domingo, 18 de outubro de 2009

O FALAR CABOCO: A ROUPAGEM E O DISCURSO

*Sérgio Augusto Freire de Souza

O que caracteriza o falar caboco? Qual a margem que o localiza como pertencente a um sujeito diferente? Definir essas margens é um dos grandes desafios dos lingüistas. Até que ponto isso é um termo do falar amazonense e não mais uma herança do falar nordestino incorporada ao patrimônio lingüístico local pela diacronia lingüística, que apagou o traço da história?

Na análise de nosso corpus, são duas as grandes influências que compõe o falar amazonense: a influência nordestina e a influência indígena. É preciso um breve histórico dessa influência.

Segundo Freire (2004), o Português é língua hegemônica na Amazônia há apenas 150 anos. Até então a presença lingüística da Língua Geral (Nheengatu) era preponderante, bem como as demais línguas das nações indígenas existentes.
Com o início do Ciclo da Borracha (1879-1912), a presença de migrantes nordestinos foi acentuada e seu falar passou a compor o cenário lingüístico da região. Os migrantes, principalmente cearenses, fugiam da seca e da miséria que avassalava sua região então.

Sob a base do português geral, essas duas variáveis passaram a desenhar os traços do linguajar amazônico. Quando falamos da dificuldade de definir bordas é exatamente a esses limites opacos que nos referimos. Nordestinos reconhecem em termos cabocos sua filiação nordestina. Indígenas vêem a presença de seus termos de forma forte no português amazônico. Termos e expressões como arrudear, bucho, caga-raiva e desconforme trazem uma cor nordestina, da mesma forma que carapanã, mangarataia, empachado, jururu, pitiú apontam para uma indigeniedade marcante.

Se o reconhecimento é um critério de identificação, o desconhecimento também o é. Uma vez feito o levantamento do vocabulário, passamos a “testar” suas bordas com pessoas não pertencentes ao universo discursivo amazonense. Expusemos os vocábulos a paulistas, mineiros, gaúchos, baianos, cearenses, fluminenses e catarinenses. Alguns termos foram reconhecidos na acepção utilizada pelo amazonense, mas a maioria dos termos era desconhecida. Sabendo da impossibilidade de um recorte preciso, porque a língua é volátil, tentamos ajustar o máximo possível as fronteiras que definiam o que ficava dentro e fora do dicionário.

Assim, antes que alguém reclame que determinada palavra não é exclusividade do falar amazonense, explicamos que a dinâmica da língua nunca garantirá tal propriedade exclusiva.

Afinal, é bom ou ruim ser caboco? Como nos diz Derrida (1997), todos os signos são pharmakon. Podem ser bons ou ruins, dependendo da dosagem e do paciente. Não seria diferente com a imagem de ser caboco. Encontramos índices de identificação e de contra-identificação (Pêcheux 1988) nas falas analisadas.

Algumas falas de identificação: “… é muito bom falar de coisas nossas, amazonenses. A nossa linguagem é única e fantástica”, “…ouvir essas palavras de novo me faz voltar o que de mais feliz eu tive: a minha infância”, “… é (sic) muito chibata essas expressões”, “gente, como é bom falar e ser entendida. Odeio quando falo as coisas aqui no Rio e ninguém me entende”.
Algumas falas de contra-identificação: “… é muita caboquice falar assim, coisa de gente pobre, do bodozal’, “… triste esse jeito de falar. Só cabocão fala assim…”, “… é uma pena que muita gente fala esse português errado…”.

Aqui voltamos à tese de que não há coincidência entre identidade lingüística e identidade discursiva. Por um lado, muitas frases de identificação vêm de falantes que não utilizam os termos cabocos com freqüência. Algumas frases traduzem o preconceito lingüístico (Bagno 1999) da associação biunívoca entre norma padrão e língua portuguesa, sendo todos os outros registros considerados como sendo português errado ou de pior qualidade. Por outro lado, essa mesma associação habita o imaginário das classes mais pobres que possuem acesso restrito à língua padrão, quando associam o registro que usam a uma língua inferior. Mesmo utilizando o registro, não o aceitam como de valor na economia das trocas simbólicas (Bourdieu 1999), mimetizando em sua própria auto-imagem da identidade social esse não-valor.

Ainda como exemplo de que a transversalidade valorativa perpassa as várias classes sociais, citamos dois exemplos recentes. A rede de drogarias Pague Menos chegou a Manaus oferecendo descontos de 60% nos medicamentos por ela vendidos. Os dois grupos que dominam o mercado farmacêutico em Manaus começaram uma propaganda maciça fazendo um chamamento à amazonidade, utilizando o slogan “Amazonense como você”, utilizando frases como “quem não lhe conhece não pode inspirar confiança” e coisas do gênero. O Banco HSBC decidiu fazer propagandas regionalizadas e utilizou várias expressões, como “Cortar a curica”, por exemplo. A repercussão foi extremamente positiva na cidade e o comercial bastante comentado. Vale ressaltar que a atitude positiva veio de um público que é cliente de banco e que tem acesso aos meios de comunicação.
AMAZONÊS

