Por José Rocha
Hoje, participei de um evento no Palacete Provincial — na nossa querida Praça
Heliodoro Balbi, a eterna Praça da Polícia — durante o lançamento do Plano de
Conservação, Zeladoria e Educação Patrimonial do Centro Histórico, promovido
pelo IPHAN Manaus. Senti-me profundamente honrado ao acompanhar as explanações
dos técnicos e a participação atenta do público, que, ao final, somou ainda
mais valor ao encontro. Momentos assim renovam o meu sentimento de
responsabilidade e amor pela preservação do patrimônio material e imaterial da
minha cidade.
Tive a oportunidade de me manifestar rapidamente ao microfone, apresentando-me
como editor do BLOGDOROCHA (www.jmartinsrochablogspot.com), trabalho que realizo desde
2006, sempre dedicado à história, às memórias e às lutas de Manaus.
Coloquei-me, como sempre, à disposição para divulgar as ações da equipe técnica
que está em nossa capital para implantar o Plano — afinal, tudo o que diz respeito
ao nosso Centro Histórico merece alcançar o maior número possível de manauaras.
Entretanto, permaneceu uma dúvida entre os presentes: foi mencionado que toda
essa iniciativa decorre de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com
o Ministério Público Federal, e que o IPHAN contratou uma empresa — cujo nome
não ficou claro — para executar o trabalho. Assim, ainda não sabemos exatamente
de onde virão os recursos que sustentarão esse grande empreendimento.
Nesse ponto, a fala que mais tocou todos nós veio do Dr. Moacir Pereira
Batista, Juiz de Direito titular da Vara Especializada em Meio Ambiente e
Questões Agrárias. O magistrado fez um depoimento emocionado: falou da infância humilde que viveu em Manaus, do amor profundo que
guarda pelo Centro Histórico — onde nasceu — e da dedicação diária para vê-lo
recuperado, digno e respeitado.
Ele explicou que a VEMAQA administra valores arrecadados por multas aplicadas a
infratores ambientais, e que parte desses recursos poderá ser destinada à
recuperação de áreas importantes da nossa cidade, incluindo o Centro Histórico.
Foi uma notícia que trouxe esperança real para todos nós.
Ao final do evento, aproximei-me do Dr. Moacir e apresentei-lhe o projeto que
desenvolvo para a recuperação da antiga Escadaria do Barão, na Rua Tapajós. O
juiz pediu que eu encaminhasse o projeto à VEMAQA, para que seja avaliada a
possibilidade jurídica de direcionar recursos para viabilizar essa
revitalização. Saí dali com o coração aquecido: talvez estejamos mais perto de
transformar esse sonho em realidade.
Nossa equipe irá concluir a versão final do projeto e enviá-lo o quanto antes,
torcendo para que sejamos agraciados com essa oportunidade.
Aproveitaremos para
incluir, também, a necessária recuperação da histórica Casa dos Madeira,
construída por uma tradicional família portuguesa e hoje quase em ruínas. Ela
integra um conjunto arquitetônico precioso ao lado da Escadaria do Barão, nos
fundos do antigo Palacete do Barão de São Leonardo — atual Instituto Benjamin
Constant —, cuja história já relatei no BLOGDOROCHA e que também foi tema de
texto do jornalista Evaldo Ferreira, do Jornal do Commercio.
JOSÉ ROCHA: PROJETO “ESCADADARIA DOS POVOS INDÍGENAS DA AMAZÔNIA”
Editor do BLOGDOROCHA, no sítio eletrônico:
www.jmartinsrocha.blogspot.com
Aproveito este espaço para agradecer ao amigo Carbajal Gomes, por ter cedido,
ontem, o espaço da parte superior do anexo do Bar Caldeira, onde realizamos uma
reunião de amigos que amam a cidade de Manaus.
Levei a proposta de reunirmos um grupo de pessoas dispostas a trocar ideias e
pensar ações concretas em prol da nossa cidade. A princípio, apresentei um
pequeno projeto para recuperação da Escadaria da Rua Tapajós, ao lado do
Instituto Benjamin Constant. Vários amigos abraçaram a ideia e fomos além:
decidimos iniciar o processo de criação da AMA – Associação dos Amigos de
Manaus, destinada a contribuir com pequenas ações e apresentar sugestões ao
Prefeito e ao Governador, sempre em defesa do nosso Centro Histórico.
