sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

DANDO UM ROLÉ PELO CENTRÃO HISTÓRICO DE MANAUS




Fevereiro de 2026. A chuva caía grossa, pesada, daquela que só Manaus sabe mandar, quando decidi enfrentar o centrão histórico. Ali, entre as ruas Marechal Deodoro, Guilherme Moreira, Marcílio Dias, Doutor Moreira, Beco da Indústria e Theodureto Souto, cada palmo parece ser disputado a tapa por camelôs, lojas chinesas, confecções populares e quinquilharias que brotam como plantas de verão.

É o Meca do povo de baixa renda — e eu me incluo nele com gosto — que foge dos shoppings como o diabo da cruz, assustado com preços altos e marcas que só servem para deixar o bolso vazio. Minha missão era simples: encontrar uma capa de chuva para o meu netinho de seis anos.

Na Guilherme Moreira, entrei na Galeria Center (o velho Bank of London), aquele labirinto simpático de dezenas de lojinhas que desemboca no famoso Shopping Bate Palmas, já na Marechal Deodoro. Ali, as lembranças me tomaram de jeito: meus primeiros empregos na Central de Ferragens e na Souza Arnaud; o entra-e-sai dos Correios; o prédio da J. G. Araújo; a antiga Drogaria Rosas…

Nos tempos de ouro da Zona Franca, aquela artéria vivia “cheia até a tampa” de turistas nacionais famintos por importados.

Hoje, continua cheia — mas só de manauaras em busca do mais barato, mesmo que a qualidade venha a reboque.

Segui adiante e virei a esquerda na Theodureto Souto. Foi quando avistei um turista de mais de dois metros de altura. Branco, sardento, vestido como quem vai enfrentar a selva. Um gigante que parecia deslocado daquele caos comercial. Observei com curiosidade.

Aquela área, convenhamos, já não é ponto turístico. Os casarões da Belle Époque resistem como velhos guerreiros, mas são engolidos pela muvuca de barracas, lonas coloridas, pregões e improvisos. Imaginei que o gringo estivesse indo em direção à Praça Tenreiro Aranha ou ao Mercado Adolpho Lisboa.

Mas não.

Ele parou, imóvel, diante de um casarão verde, e começou a fotografar com a atenção de quem reencontra um tesouro escondido.

Era o imponente Casarão da Rua Theodureto Souto, de 1913. Por décadas, funcionou ali a agência do Banco Itaú, instalada desde 1976. Hoje, como tantos prédios históricos, abriga uma loja de comerciantes chineses. Ainda assim, resiste altivo — e chamou o olhar daquele turista como uma joia silenciosa.

Consultei um especialista para entender melhor o encanto daquela construção. Ele explicou:

“Edificado por volta de 1913, o casarão integra o conjunto de construções erguidas por comerciantes da era da borracha, quando o Centro era o coração econômico de Manaus. Possui dois pavimentos e um porão alto — solução típica para evitar enchentes e garantir ventilação.

A fachada é revestida de azulejos em padrão geométrico, técnica inspirada no luso-brasileiro e muito usada na época.

Os gradis em ferro trabalhado seguem o estilo Art Nouveau, com curvas orgânicas e arabescos delicados.

Os vãos das janelas são amplos, e as esquadrias originais reforçam a elegância da construção.

Em 1976, o imóvel foi adaptado para receber a agência do Banco Itaú, preservando sua estrutura ao longo das décadas.

Tombado em 1988 como Patrimônio Histórico do Estado, é um dos mais importantes exemplares do Art Nouveau adaptado ao clima amazônico.”

Para pesquisadores, escritores e cronistas, aquele casarão representa três memórias essenciais:

A transição da opulência da borracha para a reinvenção econômica de Manaus no século XX.

A nova vocação dos casarões, reocupados por bancos e comércios ao longo das décadas.

A afetividade profunda, pois gerações de manauaras passaram por ele todos os dias, sem perceber que faz parte de sua própria história.

Vendo o turista fotografar, tive um estalo:

O Centro precisa continuar cheio de gente — esse é seu espírito. Mas cheio de dignidade, organização e respeito pela memória.

Sonho com camelôs padronizados, fachadas limpas, fiação subterrânea, prédios restaurados e um centrão onde os manauaras raiz voltem a caminhar, admirar e sentir orgulho da própria história.