PERIGO loc. adv. – 1 Sem dinheiro. “Paga o lanche pra mim, cara, que eu tô a perigo”. 2 Muito tempo sem manter relações sexuais. “O Amaro está a perigo. Está pegando até velha desdentada”.
ABESTADO adj. – Apalermado, imbecil, idiota, estúpido, pessoa que não entende de nada. “Não gosto dele, não. Ele é muito abestado pro meu gosto”.
AFOLOSADO adj. – Frouxo, largo. “O parafuso não segura porque ele está cuspido e a porca está afolosada”.
ASA DURA s. f. – Avião. Usada na região de Parintins. “Não perco o festival por nada. Vou até de asa dura se precisar, apesar de morrer de medo”.
BANHO TECHO s. m. – Banho rápido, em que só se lava as partes íntimas.
BODOZAL s. m. – Bairro pobre, periferia. “Lá no bodozal onde ela mora não tem nem água e nem esgoto”.
BRONHA s. m. – Masturbação masculina. “Esse moleque só vive trancado no banheiro batendo bronha”.
CAIR NA BURAQUEIRA exp. id. – Cair na gandaia, ir para a farra. “Babita no bolso, carro novo… eita que eu vou é cair na buraqueira!”
CAIXA-PREGO s. f. – Lugar distante. “Para chegar lá temos que pegar três ônibus. Ela mora lá na caixa-prego”.
DE BODE loc. adj. – Menstruada. A associação vem do fato desse caprino, que não gosta de banho, exalar um cheiro muito forte, semelhante ao cheiro do sangue de origem uterina que ciclicamente a mulher expele. “Todo mês essa mulher diz que está doente, mas está mesmo é de bode!”
DE MALA E CUIA loc. adv. – Transferir-se para outro lugar com todos os pertences. “Ela foi de mala e cuia pra casa da mãe. Deixou o marido mesmo”.
ÉGUA! interj. – Égua pode ser usado em várias situações. Tomou um susto: “égua!” Alguém faz algo que você não entendeu: “égua…”. Uma situação estapafúrdia? “Éééguaa, maninho…”. A entonação faz parte do sentido.
FULEIRAGEM s. f. – Porcaria, coisa ruim. “O filme é a maior fuleiragem”.
INVOCADO adj. – Difícil de entender, de fazer, etc. “Esse brinquedo é invocado, né?” “Égua! Ele saiu com uma e voltou com outra? Invocado…”
KETCHBACK s. m. – Um lance amoroso, rolo. “Tive uns ketchbacks com ela no passado”.
LAMBANÇA s. f. – 1 Gabolice, bazófia, fanfarrice. “Ele falou que era rico?! Haha… pura lambança…” 2 Serviço mal realizado, sujeira. “Vou ter que pagar pra consertar o carro de novo. O outro mecânico foi mexer sem saber e fez a maior lambança”.
LESO adj., LESEIRA s. f. – Leso é alguém que sofre de leseira. Leseira é um abestalhamento momentâneo que acomete o leso. Se a leseira for uma característica contínua, dizemos que o leso sofre de leseira baré. Dizem que a leseira baré ocorre entre os amazonenses devido ao sol quente na cabeça, que queima alguns neurônios. Temos ainda as expressões derivadas: “Deixa de ser leso!” e “Pára de leseira!” Dizem que todos os amazonenses têm três minutos de leseira por dia. Mas como tudo tem seus dois lados, dizem também que o sol também causa nos amazonense o tesão de mormaço, um aumento na capacidade sexual devido ao sol quente.
MAIOR PALHA loc. adj. – Muito ruim. “Esse cantor é a maior palha”.
MANO voc. – Tratamento carinhoso entre conhecidos ou não. Muito usado para fazer perguntas e pedidos. “Mana, faz um favor pra mim?” “E aí, tudo bem, mano?” Variações no diminutivo: maninho, maninha.
PAID’ÉGUA adj. – Algo ou alguém muito bom, muito legal. “O filme é paid’égua”. “O teu pai é um cara paid’égua!”
PINGUELO s. m. – 1 Órgão sexual feminino. “Menino nasce por onde entra: pelo pinguelo”. 2 Clitóris.
PIRIGUETE s. f. – Mulher fácil. Aglutinação de Piranha (ou Perigosa) com Gueguete. “As piriguetes do trabalho do meu marido ficam dando em cima dele direto”.
TÁ, CHEIROSO! exp. id. – Não, mesmo! “Vou pegar teu carro esse fim-de-semana, tá bom?” “Tá, cheiroso! Esquece!”

