quarta-feira, 13 de março de 2013

O SÍTIO DO SÊO CARLITO



Na minha adolescência e parte da vida adulta, frequentava quase todos os finais de semana o sítio do Sêo Carlito, localizado na estrada da BR-174 (Manaus/Boa Vista), no quilômetro 22, na entrada da Escola Agrotécnica - um local onde guardo boas recordações, pois tive a oportunidade de estreitar os laços de amizade com os membros da família do dono imóvel, além de ter tido um contato direto com a natureza, principalmente, com as águas límpidas da Bacia do Tarumã-Açu.

O Sêo Carlito trabalhou a vida inteira na Administração do Porto de Manaus (Rodoway), aonde chegou a se aposentar e, com o fruto do seu labor de longos anos, deu uma vida digna e farta para a sua esposa, a Dona Nazaré e, para a sua prole numerosa, formada pelo Jordan, Mário, Marcus, Carlson, Dorinha e Júnior (falecido) - a sua residência ficava situado na Rua Tapajós, num trecho conhecido como “Ladeira da Tapajós”, onde criou e educou todos os seus filhos e, viveu até a sua morte.

Para curtir com a família o lazer dos finais de semana, comprou um sítio na BR-174 e, para se deslocar até lá, adquiriu um jipe da famosa marca Lander Rover, pois o acesso era difícil, com a estrada na piçarra e esburacada em toda a sua extensão – a viagem era uma aventura e, para vencer o percurso gastavam-se horas, com inegáveis atolamentos na época de chuva.

Por ser amigo da família, sempre era escalado para ir ao sítio, indo a reboque o meu irmão Henrique e o colega Alcenir (conhecido como Cara de Velha) – o carro era que nem um coração de mãe “sempre cabia mais um” – por ser muito longe para a época, saíamos no sábado e retornávamos somente no domingo à tarde.

No ramal da dava acesso a casa do sítio, tinha que passar por um pequeno igarapé conhecido como Paxiúba, onde fora construído uma ponte de madeira muito rudimentar – na época de chuvas, o igarapé transbordava, impossibilitando a passagem de automóveis – a travessia era feita no lombo de um cavalo - o Sêo Carlito aguardava o leito do rio baixar para pegar o Lander Rover que ficava na outra margem.

A casa era de madeira, com um grande quarto de dormir, uma pequena cozinha e uma imensa varanda, onde podia atar diversas redes para repousar – não existia luz elétrica, muito menos água encanada – os candeeiros e as lamparinas imperaram a noite toda - a água era retirada do igarapé do Tarumã Açu, depois de descer uma grande escada de madeira – a comida era feita num fogão à lenha, com o rádio a pilha ligado 24 horas para animar a festa – tudo natural, tempos bons, não?

Pois bem, o terreno era imenso, onde tinha até um grande campo de futebol - existiam muitas árvores frutíferas, como pupunheiras, goiabeiras, ingazeiras, tucumanzeiros, além de inúmeros pés de castanheiras do Brasil.

Existia por lá um caseiro conhecido como Sêo Zé, o homem estava seis meses trabalhando sem nunca ter dado um pulo na cidade, ele estava “atrasado” no balde, fazia muito tempo em que não pegava uma mulher – o jeito foi eu e o Marcos passarmos uma semana tomando conta do sítio, enquanto o velho trocava o óleo 40 nos prostíbulos da Rua Itamaracá.

Foi a primeira vez em que fiquei tanto tempo dentro da mata, uma semana inteira e, apesar de naquela época, existirem por lá, muitas galinhas, patos e perus no terreiro, passei três dias comendo direto ovos e sardinhas em lata, no café, almoço e janta, foi o suficiente para ficar enjoado por um dois anos.

No quarto dia, visitamos um sítio próximo ao nosso, o caseiro estava vários meses comendo Pirarucu seco com feijão de praia, o homem  não aguentava mais comer aquela comida e, propomos fazer um escambo (troca), levávamos ovos e sardinha em lata e ela preparava o nosso pirarucu com feijão, era uma delícia!

Com o passar do tempo, faleceram a Dona Nazaré e o Sê Carlito, com o sítio perdendo o seu encanto  - não vou por lá já faz muito anos.

No ano passado, tive a oportunidade de conversar com o Jourdan e o Marcos, fui convidado pelo primeiro para visitar novamente o sítio – topei na hora, qualquer um dia desses boiarei por lá e, lembrarei dos velhos tempo no sítio do Sêo Carlito. É isso ai.
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