Introdução
Ao escrever este livro, levei em consideração tanto a memória coletiva do povo amazonense quanto os registros históricos. A memória coletiva, por sua natureza subjetiva, apresenta diferentes versões de um mesmo acontecimento; já os fatos históricos são objetivos e precisos, baseados em fontes oficiais e aceitos pela comunidade de historiadores. A fusão desses elementos enriqueceu a narrativa, tornando-a atraente para diversos públicos. Se por vezes a história pode parecer árida, a memória coletiva lhe confere cor e brilho, revestindo os fatos de vida e emoção. Essa combinação também desperta maior interesse nos leitores. Este livro apresenta-se como um romance histórico, fruto de minha imaginação criativa e de intensas pesquisas em jornais antigos e obras de escritores amazonenses. Contou ainda com a colaboração da Inteligência Artificial, baseada em sistemas neurais artificiais inspirados no cérebro humano. Apesar desse esforço, reconheço que a obra pode conter erros e omissões. Seu objetivo principal é oferecer um vislumbre da história antiga e contemporânea da cidade de Manaus, bem como daquilo que permanece na memória de seu povo ao longo dos séculos. A construção desta obra envolveu inúmeros desafios, especialmente no desenvolvimento da trama, dos personagens e na criação de um universo que mescla realidade e imaginação. Inspirada pela física teórica e pela liberdade criativa da ficção, a narrativa ousa ultrapassar fronteiras de tempo e espaço. Na trama, a personagem principal vive no passado e, em sonhos, encontra-se com um personagem do presente. Juntos, viajam por meio de um portal, retornam ao presente e exploram diferentes épocas. No entanto, na imaginação do escritor, tudo é possível: personagens vivenciam aventuras em diferentes períodos, presenciam eventos marcantes e até mesmo alteram o curso da história. A ficção, afinal, oferece um espaço seguro onde as regras da física podem ser flexibilizadas para transmitir ao leitor a mensagem que desejo compartilhar. Este pequeno livro, com pouco mais de quarenta páginas, é repleto de emoção e inspiração histórica. Convido você a aproveitar cada página, deixar-se levar pela magia da leitura, enriquecer seus conhecimentos, refletir sobre sua própria vida e valorizar ainda mais nossa história e memória coletiva. Que todos tenham uma envolvente viagem no tempo.
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"...Naquele setembro quente e úmido, embarcou sozinho
para Manaus. Não era uma visita qualquer. Riba voltava exatamente nas
comemorações do sesquicentenário de nascimento
de Eduardo Ribeiro, o enigmático governador negro que revolucionara a cidade, o homem que, contra
todas as forças contrárias, fincara no coração da floresta a joia que
simbolizaria a ‘Paris dos Trópicos’.
O destino levou Riba ao Teatro Amazonas, que conhecia de cor desde a sua adolescencia como
morador da Rua Tapajós e de participante da juventude franciscana da Igreja de
São Sebastião - ou achava que conhecia. Caminhou pelos corredores vazios,
saboreando o silêncio raro. Cada sala respirava história. Cada degrau parecia
pulsar memórias de gala, glória e suor de operários. Até que algo quebrou
aquela paz.
Uma pessoa passou correndo por ele, entrando no
banheiro masculino. Era um homem de pele negra brilhando sob a luz amarela do
corredor, vestido de maneria formal e elegante, com paletó, colete e calças
escuras, gravata, camisa de colarinho alto e abotaduras, fraque e uma bengala. Riba
parou. O coração bateu como se reconhecesse antes mesmo da razão. Aquela figura
- real demais para ser sonho, improvável demais para ser real - entrou no
banheiro masculino. O escritor hesitou por um segundo. Depois, como quem aceita
um chamado antigo, abriu a porta.
Ali estava ele. Eduardo Gonçalves Ribeiro, em carne, presença e mistério. O Pensador o observou com firmeza, como quem já o esperava. E falou com a naturalidade de quem conversa fora do tempo:
- Eu sabia, Ribamar. Você sempre
acreditou que o tempo é uma estrada. Hoje, ela se abriu para nós dois. O escritor não respondeu. Apenas sentiu. Sentiu
que aquela aparição não era visão, truque ou fantasma. Era convite.
