Por Jose Rocha
Os manauaras raiz — nós, os sessentões e setentões da minha
geração — carregamos no peito um valor afetivo profundo pelo Igarapé do Mindu.
Ali, entre os verdes de outrora, vivemos parte da nossa juventude. Foi lá que
tomamos banho nos lendários balneários da Estada do V8 e, sobretudo, no querido
Parque Dez de Novembro. Por isso, qualquer iniciativa dos gestores públicos
voltada à revitalização daquele perímetro sempre será recebida com alegria por
todos nós.
Não nos interessa discutir licitação, custo da obra ou quem
irá executá-la. Esse mérito deixo para outros. O que me move, hoje, é apenas
enaltecer a satisfação de ver um projeto que reacende memórias tão preciosas.
Há muitos anos venho registrando em postagens as histórias dos
banhos do V8 e do Parque Dez — fotografias antigas desde a inauguração até a
destruição causada pelo progresso apressado, que não respeita ninguém, muito
menos o meio ambiente e a nossa memória coletiva.
O Igarapé do Mindú nasce no Bairro Cidade de Deus, próximo à
Reserva Florestal Adolpho Ducke, e desce a cidade rumo ao sudeste até encontrar
o Igarapé dos Franceses, no Parque dos Bilhares. São vinte quilômetros de
extensão atravessando Manaus.
O projeto atual alcança apenas uma pequena parte desse percurso:
inicia na ponte da Avenida Darcy Vargas (por baixo do viaduto), segue pelo
antigo Balneário do Parque Dez e vai até as Pontes dos Bilhares, próximo ao
Millennium Shopping.
A proposta tem como principal objetivo reduzir as alagações
causadas tanto pelas chuvas quanto pelas construções indevidas que
impermeabilizam o solo, impedindo que a água chegue naturalmente ao igarapé.
Soma-se a isso o antigo problema do descarte inadequado de lixo, que dificulta
a passagem da água e eleva seu nível.
A obra prevê a desapropriação de cerca de setenta imóveis
comerciais e residenciais. Haverá áreas verdes com grama, ilhas de paisagismo
com árvores e arbustos, além de calçadas padronizadas para garantir
acessibilidade. Também está prevista a criação de espaços de lazer com piso
intertravado — que melhora a drenagem — incluindo academias ao ar livre,
playground, bancos, canteiros contemplativos e banheiro público. Tudo
acompanhado de sinalização horizontal e vertical.
Quem desejar detalhes mais técnicos pode consultar o Memorial
Descritivo em PDF disponível no site da Prefeitura de Manaus.
Quanto a mim, mantenho o que escrevi no início: não entrarei
no mérito técnico-político. Prefiro registrar apenas a minha alegria ao ver
esse projeto sair do papel.
E, quando estiver concluído, farei questão de caminhar por
ali com os meus netos. Quero mostrar a eles o lugar onde o avô viveu parte da
sua juventude, onde as águas eram limpas — até se transformarem, muitos anos
depois, em esgoto "a céu aberto".
Talvez, com essa revitalização, possamos reacender a
esperança de que a memória de Manaus ainda pode ser cuidada, respeitada e
transmitida às novas gerações.