         Segundo o meu amigo de longas datas, o Dr. Fernando Gonçalves, este prédio pertenceu à firma J. S. Amorim (1913–1976), tendo sido construído no local onde anteriormente funcionava a Mercearia 103 Velho. Com o encerramento das atividades da J. S. Amorim, o imóvel foi vendido ao Banco Itaú em 1976.

        O banco pretendia demolir o edifício, mas ele acabou sendo salvo graças à intervenção do então Secretário de Cultura, Joaquim Marinho, que apresentou uma petição ao governador Henoch Reis (1975–1979) solicitando a preservação do imóvel — e o governador assinou o documento sem sequer ler.

Observação: O Banco Itaú demoliu o antigo Cinema Guarany para construir aquela porcaria que hoje fica na esquina da Getúlio Vargas com a Sete de Setembro.

O turista viu. Eu vi. E a cidade inteira ainda pode ver — basta querer.




Fotos: José Rocha

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

As Pedras de Lioz

 



Quem passa depressa pelo Centro Histórico talvez nem perceba. Mas ali, diante do imponente Paço da Liberdade, repousa um tesouro que poucos manauaras conhecem — e que muitos, sem saber, pisam todos os dias. Falo das antigas Pedras de Lioz, trazidas de Portugal nos porões dos navios coloniais, usadas como lastro para cruzar o Atlântico.

Os historiadores lembram que “os navios de arribação chegariam vazios se não trouxessem pedras; flutuariam sem lastro, pois levavam mais do que traziam”. Assim, essas rochas viajaram mais de 6 mil quilômetros até se tornarem parte da paisagem da Manaus da Belle Époque.

Até hoje, elas resistem: diante do Paço, no entorno do Teatro Amazonas, do Palácio da Justiça, do Palácio Rio Negro, do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, da Prefeitura de Manaus e da Igreja dos Remédios. São testemunhas silenciosas do apogeu e das feridas do tempo.

Mas o que muitos ignoram — e eu próprio só descobri anos atrás — é que essas pedras escondem algo ainda mais antigo do que a nossa história urbana. Um segredo que estava debaixo de nossos pés havia séculos.

O Achado Que Revelou o Passado da Terra

Quando a Prefeitura de Manaus iniciou a restauração do Paço da Liberdade, na gestão de Serafim Corrêa, chamou para assessorar os trabalhos o saudoso geólogo Frederico Cruz — homem simples, culto, apaixonado pela ciência e pela cidade. Hoje, já falecido, deixou uma lacuna não apenas entre os pesquisadores, mas entre todos que tiveram a sorte de ouvi-lo explicar a vida que existe dentro das pedras.

Cruz relatava que não há registros definitivos das jazidas portuguesas que originaram o Lioz, mas tudo indica que eram regiões banhadas por mares antigos. Explicava, com sua voz calma e didática, que tanto o mármore quanto o calcário vêm de sais marinhos — mas o mármore foi aquecido, tornando-se vítreo e brilhante, enquanto o calcário permanece opaco.

“É por isso que o mármore reluz e o calcário não. Mas o Lioz, ah… o Lioz guarda memórias”, dizia ele.

Durante os testes no material retirado da praça do Paço, Cruz percebeu que algo estava diferente: a reação química não era típica. Levou a pedra ao microscópio — e ali, diante de seus olhos, surgiu a surpresa que mudaria nossa compreensão do Centro de Manaus.

Eram estromatólitos.

Estruturas formadas por algas cianofíceas, algumas das primeiras formas de vida do planeta. Seres que existiram há centenas de milhões de anos — em alguns locais do mundo, há até bilhões.

Dentro daquelas pedras, colocadas ali para servir de degraus, estava a memória da Terra primitiva.

Um Tesouro Paleontológico no Coração de Manaus

O jornal “A Crítica” registrou o achado em 2004, destacando que o calçamento do Centro Histórico escondia há quase dois séculos um patrimônio paleontológico raríssimo. Enquanto cidades constroem museus para proteger tais formações, Manaus, sem saber, as incorporou à sua arquitetura.

Hoje, ao observar de perto os degraus do Paço, é possível ver — como mostram as fotos — os círculos, as linhas onduladas, as manchas e padrões que são a assinatura dos estromatólitos.

É como ver a vida antes da vida, impressa em uma pedra.

Um presente do passado profundo para a Manaus moderna.

A Conversa com o Saudoso Rogélio Casado

Em conversa que tive, há alguns anos, com o saudoso médico Rogélio Casado — e não falávamos de psiquiatria, mas de Manaus, essa paixão comum — comentávamos a tristeza de saber que muita gente não reconhece a importância desse material. Há quem jogue cimento por cima, quem arranhe, quem simplesmente ignore.