QUERIDA voc. – Falso cognato. O uso da palavra “querida” no Amazonas denota certo sarcasmo ou ironia. “Escuta aqui, minha querida. Eu sou a mulher dele, entendeu?” “Você não está entendo, querido. (ou seja, você é um burro!)”. Mulher amazonense odeia ser chamada de querida.
RÁDIO CIPÓ s. f. – A boca pequena, a fofoca. “Diz a Rádio Cipó que o Gláucio vai ser demitido”.
RATADA s. f. – Mancada, pisada de bola. “Eu ia fazer uma festa surpresa, mas o João acabou contando antes. Deu a maior ratada!”
TE METE! Exp. id. – Humilhou! “Olha o anel de ouro com brilhante dela!” “Te mete!”
VAI TE LASCAR! interj. – Expressão de raiva ou de decepção. “Vai casar de novo? Ah, vai te lascar!”
ZERO-BALA adj. – Renovado, pronto pra outra. “Tava de porre ontem, mas agora estou zero-bala”.

*Sérgio Augusto Freire de Souza é amazonense de Manaus, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Mestre em Letras pela própria UFAM e Doutor em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).
Publicou dois livros. O primeiro, em co-autoria, foi a série Citizen 2000, pela Editora Novo Tempo. A série didática foi utilizada por anos pelos alunos do ensino médio da rede pública do Amazonas, tendo sido reformulada em 2004 e rebatizada de New Citizen. O segundo livro, Conhecendo Análise de Discurso: linguagem, sociedade e ideologia, apresenta uma introdução à área de Análise de Discurso e foi publicado pela Editora Valer.

O autor tem publicado artigos em vários periódicos impressos e on-line e apresentado trabalho em encontros e congressos, além de proferir palestras em várias instituições. Suas áreas de interesse na lingüística são a Análise de Discurso, Produção de Material Didático, Aquisição de Linguagem e Informática e Ensino de Línguas. Mais recentemente ampliou seu interesse por Gestão da Educação Pública.

É casado com Fabiana Eid e pai de Ana Clara e de Marina. Em seu site pessoal
www.elton.com.br podem ser encontradas mais informações e outros textos do autor, como suas crônicas, muitas publicadas em jornais locais.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ILHA DE MARAPATÁ


Existe uma ilha fantástica no Amazonas, localizada bem na entrada de Manaus, chama-se Ilha de Marapatá, alguns estudiosos dizem que este nome significa na língua Macua (tribo africana) alpendre (Espaço coberto, reentrante, e aberto na fachada de uma casa, que dá acesso ao interior).

Este lugar é tema para muitos cientistas sociais e escritores, no que diz respeito a ética - falam que o interiorano com a sua peculiar “pureza” ou o forasteiro, antes de aportar em Manaus, deixa a sua vergonha na Ilha de Marapatá, tornando a cidade um lugar ideal para trapaças e crimes. Os empresários que teimam em construir o Porto das Lajes, deixaram as suas consciências (honradez, retidão e probidade) enterradas na ilha, aliás desejam fincar os seus negócios bem na “ilharga” da ilha – no encontra das águas!

Tanto que o escritor Euclides da Cunha, no seu livro Terra Sem História relata o seguinte “..À entrada de Manaus existe uma ilha, de Marapatá, que é o mais original dos lazaretos (que, ou aquele que tem pústulas, chagas) um lazareto de almas! Ali, dizem, o recém-vindo deixa a consciência...”. O também famoso Mário de Andrade, ao escrever Macunaíma, refere-se a ilha ”... No outro dia Macunaíma pulou cedo na ubá (canoa indígena) e deu uma chegada até a foz do rio Negro pra deixar a consciência na ilha de Marapatá, deixou-a bem na ponta dum mandacaru de dez metros, pra não ser comida pelas saúvas, voltou pro lugar onde os manos esperavam e no pino do dia os três rumaram pra margem esquerda do Sol”.

O cantor e compositor Armando de Paula e o saudoso poeta Anibal Beça, escreveram e musicaram uma linda canção chamada “Marapatá”, a letra é assim:

Que doce mistério/Abriga teu dorso/De ilha afogada/No curso das mágoas?/O Velho Bahira/Se mira nas águas/Espelho da lua/Narciso nheengara/
É Marapatá, porta de Manaus/É Marapatá, patati patatá/
Que mana maninha/Que dança sozinha/Savana de seda/Pavana de cio/Campim canarana/Bubuia banzando/Canção enrugada/Banzeiro de rio/
Vá logo deixando/Senhor forasteiro/A sua vergonha/Em Marapatá/Vergonha se verga/Na cuia do ventre/No V da ilhargas/Vincando por lá/
Cunhã se arretando/Tesão de mormaço/Abrindo as entranhas/A flor do tajá/E o macho fungando/Flechando, fisgando/Mordendo a leseira/Dizendo: "Ulha já!"