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HISTÓRICO
Quando os portugueses chegaram à região do atual Centro Histórico de Manaus
para fundar o Forte de São José da Barra do Rio Negro, em 1669 — ano
considerado como o marco de fundação da cidade —, já habitavam a área diversas
etnias indígenas: Passés, Barés, Tarumãs, Mundurucus, Manaós, entre outras.
É por isso que, até hoje, os nativos manauaras são chamados de Barés: caboclos
de pele morena, cabelos pretos, olhos amendoados e estatura mediana.
Apesar dessa rica herança ancestral, Manaus possui poucos espaços e homenagens
dedicadas aos povos indígenas: o Museu do Índio, a Praça Dom Pedro II (onde há
um cemitério indígena) e algumas poucas ruas e avenidas.
O Barão de São Leonardo (1817–1894), homem riquíssimo e 1º vice-presidente da
Província do Amazonas (1868), era dono de toda a área onde hoje se encontra a
escadaria. Construiu o então Palacete de São Leonardo — atual Instituto
Benjamin Constant — com muros altos e uma escadaria que dava acesso a uma
represa localizada no cruzamento da Rua Tapajós com a Avenida Leonardo Malcher.
Ali, moradores buscavam água límpida para beber. Esse igarapé, hoje canalizado,
desce desde o Boulevard Amazonas, passando pela Vila Paraíso, onde ainda é
conhecido como “Vala”.
A escadaria original remonta, presumivelmente, a 1868, sendo mais antiga que o
Teatro Amazonas (1896) e que a escadaria da Igreja de São Sebastião (1888).
Seus patamares diante da Casa dos Madeira foram destruídos com o tempo e
reconstruídos em madeira, e, posteriormente, em cimento armado, em 1968, pelo
prefeito Paulo Pinto Nery.
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A PROPOSTA DE REVITALIZAÇÃO
Morador antigo da Ladeira da Rua Tapajós, o blogueiro José Rocha (Rochinha),
preocupado com o estado de abandono da escadaria, decidiu mobilizar moradores e
amigos para revitalizá-la. Um vídeo foi produzido e publicado no YouTube.
Abraçaram inicialmente o projeto: Socorro Papoula (atriz), Maíra Dessana
(professora e musicista), Bruno (arquiteto), Júlio (músico do Raízes Caboclas),
Bepi Sarto (ex-presidente do IPHAN), além das famílias Madeira Dutra e
Garantizado.
A atriz Socorro Papoula sugeriu que a escadaria fosse transformada em homenagem
aos povos indígenas da Amazônia, com azulejos contendo grafismos indígenas em
cada lance de escada.
A inspiração veio da famosa Escadaria Selarón, entre Santa Teresa e Lapa, no
Rio de Janeiro, que se tornou ponto turístico internacional.
Nossa versão Baré também poderá tornar-se um marco turístico, rendendo
fotografias, orgulho aos moradores e valorização para todo o Centro Histórico.
O projeto inclui:
• Murais indígenas pintados por artistas locais nos paredões;
• Canteiros com plantas resistentes ao calor, sol e umidade;
• Recuperação estrutural;
• Instalação de grades de apoio em ferro fundido;
• Ambientação respeitando critérios do IPHAN, sobretudo na parte superior
histórica.
Será uma homenagem justa aos povos indígenas que habitavam a região milhares de
anos antes da fundação da cidade.
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LOCALIZAÇÃO
Quem desce pela Avenida Leonardo Malcher encontra, logo após a depressão do
terreno, a famosa Ladeira da Rua Tapajós, conhecida por sua forte inclinação.
Ao lado direito, situa-se a escadaria, que inicia em frente à residência da
família Madeira (nº 345) e vai até o portão de entrada do Colégio Frei Sílvio
Vagheggi/Instituto Benjamin Constant.
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A ESCADARIA
A escadaria possui duas partes distintas:
1. Parte inferior (17 degraus)
Construída em cimento armado, de forma irregular, com dois patamares
improvisados, contrastando com a parte superior histórica.