É triste, sim. Mas é também um chamado.

O Nosso Dever com a Cidade

A partir de agora, quem ler esta crônica e observar as fotos jamais verá aquelas pedras como simples degraus. Ali não há apenas calçamento. Há história, memória, ciência e vida antiga. Há o legado de Portugal, há o testemunho do tempo, há o trabalho do saudoso Frederico Cruz — e há também a lembrança das conversas inspiradoras com o saudoso Rogélio Casado.

Que todos passem a respeitar e preservar as Pedras de Lioz.

Pois, sob nossos pés, repousam as algas cianofíceas — alguns dos primeiros seres vivos a habitar este planeta.

E nós caminhamos sobre elas todos os dias.

Fotos: José Rocha

Fontes: Jornal A Crítica/ BLOGDOROCHA/ChatGPT/Google.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

REVITALIZAÇÃO DO IGARAPÉ DO MINDÚ ENTRE AS AVENIDAS DARCY VARGAS E CONSTANTINO NERY

Por Jose Rocha

Os manauaras raiz — nós, os sessentões e setentões da minha geração — carregamos no peito um valor afetivo profundo pelo Igarapé do Mindu. Ali, entre os verdes de outrora, vivemos parte da nossa juventude. Foi lá que tomamos banho nos lendários balneários da Estada do V8 e, sobretudo, no querido Parque Dez de Novembro. Por isso, qualquer iniciativa dos gestores públicos voltada à revitalização daquele perímetro sempre será recebida com alegria por todos nós.

Não nos interessa discutir licitação, custo da obra ou quem irá executá-la. Esse mérito deixo para outros. O que me move, hoje, é apenas enaltecer a satisfação de ver um projeto que reacende memórias tão preciosas.

Há muitos anos venho registrando em postagens as histórias dos banhos do V8 e do Parque Dez — fotografias antigas desde a inauguração até a destruição causada pelo progresso apressado, que não respeita ninguém, muito menos o meio ambiente e a nossa memória coletiva.

O Igarapé do Mindú nasce no Bairro Cidade de Deus, próximo à Reserva Florestal Adolpho Ducke, e desce a cidade rumo ao sudeste até encontrar o Igarapé dos Franceses, no Parque dos Bilhares. São vinte quilômetros de extensão atravessando Manaus.

O projeto atual alcança apenas uma pequena parte desse percurso: inicia na ponte da Avenida Darcy Vargas (por baixo do viaduto), segue pelo antigo Balneário do Parque Dez e vai até as Pontes dos Bilhares, próximo ao Millennium Shopping.

A proposta tem como principal objetivo reduzir as alagações causadas tanto pelas chuvas quanto pelas construções indevidas que impermeabilizam o solo, impedindo que a água chegue naturalmente ao igarapé. Soma-se a isso o antigo problema do descarte inadequado de lixo, que dificulta a passagem da água e eleva seu nível.

A obra prevê a desapropriação de cerca de setenta imóveis comerciais e residenciais. Haverá áreas verdes com grama, ilhas de paisagismo com árvores e arbustos, além de calçadas padronizadas para garantir acessibilidade. Também está prevista a criação de espaços de lazer com piso intertravado — que melhora a drenagem — incluindo academias ao ar livre, playground, bancos, canteiros contemplativos e banheiro público. Tudo acompanhado de sinalização horizontal e vertical.

Quem desejar detalhes mais técnicos pode consultar o Memorial Descritivo em PDF disponível no site da Prefeitura de Manaus.

Quanto a mim, mantenho o que escrevi no início: não entrarei no mérito técnico-político. Prefiro registrar apenas a minha alegria ao ver esse projeto sair do papel.

E, quando estiver concluído, farei questão de caminhar por ali com os meus netos. Quero mostrar a eles o lugar onde o avô viveu parte da sua juventude, onde as águas eram limpas — até se transformarem, muitos anos depois, em esgoto "a céu aberto".