É isso aí, manos e manas da nossa aldeia! Vamos mudar - nada de deixar a consciência na Ilha de Marapatá!
Vamos fazer uma bela Manaus, com homens retos, probos, visando sempre o bem comum e o respeito pela mãe natureza, do jeito que está - não dá para ser feliz, Marapatá!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

KÁTIA MARIA - 50 ANOS DE MÚSICA

Nascida no dia 10 de março de 1940, na Rua Santa Izabel, no bairro da Praça 14 de Janeiro, a menina Cleonice Galvão do Nascimento, filha do estivador Manoel Galvão e de sua esposa, a dona de casa Francisca Nogueira do Nascimento, ainda na tenra idade, já sonhava viver no mundo da arte inspirada nos musicais exibidos nas telas dos cinemas, na provinciana capital amazonense, que não deixava de frequentar, especialmente quando os astros principais eram Ninon Sevilla, Elvira Pagã ou Maria Antonieta Pons. Essa fascinação a levaria, ainda na adolescência, com pouco mais de 16 anos, junto com a irmã Cleide, mais nova apenas dois anos, a participar de shows que começara a ser realizado pela Rádio Baré, como bailarina de rumba, adotando o nome artístico de Irmãs Galvão. Essas apresentações antecediam os astros principais naquela época, como Carlos Simões, Sheila Maria, Maria das Dores, Estevão Santos, Izinha Toscano, Simas Vieira, acompanhados por exímios instrumentalistas que fizeram fama na época de ouro da Rádio Amazonense, como Olavo Santana, Domingos Lima e Máximo Pereira.

Em abril de 1958, decidiu apresentar-se individualmente, agora como cantora, sendo aprovada imediatamente pelos músicos que faziam parte do cast da Rádio Difusora do Amazonas, inaugurada em 24 de novembro de 1948, que concorria com a Rádio Baré em programações semelhantes, com um palco dotado de piano e excelentes músicos a dirigir a sua programação musical, iniciando uma trajetória que perduraria por mais de 50 anos, tendo sido muitas vezes premiada como a melhor cantora do Amazonas.

KÁTIA MARIA, seu nome artístico começou a ficar reconhecido pelas autoridades ligadas a cultura do Amazonas, quando recebeu várias homenagens, como Rainha do Rádio. No ano de 2002 foi homenageada no espetáculo Mulheres do Brasil, realizado no Teatro da Instalação, com a participação das cantoras Lucilene Castro, Lucinha Cabral, Márcia Siqueira, Fátima Silva, Sinara Nery e Cristina de Oliveira. Em 2005, recebeu a medalha Ana Carolina, o plenário da Câmara Municipal de Manaus, com a presença do mundo artístico e intelectual manauense. Em 2006, recebeu a Medalha do Mérito Legislativo, da Assembléia Legislativa do Amazonas, pelos relevantes serviços prestados a música de nossa terra. No dia 24 de novembro de 2008 no Teatro Amazonas, a cantora Kátia Maria recebeu da Rádio Difusora do Amazonas o Microfone de Ouro, em comemoração aos 60 anos da referida rádio.


O release acima foi retirado do Projeto Kátia Mária – 50 anos de Música. O espetáculo em comemoração a Boda de Ouro será realizada no Teatro Amazonas, no dia 02 de dezembro de 2009, contará com a participação especial de Lili Andrade, Cilene Castro, Engrid Nascimento e Flávio de Castro, com a direção de Manoel Passos. O projeto está aberto aos empresários que desejarem colaborar com este grande evento.


sábado, 10 de outubro de 2009

ENCONTRO DAS ÁGUAS - AINDA PODEMOS SAVÁ-LO



*TENÓRIOS TELLES

A terra é a nossa casa e a natureza é o jardim e a fonte de nossas vidas. Maltratar a terra, agredi-la e devastá-la, significa por em risco a segurança de nossa morada, prejudicar o frágil equilíbrio que mantém vivo os rios, as florestas, os bichos e também os seres humanos. Movidos pelo egoísmo e arrogância, alguns homens têm feito exatamente isso: destruído o jardim que herdamos da providência para vivermos e nela sermos felizes.
Transformaram o planeta num lugar ameaçador para a vida. E não contentes, apesar de todos os alertas, seguem destruindo, queimando... Essas criaturas que não merecem ser chamadas de humanas carregam no peito não um coração, mas uma pedra. Não sentem e não se comovem com nada: falar com elas sobre flores, passarinhos, rios, árvores, céu, estrelas. Beija-flores... Ou sobre o Encontro das Águas, é inútil. Insensíveis, não percebem a beleza que emana dessas coisas, veem apenas cifrões e a possibilidade de levar vantagem.
Esse tipo de gente mente, intimida e destrói para alcançar os seus intentos, como têm feito em relação à insanidade de construir um porto no Encontro das Águas. Não compreende o significado de um lugar como esse – encontro de dois rios milenares que carregam em suas falas e suas águas a memória do passado, do que somos e do próprio tempo. Não percebem sequer a beleza desse lugar mágico. O pior é que não se comovem com o seu simbolismo, sua grandeza, o encanto, sua grandeza divina. O argumento do dinheiro e do progresso obscureceu-lhes os olhos aos sentimentos.
Apaixonado que sou por esse santuário, que traduza força e exuberância de nossa terra e expressa a nossa identidade, fui ao Encontro das Águas. Num pequeno barco, naveguei-lhe as águas, maravilhei-me com a floresta de suas margens, os pássaros, as gaivotas, o silencio e a paz que emanam desse espaço que mais que uma dádiva de Deus é uma bênção.
Queria me certificar de que não estava sendo inconsequente ou irresponsável ao me posicionar contra a construção do porto das lajes. Na verdade,, eu não sou contra que porto seja construído. Só não concordo que seja no Encontro das Águas e seu entorno. Esse patrimônio deve ser preservado para as próximas gerações. Para a nação, enfim, para a humanidade.
Ao voltar, emocionado com a beleza e grandiosidade dos dois rios que sem embatem e se abraçam e resolvem se juntar para ser um só, concluí que pensaram o projeto errado para o lugar. A região do Encontro das Águas deveria ser um centro de turístico e de entretenimento, com espaços culturais, bosques públicos, com um grande teatro, um grande aquário com as espécies regionais e um centro de estudo e documentação da memória da Amazônia e sua gente. Seria uma maneira de gerar renda, aproveitar o potencial turístico do lugar, sem destruir esse patrimônio do povo amazonense. O Encontro das Águas não pertence à Lo-in Logistica Intermodal. O Encontro das Águas é um bem de nossa gente.
A decisão de construir esse porto está na contramão dos debates e a preocupações com a preservação da natureza. A sociedade precisa tomar uma atitude para impedir essa estupidez, ante que seja tarde. O governador Eduardo Braga, que assumiu compromissos, perante a comunidade internacional, com o meio ambiente e com a defesa da Amazônia, precisa tomar uma atitude para impedir que essa insanidade seja cometida. A força da grana não deve prevalecer sobre os direitos da sociedade ou ser usada de forma irracional para destruir nosso patrimônio natural. O dever de salvar o Encontro das Águas é de todos. E ainda é tempo.

