Os
historiadores lembram que “os navios de arribação chegariam vazios se não
trouxessem pedras; flutuariam sem lastro, pois levavam mais do que traziam”.
Assim, essas rochas viajaram mais de 6 mil quilômetros até se tornarem parte da
paisagem da Manaus da Belle Époque.
Até
hoje, elas resistem: diante do Paço, no entorno do Teatro Amazonas, do Palácio
da Justiça, do Palácio Rio Negro, do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, da
Prefeitura de Manaus e da Igreja dos Remédios. São testemunhas silenciosas do
apogeu e das feridas do tempo.
Mas
o que muitos ignoram — e eu próprio só descobri anos atrás — é que essas pedras
escondem algo ainda mais antigo do que a nossa história urbana. Um segredo que
estava debaixo de nossos pés havia séculos.
O
Achado Que Revelou o Passado da Terra
Quando
a Prefeitura de Manaus iniciou a restauração do Paço da Liberdade, na gestão de
Serafim Corrêa, chamou para assessorar os trabalhos o saudoso geólogo Frederico
Cruz — homem simples, culto, apaixonado pela ciência e pela cidade. Hoje, já
falecido, deixou uma lacuna não apenas entre os pesquisadores, mas entre todos
que tiveram a sorte de ouvi-lo explicar a vida que existe dentro das pedras.
Cruz
relatava que não há registros definitivos das jazidas portuguesas que
originaram o Lioz, mas tudo indica que eram regiões banhadas por mares antigos.
Explicava, com sua voz calma e didática, que tanto o mármore quanto o calcário
vêm de sais marinhos — mas o mármore foi aquecido, tornando-se vítreo e
brilhante, enquanto o calcário permanece opaco.
“É
por isso que o mármore reluz e o calcário não. Mas o Lioz, ah… o Lioz guarda
memórias”, dizia ele.
Durante
os testes no material retirado da praça do Paço, Cruz percebeu que algo estava
diferente: a reação química não era típica. Levou a pedra ao microscópio — e
ali, diante de seus olhos, surgiu a surpresa que mudaria nossa compreensão do
Centro de Manaus.
Eram
estromatólitos.
Estruturas
formadas por algas cianofíceas, algumas das primeiras formas de vida do
planeta. Seres que existiram há centenas de milhões de anos — em alguns locais
do mundo, há até bilhões.
Dentro
daquelas pedras, colocadas ali para servir de degraus, estava a memória da
Terra primitiva.
Um
Tesouro Paleontológico no Coração de Manaus
O
jornal “A Crítica” registrou o achado em 2004, destacando que o calçamento do
Centro Histórico escondia há quase dois séculos um patrimônio paleontológico
raríssimo. Enquanto cidades constroem museus para proteger tais formações,
Manaus, sem saber, as incorporou à sua arquitetura.
Hoje,
ao observar de perto os degraus do Paço, é possível ver — como mostram as fotos
— os círculos, as linhas onduladas, as manchas e padrões que são a assinatura
dos estromatólitos.
É
como ver a vida antes da vida, impressa em uma pedra.
Um
presente do passado profundo para a Manaus moderna.
A
Conversa com o Saudoso Rogélio Casado
Em
conversa que tive, há alguns anos, com o saudoso médico Rogélio Casado — e não
falávamos de psiquiatria, mas de Manaus, essa paixão comum — comentávamos a
tristeza de saber que muita gente não reconhece a importância desse material.
Há quem jogue cimento por cima, quem arranhe, quem simplesmente ignore.
É
triste, sim. Mas é também um chamado.
O
Nosso Dever com a Cidade
A
partir de agora, quem ler esta crônica e observar as fotos jamais verá aquelas
pedras como simples degraus. Ali não há apenas calçamento. Há história,
memória, ciência e vida antiga. Há o legado de Portugal, há o testemunho do
tempo, há o trabalho do saudoso Frederico Cruz — e há também a lembrança das
conversas inspiradoras com o saudoso Rogélio Casado.
Que todos passem a respeitar e preservar
as Pedras de Lioz.
Pois,
sob nossos pés, repousam as algas cianofíceas — alguns dos primeiros seres
vivos a habitar este planeta.
E
nós caminhamos sobre elas todos os dias.
Fotos: José Rocha
Fontes: Jornal A Crítica/ BLOGDOROCHA/ChatGPT/Google.