Talvez, com essa revitalização, possamos reacender a esperança de que a memória de Manaus ainda pode ser cuidada, respeitada e transmitida às novas gerações.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Plano de Conservação, Zeladoria e Educação Patrimonial do Centro Histórico, promovido pelo IPHAN

Por José Rocha


Hoje, participei de um evento no Palacete Provincial — na nossa querida Praça Heliodoro Balbi, a eterna Praça da Polícia — durante o lançamento do Plano de Conservação, Zeladoria e Educação Patrimonial do Centro Histórico, promovido pelo IPHAN Manaus. Senti-me profundamente honrado ao acompanhar as explanações dos técnicos e a participação atenta do público, que, ao final, somou ainda mais valor ao encontro. Momentos assim renovam o meu sentimento de responsabilidade e amor pela preservação do patrimônio material e imaterial da minha cidade.


Tive a oportunidade de me manifestar rapidamente ao microfone, apresentando-me como editor do BLOGDOROCHA (www.jmartinsrochablogspot.com), trabalho que realizo desde 2006, sempre dedicado à história, às memórias e às lutas de Manaus. Coloquei-me, como sempre, à disposição para divulgar as ações da equipe técnica que está em nossa capital para implantar o Plano — afinal, tudo o que diz respeito ao nosso Centro Histórico merece alcançar o maior número possível de manauaras.


Entretanto, permaneceu uma dúvida entre os presentes: foi mencionado que toda essa iniciativa decorre de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público Federal, e que o IPHAN contratou uma empresa — cujo nome não ficou claro — para executar o trabalho. Assim, ainda não sabemos exatamente de onde virão os recursos que sustentarão esse grande empreendimento.


Nesse ponto, a fala que mais tocou todos nós veio do Dr. Moacir Pereira Batista, Juiz de Direito titular da Vara Especializada em Meio Ambiente e Questões Agrárias.                O magistrado fez um depoimento emocionado: falou da infância humilde que viveu em Manaus, do amor profundo que guarda pelo Centro Histórico — onde nasceu — e da dedicação diária para vê-lo recuperado, digno e respeitado.


Ele explicou que a VEMAQA administra valores arrecadados por multas aplicadas a infratores ambientais, e que parte desses recursos poderá ser destinada à recuperação de áreas importantes da nossa cidade, incluindo o Centro Histórico. Foi uma notícia que trouxe esperança real para todos nós.


Ao final do evento, aproximei-me do Dr. Moacir e apresentei-lhe o projeto que desenvolvo para a recuperação da antiga Escadaria do Barão, na Rua Tapajós. O juiz pediu que eu encaminhasse o projeto à VEMAQA, para que seja avaliada a possibilidade jurídica de direcionar recursos para viabilizar essa revitalização. Saí dali com o coração aquecido: talvez estejamos mais perto de transformar esse sonho em realidade.
Nossa equipe irá concluir a versão final do projeto e enviá-lo o quanto antes, torcendo para que sejamos agraciados com essa oportunidade. 

Aproveitaremos para incluir, também, a necessária recuperação da histórica Casa dos Madeira, construída por uma tradicional família portuguesa e hoje quase em ruínas. Ela integra um conjunto arquitetônico precioso ao lado da Escadaria do Barão, nos fundos do antigo Palacete do Barão de São Leonardo — atual Instituto Benjamin Constant —, cuja história já relatei no BLOGDOROCHA e que também foi tema de texto do jornalista Evaldo Ferreira, do Jornal do Commercio.