*escritor amazonense – e-mail
tenoriotelles@hotmail.com

Este grito de alerta do nobre escritor Tenório Telles, foi publicado no jornal A Crítica, edição de 10 do corrente.

Faço parte do Movimento SOS Encontro da Águas, com a liderança do antropólogo e professor da UFAM Aldemir Ramos. Para que os senhores tenham uma idéia, este mega projeto conta com o apoio irrestrito do governador do Estado do Amazonas, o auto intitulado protetor da floresta amazônica em pé - Eduardo Braga -, da Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA), da poderosa Coca-Cola, através do Grupo Simões (Juma Participações S.A.) de Manaus e da Log-In Intermodal S.A., sediada no Rio de Janeiro, pertencente a empresários italianos.

Os três senadores do Amazonas, escritores, pesquisadores, comunitários do Lago do Aleixo, estudantes do ensino médio e fundamental, artistas, religiosos, cientistas, ambientalistas, membros do PV, PSOL, CUT e alguns do PT, indígenas, estudantes da UFAM e UEA, dentre outros segmentos da sociedade civil amazonense – são radicalmente contrários a este insano empreendimento.

Este porto irá comprometer o Encontra das Águas, acabará com o Lago do Aleixo, expulsará os moradores do entorno, facilitará o contrabando, a importação de lixo dos paises desenvolvidos e de drogas - é mole ou quer mais?

Fique também do nosso lado, do lado do meio ambiente, diga NÃO a construção do porto das lajes no Encontro das Águas!

MANHÃ CHUVOSA EM MANAUS

Após 50 dias de estiagem, calor insuportável e fumaça das inúmeras queimadas da Amazônia, a cidade Manaus amanheceu com uma chuva torrencial, o clima está agradável, uma beleza! Mesmo embaixo de chuva, resolvi tirar algumas fotos da nossa Manô de mil contrastes - na colagem aparecem o Monumento de Abertura dos Portos as Nações Amigas, o Colégio Adalberto Valle, Canto do Quintela, Academia Amazonense de Letras, Bar do Armando, Praça Heliodoro Balbi (antiga praça da Polícia), Residências Antigas de Manaus, antiga Fábrica de Velas e Loja Simbólica Amazonas.

Recebo alguns e-mails de pessoas que moraram aqui em Manaus e também de amazonenses que estão longe da sua terra, sentem saudades da nossa terrinha, para ameninar um pouco, disponibilizo algumas fotos no blog, mando também para e-mail do solicitante alguma foto especifica de algum lugar da cidade, sem nenhum ônus, apenas pelo prazer em servir e ajudar aos nossos semelhantes.

É isso ai!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

SALADA DE MANAUS - DÉCADAS DE 60 A 80


Quem nasceu em Manaus ou aqui viveu nessas décadas, com certeza, os nomes que servem de ingredientes da nossa salada, tem tudo a ver, lembra do nosso passado, da nossa infância, adolescência e no início da nossa maioridade. Vamos conferir:

