quarta-feira, 6 de maio de 2015

O ENTERRO

Manacapuru é uma cidade do interior do Amazonas, teve o seu nome originado de uma belíssima flor - Manacá = flor e puru = matizada – chegou ao seu apogeu no auge da industrialização da fibra da Juta, tanto que era uma linda cidade, assim como foi a minha Manaus antiga, chegou a ser conhecida como a “Princesinha do Solimões” - tenho uma relação toda especial com ela, pois viajei centenas de vezes para lá na minha juventude, onde passei poucas e boas nas minhas andanças – uma das que mais marcou foi o sufoco em que passei para participar do enterro de um ente-querido.



Viajei muito em companhia dos meus irmãos Henrique e Graciete e dos amigos Mariza e Chiquinho, eles moravam em Manaus, no bairro da Matinha e tinham parentes em Manacapuru, no bairro da Terra Preta, num conjunto habitacional, onde ficávamos hospedados.

O tio dos nossos amigos era um sujeito muito extrovertido, gostava de fazer pegadinhas e de contar piadas, ele tinha um box no Mercado Municipal - era muito querido por todos os moradores da cidade.

Certo dia, ele passou mal, sendo levado às pressas para o Hospital Militar, em Manaus, ficou uma semana internado, fez uma cirurgia e estava passando bem - a família voltou para Manacapuru para tratar dos negócios do velho.

No domingo seguinte, tínhamos acabado de voltar de Manacá, viemos em companhia da sua esposa e do seu filho mais velho, fomos direto ao hospital fazer uma visita e, para nossa triste surpresa, ele havia falecido no sábado, estava na pedra, pois os dirigentes não conseguirem entrar em contato com a família.

Providenciamos a compra do caixão e a liberação do corpo para ser transladado para Manacapuru, alugamos uma Kombi velha para levar o esquife e a família - fui solidário e voltei com eles para Manacá.

Levamos um tempão para atravessar o Rio Negro, apesar da prioridade para embarcar na balsa - no inicio da estrada furou um pneu, foi trocado, mais adiante, furou outro, pois todos estavam “carecas”.

A família pegou um táxi, o “motora” da Kombi foi junto, levou os pneus para serem consertados na cidade, agora, imaginem quem ficou sozinho com o caixão no meio da estrada – o maluco que vos escreve - o corpo já estava exalando certo fedor, pois estava passando da hora de ser enterrado – pense numa situação complicada, além dos mais, já estava anoitecendo.

Forcei o carro e consegui colocá-lo bem no acostamento, pois poderia haver um acidente fatal, não bastasse o morto que estava na Kombi – fiquei com medo (Quem não ficaria?) - fui até a casa mais próxima, um senhor me serviu café e se prontificou em ficar comigo guardando o caixão e a Kombi. Lá pelas oito da noite chegou o socorro, veio uma Kombi, aparentemente, mais nova, colocamos o caixão no outro carro e seguimos viagem, faltavam somente oitenta quilômetros para chegar a Manacapuru, com a estrada parecendo uma “tábua de pirulito”.

Ao chegar à cidade, uma multidão estava aguardando o corpo, fomos direto para o Cemitério Municipal - para completar, quando estavam fazendo a despedida do morto, deu uma ventania e um forte trovão – a luz foi embora – imaginem a situação, era gente correndo para todos os lados, neguinho gritando de medo – eu fiquei estático, não sabia o que fazer, não via um palmo a minha frente, era uma escuridão total – fiquei na minha e não corri - ainda bem, pois a energia voltou minutos depois - o enterro foi feito às pressas, em decorrência da ameaça de uma chuva torrencial.

Passei a noite na casa da família enlutada, quem disse que dava para dormir, era uma choradeira total - lá pelas quatro da manhã fui avisado que um ônibus iria para Manaus, peguei o buzão na Rodoviária, estava totalmente lotado, segui viagem em pé, assim mesmo consegui dormir todo o percurso - quando cheguei a minha casa, desmaiei de sono, fui trabalhar somente na terça-feira.


Esse enterro foi um sufoco total, mas, quando me vem à lembrança, sinto saudades do meu amigo que se foi, dos colegas de outrora e da nossa querida cidade Manacá. É isso ai.  
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