JOSÉ ROCHA: PROJETO “ESCADADARIA DOS POVOS INDÍGENAS DA AMAZÔNIA”
Editor do BLOGDOROCHA, no sítio eletrônico:
www.jmartinsrocha.blogspot.com
Aproveito este espaço para agradecer ao amigo Carbajal Gomes, por ter cedido, ontem, o espaço da parte superior do anexo do Bar Caldeira, onde realizamos uma reunião de amigos que amam a cidade de Manaus.
Levei a proposta de reunirmos um grupo de pessoas dispostas a trocar ideias e pensar ações concretas em prol da nossa cidade. A princípio, apresentei um pequeno projeto para recuperação da Escadaria da Rua Tapajós, ao lado do Instituto Benjamin Constant. Vários amigos abraçaram a ideia e fomos além: decidimos iniciar o processo de criação da AMA – Associação dos Amigos de Manaus, destinada a contribuir com pequenas ações e apresentar sugestões ao Prefeito e ao Governador, sempre em defesa do nosso Centro Histórico.
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HISTÓRICO
Quando os portugueses chegaram à região do atual Centro Histórico de Manaus para fundar o Forte de São José da Barra do Rio Negro, em 1669 — ano considerado como o marco de fundação da cidade —, já habitavam a área diversas etnias indígenas: Passés, Barés, Tarumãs, Mundurucus, Manaós, entre outras.
É por isso que, até hoje, os nativos manauaras são chamados de Barés: caboclos de pele morena, cabelos pretos, olhos amendoados e estatura mediana.
Apesar dessa rica herança ancestral, Manaus possui poucos espaços e homenagens dedicadas aos povos indígenas: o Museu do Índio, a Praça Dom Pedro II (onde há um cemitério indígena) e algumas poucas ruas e avenidas.
O Barão de São Leonardo (1817–1894), homem riquíssimo e 1º vice-presidente da Província do Amazonas (1868), era dono de toda a área onde hoje se encontra a escadaria. Construiu o então Palacete de São Leonardo — atual Instituto Benjamin Constant — com muros altos e uma escadaria que dava acesso a uma represa localizada no cruzamento da Rua Tapajós com a Avenida Leonardo Malcher. Ali, moradores buscavam água límpida para beber. Esse igarapé, hoje canalizado, desce desde o Boulevard Amazonas, passando pela Vila Paraíso, onde ainda é conhecido como “Vala”.
A escadaria original remonta, presumivelmente, a 1868, sendo mais antiga que o Teatro Amazonas (1896) e que a escadaria da Igreja de São Sebastião (1888). Seus patamares diante da Casa dos Madeira foram destruídos com o tempo e reconstruídos em madeira, e, posteriormente, em cimento armado, em 1968, pelo prefeito Paulo Pinto Nery.
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A PROPOSTA DE REVITALIZAÇÃO
Morador antigo da Ladeira da Rua Tapajós, o blogueiro José Rocha (Rochinha), preocupado com o estado de abandono da escadaria, decidiu mobilizar moradores e amigos para revitalizá-la. Um vídeo foi produzido e publicado no YouTube.
Abraçaram inicialmente o projeto: Socorro Papoula (atriz), Maíra Dessana (professora e musicista), Bruno (arquiteto), Júlio (músico do Raízes Caboclas), Bepi Sarto (ex-presidente do IPHAN), além das famílias Madeira Dutra e Garantizado.
A atriz Socorro Papoula sugeriu que a escadaria fosse transformada em homenagem aos povos indígenas da Amazônia, com azulejos contendo grafismos indígenas em cada lance de escada.
A inspiração veio da famosa Escadaria Selarón, entre Santa Teresa e Lapa, no Rio de Janeiro, que se tornou ponto turístico internacional.
Nossa versão Baré também poderá tornar-se um marco turístico, rendendo fotografias, orgulho aos moradores e valorização para todo o Centro Histórico.
O projeto inclui:
• Murais indígenas pintados por artistas locais nos paredões;
• Canteiros com plantas resistentes ao calor, sol e umidade;
• Recuperação estrutural;
• Instalação de grades de apoio em ferro fundido;
• Ambientação respeitando critérios do IPHAN, sobretudo na parte superior histórica.
Será uma homenagem justa aos povos indígenas que habitavam a região milhares de anos antes da fundação da cidade.
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LOCALIZAÇÃO
Quem desce pela Avenida Leonardo Malcher encontra, logo após a depressão do terreno, a famosa Ladeira da Rua Tapajós, conhecida por sua forte inclinação. Ao lado direito, situa-se a escadaria, que inicia em frente à residência da família Madeira (nº 345) e vai até o portão de entrada do Colégio Frei Sílvio Vagheggi/Instituto Benjamin Constant.
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A ESCADARIA
A escadaria possui duas partes distintas:
1. Parte inferior (17 degraus)
Construída em cimento armado, de forma irregular, com dois patamares improvisados, contrastando com a parte superior histórica.
2. Parte superior (23 degraus)
Degraus largos, nivelados e com pedras em sua base — obra primorosa dos antigos construtores da cidade.
Atualmente, encontra-se:
• Tomada por mato e lixo;
• Com pedras soltas;
• Com o muro de pedras sujo e abandonado;
• Inseguros para alunos, idosos e transeuntes que preferem caminhar pela rua, disputando espaço com veículos, inclusive caminhões.
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O QUE SERÁ FEITO
A proposta prevê:
• Pavimentação com pisos hidráulicos com grafismos indígenas desde a casa nº 365 (Zigomar Madeira/Salete Sarapeão) até o início da escadaria;
• Criação de canteiro de plantas ao longo do muro;
• Pintura de mural indígena no muro de pedras por artista local;
• Aplicação de azulejos com grafismos indígenas nos 13 primeiros degraus;
• Restauração e, se aprovado pelo IPHAN, aplicação de azulejos também na parte superior;
• Plantio de espécies ornamentais;
• Instalação de grades em ferro fundido para apoio e segurança.
Caso a Prefeitura não execute o projeto, o grupo buscará alternativas:
• Bingos, rifas e eventos;
• Livro de Ouro;
• Apoio de escolas e entidades da área;
• doações de materiais.
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GRUPO DE TRABALHO
Inicialmente composto por:
• José Rocha
• Socorro Papoula
• Maíra Dessana
• Bruno (arquiteto)
• Bepi Sarto
• Júlio Raízes
As senhoras Conceição e Suely Garantizado e o arquiteto Tony Garantizado também manifestaram apoio.
José Rocha disponibiliza sua residência como base administrativa, equipada com computador, impressora multifuncional e internet de fibra óptica para organização do projeto.
A 1ª reunião ocorreu no espaço cedido por Carbajal Gomes, no anexo superior do Bar Caldeira — produtiva e repleta de ideias.
A próxima visita técnica será realizada no sábado, na própria escadaria, seguida de confraternização na histórica casa de madeira do saudoso luthier Rochinha.
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AGRADECIMENTO FINAL
Gratidão a todos os homens e mulheres de boa vontade que abraçaram a causa e desejam ver Manaus e seu Centro Histórico tratados com o respeito que merecem.



