Fevereiro de 2026. A chuva caía grossa,
pesada, daquela que só Manaus sabe mandar, quando decidi enfrentar o centrão
histórico. Ali, entre as ruas Marechal Deodoro, Guilherme Moreira, Marcílio
Dias, Doutor Moreira, Beco da Indústria e Theodureto Souto, cada palmo parece
ser disputado a tapa por camelôs, lojas chinesas, confecções populares e
quinquilharias que brotam como plantas de verão.
É o Meca do povo de baixa renda — e eu me
incluo nele com gosto — que foge dos shoppings como o diabo da cruz, assustado
com preços altos e marcas que só servem para deixar o bolso vazio. Minha missão
era simples: encontrar uma capa de chuva para o meu netinho de seis anos.
Na Guilherme Moreira, entrei na Galeria
Center (o velho Bank of London), aquele labirinto simpático de dezenas de
lojinhas que desemboca no famoso Shopping Bate Palmas, já na Marechal Deodoro.
Ali, as lembranças me tomaram de jeito: meus primeiros empregos na Central de
Ferragens e na Souza Arnaud; o entra-e-sai dos Correios; o prédio da J. G.
Araújo; a antiga Drogaria Rosas…
Nos tempos de ouro da Zona Franca, aquela
artéria vivia “cheia até a tampa” de turistas nacionais famintos por
importados.
Hoje, continua cheia — mas só de
manauaras em busca do mais barato, mesmo que a qualidade venha a reboque.
Segui adiante e virei a esquerda na
Theodureto Souto. Foi quando avistei um turista de mais de dois metros de
altura. Branco, sardento, vestido como quem vai enfrentar a selva. Um gigante
que parecia deslocado daquele caos comercial. Observei com curiosidade.
Aquela área, convenhamos, já não é ponto
turístico. Os casarões da Belle Époque resistem como velhos guerreiros, mas são
engolidos pela muvuca de barracas, lonas coloridas, pregões e improvisos.
Imaginei que o gringo estivesse indo em direção à Praça Tenreiro Aranha ou ao
Mercado Adolpho Lisboa.
Mas não.
Ele parou, imóvel, diante de um casarão
verde, e começou a fotografar com a atenção de quem reencontra um tesouro
escondido.
Era o imponente Casarão da Rua Theodureto
Souto, de 1913. Por décadas, funcionou ali a agência do Banco Itaú, instalada
desde 1976. Hoje, como tantos prédios históricos, abriga uma loja de
comerciantes chineses. Ainda assim, resiste altivo — e chamou o olhar daquele
turista como uma joia silenciosa.
Consultei um especialista para entender
melhor o encanto daquela construção. Ele explicou:
“Edificado por volta de 1913, o casarão
integra o conjunto de construções erguidas por comerciantes da era da borracha,
quando o Centro era o coração econômico de Manaus. Possui dois pavimentos e um
porão alto — solução típica para evitar enchentes e garantir ventilação.
A fachada é revestida de azulejos em
padrão geométrico, técnica inspirada no luso-brasileiro e muito usada na época.
Os gradis em ferro trabalhado seguem o
estilo Art Nouveau, com curvas orgânicas e arabescos delicados.
Os vãos das janelas são amplos, e as
esquadrias originais reforçam a elegância da construção.
Em 1976, o imóvel foi adaptado para
receber a agência do Banco Itaú, preservando sua estrutura ao longo das
décadas.
Tombado em 1988 como Patrimônio Histórico
do Estado, é um dos mais importantes exemplares do Art Nouveau adaptado ao
clima amazônico.”
Para pesquisadores, escritores e
cronistas, aquele casarão representa três memórias essenciais:
A transição da opulência da borracha para
a reinvenção econômica de Manaus no século XX.
A nova vocação dos casarões, reocupados
por bancos e comércios ao longo das décadas.
A afetividade profunda, pois gerações de
manauaras passaram por ele todos os dias, sem perceber que faz parte de sua
própria história.
Vendo o turista fotografar, tive um
estalo:
O Centro precisa continuar cheio de gente
— esse é seu espírito. Mas cheio de dignidade, organização e respeito pela
memória.
Sonho com camelôs padronizados, fachadas
limpas, fiação subterrânea, prédios restaurados e um centrão onde os manauaras
raiz voltem a caminhar, admirar e sentir orgulho da própria história.
Segundo o meu amigo de longas datas, o Dr. Fernando
Gonçalves, este prédio pertenceu à firma J. S. Amorim (1913–1976), tendo sido
construído no local onde anteriormente funcionava a Mercearia 103 Velho. Com o encerramento das atividades da J. S. Amorim, o imóvel foi vendido ao Banco Itaú
em 1976.
O banco pretendia demolir o edifício, mas ele acabou sendo
salvo graças à intervenção do então Secretário de Cultura, Joaquim Marinho, que
apresentou uma petição ao governador Henoch Reis (1975–1979) solicitando a
preservação do imóvel — e o governador assinou o documento sem sequer ler.
Observação: O Banco Itaú demoliu o antigo Cinema Guarany
para construir aquela porcaria que hoje fica na esquina da Getúlio Vargas com a
Sete de Setembro.
O turista viu. Eu vi. E a cidade inteira
ainda pode ver — basta querer.
Fotos: José Rocha