2. Parte superior (23 degraus)
Degraus largos, nivelados e com pedras em sua base — obra primorosa dos antigos
construtores da cidade.
Atualmente, encontra-se:
• Tomada por mato e lixo;
• Com pedras soltas;
• Com o muro de pedras sujo e abandonado;
• Inseguros para alunos, idosos e transeuntes que preferem caminhar pela rua,
disputando espaço com veículos, inclusive caminhões.
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O QUE SERÁ FEITO
A proposta prevê:
• Pavimentação com pisos hidráulicos com grafismos indígenas desde a casa nº
365 (Zigomar Madeira/Salete Sarapeão) até o início da escadaria;
• Criação de canteiro de plantas ao longo do muro;
• Pintura de mural indígena no muro de pedras por artista local;
• Aplicação de azulejos com grafismos indígenas nos 13 primeiros degraus;
• Restauração e, se aprovado pelo IPHAN, aplicação de azulejos também na parte
superior;
• Plantio de espécies ornamentais;
• Instalação de grades em ferro fundido para apoio e segurança.
Caso a Prefeitura não execute o projeto, o grupo buscará alternativas:
• Bingos, rifas e eventos;
• Livro de Ouro;
• Apoio de escolas e entidades da área;
• doações de materiais.
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GRUPO DE TRABALHO
Inicialmente composto por:
• José Rocha
• Socorro Papoula
• Maíra Dessana
• Bruno (arquiteto)
• Bepi Sarto
• Júlio Raízes
As senhoras Conceição e Suely Garantizado e o arquiteto Tony Garantizado também
manifestaram apoio.
José Rocha disponibiliza sua residência como base administrativa, equipada com
computador, impressora multifuncional e internet de fibra óptica para
organização do projeto.
A 1ª reunião ocorreu no espaço cedido por Carbajal Gomes, no anexo superior do
Bar Caldeira — produtiva e repleta de ideias.
A próxima visita técnica será realizada no sábado, na própria escadaria,
seguida de confraternização na histórica casa de madeira do saudoso luthier
Rochinha.
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AGRADECIMENTO FINAL
Gratidão a todos os homens e mulheres de boa vontade que abraçaram a causa e
desejam ver Manaus e seu Centro Histórico tratados com o respeito que merecem.
Grupo quer recuperar a ‘Escadaria do Barão’ e criar ponto turístico
Em: 1 de dezembro de 2022
Quem sobe a Rua Tapajós, a partir da av. Leonardo Malcher, não pode deixar de
ver, no lado direito, uma longa escadaria tendo pedras como base. A escadaria é
secular, está bastante deteriorada, mas se depender de um grupo de moradores da
Tapajós, tendo à frente o pesquisador e blogueiro José Rocha, a construção
deverá se tornar um ponto turístico de Manaus.
“Toda essa área aqui pertenceu a Leonardo Ferreira Marques, o barão de São
Leonardo. Cearense, Leonardo Ferreira foi o primeiro vice-presidente da
província do Amazonas entre 24 de agosto e 26 de novembro de 1868. Ele mandou
construir o Palacete de São Leonardo, adquirido depois pelo então presidente da
província Theodureto de Faria Souto (1884) para ser o Museu Botânico do
Amazonas. No Palacete funcionou posteriormente o Instituto Benjamin Constant”,
contou Rocha.
Quem passa pelas ruas próximas ao prédio não consegue ver, mas suas laterais e
a parte de trás são protegidas por imenso muro de pedras.
“Acredito que o barão, quando mandou construir esse muro, aproveitou para fazer
a escadaria de pedras, que levava até o igarapé, hoje coberto pela continuação
da Tapajós com a Leonardo Malcher. No ano em que cheguei aqui, em 1968, ou
seja, cem anos depois de o barão ter sido vice-presidente, o primeiro lance da
escadaria ainda existia, mas o segundo havia sido substituído por uma escadaria
de madeira, sempre restaurada pelos moradores que iam se abastecer de água no
igarapé”, lembrou.
