quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

As Pedras de Lioz

 



Quem passa depressa pelo Centro Histórico talvez nem perceba. Mas ali, diante do imponente Paço da Liberdade, repousa um tesouro que poucos manauaras conhecem — e que muitos, sem saber, pisam todos os dias. Falo das antigas Pedras de Lioz, trazidas de Portugal nos porões dos navios coloniais, usadas como lastro para cruzar o Atlântico.

Os historiadores lembram que “os navios de arribação chegariam vazios se não trouxessem pedras; flutuariam sem lastro, pois levavam mais do que traziam”. Assim, essas rochas viajaram mais de 6 mil quilômetros até se tornarem parte da paisagem da Manaus da Belle Époque.

Até hoje, elas resistem: diante do Paço, no entorno do Teatro Amazonas, do Palácio da Justiça, do Palácio Rio Negro, do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, da Prefeitura de Manaus e da Igreja dos Remédios. São testemunhas silenciosas do apogeu e das feridas do tempo.

Mas o que muitos ignoram — e eu próprio só descobri anos atrás — é que essas pedras escondem algo ainda mais antigo do que a nossa história urbana. Um segredo que estava debaixo de nossos pés havia séculos.

O Achado Que Revelou o Passado da Terra

Quando a Prefeitura de Manaus iniciou a restauração do Paço da Liberdade, na gestão de Serafim Corrêa, chamou para assessorar os trabalhos o saudoso geólogo Frederico Cruz — homem simples, culto, apaixonado pela ciência e pela cidade. Hoje, já falecido, deixou uma lacuna não apenas entre os pesquisadores, mas entre todos que tiveram a sorte de ouvi-lo explicar a vida que existe dentro das pedras.

Cruz relatava que não há registros definitivos das jazidas portuguesas que originaram o Lioz, mas tudo indica que eram regiões banhadas por mares antigos. Explicava, com sua voz calma e didática, que tanto o mármore quanto o calcário vêm de sais marinhos — mas o mármore foi aquecido, tornando-se vítreo e brilhante, enquanto o calcário permanece opaco.

“É por isso que o mármore reluz e o calcário não. Mas o Lioz, ah… o Lioz guarda memórias”, dizia ele.

Durante os testes no material retirado da praça do Paço, Cruz percebeu que algo estava diferente: a reação química não era típica. Levou a pedra ao microscópio — e ali, diante de seus olhos, surgiu a surpresa que mudaria nossa compreensão do Centro de Manaus.

Eram estromatólitos.

Estruturas formadas por algas cianofíceas, algumas das primeiras formas de vida do planeta. Seres que existiram há centenas de milhões de anos — em alguns locais do mundo, há até bilhões.

Dentro daquelas pedras, colocadas ali para servir de degraus, estava a memória da Terra primitiva.

Um Tesouro Paleontológico no Coração de Manaus

O jornal “A Crítica” registrou o achado em 2004, destacando que o calçamento do Centro Histórico escondia há quase dois séculos um patrimônio paleontológico raríssimo. Enquanto cidades constroem museus para proteger tais formações, Manaus, sem saber, as incorporou à sua arquitetura.

Hoje, ao observar de perto os degraus do Paço, é possível ver — como mostram as fotos — os círculos, as linhas onduladas, as manchas e padrões que são a assinatura dos estromatólitos.

É como ver a vida antes da vida, impressa em uma pedra.

Um presente do passado profundo para a Manaus moderna.

A Conversa com o Saudoso Rogélio Casado

Em conversa que tive, há alguns anos, com o saudoso médico Rogélio Casado — e não falávamos de psiquiatria, mas de Manaus, essa paixão comum — comentávamos a tristeza de saber que muita gente não reconhece a importância desse material. Há quem jogue cimento por cima, quem arranhe, quem simplesmente ignore.

É triste, sim. Mas é também um chamado.

O Nosso Dever com a Cidade

A partir de agora, quem ler esta crônica e observar as fotos jamais verá aquelas pedras como simples degraus. Ali não há apenas calçamento. Há história, memória, ciência e vida antiga. Há o legado de Portugal, há o testemunho do tempo, há o trabalho do saudoso Frederico Cruz — e há também a lembrança das conversas inspiradoras com o saudoso Rogélio Casado.

Que todos passem a respeitar e preservar as Pedras de Lioz.

Pois, sob nossos pés, repousam as algas cianofíceas — alguns dos primeiros seres vivos a habitar este planeta.

E nós caminhamos sobre elas todos os dias.

Fotos: José Rocha

Fontes: Jornal A Crítica/ BLOGDOROCHA/ChatGPT/Google.