The Blue Birds, The Rocks, Os Embaixadores, Domingos Lima e Conjunto, The Sinners, The Golden Boys, Bancrévia Clube, Sheik Clube, Moranguinho, Boite dos Ingleses, Barés Club, Danilo´s Club, Rio Negro Clube, União Esportiva, Ideal, Amazon Hotel Club, Crocodilo´s Club, Mandy´s Bar, Cabana dos Barés, Chaim, Jander, Manoel Batera, Salim Gonçalves, Izinha Toscano, Kátia Maria, Abílio Farias, Maranhense, Canto da Peixada, Solar da Olímpia, Garfo de Ouro, Restaurante Tucunaré, Frial, Lobo´s, A Gogô, Galeto´s, Insinuante, Acapulco Clube, Guaraciaba, Quitandinha, Cananga do Japão, Saramandaia, Tia Chica, Lá Hoje, Maria das Patas, Ângelus, Verônica, Selvagem, Alonso´s Bar, Rosa de Maio, Piscina Club, Chica Bobó, Shangrila, Patrícia Bar, Tia Raí, Poço de Caldas, Floresta, Gonorréia, Chato, Cabeça de Galo, Pó de Arroz, Mococa, Matamatá, Madeira, Astride, Manteiga, Little Box, Pepeta Close, Bar do Armando, Bar dos Cornos, Alex Bar, Cachucha, Katequero, Jangadeiro, Pinguim, Natalia, Orion, Cocal, XPTO, Batida de Mangarataia, Minister, Gaivota, Tabaco de Corda,Guaraná Luzéia, Baré, Magistral, Mirinda, X-9, Leão da Amazônia, Otinha, Melo Mato, Papagaio do Russo, CEM, COSAMA, IAPETEC, Delegado do Diabo, Bumbalá, Carmem Doida, Gaivota, Xerife, Nega Maluca, Hospício Eduardo Ribeiro, Violão do Rochinha, Seresta, Festinha do Acocho,Tiba, Simões, Orlando Sete Cordas, Moisés, Opala, Kombi, DKV, Chevette, Rural Willy, Fusca, Carroça, Ônibus de madeira, Carrapeta, Goaiaba Nacionalino, Torcida Galo Gay, Boca de Bilha, Parque Amazonense, Colina, Tartarugão, Cachorro Quente, Disco Voador, Olímpico Clube, Ferroviária, Rio Negro, São Raimundo, Fast, Nacional, América, Sul América, Fada, FAF, Acleia, Arnaldo Santos, Leal da Cunha, Belmiro Vianez, Carlos Zamith, Flaviano Linmongi, Edson Piola, Afonso, Marialvo, Pepeta, Clóvis, Santarém, Cine Guarany, Odeon, Éden, Avenida, Popular, Polytheama, Ideal, Vitória, Jaú, Peixeiro Juizado de Menores, Dona Iaiá, Zorro, Durango Kid, Os Três Patetas, Rádio Rio Mar, Difusora, Baré, Tropical, Crônica do Meio Dia, TV Educativa, Ajuricaba, Sadi Huache, Josué Cláudio de Souza, Baby Rizzato, Jornal do Commercio, A Crítica, A Notícia, Corrida Archer Pinto, Godot, Evandro Carreira, Fábio Lucena, Jéferson Peres, Plínio Coelho, Gilberto Mestrinho, Coronel Teixeira, Canto do Quintela, Mocó, Castelinho, Canto do Fuxico, Ferro de Engomar, Bolo Confeitado, Rodoway, Teatro Amazonas, Beira do Mercadão, Cemitério São João Batista, Santa Helena, Igreja da Matriz, São Sebastião, Remédios, Aviaquario, Avenida Eduardo Ribeiro, Sete de Setembro, Getúlio Vargas, Barelândia, Unidos da Selva, Andanças de Ciganos, Colégio Estadual, Barão do Rio Branco, Brasileiro, IEA, Benjamin Constant, São Luiz de Gonzaga, Dorotéia, Militar, Dom Bosco, Primeira Ponte, Segunda e Terceira, Festival do General Osório, Bola da Suframa, Boi Corre Campo, Dança do Cacetinho, Tribo dos Andirás, Luz de Guerra, Maranhão, Paulo Gilberto, Parque Dez, Ponte da Bolívia, Cachoeira do Tarumã, Tarumazinho, Ponta Negra, Igarapé de Manaus, Caxangá, Amarelinho, Tucunaré Clube, Guanabara, Praça da Polícia, Congresso, Saudade, Correto da Polícia, Avião da Saudade, Clube da Madrugada, Projeto Jaraqui, Papagaio do Russo, Bairro do Céu, Educados, Bairro dos Tocos, Cachoeirinha, Adrianópolis, Bulevar Amazonas, Beneficente Portuguesa, Santa Casa de Misericórdia, Pronto Socorro São José, Dr. Conte Telles, Penicilina, Cibalena, Minacora, Jalapa Pião, Mamona, Garrafada, Lavagem no Toba, Penico, Charão, Ferro de Engomar a carvão, Pilão, Petisqueira, Leiteira, Rádio a Válvulas, Vitrola Nivico Hi-Fi, Discos de Vinil, Aladim, Lamparina, Rala-Rala, Refresco K-Suke, Pirulito, Filhós, Bolo de Milho, Bolo de Macaxeira, Alfenim, K-Chute, Conga, Suspensório, Cueca Samba Canção, Anágua, Espartilho, Corpete, Bata, Chapéu Panamá, Pente Flamengo, Brilhantina, Laquê, Bobes.

