sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

DANDO UM ROLÉ PELO CENTRÃO HISTÓRICO DE MANAUS




Fevereiro de 2026. A chuva caía grossa, pesada, daquela que só Manaus sabe mandar, quando decidi enfrentar o centrão histórico. Ali, entre as ruas Marechal Deodoro, Guilherme Moreira, Marcílio Dias, Doutor Moreira, Beco da Indústria e Theodureto Souto, cada palmo parece ser disputado a tapa por camelôs, lojas chinesas, confecções populares e quinquilharias que brotam como plantas de verão.

É o Meca do povo de baixa renda — e eu me incluo nele com gosto — que foge dos shoppings como o diabo da cruz, assustado com preços altos e marcas que só servem para deixar o bolso vazio. Minha missão era simples: encontrar uma capa de chuva para o meu netinho de seis anos.

Na Guilherme Moreira, entrei na Galeria Center (o velho Bank of London), aquele labirinto simpático de dezenas de lojinhas que desemboca no famoso Shopping Bate Palmas, já na Marechal Deodoro. Ali, as lembranças me tomaram de jeito: meus primeiros empregos na Central de Ferragens e na Souza Arnaud; o entra-e-sai dos Correios; o prédio da J. G. Araújo; a antiga Drogaria Rosas…

Nos tempos de ouro da Zona Franca, aquela artéria vivia “cheia até a tampa” de turistas nacionais famintos por importados.

Hoje, continua cheia — mas só de manauaras em busca do mais barato, mesmo que a qualidade venha a reboque.

Segui adiante e virei a esquerda na Theodureto Souto. Foi quando avistei um turista de mais de dois metros de altura. Branco, sardento, vestido como quem vai enfrentar a selva. Um gigante que parecia deslocado daquele caos comercial. Observei com curiosidade.

Aquela área, convenhamos, já não é ponto turístico. Os casarões da Belle Époque resistem como velhos guerreiros, mas são engolidos pela muvuca de barracas, lonas coloridas, pregões e improvisos. Imaginei que o gringo estivesse indo em direção à Praça Tenreiro Aranha ou ao Mercado Adolpho Lisboa.

Mas não.

Ele parou, imóvel, diante de um casarão verde, e começou a fotografar com a atenção de quem reencontra um tesouro escondido.

Era o imponente Casarão da Rua Theodureto Souto, de 1913. Por décadas, funcionou ali a agência do Banco Itaú, instalada desde 1976. Hoje, como tantos prédios históricos, abriga uma loja de comerciantes chineses. Ainda assim, resiste altivo — e chamou o olhar daquele turista como uma joia silenciosa.

Consultei um especialista para entender melhor o encanto daquela construção. Ele explicou:

“Edificado por volta de 1913, o casarão integra o conjunto de construções erguidas por comerciantes da era da borracha, quando o Centro era o coração econômico de Manaus. Possui dois pavimentos e um porão alto — solução típica para evitar enchentes e garantir ventilação.

A fachada é revestida de azulejos em padrão geométrico, técnica inspirada no luso-brasileiro e muito usada na época.

Os gradis em ferro trabalhado seguem o estilo Art Nouveau, com curvas orgânicas e arabescos delicados.

Os vãos das janelas são amplos, e as esquadrias originais reforçam a elegância da construção.

Em 1976, o imóvel foi adaptado para receber a agência do Banco Itaú, preservando sua estrutura ao longo das décadas.

Tombado em 1988 como Patrimônio Histórico do Estado, é um dos mais importantes exemplares do Art Nouveau adaptado ao clima amazônico.”

Para pesquisadores, escritores e cronistas, aquele casarão representa três memórias essenciais:

A transição da opulência da borracha para a reinvenção econômica de Manaus no século XX.

A nova vocação dos casarões, reocupados por bancos e comércios ao longo das décadas.

A afetividade profunda, pois gerações de manauaras passaram por ele todos os dias, sem perceber que faz parte de sua própria história.

Vendo o turista fotografar, tive um estalo:

O Centro precisa continuar cheio de gente — esse é seu espírito. Mas cheio de dignidade, organização e respeito pela memória.

Sonho com camelôs padronizados, fachadas limpas, fiação subterrânea, prédios restaurados e um centrão onde os manauaras raiz voltem a caminhar, admirar e sentir orgulho da própria história.

         Segundo o meu amigo de longas datas, o Dr. Fernando Gonçalves, este prédio pertenceu à firma J. S. Amorim (1913–1976), tendo sido construído no local onde anteriormente funcionava a Mercearia 103 Velho. Com o encerramento das atividades da J. S. Amorim, o imóvel foi vendido ao Banco Itaú em 1976.

        O banco pretendia demolir o edifício, mas ele acabou sendo salvo graças à intervenção do então Secretário de Cultura, Joaquim Marinho, que apresentou uma petição ao governador Henoch Reis (1975–1979) solicitando a preservação do imóvel — e o governador assinou o documento sem sequer ler.

Observação: O Banco Itaú demoliu o antigo Cinema Guarany para construir aquela porcaria que hoje fica na esquina da Getúlio Vargas com a Sete de Setembro.

O turista viu. Eu vi. E a cidade inteira ainda pode ver — basta querer.




Fotos: José Rocha