Quando Paulo Pinto Nery foi prefeito de Manaus, entre 1965 e 1972, ele mandou
fazer a ligação da Tapajós com a Leonardo Malcher e o igarapé passou a correr
por canos, sob a pista. Também completou a escadaria quase no estilo da
original.
Barão de São Leonardo, até hoje suas construções permanecem em pé Aqui começa a
escadaria original e o muro da época do barão
Casarão de 1906
Rocha recorda que a famosa ladeira da Rua Tapajós, no passado, servia de testes
de direção para candidatos à carteira de habilitação do DETRAN.
“E foi palco de muitos acidentes, pois, acredite, tinha mão e contramão”,
revelou.
A escadaria acompanha praticamente toda a ladeira. Ela começa bem em frente à
residência da família Madeira, um casarão de 1906, e segue até o portão de
entrada dos alunos e professores do Colégio Frei Silvio Vagheggi/Benjamin
Constant.
A construção possui duas partes distintas. A primeira, feita de cimento armado,
é constituída por 17 degraus e dois patamares de formato irregular, sem a
preocupação com a metragem de cada degrau. São quatro degraus iniciais e o
primeiro patamar bem em frente ao portão principal do casarão dos Madeira.
Depois seguem mais 13 degraus e o segundo patamar, no formato de um L, na
entrada lateral do casarão.
“A segunda parte possui 23 degraus. É original, da época do barão, bem como o
paredão que integra o muro do entorno do colégio. Os degraus são largos, bem
elaborados e nivelados, com pedras em sua base. Uma obra-prima feita pelos
nossos antepassados, pois naquela época as construções eram para durar,
construídas com esmero e dedicação”, explicou Rocha.
Atualmente a escadaria encontra-se em péssimo estado de conservação, cheia de
mato e lixo em toda a sua extensão, além de ter buracos e algumas pedras
haverem se deslocado de seus lugares, bem como o muro está bastante sujo dando
um visual deprimente ao local.
“Isso força as pessoas que passam por aqui, principalmente os idosos, a
preferirem andar pela rua enfrentando a movimentação constante dos carros”,
lamentou.
Grafites nos muros
Rocha, primeiro da direita, com o grupo de moradores que deseja restaurar a
escadaria Escadaria original mandada construir há mais de 150 anos
Agora um grupo formado por Rocha, o Grupo Escada, com Socorro Papoula (atriz),
Maíra Dessana (professora e musicista), Bruno Pantoja (arquiteto), Júlio Lira
(músico do Raízes Caboclas), Bepi Sarto (ex-presidente do Iphan), Carbajal
Gomes (empreendedor), além das famílias Madeira e Garantizado, quer revitalizar
a escadaria. Uma das sugestões, dada por Socorro, é colocar azulejos em cada
lance da escada contendo grafismos indígenas, tipo a escadaria Seláron, no Rio
de Janeiro, que virou um espaço instagramável da cidade maravilhosa.
“Também queremos mandar fazer grafites nos paredões, e colocar canteiros
floridos e corrimão de cima abaixo”, avisou Rocha.
O projeto deve começar a partir da calçada da casa número 365, onde morou a
família do escritor Márcio Souza e o grupo Raízes Caboclas realizava ensaios.
Seriam assentados pisos hidráulicos até a entrada onde há um estacionamento,
seguindo adiante depois dessa entrada até o início da escadaria, no qual seria
colocado o primeiro canteiro. No muro do casarão dos Madeira seria pintado o
primeiro grafite. Os 13 primeiros degraus receberiam os azulejos. O começo da
escadaria original receberia outro canteiro.
“A parte original da escadaria, histórica, bem como o paredão ao seu lado,
seriam restaurados. Ainda não sei se os degraus podem receber os azulejos ou o
paredão ser grafitado. Pretendemos levar esse projeto às instituições para que
nos ajudem, mas caso não nos atendam, nós mesmos realizaremos bingos e Livro de
Ouro, para arrecadar doações, além de pedirmos apoio de empresas e instituições
daquela área”, adiantou.
Enquanto o projeto de Rocha e demais moradores da Rua Tapajós não sai do papel,
vale uma visita ao local para conhecer um pouco da história de Manaus e, se
possível, vir a ajudar na sua restauração.