Chega de Salada! É muito ou quer mais?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

PERSONALIDADES DO AMAZONAS


Barão do Rio Branco

Dr. Leopoldo Amorim da Silva Neves

Dr. Raimundo Chaves Ribeiro

Dr. Adriano Jorge

Maestro Claudio Santoro

Fundadores do Clube da Madrugada

Djalma Melo

Governador Álvaro Maia

J. G. Araujo

Miss Terezinha Morango

Cel. Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt

Cel. Domingo Jose de Andrade

domingo, 4 de outubro de 2009

COLÉGIO AMAZONENSE DOM PEDRO II

Posted by Picasa
Este é o Colégio mais tradicional de Manaus, está situado na Avenida Sete de Setembro, 1097, centro antigo. Aos cinco dias do mês de setembro do ano de 1886, no salão nobre, o presidente da Província, Dr. Ernesto Adolpho de Vasconcelos Chaves, inaugurou solenemente o novo colégio.


Antes de se instalar definitivamente neste local, passou por vários lugares, recebeu também diversas denominações – Lyceu Provincial, Gymnasio Amazonense Dom Pedro II, Colégio Estadual do Amazonas e Colégio Amazonense Dom Pedro II.


Segundo a historiadora Carmelita Esteves de Castro:

“A história do Colégio Amazonense Dom Pedro II, desde sua origem, é assinalada pela afirmação das lutas na busca de um ideal renovador e a razão do entusiasmo da Juventude que de geração em geração, sempre ávida de glórias, sedenta de instrução, vai a caminho de um futuro de respeito e veneração, mesmo nos momentos mais graves de sua vida, com acontecimentos marcados, muitas vezes pela desordem, agressão, como no caso da Revolta de junho de 1915, quando descontentes com o ensino ali ministrado que não satisfazia seus anseios, enfrentando crise moral e material, os alunos num movimento sistematizado de indisciplina, promoveram uma depredação desenfreada, gerando anarquia e terror, forçando o Diretor, os professores e os funcionários a abandonar o edifício, deixando-o entregue à sanha dos estudantes amotinados, tendo como resultado o fechamento do Colégio que só retornou às suas atividades normais em março de 1916."Essa Revolta concorreu para que houvesse uma Reforma de Ensino com a elaboração de um novo regimento para o Colégio no qual constava um item renovador que dava responsabilidade aos “pais, tuctores ou protectores dos alumnos pelos delictos que estes pratiquem”, além da recuperação do prédio danificado.
Outro movimento estudantil de maior vulto e digno de destaque é a famosa Revolução Ginasiana de 30, quando todo o País encontrava-se num estado de agitação e alerta em decorrência dos acontecimentos político-econômicos que conturbavam a nação.
Aqui em Manaus, a Polícia Civil imbuída de grandes poderes, perseguia, prendia e espancava os estudantes que faziam comícios e praticavam, muitas vezes, arruaças nos bares, praças e ruas da cidade.
Aproveitando-se da situação instável que atravessava o país, estes estudantes iniciaram um movimento contra a Polícia, que culminou com o envolvimento do Exército, finalizando com a rendição desta mesma Polícia e a ocupação do seu prédio pelos jovens revolucionários.
O Governador Dorval Porto foi deposto e esses mesmos jovens o escoltaram do Palácio até as dependências do Grande Hotel, onde ficaria hospedado; foram momentos de glória para a juventude Ginasiana que briosamente tomou parte neste movimento.
 
"Manaus, Amor de Memória", do poeta e escritor Thiago de Mello:
"De todas as coisas tantas que se pode dizer do Ginásio do nosso tempo esta frase tão simples é a fundamental: nós tínhamos orgulho de ser ginasianos. "Aqui só entra quem sabe", dizia com seu jeito mando o inspetor Júlio Nery, na manhã de 1937 em que minha turma se apresentou para o exame de admissão.
E já no fim do curso, o professor Machado e Silva, jovem diretor que soube honrar a tradição de amor à casa afirmada por Carlos Mesquita, nos advertiu ao encerramento de uma palestra inesquecível: "No Ginásio ninguém estuda para passar de ano, mas para ficar sabendo o que estudou..." “... Três figuras do quadro de funcionários do Ginásio habitam vivos nossa memória.
O principal deles, caboclo troncudo, sempre de cara amarrada, era o Eduardo, dito Cangalha, chefe geral de disciplina do ginásio. Trazia um passado de beque de futebol.
Ficava a um metro da banda muito estreita da porta, que só permitia a entrada de um aluno por vez, de olho em nós de gravata mal dado em botão desabotoado.
Encostado à portinha e recebendo a caderneta dos alunos, ficava o Rubi, que tinha residência no próprio terreno do Ginásio e era pai da Maria de Jesus nossa colega.
O terceiro era um Bedel, profissão subalterna, agradava pela feiúra do funcionário baixinho e de óculos de lentes espantosamente grossas, cuja timidez defendia com rompantes rabugentos. Chamava-se Themístocles, mas para o Ginásio era o Jacarandá"

Não tive a capacidade intelectual suficiente para ingressar no Colégio Amazonense Dom Pedro II, porém tenho muitas lembranças de lá: o meu irmão mais velho, o Rocha Filho, foi um aluno aplicado, lembro quando usava garbosamente a sua farda de gala nos desfiles da semana da pátria e do Amazonas.

