josué
Cláudio de Souza, pai, a Rua Tapajós recebeu recapeamento no trecho entre a
Avenida Ramos Ferreira e o alto da ladeira.
Somente na
administração do prefeito Paulo Pinto Nery, entretanto, teria sido feita a
ligação com a Avenida Leonardo Malcher. Naquele local, existia um grande buraco
por onde passava o Igarapé dos Remédios, conhecido popularmente pelos moradores
como “Vala”.
A intervenção
alterou a configuração daquele trecho e contribuiu para integrar melhor a rua
ao sistema viário da região. É mais um exemplo de como a cidade foi sendo
modificada, muitas vezes sem que se preservassem as referências físicas que
ajudavam a contar sua história.
Escolas públicas e
serviços de saúde - A Rua Tapajós também desempenha importante função
educacional. Entre as escolas públicas nela localizadas, estão a Escola
Estadual Frei Sílvio Vagheggi e a Escola Estadual Professor Antenor Sarmento
Pessoa.
Depois da Avenida
Leonardo Malcher, a paisagem apresenta outras características, com maior
presença de estabelecimentos de saúde, serviços e infraestrutura urbana. Entre
as referências dessa área estão: Hospital Rio Negro, situado no número 561, uma
das referências hospitalares da região central de Manaus. Prodimagem Medicina
Nuclear, no número 685, entre os estabelecimentos voltados à medicina
diagnóstica.
Além desses
serviços, a rua abriga restaurantes, lanchonetes e outros estabelecimentos
comerciais. Durante o horário de funcionamento do comércio, o movimento de
veículos e a disputa por vagas de estacionamento tornam o trânsito bastante
intenso em determinados trechos.
Uma rua que merece
ser lembrada - A Rua Tapajós não é apenas uma via de circulação. É parte da
história de Manaus, com suas ladeiras, escadarias, casarões, instituições,
escolas, estabelecimentos comerciais e lembranças de antigos moradores.
Algumas construções
sobreviveram, outras desapareceram sob o avanço das transformações urbanas.
Permanecem, contudo, as fotografias, os relatos e a memória daqueles que
conheceram uma rua diferente da que vemos hoje.
Como memorialista,
acredito que registrar essas histórias é uma maneira de preservar aquilo que o
tempo e as demolições não deveriam apagar: a identidade de uma cidade
construída também pelas experiências de seus moradores.
José Rocha —
BLOGDOROCHA