Grupo quer recuperar a ‘Escadaria do Barão’ e criar ponto turístico

Em: 1 de dezembro de 2022

Quem sobe a Rua Tapajós, a partir da av. Leonardo Malcher, não pode deixar de ver, no lado direito, uma longa escadaria tendo pedras como base. A escadaria é secular, está bastante deteriorada, mas se depender de um grupo de moradores da Tapajós, tendo à frente o pesquisador e blogueiro José Rocha, a construção deverá se tornar um ponto turístico de Manaus.
“Toda essa área aqui pertenceu a Leonardo Ferreira Marques, o barão de São Leonardo. Cearense, Leonardo Ferreira foi o primeiro vice-presidente da província do Amazonas entre 24 de agosto e 26 de novembro de 1868. Ele mandou construir o Palacete de São Leonardo, adquirido depois pelo então presidente da província Theodureto de Faria Souto (1884) para ser o Museu Botânico do Amazonas. No Palacete funcionou posteriormente o Instituto Benjamin Constant”, contou Rocha.
Quem passa pelas ruas próximas ao prédio não consegue ver, mas suas laterais e a parte de trás são protegidas por imenso muro de pedras.
“Acredito que o barão, quando mandou construir esse muro, aproveitou para fazer a escadaria de pedras, que levava até o igarapé, hoje coberto pela continuação da Tapajós com a Leonardo Malcher. No ano em que cheguei aqui, em 1968, ou seja, cem anos depois de o barão ter sido vice-presidente, o primeiro lance da escadaria ainda existia, mas o segundo havia sido substituído por uma escadaria de madeira, sempre restaurada pelos moradores que iam se abastecer de água no igarapé”, lembrou.
Quando Paulo Pinto Nery foi prefeito de Manaus, entre 1965 e 1972, ele mandou fazer a ligação da Tapajós com a Leonardo Malcher e o igarapé passou a correr por canos, sob a pista. Também completou a escadaria quase no estilo da original.
Barão de São Leonardo, até hoje suas construções permanecem em pé Aqui começa a escadaria original e o muro da época do barão
Casarão de 1906
Rocha recorda que a famosa ladeira da Rua Tapajós, no passado, servia de testes de direção para candidatos à carteira de habilitação do DETRAN.
“E foi palco de muitos acidentes, pois, acredite, tinha mão e contramão”, revelou.
A escadaria acompanha praticamente toda a ladeira. Ela começa bem em frente à residência da família Madeira, um casarão de 1906, e segue até o portão de entrada dos alunos e professores do Colégio Frei Silvio Vagheggi/Benjamin Constant.
A construção possui duas partes distintas. A primeira, feita de cimento armado, é constituída por 17 degraus e dois patamares de formato irregular, sem a preocupação com a metragem de cada degrau. São quatro degraus iniciais e o primeiro patamar bem em frente ao portão principal do casarão dos Madeira. Depois seguem mais 13 degraus e o segundo patamar, no formato de um L, na entrada lateral do casarão.
“A segunda parte possui 23 degraus. É original, da época do barão, bem como o paredão que integra o muro do entorno do colégio. Os degraus são largos, bem elaborados e nivelados, com pedras em sua base. Uma obra-prima feita pelos nossos antepassados, pois naquela época as construções eram para durar, construídas com esmero e dedicação”, explicou Rocha.
Atualmente a escadaria encontra-se em péssimo estado de conservação, cheia de mato e lixo em toda a sua extensão, além de ter buracos e algumas pedras haverem se deslocado de seus lugares, bem como o muro está bastante sujo dando um visual deprimente ao local.
“Isso força as pessoas que passam por aqui, principalmente os idosos, a preferirem andar pela rua enfrentando a movimentação constante dos carros”, lamentou.
Grafites nos muros
Rocha, primeiro da direita, com o grupo de moradores que deseja restaurar a escadaria Escadaria original mandada construir há mais de 150 anos
Agora um grupo formado por Rocha, o Grupo Escada, com Socorro Papoula (atriz), Maíra Dessana (professora e musicista), Bruno Pantoja (arquiteto), Júlio Lira (músico do Raízes Caboclas), Bepi Sarto (ex-presidente do Iphan), Carbajal Gomes (empreendedor), além das famílias Madeira e Garantizado, quer revitalizar a escadaria. Uma das sugestões, dada por Socorro, é colocar azulejos em cada lance da escada contendo grafismos indígenas, tipo a escadaria Seláron, no Rio de Janeiro, que virou um espaço instagramável da cidade maravilhosa.
“Também queremos mandar fazer grafites nos paredões, e colocar canteiros floridos e corrimão de cima abaixo”, avisou Rocha.
O projeto deve começar a partir da calçada da casa número 365, onde morou a família do escritor Márcio Souza e o grupo Raízes Caboclas realizava ensaios. Seriam assentados pisos hidráulicos até a entrada onde há um estacionamento, seguindo adiante depois dessa entrada até o início da escadaria, no qual seria colocado o primeiro canteiro. No muro do casarão dos Madeira seria pintado o primeiro grafite. Os 13 primeiros degraus receberiam os azulejos. O começo da escadaria original receberia outro canteiro.
“A parte original da escadaria, histórica, bem como o paredão ao seu lado, seriam restaurados. Ainda não sei se os degraus podem receber os azulejos ou o paredão ser grafitado. Pretendemos levar esse projeto às instituições para que nos ajudem, mas caso não nos atendam, nós mesmos realizaremos bingos e Livro de Ouro, para arrecadar doações, além de pedirmos apoio de empresas e instituições daquela área”, adiantou.
Enquanto o projeto de Rocha e demais moradores da Rua Tapajós não sai do papel, vale uma visita ao local para conhecer um pouco da história de Manaus e, se possível, vir a ajudar na sua restauração. 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