O meu irmão Rocha, conta que eles tinham um mascote, era um Bode, pertencia ao vigia Braquinha (pai do Geraldo da Sefaz), esse caprino era tão querido pelos alunos que no desfile de 7 de Setembro, ele era colocado em destaque bem em frente da turma, com farda e placa e tudo o mais.

Aos domingos pulávamos o muro para jogar bola na quadra de esportes; além das inúmeras "olhadelas" nas gatinhas “ginasianas” quando estavam fazendo educação física.

Antes da falência do ensino fundamental e médio da rede pública, este Colégio era a referência na formação da elite pensante de Manaus, pois o prédio é um dos mais bonitos e espaçosos da cidade, os mais brilhantes professores lecionaram naquela instituição de ensino, o regime interno era baseado nas escolas militares, além do processo seletivo para admissão de novos alunos era demasiadamente rigoroso.

Outro momento muito especial era nos dias de votação para os membros do legislativo e do executivo do nosso Estado, a minha seção ficava no Colégio, era uma oportunidade ímpar de reencontrar os meus velhos colegas do Igarapé de Manaus.

O Colégio Amazonense Dom Pedro II, vem com o passar dos anos se construindo e permanecendo como símbolo de cultura e história para o povo amazonense, que enfim, se orgulha de ter um patrimônio de tamanho significado para o Estado do Amazonas. É isso ai.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

THIAGO DE MELLO, O POETA



Escrever sobre o homem amazônico, faz parte dos objetivos do nosso blog, principalmente daqueles que se empenharam para o nosso desenvolvimento cultural, social e econômico; dentro dessa linha, publico a biografia do famosíssimo poeta amazonense Thiago de Mello; a foto em preto e branco mostra o momento solene do ingresso do "caboco" na Academia Amazonense de Letras, usava ainda o tradicional terno e gravata; a foto colorida, mostra o acadêmico com a sua eterna indumentaria; acredito que os seus pares abriram uma exceção, deixaram o poeta usar o "branco" da paz.

Antes de conhecermos um pouco do brilhante poeta, que tal refletirmos um pouco sobre o que ele escreveu quando estava no exílio:

ESTATUTO DO HOMEM (Ato Institucional Permanente) - A Carlos Heitor Cony

Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, o uso do traje branco.
Artigo XI Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Thiago de Mello Santiago do Chile, abril de 1964
"Thiago de Mello nasceu na cidade de Barreirinha, no Amazonas, no dia 30 de março de 1926. Em Manaus, capital do Estado, fez seus primeiros estudos. Mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ), onde cursou a Faculdade de Medicina até o quarto ano. Acabou optando por deixar os estudos médicos e dedicou-se à poesia. Conhecido internacionalmente por sua luta em prol dos direitos humanos, pela ecologia e pela paz mundial, o autor foi perseguido pela ditadura militar implantada no Brasil em 1964. Foi obrigado a deixar sua terra, tendo se exilado no Chile, até a queda de Salvador Allende. Seus trabalhos foram publicados no Chile, Portugal, Uruguai, Estados Unidos da América, Argentina, Alemanha, Cuba, França e outros mais. Traduziu para o português obras de Pablo Neruda, T. S. Elliot, Ernesto Cardenal, César Vallejo, Nicolas Guillén e Eliseo Diego. Algumas obras do autor: Poemas: Silêncio e Palavra, 1951 Narciso Cego, 1952 A Lenda da Rosa, 1956 Vento Geral, 1960 (reunião dos livros anteriores e mais dois inéditos: Tenebrosa Acqua e Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório) Faz Escuro, mas eu Canto, 1965 A Canção do Amor Armado, 1966 Poesia comprometida com a minha e a tua vida, 1975 Os Estatutos do Homem, 1977 (com desenhos de Aldemir Martins) Horóscopo para os que estão Vivos, 1984 Mormaço na Floresta, 1984 Vento Geral – Poesia 1951-1981, 1981 Num Campo de Margaridas, 1986 De uma Vez por Todas, 1996 Prosa: Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao rio Amazonas e seus Barrancos, 1957 A Estrela da Manhã, 1968; Arte e Ciência de Empinar Papagaio, 1983 Manaus, Amor e Memória, 1984 Amazonas, Pátria da Água, 1991 (edição de luxo, bilíngüe (português e inglês), com fotografias de Luiz Cláudio Marigo). Amazônia — A Menina dos Olhos do Mundo, 1992 O Povo sabe o que Diz, 1993 Borges na Luz de Borges, 1993. Discos: Poesias de Thiago de Mello, 1963 Die Statuten des Menschen. Cantata para orquestra e coro. Música de Peter Jansens, 1976 Thiago de Mello, Palabra de esta América. Casa de las Américas. La Habana, 1985 Mormaço na Floresta. Locução do autor, 1986 Os Estatutos do Homem e Poemas Inéditos, 1992" http://www.portalamazonia.com/