Eduardo aproximou-se, apoiando a bengala no chão
com leveza:
- Voltei para o presente e vim
buscar você para o passado. Há coisas que só podem ser entendidas lá onde
aconteceram. Venha. Vou lhe mostrar minha vida, minhas batalhas, minhas perdas.
Irei falar sobre o meu nascimento, meus estudos, minhas publicações no jornal ‘O Pensador’, onde eu combatia a Monarquia e
lutava pela implantação da República, tudo isto em São Luís do Maranhão. Você
irá conhecer como foi a minha chegada a Manaus, o meu trabalho em prol
da população, as obras que ficaram para a posteridader, as guerras políticas
que enfrentei aqui e o suposto suicídio em minha Chacara e, sobretudo, quero
que veja com seus próprios olhos o que fizeram comigo… e por quê, além de
alguns acontecimentos após a minha passagem para outro plano – depois,
voltaremos ao presente, onde você poderá escrever um livro contando a minha
real história, enquanto eu, ficarei voltando algumas vezes ao presente, passeando pelos corredores da minha
obra-prima, o orgulho do povo amazonense, o nosso magestoso Teatro Amazonas, onde
gosto de assistir do ‘Camarote Oficial do Governador’ as apresentações do Festival de Ópera, Jazz,
Companhias Teatrais e apresentações de artistas locais, nacionais e até
internacionais.
Já próximo às dezessete horas, o momento de
fechamento do Teatro Amazonas para visitação pública e sob orientação de
Eduardo, os dois caminharam até a ‘Varanda Externa da Fachada Principal’. A boquinha
da noite manauara parecia guardar mais segredos do que estrelas. Lá embaixo, a Praça São Sebastião repousava
silenciosa, tendo ao centro o Monumento à Abertura
dos Portos às Nações Amigas. Eduardo
levantou a mão. O ar vibrou. O chão respirou. Um círculo de luz abriu-se diante
deles, como se a própria história estivesse sendo reescrita. Um ‘Portal’, vivo, pulsante, chamando.
Riba sentiu o corpo tremer - não de medo, mas de reconhecimento. A fronteira
entre passado e presente estava se desfazendo.
Eduardo sorriu:
- Pronto, Ribamar? Agora começa a
verdadeira história. E juntos, lado a lado, atravessaremos o portal. Estamos
na minha cidade natal, São Luís, capital do Maranhão. Vou resumir sua história,
embora saiba que o ilustre professor conhece muito bem a História do Brasil. A
cidade foi fundada em 1612 pelos franceses, liderados por Daniel de La Touche e
François de Rasilly, em homenagem ao rei Luís XIII da França. Inicialmente
parte da França Equinocial, foi conquistada pelos portugueses em 1615, sob o
comando de Jerônimo de Albuquerque, dando início a um longo período de domínio
colonial. Ao longo do tempo, São Luís passou por três fases principais: o
domínio francês (1612–1615), o domínio português (a partir de 1615) e um breve
período de ocupação holandesa (1641–1644). No século XIX, destacou-se
economicamente com a exportação de algodão, o que impulsionou seu crescimento e
modernização. Seu Centro Histórico é um dos maiores patrimônios culturais do
Brasil, reconhecido pela arquitetura colonial portuguesa e pelo uso
característico de azulejos nas fachadas. A cidade teve grande importância
econômica durante o período colonial e mantém, até hoje, um rico legado
cultural, marcado pela forte presença de tradições populares.
- Eu já conhecia, de fato, um pouco da
história da cidade de São Luís, pois tenho grande interesse pelas tradições
populares. Além disso, por ser manauara, sinto ainda mais gratidão por você -
um maranhense que chegou jovem à minha cidade e ajudou a transformá-la em uma
das mais belas do país, deixando obras suntuosas que continuam a ser admiradas por várias gerações de
amazonenses, brasileiros e até estrangeiros que visitam Manaus - disse Ribamar.
- Obrigado, Ribamar! Sei que não medi esforços para transformar, em poucos anos, a cidade de Manaus, mesmo sendo um homem negro e vindo de outro estado. Isso me trouxe alguns dissabores, pois fui perseguido por parte da elite local, que não aceitava meu trabalho honesto e administrativamente impecável. Alguns chegaram a sentir inveja da minha atuação ao transformar, em apenas quatro anos, Manaus em uma cidade com estilo europeu em plena Amazônia...."
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