TIA NAZINHA SPENCER, DA RUA FREI JOSÉ DOS INOCENTES

Crônica Baré de José Rocha

Muitos anos atrás, fui convidado para participar de um bingo na Rua Frei José dos Inocentes, no centro antigo de Manaus. Naquela tarde quente, de cadeiras na calçada e vizinhança unida, tive a grata satisfação de conhecer a inesquecível Tia Nazinha. Fiquei na torcida para que ela ganhasse o tão cobiçado aparelho de televisão, mas a sorte, naquela noite, preferiu brincar de esconde-esconde.

Na semana seguinte, porém, o empresário Augusto — proprietário da Máquinas e Equipamentos — chamou-me para fazermos uma surpresa: entregar a ela uma TV novinha em folha. A alegria dela parecia iluminar a rua inteira. Sua garra, o amor pelo samba e pelo carnaval contagiam qualquer um que tenha o privilégio de cruzar o seu caminho. Tia Nazinha é, em essência, a cara viva da nossa cidade.

Sempre sonhei entrevistá-la e registrar sua história no nosso querido BLOGDOROCHA, mas o encontro nunca se concretizou. Por isso, aproveito o belo trabalho do jornalista Paulo André Nunes, do Jornal A Crítica, para prestar-lhe esta homenagem no coração do mês de carnaval.

Nascida na década de 1930, em Manaus, filha de pais barbadianos (da ilha de Barbados, na América Central), Tia Nazinha já passou dos cem anos de idade — e está lúcida como poucas, falando com firmeza, memória afiada e uma vitalidade que impressiona. A vida, no entanto, não lhe foi fácil: criada em casa de família, sofreu maus-tratos, trabalhando como se fosse escrava, chegando a ter o corpo marcado com ferro quente na altura dos seios — cicatrizes que o tempo não conseguiu apagar.

Casou-se com Francisco Marques de Carvalho, com quem teve 18 filhos (8 ainda vivos), além de 50 netos e 58 bisnetos. Foi cozinheira e lavadeira de muitos políticos, batalhando como guerreira para criar sua família numerosa.

Moradora histórica do centro, tornou-se a figura mais querida e festejada da Rua Frei José dos Inocentes. E não é para menos: Tia Nazinha foi a primeira baiana da Escola de Samba Aparecida, onde desfilou por 36 anos. Nunca deixou de participar, nem mesmo depois do acidente de 2014, quando sofreu uma queda de ônibus e ficou com sequelas no joelho.

Certa vez declarou ao jornal:

“Sou Aparecida e amo meu bairro e minha escola de samba até a morte. No dia do desfile eu fico boa e me apresento como todos os anos. Nem que seja em cadeira de rodas, eu vou. Depois, se precisar, eu vou para o hospital.”

Aos quinze anos, já brilhava nos blocos de sujo da Avenida Eduardo Ribeiro:

“Fazíamos instrumentos como o tambor e o tan-tan. Queimávamos jornais para esquentar os tambores e o xeque-xeque, e as pessoas saíam cantando. Era Carnaval. Quantas saudades desse tempo. Manaus é Manaus, né, maninho? Uma história abençoada por Deus.”

Participou também das escolas Unidos da Selva e Em Cima da Hora, hoje extintas, mas imortalizadas em sua memória afetiva.

Declarações que guarda como pedaços de um tempo que não volta:

·        “Não é mais aquele Carnaval. Hoje só se vê político jogando dinheiro fora, colocando fantasias luxuosas. Pobre desce no chão com a fantasia comprada com o seu salário mínimo.”

·        “O Carnaval do passado era lindo e maravilhoso, mas também era uma guerra entre Aparecida e Vitória Régia. As pessoas brigavam, tinham amor e garra pela escola. E não se falava em dinheiro.”

·        “Sem as baianas, as agremiações não são nada. Tem que dar água para elas na hora do desfile.”

E completava com fé inabalável:

“Sou devota de Nossa Senhora Aparecida, Virgem Mãe. Todos os dias às 3h eu rezo e tiro um terço ao deitar. Rezo por todos — imprensa, autoridades, pelo meu presidente da escola. Que Deus nos proteja. Desejo um bom Carnaval a todos e que Jesus nos abençoe.”

E é com imensa alegria que registro:

Mesmo com mais de cem anos, Tia Nazinha estará presente no Bloco do Frei em 16 de fevereiro de 2026. Lúcida, sorridente e dona de uma energia que desafia o tempo, fará questão de acompanhar a homenagem. Segundo um de seus coordenadores, o cineasta e produtor cultural Bruno Pantoja: “O Bloco se tornou símbolo de resistência cultural e engajamento comunitário. Em 2013, consolidou seu papel como promotor da cultura local com o lançamento de um CD que enalteceu o patrimônio histórico-cultural do centro antigo de Manaus.”

E como toda boa crônica pede história, aqui vai a origem da rua que abraça Tia Nazinha. O historiador Robério Braga escreveu o seguinte:

“O nome civil e original de Frei José era José Batista Mardel, paraense de nascimento. Antes de se tornar frei, foi soldado e estudou em seminário, mas abandonou os estudos para se casar com Maria Carmelita, com quem teve filhos. Enviuvando, retornou ao Convento dos Carmelitas, sagrando-se Frei José dos Inocentes. Serviu na Amazônia como capelão do Forte de São Joaquim, no Rio Branco, e depois no Lugar da Barra (Manaus), onde atuou como Vigário-Geral. Foi um dos líderes do movimento de 1832 pela autonomia do Rio Negro em relação ao Pará. Morreu em Manaus em 1852.”

Parabéns à Rua Frei José dos Inocentes, ao Bloco do Frei, aos seus coordenadores e, sobretudo, à nossa estrela centenária:Tia Nazinha, patrimônio vivo do carnaval baré.

Fontes:
Jornal A Crítica
Bloco do Frei

BLOGDOROCHA
Bruno Pantoja
Evangelista Trindade
Robério Braga

Fotos:
Bloco do Frei
Bruno Pantoja